terça-feira, dezembro 7

Pesadelo de criança


Na minha infância acontecia-me não pregar olho durante várias noites, tinha a sensação de que o tempo se concentrava todo em mim, como se o presente se perpetuasse e permanecesse eterno. Ficava ali, deitado, pressagiando a desgraça que me esperava. Agora adulto, continuo a não pregar olho e durante várias noites repito as sensações da minha infância, apesar de saber que: «uma infelicidade pressagiada é dez, cem vezes mais dura de suportar do que uma infelicidade que não esperávamos». *

Jaime Bulhosa

* E. M. Cioran

2 comentários:

Kássia Kiss disse...

Essa frase é muito interessante. Porque, na verdade, pomo-nos a inventar desgraças, com o pretexto (dado a nós próprios) de nos sentirmos preparados quando elas acontecerem.

Joaninha disse...

... na realidade, quando achava que estas garras iam sair debaixo da minha cama em miúda, não tinha sequer coragem de me sentar na cama, ainda por cima fora dos lençóis. E para adormecer, em dias em que havia medo das ditas garras, imaginá-las era, sem dúvida, pior do que vê-las de facto. O que nunca aconteceu. Mas a imaginação, que é o que permite a existência das garras, é genial porque serve também para coisas positivas.