segunda-feira, novembro 15

Confissão


A Pó dos livros tem o privilégio de anunciar a nova editora alfabeto, que será apresentada ao público apenas em Janeiro de 2011. No entanto, foi-nos dada a possibilidade de fazer, aqui neste blogue, a pré-publicação do seu primeiro livro que, curiosamente, será lançado no mercado já próximo mês de Dezembro.


LEV TOLSTÓI

CONFISSÃO

(Prefácio para uma obra não publicada)

Tradução, comentário e notas: Nina Guerra e Filipe Guerra

Em russo no original: Íspoved

1

Fui baptizado e educado na crença cristã ortodoxa. Ensinaram-me esta crença tanto na infância, como durante toda a minha adolescência e juventude. Porém, quando aos dezoito anos abandonei o segundo ano do curso universitário[1], já não acreditava em nada do que me tinham ensinado.

A julgar por algumas recordações, nem sequer tive uma fé a sério, nunca, apenas confiança naquilo que me ensinavam e naquilo que os adultos à minha volta professavam; contudo, era uma confiança muito instável.

Lembro-me de que, pelos meus onze anos aproximadamente, um rapaz de nome Volódenka M.[2] — há muito falecido —, aluno do liceu, nos visitou num domingo e nos anunciou como última novidade uma descoberta feita no liceu. A descoberta consistia em que Deus não existia e que todos os ensinamentos que nos davam não passavam de fantasias (foi no ano de 1838). Lembro-me de que os meus irmãos mais velhos ficaram interessados com esta notícia e, reunindo conselho, também me convidaram. Estávamos todos muito entusiasmados e encarámos a notícia como muito curiosa e bastante possível.

Recordo ainda que, quando Dmítri, o meu irmão mais velho, estudante universitário, de repente e com o arrebatamento próprio dele, se entregou à fé, começando a assistir a todos os ofícios, a cumprir as abstinências, a levar uma vida pura e moral, todos nós, inclusive os adultos, não deixávamos de o ridicularizar e alcunhámo-lo, sabia-se lá porquê, de Noé. Lembro-me de que Mússin-Púchkin[3], que naquela altura superintendia a Universidade de Kazan, nos convidou para um baile em sua casa e tentou persuadir o meu irmão, que se recusava a ir, alegando com ironia que o próprio David dançara diante da Arca[4]. Quanto a mim, solidarizava-me com essas brincadeiras dos adultos e tirava delas a conclusão de que era preciso aprender a catequese, era preciso ir à igreja, mas não valia a pena levar tudo isso demasiado a sério. Recordo também que, ainda muito jovem, li Voltaire e que os seus sarcasmos não só não me indignavam, mas divertiam-me muito.

O meu afastamento da fé sucedeu da mesma forma que acontecia e continua a acontecer actualmente entre as pessoas do nosso tipo de educação. Ao que me parece, na maioria dos casos, ocorre da forma seguinte: as pessoas vivem como toda a gente, sendo que toda a gente vive na base de princípios que não só nada têm em comum com a doutrina religiosa, mas são, ainda por cima, contrários a esta; a doutrina religiosa não participa da vida, e nunca nos sucede lidar com ela nas relações com as outras pessoas nem nos serve de aconselhamento na nossa própria vida; digamos que esta doutrina se professa algures longe da vida e independentemente da vida. Entramos em contacto com ela enquanto fenómeno exterior, apenas, de modo algum ligado à vida.

Nunca é nem foi possível, hoje como no passado, perceber-se apenas pela maneira de viver de uma pessoa se ela é crente ou não. Se existe uma diferença entre aqueles que, com toda a evidência, professam a crença cristã ortodoxa e aqueles que a negam, tal diferença não é a favor dos primeiros. Tanto hoje como no passado, o claro reconhecimento e profissão da crença ortodoxa nota-se na maioria das vezes entre as pessoas mais broncas, cruéis e imorais, mas que se consideram muito importantes. Ora, a inteligência, a honestidade, a bondade e a moral encontram-se, na maioria dos casos, entre as pessoas que se reconhecem descrentes.

Nas escolas ensinam a catequese e mandam os alunos à igreja; exigem que os funcionários públicos apresentem provas de terem comungado. Mas o homem do nosso círculo, se já não estuda nem está no serviço público, nos nossos tempos, e ainda mais antigamente, pode muito bem passar décadas sem alguma vez se lembrar de que vive entre cristãos e, ele próprio, ser considerado adepto do cristianismo ortodoxo.

Logo, tanto agora como antigamente, a doutrina religiosa aceite por confiança e seguida sob uma pressão exterior, vai minguando, a pouco e pouco, sob a influência dos conhecimentos e da experiência da vida contrários à doutrina, e o homem, muitas vezes, vive anos e anos imaginando que a doutrina religiosa que lhe foi comunicada na infância está intacta nele, quando já não existe sequer a sombra dela.

O senhor S.[5], homem inteligente e bom, contou-me como deixara de ter fé. Tinha vinte e seis anos. Andava ele de caçada e ao fim do dia, quando se deitava para a pernoita, começou a dizer a oração nocturna que, por velho hábito, rezava desde a infância. O seu irmão mais velho, que o acompanhava na caça, estava deitado no feno a olhar para ele. Quando S. acabou a reza e foi deitar-se, o irmão disse-lhe: «Então, ainda costumas fazê-lo?»

E não disseram mais nada. Desde esse dia, S. deixou de rezar e de ir à igreja. Há trinta anos que não reza, não comunga nem vai à igreja. Não é porque estivesse a par das convicções do irmão e as partilhasse, nem porque, no fundo da alma, decidisse alguma coisa, mas apenas porque a palavra dita pelo irmão foi como que o empurrão com um dedo na parede prestes a cair sob o seu próprio peso; essa palavra foi o sinal de que no lugar onde acreditava haver fé já só estava um vazio e de que, por isso, as palavras que pronunciava, os sinais da cruz e as reverências que fazia durante a oração eram actos completamente privados de sentido. Ao tomar consciência dessa falta de sentido, não podia continuar a executá-los.

Era isto que acontecia e é isto que está a acontecer, acho eu, a um grande número de pessoas. Falo das pessoas com a nossa educação, das pessoas sinceras consigo próprias, e não daquelas que tornam o próprio objecto da fé um meio de conseguirem objectivos pontuais, quaisquer que sejam. (São estas pessoas que constituem os mais rematados descrentes, porque se a fé for para elas um meio de conseguirem quaisquer objectivos práticos, essa fé, pura e simplesmente, não é fé nenhuma.) Voltando às pessoas da nossa educação, direi que se encontram numa situação em que a luz dos conhecimentos e da vida já derreteu nelas a edificação artificial; e então, ou elas já tomaram consciência disso e libertaram o lugar, ou então ainda não se deram conta desse facto.

A doutrina da fé que me foi transmitida desde a infância desapareceu em mim da mesma maneira que nos outros, com a única diferença de que, por ter começado a ler e a pensar muito cedo, a rejeição da doutrina por minha parte se tornou consciente também muito cedo. Desde os meus dezasseis anos que deixei de rezar e, por minha própria vontade, de ir à igreja e de comungar. Deixei de acreditar no que me foi transmitido na infância, mas tinha fé em qualquer coisa. Não poderia dizer de maneira alguma em que, precisamente, tinha eu fé. Tinha fé também em Deus, ou antes, não negava Deus, mas que Deus? — não o saberia dizer; também não negava Cristo e o seu ensinamento, mas também não saberia dizer em que consistia o seu ensinamento.

Agora, recordando aqueles tempos, vejo claramente que a minha fé — aquilo que, além dos instintos animalescos, movia a minha vida —, a minha única fé daqueles tempos era a do aperfeiçoamento. Contudo, não saberia dizer em que consistia o aperfeiçoamento e qual era o objectivo dele. Tentava aperfeiçoar-me intelectualmente — aprendia tudo o que me era possível e o que me sugeria a vida; tentava aperfeiçoar a minha vontade — elaborava regras para mim próprio, procurando segui-las; aperfeiçoava-me fisicamente, apurando a força, a destreza e, por meio de todo o género de provações, criando hábitos de resistência e de paciência. E considerava tudo isso um aperfeiçoamento. O princípio de tudo era, obviamente, o aperfeiçoamento moral, mas não tardava a substituí-lo pelo aperfeiçoamento em geral, ou seja, pelo desejo de ser melhor, não perante mim ou perante Deus, mas de ser melhor perante os outros homens. Então, esta aspiração de ser melhor perante os outros foi rapidamente suplantada pelo desejo de ser mais forte do que eles, quero dizer: mais famoso, mais importante, mais rico.

COMENTÁRIO

O ensaio autobiográfico Confissão foi escrito por Lev Tolstói, essencialmente, em finais de 1879, foi refeito pelo autor no início de Julho de 1881 e concluído em 1882. Foi publicado pela primeira vez em Genebra, em 1884. Na verdade, este ensaio é um fragmento de uma obra que Tolstói começou a escrever em Outubro de 1879 e na qual expõe os seus conceitos filosóficos e religiosos; tinha de preceder a apresentação ao leitor das obras O Estudo da Teologia Dogmática (1879-1880, 1884) e A Junção e a Tradução dos Quatro Evangelhos (1880-1881).

O problema do sentido da vida, um sentido que a morte inevitável não elimina, foi importante para Tolstói muito antes da redacção deste ensaio. A procura da solução deste problema era naturalmente condicionada pela ideia da união das pessoas, na base dos princípios eternos da moral: ao primeiro plano sai a questão da discrepância entre o ideal da moral e a ética prática das pessoas.

A noção de virtude humana ia mudando historicamente. Às quatro virtudes da Grécia Antiga — a sabedoria, a coragem, a justiça e a moderação — a ética cristã opôs a fé, a esperança e o amor, condicionando todas as outras aspirações ao bem. Contudo, tanto no mundo antigo como no moderno, estavam ligadas ao conceito de virtude as qualidades morais do indivíduo. Também continuava imutável o problema das noções deturpadas da virtude, aparentemente opostas ao vício, mas iguais a este na sua essência.

Tolstói relacionava a deturpação das noções da virtude com a comunidade social das pessoas que denominava como «a classe culta», ligando a verdadeira virtude com o mundo dos camponeses, com o povo trabalhador russo, com o qual «se fundiu», de acordo com as suas palavras.

Esta antítese ético-social, formada no início do caminho artístico de Tolstói, predeterminou o futuro esclarecimento por parte do escritor das fontes da auto-educação espiritual e a interpretação do «verdadeiro» cristianismo como uma doutrina humanista, comum a toda a humanidade pelo seu fundamento ético inicial.

A eliminação das discrepâncias entre o existente e o devido foi colocada por Tolstói na dependência directa do esforço interior do indivíduo, apresentando, deste modo, o aperfeiçoamento moral como o princípio essencial no caminho de superar o mal e chegar ao bem. O processo desta superação era entendido por ele como a mudança da compreensão do mundo, como a atitude do homem para com o mundo.

O caminho para a nova compreensão do mundo é apresentado em Confissão como uma série de estados de espírito sucessivos, que culmina na obtenção da fé. A fé é definida por Tolstói como a força da vida, como o conhecimento do seu sentido. O ponto de partida neste caminho baseia-se no reconhecimento de que tudo o que existe é racional, dirigido pelas tentações, motivado pelo desejo do bem comum, mas compreendido de modo deturpado, e justificado pela opinião geral. No texto de Confissão, estão ligadas com este período inicial as «saídas» do epicurismo e da ignorância.

O estado de espírito, para cuja descrição Tolstói passa a seguir, não começa com a revolta da razão, mas sim com a do coração, com a sensação de uma doença espiritual e o surgimento das contradições interiores. Daqui provém um brusco enfraquecimento das tentações. O movimento nesta parte do caminho é acompanhado pelas «paragens» da vida, pela alternância de «ressurreições» e «agonias», pela bipartição. A crise de «paragem» ligada com a negação da vida é explicada como o reconhecimento da irracionalidade de tudo o que existe, com a afirmação da vaidade das tentações e com a consciencialização da vida como mentira, o mal e o absurdo. Precisamente nesta fase acontece a consciencialização da visão da vida já rejeitada, igualando-a simbolicamente à tentação da «doçura».

A consciência da dificuldade não apenas da passagem de uma compreensão da vida para outra, mas também do movimento progressivo dentro de cada uma destas atitudes condicionou a concentração de Tolstói, escritor e publicista, nos anos entre 1860 e 1870, na investigação da fase da evolução espiritual do homem, precedente à obtenção da fé.

O género confissão, na obra de Tolstói, não foi algo de inesperado. Durante toda a vida sentiu necessidade de auto-análise e de confissão. Existem no seu diário, escrito durante sessenta anos, nas suas cartas, em esboços filosóficos não acabados dos anos de 1860-1870 e, finalmente, em toda a sua obra literária.


[1] Em 1844, Tolstói entrou na faculdade de Estudos Orientais da Universidade de Kazan; passado um ano passou a estudar na faculdade de Direito. Abandonou a universidade em 1847.

[2] Vladímir Miliútin (1826-1855), mais tarde professor de Direito na Universidade de São Petersburgo. Literato e cientista talentoso. Suicidou-se aos vinte e nove anos, por causa dos problemas pessoais.

[3] Mikhail Mússin-Púchkin (1795-1862).

[4] A Arca da Aliança, do Senhor ou de Deus, como é denominada na Bíblia. A referência à dança consta do II livro de Samuel, 6, 14: «E David saltava com todas as suas forças diante do Senhor: e estava David cingido de um éfod de linho.» Sobre a dança de David junto à Arca de Aliança, durante a transferência desta para Jerusalém, ver também: Segundo Livro dos Reis, 6: 16, 21.

[5] Serguei Tolstói, irmão de Lev Tolstói. Na verdade, as palavras do irmão mais velho foram: «Ainda continuas a fazer esse namázi?» (Obras Completas, Moscovo, 1928-1958, t. 23, p. 489)

2 comentários:

sonia disse...

Belo texto. Gostei de lê-lo e saber um pouco mais sobre Tolstoi.

Esparsa disse...

Absolutamente fascinante esta introdução ao livro de Tolstoi! Vou sem dúvida passar pela Pó para comprá-lo quando sair!