segunda-feira, dezembro 13

O menino traquina


No conto que ides ler encontrareis todos os elementos com que é norma compor o tradicional conto da Natividade, cheio de sentimentalismo: haverá nele um pequenito e a mãe desse pequenito e uma árvore do natal, mas o certo é que o conto termina de modo muito diferente do costumado…
A sua sentimentalidade nem sequer irrompe à flor da pele. Como é sina da Natividade no Norte e como, em sua essência, é a própria vida.

A primeira conversa acerca da árvore do Natal surgiu entre volodka e a mãe três dias antes da data da festividade cristã, e não surgiu como estareis talvez a supor, intencionalmente, mas sim devido, a bem dizer, a uma coincidência quase estúpida.
Ao untar de manteiga umas fatias de pão, quando ambos tomavam o chá da tarde, provou a mãe uma delas e disse, franzindo as sobrancelhas:
- Esta manteiga tem um tal sabor que parece mesmo extraída do tronco de uma árvore.
- A propósito, mãezinha, comprar-me-ás este ano uma árvore de Natal? – Perguntou o Volodka, entre dois ruidosos sorvos de chá.
- Que mais te apetece, meu filho? Não, não terás árvore do Natal. Não temos dinheiro para brinquedos; já é para dar graças que possamos viver. Queira Deus que nunca nos falte o pão. Pois tu não vês que ando sem luvas.
- Bonita coisa! – Exclamou o Volodka. – De modo que todos os miúdos terão a sua árvore, e só eu… Como se não fosse gente!
- Trata de provar que és capaz de vir a sê-lo, um dia!
- Vais já ver como sou capaz. Olha a dificuldade! Hei-de arranjar um Natal muito melhor que o teu! Onde está a minha boina?
- Outra vez para rua? Mas que criatura esta! Vai sair-me um garoto vadio!... Ah, se teu pai fosse vivo, tu verias!...
O Volodka não fica, porém, sabendo o que é que o pai lhe faria: ainda a sua mamã não chegara a metade da frase e já ele descia lestamente, escarranchado no corrimão da escada. Apenas chegado à rua, o Volodka assumiu uma atitude extremamente séria, que quadraria muito bem ao possuidor de um grande tesouro, isto em virtude de levar na algibeirinha um enorme brilhante que, na véspera, havia encontrado no meio da rua – uma pedra refulgente, assim do tamanho de uma noz.
Naquilo havia posto todas as suas esperanças: talvez pudesse não só comprar uma árvore do Natal como assegurar no futuro os meios de vida de sua mãe.
- Seria interessante saber quantos quilates pesa – pensava o Volodka, enterrando a boina até às orelhas, enquanto ziguezagueava entre a multidão azafamada.
Torna-se oportuno notar que o Volodka tinha na cabeça um armazém de fragmentos de noções, retalhos de conhecimentos, observações, frases e ditos sentenciosos…
Em certos aspectos da sua vida revelava-se de uma grande ignorância; não se percebe, pois, como se inteirou de que os bilhetes se pesam aos quilates, e ao mesmo tempo desconhecia inteiramente o nome da província em que se situava a cidade onde vivia, qual o número obtido da multiplicação de 32 por 18, e por que razão não se pode acender um cigarro numa lâmpada eléctrica.
Toda a sua filosofia prática achava-se reduzida a estes três estribilhos, que intercalava onde podia, segundo as circunstâncias:
«Quando o pobre se casa a noite faz-se-lhe mais curta».
«Seja como for, o que falta é vê-lo».
«Diversões não são para nós; já é dar graças que possamos viver».
Este último conceito adquiriu-o ele por contágio materno, e os outros dois… só o Diabo o sabe!

Ao entrar numa joalharia meteu o volodka a mão no bolso e perguntou:
- Os senhores compram brilhantes?
- Sim, compramos. O meu caro homenzinho pretende oferecermo-los?
- Faça-me o favor de pesar esta coisita, para ver quantos quilates tem.
- Isto, meu amigo, é um pedaço de vidro – disse, sorrindo, o joalheiro.
- Vocês todos falam da mesma maneira – replicou o Volodka.
- Bem, basta de conversa; larga daqui!
Aquele brilhante de tantos quilates foi arremessado ao chão sem o menor exame sequer.
- Ai!
E o Volodka curvou-se para recolher a sua preciosa pedra. - «Quando o pobre se casa a noite faz-se-lhe mais curta».
Canalhas! Como se nunca ninguém tivesse perdido na rua um brilhante verdadeiro! Ora, que hei-de eu fazer?! «Diversões não são para nós; já é para dar graças que vivamos». Vou ver se me admitem nalgum teatro…
Deve ser confessado que havia muito tempo que tal ideia lhe verrumava o pensamento. Tinha ouvido dizer a alguém que, em determinadas ocasiões, eram pedidos miúdos para figurarem em certas cenas dalgumas peças; mas como apresentar-se e como oferecer os seus serviços, isso é que eu não sabia.
Mas o Volodka não se demorava muito a pensar nas coisas; ao chegar ao teatro introduziu-se lá como uma seta, atrevidamente, e no propósito de incutir ânimo em si próprio proferiu em voz baixa: «seja como for, o que falta é vê-lo».
Acercou-se de um porteiro e erguendo majestosamente a cabeça, dando-se ares muito importantes, perguntou:
- Vocês necessitam cá de rapazes para representar?
- Vá, vá daí para fora; não atravanques a passagem!
Depois de haver aguardado que o porteiro se distraísse, o Volodka esgueirou-se por entre os espectadores que entravam e enfiou por uma porta por detrás da qual se ouviam acordes de música.
- Faça-me o favor do seu bilhete, menino – pediu-lhe uma arrumadora.
- Ouça cá – disse-lhe o Volodka –; deve encontrar-se aqui dentro um cavalheiro de barba negra: vá dizer-lhe que acaba de dar-se na casa dele um terrível acidente, uma verdadeira desgraça: a mulher do cavalheiro matou-se. Mandaram-me à procura dele. Chame-o a senhora!
- Não tenho vagar para procurar barbas negras; Chama-o tu, se quiseres.
Metendo as mãos nas algibeiras, deu uma volta pela sala, descobriu num relance de olhos um camarote vazio e, introduzindo-se nele, tratou de se instalar e de fixar no palco a sua vista perscrutadora.
Instantes passados, sentiu uma palmadinha num ombro. O Volodka voltou a cabeça: era um oficial acompanhado de uma dama.
- Este camarote está ocupado – observou-lhes com convicção.
- Por quem?
- Por mim, ora essa! Não o vêem, por acaso?
A dama desatou a rir. O oficial, enfadado, fez menção de chamar um arrumador, mas a dama suspendeu-lhe o gesto.
- Poderá ficar aqui connosco, não é verdade? É tão pequenito e tão sério… queres ficar na nossa companhia?
- Bem, acomodem-se já os senhores… – respondeu o Volodka, como que autorizando-os a permanecerem ali.
- Que é isso, um programa? Vá, deixe-mo ver…
Assim se conservaram juntos, os três, até ao final da representação.
- É já o fim? – Interrogou o Volodka tristemente, consternado, quando viu descer o pano de boca. – «Quando o pobre se casa a noite faz-se-lhe mais curta». Já lhes não faz falta este programa?
- Não, podes levá-lo como recordação de tão agradável encontro.
O Volodka informou-se, prudentemente:
- Quanto deram por ele?
- Cinco rublos.
- Vendê-lo-ei para a segunda sessão – reflectiu o Volodka. E depois de se apoderar de outro programa abandonado no camarote vizinho, dirigiu-se resolutamente para a porta principal, a fim de oferecer a sua mercadoria.
Quando regressou a casa, cheio de fome mas satisfeito, no seu bolsinho havia, em vez de um brilhante falso, duas notas autênticas de cinco rublos cada uma.
No dia seguinte o volodka, levando apertado na mão o seu capital, vagueou largo tempo pelas ruas, aplicando a sua atenção na faina de negócios da cidade e resolvendo sem precipitações o problema do emprego do seu dinheiro.
Tendo ido parar à esplanada de um «café», ocorreu-lhe uma ideia: «Seja como for, o que falta é vê-lo». – Exclamou, ao mesmo tempo que entrava com arrojo por ali dentro.
- Que desejas, menino? – Perguntou-lhe uma criada.
- Tenha a bondade de dizer-me; não costuma vir por aqui uma senhora que usa uma pele cinzenta e uma bolsinha de ouro?
- Não…
- Então ainda deve vir… Esperarei por ela.
- O principal – pensava – é uma pessoa meter o pé; não bulam comigo e verão como eu as armo!
Amesendou-se e pôs-se de vigia, lançando olhares em todas as direcções. Duas mesas adiante da sua, um ancião dobrou vagarosamente o jornal que tinha estado a ler e preparou-se para tomar o seu café.
- Senhor – disse-lhe o Volodka quase num murmúrio, logo que se aproximou dele –, quando pagou pelo jornal?
- Cinco rublos.
- Venda-mo por dois; como já o leu… não lhe fará falta.
- Para que o queres?
- Para o vender, a ver se ganho alguma coisinha.
- Oh! amiguinho, és muito expedito! Está bem, homem… pega lá, e aqui tens três rublos de troco… queres um bocado de bolo?
- Eu não sou mendigo – replicou Volodka com dignidade –; trata-se apenas de ganhar para a árvore do Natal, só isto e nada mais…
Ao termo de meia hora havia já conseguido periódicos, um poucochinho amarrotados, é certo, mas que ainda podiam marchar muito bem.
A dama da peliça cinzenta e bolsinha de ouro continuava sem aparecer – Há certas razões para supor que só existia na buliçosa imaginação do Volodka…
Depois de ter conseguido ler a muito custo as parangonas da primeira página, completamente indecifráveis pelo seu entendimento: «A nova posição política de Lloyd George», o Volodka correu como um louco pelas ruas, apregoando com todas as suas ganas:
- Notícias sensacionais! «A nova posição de Lloyd George!» Preço cinco rublos! «A nova posição», por cinco rublos!
Antes do jantar, e no termo de uma série de operações com base nos jornais, já podia ver sobranceando uma caixinha de bombons; a expressão esculpida no seu rosto era quase impossível de distinguir debaixo daquela boina enterrada até abaixo das orelhas.
Ao sol, sentado num banco, estava um cavalheiro ocioso, a fumar com indolência.
- Meu senhor – interpelou-o o Voldka –, poderia dizer-me uma coisa?
- Venha de lá a pergunta, meu rapaz!
- Se meia libra de caramelos, que são uns vinte e sete, vale cinquenta e cinco rublos, quanto vale um só?
- É um pouco difícil dizer-to com exactidão, mas vem a sair à roda de dois rublos cada caramelo. Por que queres sabê-lo?
- De modo que já dá vantagem vendê-los a cinco rublos? Já não é mau negócio, não? Quer o senhor comprar-mos?
- Comprar-te-ei dois, com a condição de seres tu mesmo a comê-los.
- Não, não preciso; eu não sou mendigo, sou negociante… Compre-mos e ofereça-os logo a um menino seu conhecido!
- Bem, se assim queres! Tanto faz; venham de lá os caramelos!...

A mãe do Volodka regressou muito tarde da fábrica. Em cima da mesa, sobre cujo tampo também o pequeno, com a cabeça apoiada nos braços cruzados, dormia profundamente, erguia-se uma minúscula árvore de Natal ornamentada com duas maçãs, um coto de vela e três ou quatro cartõezinhos.
E tudo aquilo apresentava um aspecto digno de lástima.
Em volta da árvore estavam expostas umas tantas prendas: a fim de que não surgissem dúvidas a respeito das pessoas a quem se destinavam, junto da caixinha dos lápis de cor havia um papelito com uma inscrição muito mal escrita: «Para o Volodka». E ao pé de um par de luvas via-se outro, tão mal escrito como o primeiro dizendo: «Para a mamã».
Dormia, dormia profundamente, o menino traquina, e difícil seria saber por onde e em que esferas adejava então a sua perspicaz alminha de comerciante…

Arkady Averchenko

Um comentário:

Alice disse...

Gostei muito :)