quarta-feira, março 31

Taras, manias e outras coisas

Livreiro é uma profissão que, como todas as outras profissões, tem lugar para um Inferno e um Céu inteiro de gente. Gente diferente, com taras, manias e gostos completamente distintos, e que às vezes tem em comum a profissão. Há livreiros que sempre que podem estão à caixa, assobiando para o lado, contando: «três para o patrão e uma para mim». Há livreiros que não gostam de livros e outros que, por mais inacreditável que pareça, até gostam de ler. Há livreiros que são camilianos, aceitando no entanto que existem outros bons escritores, como o Eça de Queirós, mas Camilo é que é… Há livreiros que são queirosianos, porém, aceitam que existem outros bons escritores, como Camilo, mas Eça é que é… Há os livreiros que são francófonos e os que são anglófonos. Há livreiros trombudos e calados, sorridentes e faladores, competentes e incompetentes. Há os livreiros estúpidos, os inteligentes e os irritantes, que fingem que não nos vêem e levam uma eternidade para atender. Há os comichosos, como aqueles que detestam que os clientes lhes mexam nos livros. Há livreiras pequeninas que gostam do silêncio, têm muita cultura e são hiperletradas. Sempre que as queremos impressionar, dizendo: «Eh pá, li uns contos de Tchékhov muito bons!», elas imediatamente respondem: «Gostei imenso dos três primeiros volumes dos contos de Tchékhov, mas ao quarto comecei a cansar-me. Mas já que falas nos autores russos, devias ler Tolstói ou Gógol. O Máximo Gorki não! Esse era um estalinista naturalista, não, não… Começa antes com Dostoiévski. Mas não comeces por onde toda a gente começa, como por exemplo o Crime e Castigo. Não é que não seja bom, mas lê antes Os Irmãos Karámazov, são dois volumes, bem sei… contudo, vais ver que vai valer a pena e blá, blá, blá, blá…» A humilhação é total.
Enfim… Há livreiros para todos os gostos e feitios. Infelizmente, ultimamente, tem surgido com mais frequência um outro tipo de livreiro: o pára-quedista. É aquele que, como o próprio nome indica, caiu aqui de pára-quedas e julga, ingenuamente, como eu ouvi no outro dia numa livraria cujo nome não vou dizer, que Philip Roth é um pseudónimo homofóbico e Sebald é uma alcunha dos tempos de escola: «Meu caro senhor, do Zé Baldas e do Filipe Roto, não temos nada, não senhor!»

Nota: Este post é dedicado à… não posso dizer, que ela não deixa.

Jaime Bulhosa

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde


Um advogado londrino investiga a estranha ligação entre o seu velho amigo, o conceituado Dr. Jekyll, e o perturbante e duvidoso Mr. Hyde. O comportamento do Dr. Jekyll começa a preocupar os seus empregados e amigos, tanto mais que este, cada vez mais isolado no seu laboratório, recebe frequentemente o intrigante e violento Mr. Hyde. Temendo pela vida do amigo, o advogado resolve tirar a limpo a história e vai à residência do médico para procurar a explicação para tão bizarro comportamento.No surpreendente final, o Dr. Jekyll revela que ele e Mr. Hyde são um só, em resultado de uma experiência realizada no seu laboratório. Ao tomar a fórmula, a sua personalidade dividiu-se, ora tomando a forma do amável médico ora a do temível Mr. Hyde.


edição: Dom Quixote
título: O estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde
autor: Robert Louis Stevenson
tradução: Cabral do Nascimento
formato: 15.5x23.5cm
n.º pág.: 118
isbn: 9789722039727
pvp: 12.00€

terça-feira, março 30

Só por saber


Trabalhar numa livraria, ou numa biblioteca, é estar num dos poucos lugares do mundo onde uma pessoa, só por saber que Petrarca foi um poeta italiano do séc. XIV, não se pode considerar culta.

Entra uma cliente e com o ar de quem faz a pergunta mais banal deste mundo:

- Por favor, é capaz de me fazer um resumo do Cancioneiro de Petrarca?

Arbor Litterae

Para quem gosta de contos, daqueles que uma só página vale mais do que muitos livros inteiros, chega brevemente às livrarias uma nova colecção de contos (de aspecto gráfico muito bonito), com a chancela Arbor Litterae (Estrofes & Versos), que vai contar com nomes como: Denis Diderot, Voltaire, Jack London, Vladémir Korolenko, Armando Palácios Valdé, Fiódor Dostoievski e Máximo Gorki. Ficam aqui os dois primeiros:


Seres Que Outrora Foram Humanos
A rua principal dos arredores da cidade é constituída por duas filas de casebres de um só piso, colados uns aos outros, derruídos, com paredes tortas e janelas deformadas; mutilados pelo tempo, os telhados esburacados das habitações foram remendados com ripas aqui e ali; por baixo deles projectam-se vigas bafientas, sombreadas por sabugueiros com as suas folhas empoeiradas e por salgueiros retorcidos – a flora miserável dos subúrbios habitados pela pobreza. Os vidros das janelas, baços e esverdeados pelo tempo, fitam-se com olhares cobardes de vigaristas. Cortando a rua e arrastando-se até à montanha adjacente, estende-se o caminho sinuoso, esgueirando-se por entre os sulcos profundos, lavados pelas chuvas.

edição: Arbor Litterae
título: Seres que Outrora Foram Humanos
Autor: Máximo Gorki
Tradução do russo: Monica Cozacenco
isbn: 9789898292223
formato: 13x20cm
pvp: 12.00€


O Filho de Lobo e Outros Contos
O homem raramente dá o devido valor às mulheres, pelo menos até delas se ver privado. Não se apercebe da disposição subtil exalada pelo género feminino desde que se encontre imerso nela; mas retirem-na e um vazio crescente começa a manifestar-se na sua vida, fazendo-o sentir-se vagamente faminto de qualquer coisa tão indefinida que nem ele próprio consegue descrevê-la.

edição: Arbor Litterae
título: O Filho do Lobo e Outros contos
Autor: Jack London
tradução: Sofia Gomes
formato: 13x20cm
isbn:9789898292278
pvp: 10.00€

segunda-feira, março 29

Solar


O novo romance de um dos autores maiores da literatura contemporânea. Mais uma vez, a capacidade de Ian McEwan para surpreender o leitor. A mesma liberdade e originalidade no que se refere ao estilo, às soluções narrativas e ao enredo. O tema das alterações climáticas - também ele inesperado numa obra de ficção de grande qualidade literária - serve de pretexto para a exposição das fragilidades humanas, individuais e colectivas. Permeada de humor e diálogos magistrais, a narrativa prende de imediato o leitor, permitindo-lhe uma auto-aprendizagem da qual retirará grande prazer.


edição: Gradiva
título: Solar
Autor: Ian McEwan
tradução: Ana Falcão Bastos
formato: 14.5x22cm
n.ºpág.: 340
isbn: 9789896163594
pvp: 16.00€

sexta-feira, março 26

Anedota de livreiro II


- Queria trocar este livro.
- Com certeza! Naturalmente, a pessoa a quem o ofereceu já o tinha?
- Não, nada disso...
- Ofereceram-lhe e o senhor já tinha?
- Não!
- Então, falta-lhe um caderno, está mal impresso?
- Não, também não é nada disso... Faça o favor de o abrir.
O livreiro abre o livro.
- Não vejo qualquer problema no livro...
Muito exaltado, o cliente protesta:
- Por amor de Deus! Você não vê que o interior do livro está completamente em branco?
- Mas o que esperava de um livro cujo título é Memórias de um Amnésico?

Livros & cigarros


Qual a relação entre livros e cigarros? Como trabalham os críticos literários? Nestes textos, ora curiosos ora graves, mas sempre cativantes, são-nos narradas, por exemplo, as experiências de Orwell como Livreiro/alfarrabista (Memórias de um Livreiro, aqui traduzido e adaptado por Madalena Alfaia, gentilmente, para o blogue da Pó dos Livros em 2009), vemos explicadas algumas das suas posições políticas (Um, Dois, Esquerda ou Direita - O Meu País) e testemunhamos episódios marcantes da infância do autor no colégio St. Cyprian’s (Ah, Ledos, Ledos Dias). Neste último texto, percebemos, enfim, a génese do seu espírito indómito, a sua determinação em resistir à tirania e em manter a dignidade, numa palavra, a certeza de que os fracos têm direito a rebelar-se contra a ordem estabelecida.

edição: Antigona
título: Livros & Cigarros
autor: George Orwell
n.ºpág.: 184
isbn: 9789726082125
pvp: 15.00€

quinta-feira, março 25

O Cyrano de Bergerac dos tempos modernos

É um tipo que anda a correr atrás da amada, pela casa toda, de nariz em riste, enquanto lhe lê em voz alta O Meu Pipi.

(Faça clic sobre a imagem)
O Meu Pipi, Anónimo, Oficina do Livro, 2003


Jaime Bulhosa

11 títulos originais de livros famosos


Título original: First Impressions
Título final: Pride and Prejudice (1813)
Título em português: Orgulho e Preconceito
Autor: Jane Austen

Título original: Alice’s Adventures Underground
Título final: Alice’s Adventures In Wonderland (1865)
Título em português: Alice no País das Maravilhas
Autor: Lewis Carroll

Título original: All’s Well That Ends Well (tradução do russo)
Título final: War and Peace (1866)
Título em português: Guerra e Paz
Autor: Leo Tolstoy

Título original: The Sea-Cook
Título final: Treasure Island (1883)
Título em português: A Ilha do Tesouro
Autor: Robert Louis Stevenson

Título original: The Chronic Argonauts
Título final: The Time Machine (1895)
Título em português: A Máquina do tempo
Autor: H. G. Wells

Título original: Stephen Hero
Título final: A Portrait of The Artist as a Young Man (1916)
Título em português: Retrato de o Artista Quanto Jovem
Autor: James Joyce

Título original: Tenderness
Título final: Lady Chatterley’s Lover (1928)
Título em português: O Amante de Lady Chatterley
Autor: D. H. Lawrence

Título original: Catch-18
Título final: Catch-22 (1961)
Autor: Joseph Heller

Título original: The Summer of The Shark; Also The Terror of The Monster and The Jaws of The Leviathan
Título final: Jaws (1974)
Título em português: Tubarão
Autor: Peter Benchley

Título original: Before This Anger
Título final: Roots: The Saga of an American Family (1976)
Título em português: Raízes
Autor: Alex Haley

Título original: Harry Potter and The Doomspell Tournament
Título final: Harry Potter and The Goble of Fire (2000)
Título em português: Harry Potter e o Cálice de Fogo
Autor: J. K. Rowling

Crónicas: Imagens Proféticas e Outras 1.º Vol.


«Divino no sentido de divo, que ele sem o ser plenamente foi, como seu porte de velho senhor, o mesmo riso de demiurgo que quase juramos haver já visto fixado pelos romanos em alguma estatuária, o brilho hiperbólico, a inteligência analogamente intensa, o timbre cavo, a curiosidade, a coquetterie, o enigma e, por fim, surpreendentemente ou não, a inocência. E divino também no sentido literal, na medida em que essa era a natureza do seu olhar. Quando João Bénard explicava aos incautos (os mesmos que, semo saber ou dizer, chegamtão cautos) que o seu tempo não era este, não era o deles, era o da maria cachucha, que reivindicava ele? Uma imperdoável apostasia: a de um contemporâneo que se coloca na pré-história.[…] A escrita de Bénard, costurada em digressões permanentes, parêntesis e alvéolos, mostra, além disso, como a palavra é inseparável da memória. Nos ambientes gregos inspirados, ela era tida por omnisciência de carácter divinatório, expressa nomantra: «o que é, o que será, o que foi». Nos meios judaicos e cristãos, era interpretada pelo binómio profecia e cumprimento. A memória não é apenas o suporte da palavra: é, sobretudo, a potência (poética, maiêutica…) que confere ao verbo o seu estatuto de significação máxima.»

José Tolentino Mendonça

edição: Assírio & Alvim
título: Crónicas: Imagens Proféticas e Outras 1.º Vol.
autor: João Bénard da Costa
formato:14,5x21cm
n.º pág.: 413
isbn: 9789723714722
pvp: 26.00 €

quarta-feira, março 24

sem título


Não considero que seja necessário um grande espírito para ensinar aquilo que se sabe. Pelo contrário, é necessário um enorme espírito para se pretender ensinar, por vezes em centenas de páginas de livros, aquilo que não se sabe.

Livreiro anónimo dando um jeito à secção de teologia e religião.

Entre a ficção e a realidade


Entra na livraria, decidido, com cara de poucos amigos. Vai direito à mesa das novidades e retira um livro. Dirige-se ao balcão e interpela o livreiro, com um tom de voz arrebatado:
- O que me diz deste livro que saiu agora? Foi escrito de certeza absoluta e cobardemente sob pseudónimo. Li um resumo no jornal, parece que a história é autobiográfica. Não gostei nada!
Meio atarantado pela forma como foi interpelado, o livreiro responde de forma sincera:
- Para lhe dizer a verdade ainda não o li, mas…
O cliente interrompe com aquilo que pareceu ser um suspiro de alívio pelo facto de o livreiro ainda não o ter lido.
- Como estava a dizer, ainda não o li, mas as críticas a esta reedição têm sido óptimas.
- As críticas!... Tenho muitas dúvidas sobre as críticas... São sempre a mesma coisa. Uns dão uma estrela e os da concorrência dão cinco. Vá-se lá entender os críticos!
- Bem… o autor do livro é altamente referenciado e premiado.
- Prémios! Tenho muitas dúvidas sobre quem atribui os prémios... É sempre a mesma corja de amigos!
O livreiro, apercebendo-se de que pelos elogios não ia lá, tenta contar um pouco do que sabia do enredo.
- A história deste livro é uma história de sempre: trata-se de um romance sobre uma lindíssima mulher, casada com um homem mais velho que desconfia constantemente da sua lealdade. Muito religioso, machista e déspota, trata-a como se fosse um objecto. Naturalmente carente, a mulher apaixona-se pelo melhor amigo do marido.
- Aí é que está o problema… Digo-lhe mais: isto não passa de um monte de mentiras e tenho muitas dúvidas sobre a integridade desta mulher e a sinceridade desse homem. Garanto-lhe! Nesta história não vou ser o último a saber!
O livreiro, muito aflito:
- Mas… Meu caro senhor! Este romance trata-se apenas, afinal, de um clássico do século XIX!...
- Ah!...

Bute daí, Zé


Lisboa, nas últimas décadas do século. Clama-se pelo direito à opinião. À Liberdade. 25 de Abril: solta-se a Utopia. Todos na rua, a cantar. Fim de Festa. Sobe a violência social. Cruza-se com racismo. Com agressão política. «Vais ficar assim, caído ao fundo de um beco?» «Bute daí, Zé!»

Da autora de A Cova do Lagarto, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 2007


edição: Sextante
título: Bute daí, Zé
autor: Filomena Marona Beja
formato: 14x20 cm
n.º pág.: 248
isbn: 9789896760120
Pvp: 16.50 €

terça-feira, março 23

Bestsellers inesperados

Quase todos os editores, embora alguns não admitam, gostariam de editar, nem que fosse uma vez na vida, um bestseller. Os bestsellers são normalmente considerados pela crítica como livros de pouca qualidade literária, e, na minha opinião, geralmente são-no. Porém, são eles que conferem às editoras poder financeiro para colocar no mercado muitos outros livros que de outra maneira nunca seriam editados. Mas conseguir editar um livro que se torne num bestseller não é fácil. Pode-se recorrer às mais variadas técnicas de marketing para fabricar um, mas habitualmente o resultado é um redondo falhanço comercial. O verdadeiro bestseller, aquele que um dia se transformará num verdadeiro fenómeno de vendas a nível mundial, é muito mais do que marketing. É necessário que o editor tenha um feelling, uma visão, a capacidade de perceber, ao contrário de outros, que naquele manuscrito original estão alguns ingredientes, qualquer coisa diferente, talvez uma necessidade que paira no ar e que ainda não foi satisfeita.

Cinco exemplos de bestsellers inesperados:

Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach (1970)
Uma fábula sobre a demanda de uma gaivota. Ninguém foi nessa, avisaram várias pessoas, incluindo o agente do autor: «eles não estão interessados numa gaivota que fala». A primeira edição americana foi de 7500 exemplares; o livro vendeu até hoje milhões de exemplares em diversas línguas.

O Dia do Chacal, de F. Forsyth (1971)
Um correspondente estrangeiro, cujo livro anterior tinha sido um relato da guerra no Biafra, recebeu várias rejeições do seu primeiro thriller, talvez porque os editores não esperavam que os leitores se entusiasmassem com uma história da qual sabiam o resultado final (o assassino não consegue matar De Gaulle). Vendeu milhões, foi feito um filme e estabeleceu a carreira de um dos mais bem-sucedidos romancistas do nosso tempo.

Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking (1988)
É um livro que poucas pessoas compreenderão. No entanto, muitos compraram-no e foi traduzido para mais de 30 línguas. O génio da mente de Hawking, preso num corpo incapacitado por uma doença neurológica, revelou-se irresistível; e o título, prometendo iluminar “o interior de uma casca de noz”, foi outro interessante incentivo às vendas.

Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling (1997)
Numerosos editores rejeitaram a primeria história de Harry Potter, da autoria de Rowling, porque um romance de 250 páginas para crianças estava profundamente fora de moda. Nem sequer os elementos de magia e o colégio interno os convenceram.

O Código Da Vinci, de Dan Brown, (2003)
Depois de ter editado outros romances do mesmo género, mas sem grande sucesso comercial, Dan Brown lançou O Código Da Vinci, que causou polémica ao questionar a divindade de Jesus Cristo. A trama do livro envolve desde grandes organizações católicas conservadoras, como a Opus Dei, até à sociedade secreta conhecida como Priorado de Sião, que de acordo com documentos encontrados na biblioteca nacional de Paris possuía inúmeros membros famosos, como Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci. O resto foi o que toda a gente sabe.

Jaime Bulhosa

Cardeal Cerejeira


Nascido na zona rural do Minho em 1888, no seio de uma família de poucos recursos, Manuel Gonçalves Cerejeira podia ter-se tornado num simples pároco de aldeia. Em vez disso, ascendeu ao posto mais alto da Igreja, tornando-se cardeal patriarca de Lisboa entre 1929 e 1971 e uma figura fundamental, embora polémica, do século XX português. Conservador e elitista ou renovador e humilde? Amante do luxo e da riqueza ou atento à pobreza e defensor dos mais oprimidos? Homem caloroso ou autoritário? Sinuoso ou insinuante? Alinhado com o Estado Novo ou defensor da independência da Igreja em relação ao regime de Salazar, seu amigo íntimo desde os tempos de Coimbra? Defensor da vida e dos direitos humanos ou silencioso perante a violência da PIDE, a guerra colonial e a censura? Homem forte e decidido, ou indeciso e fraco como António de Oliveira Salazar chegou a apelidá-lo? Quando tomou posse como patriarca, o seu objectivo era recristianizar a sociedade portuguesa, mas no momento da sua exoneração a laicização da sociedade portuguesa era crescente e o mundo por que tanto lutara ameaçava ruir. Morreu no dia 1 de Agosto de 1977, sem que o 25 de Abril de 1974 o tivesse incomodado no seu retiro na Buraca.

edição: Esfera dos Livros
título: Cardeal Cerejeira
autor: Irene Flunser Pimentel
formato: 16x24cm (encadernado)
n.º pág.: 361
isbn: 9789896262037
pvp:28.00 €

segunda-feira, março 22

O nariz


Como não conseguimos ver o nosso próprio nariz, temos a tendência para olhar o mundo sob a sua perspectiva.
Nikolai Gógol
Num fim de tarde de uma quinta-feira de futebol, quando o movimento de leitores na livraria é igual ao de uma biblioteca em dia feriado, entra um critico literário conhecido do meio. Daqueles que dão poucas estrelas aos livros e se pudessem davam cinco estrelas às suas próprias críticas. Apanhando-me completamente distraído a ouvir no computador o relato do Benfica e com a cara enfiada num livro, comenta:
- Muito bem! Lendo Nikolai Gógol, Contos de São Petersburgo?
Tentando disfarçar e baixando o som do rádio.
- Boa tarde. Olhe, como não posso estar a ver a bola, deu-me para ler uns contos russos.
Completamente indiferente ao futebol, corrige:
- Gógol não era russo! - E acrescenta: nasceu em 1809, em Sorotchinski, na Ucrânia e morreu em 1852, em processo de ascese e grande sofrimento. Aliás, aquilo a que você chama contos russos é o que se convencionou chamar Histórias de Petersburgo, e que consistem nas seguintes cinco: Avenida Névski (1841), Diário de um Louco (1834), O Nariz (1836), O Retrato (1841) e O Capote (1841). E esta é uma etapa específica da obra de Gógol, que se segue às suas histórias fantásticas ucranianas… 
- A partir daqui deixei de o ouvir – … é inevitável referirmos as correntes literárias em que se inspira Gógol para a feitura destas histórias de Petersburgo: os elementos fantásticos, por vezes místicos, aproximam-se do romantismo, sobretudo alemão; alguns elementos destas histórias, por exemplo O Nariz, com a situação da perda de uma parte do “eu”, lembram de facto o aparecimento do duplo hostil, o rival, da História Fabulosa de Peter Schlemihl… 
- Vindo do computador, muito baixinho, ouve-se o som do rádio: «Di Maria falha escandalosamente!...» – … em O Sistema Poético de Gógol, Moscovo, 1978, Iúri Mann escreve que as ligações genéticas dos contos de Gógol com a literatura do romantismo já estão suficientemente estudadas pela crítica, O que faltava era descobrir a mudança fundamental que esta tradição sofreu em Gógol. Este, diferentemente dos românticos… 
- «Golo do Marselha, merda!» – … nunca introduz o fantástico no plano do presente histórico, existe só no passado representado por lendas e relatos problemáticos; no presente, fica apenas uma influência dele. E também, para Gógol, o fantástico/diabólico não é milagre, é antes o não humano, ou desumano. O fantástico é suplantado pelo absurdo, e o absurdo manifesta-se e revela-se como o quotidiano da vida que, em si, é anormal: a vida moderna, … 
- «ia sendo quase, quase, golo do Benfica!» – … a vida da grande urbe, personagem principal dos cinco contos de Petersburgo. São de facto cinco histórias maravilhosas. E você o que é que acha de Gógol?
- GÓ, GOG, GOLO DO BENFICA!

Jaime Bulhosa

O Homem Que Era Quinta-Feira



Num artigo publicado um dia antes da sua morte, G. K. Chesterton considerou O Homem que Era Quinta-Feira, publicado em 1907, «um tipo de devaneio bastante melodramático». Na sua "Autobiografia" de 1936 afirmara tratar-se de um pesadelo «não das coisas tal como existem, mas como pareciam ser ao semipessimista da década de 90». O livro tem sido considerado a obra-prima de Chesterton. Embora seja muitas vezes considerado um thriller metafísico ou um pesadelo teológico, desafia, na verdade, toda e qualquer classificação. Numa Londres fantasmagórica, os polícias são poetas, os anarquistas não são o que parecem. A narrativa tem a ver com o ambiente de final do século XIX e o terror das conspirações anarquistas. Mas, como muitas vezes acontece com as criações de Chesterton, o mistério acaba por envolver enigmas teológicos, a liberdade da vontade e a existência do Mal sob a forma do irracional. O protagonista Gabriel Syme é um poeta empenhado na luta contra o caos, que foi recrutado pela secção contra-anarquista da Scotland Yard. Um dia um poeta anarquista com quem discutira poesia e os méritos da previsibilidade leva-o a uma reunião local para provar que é um autêntico anarquista. É então que Syme consegue ser eleito como representante local para o Concelho Central de Anarquistas, integrado por sete homens, cada um deles com um nome de um dia da semana e vestes a condizer. Domingo é o mais misterioso de todos, afirmando que «desde o princípio do mundo que todos os homens me têm perseguido como se caçassem um lobo: os reis e os sábios, os poetas e os legisladores, todas as igrejas, e todas as filosofias. Mas nunca me apanharam ainda, e os céus hão-de cair sem que eu tenha sido encurralado». E a verdade é que consegue abalar as convicções de Syme numa Ordem Universal.


edição: Relógio D’Água
título: O Homem Que Era Quinta-Feira
autor: G. K. Chesterton
tradução: Miguel Serras Pereira
formato: 15x21.5cm
n.º páginas: 185
isbn: 9789896411558
pvp: 14.00€

sexta-feira, março 19

Bullying, inspiração literária


Embora esta história nada tenha que ver com livros, é inspiração para literatura - e da melhor.
Um dia destes, fui passear com o Vasco. Depois de o ir buscar à escola, parámos num parque infantil ali perto. Encontravam-se lá muitas outras crianças a brincar, na sua maioria entre os três e os cinco anos de idade. De repente, uma mãe, furibunda, com uma criança dos seus dois ou três anos ao colo a chorar, grita:

- Qual de vocês deu um estalo ao meu filho?
Em todo o parque se fez silêncio. As crianças, ingénuas e assustadas, em uníssono:
- Eu não fui! Não fui eu! Nhã foi Antónhio…
Até que uma diz, quase com as lágrimas nos olhos:
- Fui eu…
A "mãe" da criança ofendida, muito alterada, levanta a voz e, dirigindo-se para criança de quatro anos que se tinha acusado, como se falasse para um adulto, diz:
- Ouve lá! Queres levar também um murro?
Entretanto, uma senhora que tomava conta do Rodrigo (o culpado e futuro arguido) intervém:
- Desculpe, mas não devia dar tanta importância ao assunto. Afinal, trata-se de duas crianças.
A mãe, sem condescendência de nenhum tipo, atira:
- Eu trabalho com crianças e sei muito bem o que digo. Isto trata-se de um caso de bullying!
- E você é uma idiota e anda a ver muita televisão!
- Ai sim! Ainda por cima ofende-me… Fique sabendo que vou chamar a polícia!
Fiquei para ver. E não é que chamou mesmo...

Nota: Uma amiga juíza, quando lhe contei este episódio, falou-me de como os tribunais portugueses estão entupidos de casos deste tipo, de pura estupidez.
Jaime Bulhosa

Puericultura é...


Um livreiro novato e após os seis meses de formação, enfrenta pela primeira vez o balcão. Bastante nervoso como é hábito nestas ocasiões, tem pela frente uma das suas primeiras clientes.
– Por favor, tem livros sobre puericultura?
- Tenho sim. Queira, por favor, ver junto à secção de agricultura.
Respondeu o novato com muita certeza do que dizia. A senhora, sem acreditar no que ouvia, observa:
– Desculpe! O que é que a agricultura tem a ver com os meus netos?
A resposta do novato não se fez esperar:
– Então!?... Puericultura não é criação de... (corando) Porcos?


Jaime bulhosa

Dia do pai


Quando Vasco tinha apenas quatro anos, tínhamos acabado de abrir a Pó dos livros, no regresso a casa pela tarde, perguntava-me sempre:

- Pai quanto custou hoje a loja?

O que ele queria dizer era:

- Quanto vendeste hoje? Eu respondia-lhe 1000.

- Fogo pai!... Estás quase a chegar ao infinito…

Jaime Bulhosa

A Porta no Muro


Wells defendia que uma narrativa fantástica deveria abordar apenas um facto fantástico, opinião que corresponde a uma época de incredulidade, que não acolheria facilmente o maravilhoso. Os contos que escolhemos obedecem a esta prudente norma. A Porta no Muro, que decorre em Londres, expõe uma tonalidade alegórica que não é habitual associar ao nome de Wells. O Caso Plattner, como A Máquina do Tempo, explora as possibilidades inquietantes oferecidas pela hipótese da existência de uma quarta dimensão. Uma bela variante do tema do duplo A História do Falecido Mr. Elvesham. Encontramos dois elementos muito distintos em O Ovo de Cristal: a triste condição do protagonista e um imprevisível desenvolvimento que abarca o universo. A Loja Mágica é um sonho que se transforma em pesadelo e que volta ao estado de vigília para tranquilizar o leitor.
-
Jorge Luis Borge


edição: Presença
autor: H. G. Wells
tradução: Editorial Presença
Fromato:12x22,5cm
n.º pág.: 160
isbn:9789722343268
pvp: 15.00 €

quinta-feira, março 18

No creio en brujas, pero que las hay, las hay

Entra um cliente de aparência estrangeira e com ar misterioso.
- Faça favor.
- Bom dia! É capaz de me dizer qual dos meus ouvidos está a zumbir?
- Como!?...
- Se é capaz de adivinhar qual dos meus ouvidos está a zumbir?
O livreiro meio hesitante, responde:
- O direito.
- Bravo! Acertou!
- Claro!... Eu possuo o dom de adivinhar. Porém, qual era o seu interesse em que eu adivinhasse?
- Há uma tradição, na minha terra, segundo a qual, se um fulano adivinha que ouvido está zumbindo a outro, é certo vir a realizar-se aquilo que no momento da adivinhação deseja o proprietário do ouvido.
- E o que deseja o senhor?
- Que me diga que tem um livro que eu sei que está esgotado.
O livreiro, encolhendo os ombros, sorriu:
- Sim, diga lá então... Qual é o livro?
- 2666, de Roberto Bolaño.
O livreiro abrindo muito os olhos, sacudindo a cabeça ligeiramente para trás, completamente atónito, pergunta:
- Como é que adivinhou que temos um exemplar que acabaram de vir trocar?
- Não fui eu que adivinhei, foi você.

Jaime Bulhosa

quarta-feira, março 17

Book reviews à portuguesa


Não sabemos se é das traduções à letra ou mal feitas, se é por estarem fora do contexto, o certo é que não conseguimos deixar de rir com algumas citações de book reviews da imprensa estrangeira, colocadas nas contracapas e badanas de alguns livros editados em Portugal. Para além das traduções, das muitas incongruências, encontramos também por diversas vezes a mesma frase, com a mesma origem, em livros completamente diferentes. Sinceramente, não percebemos bem se elas são um elogio ao livro ou o seu contrário. Deixamo-vos um aperitivo. Se quiserem mais, é só entrar numa livraria e deslocarem-se à secção de novidades.

1- «Um livro que atrai um leitor como o aroma de uma caçarola ao lume.»

Financial Times

2 - «Profundo, elegante e poderoso… Tão memorável como a sua própria personagem.»

The Washington Post

3- «Não parece fácil mas, com as dicas certas, pode ser mais simples do que imagina conseguir devorá-lo.»

The Wall Stret Journal

4 - «Um delicioso conto de fadas urbano, onde sapatos assassinos e mitos astecas se confrontam com o amor verdadeiro pelo poder sedutor do chocolate.»

Daily Mail

5- «Este livro está cheio de crianças e elas podem ser tão apetitosas.»

The New York Times

6 - «Um testamento. Ninguém escreverá como ele. Este é o seu corpo e o seu sangue.»

El Mundo

7- «Não é por ter falecido que este escritor se juntou aos imortais.»

The Washington Post

8 - «Um relato cativante, sobre a Pandemia da Sida em África.»

Life

9 – «Este thriller é a mistura perfeita de uma escrita de terror e originalidade.»

Bristol Evenig Post

10 – «A escrita deste thriller é um autêntico pesadelo.»

Daily Mirror
-
Jaime Bulhosa

O Regresso do Hooligan


Tudo começa quando o autor (e narrador) tem a possibilidade de regressar à Roménia, o seu país natal. Philip Roth aconselha-o a ir mas Saul Bellow tenta dissuadi-lo. Ele decide partir, finalmente, para esse país de onde fugiu em 1986. Desencadeia-se então uma torrente de recordações: a infância interrompida pela deportação para um campo de concentração, o entusiasmo juvenil pelo comunismo e o subsequente desencanto, a vida sob a ditadura de Ceausescu, o refúgio na literatura, as dificuldades sentidas por um intelectual num meio asfixiante e, finalmente, o exílio. O Regresso do Hooligan é o relato de uma existência imersa nos grandes acontecimentos do século XX, uma viagem através do tempo e do espaço, do sonho e da realidade, do passado e do presente de um escritor que sabe revelar a beleza da dor e transformar a biografia numa arte maior.


Edição: Asa
Título: O Regresso do Hooligan
Autor: Norman Manea
Tradução:Carolina Martins Ferreira
Formato:15,5x23,5 cm
N.º Pág.: 400
Isbn:9782307206
Pvp:18.00€

terça-feira, março 16

O Sócrates faz perder clientes


De vez em quando, tão certo como a noite suceder ao dia, aparece alguém que pede:
- Queria as Obras Completas de Sócrates?
Perante tal pergunta, em tom de graça, o livreiro questiona:
- O Sócrates ex-primeiro-ministro ou o filósofo?
O cliente com pouca paciência e não achando graça nenhuma, responde:
- Evidentemente estou a falar do filósofo, porque o outro sei que não tem obra.
Respondendo à provocação, de sorriso nos lábios:
- Infelizmente, meu caro senhor, Sócrates, o filósofo, também não nos deixou uma única linha escrita.
Incrédulo, o cliente muito irritado, abanando a cabeça num movimento de lamento, exclama:
- É por causa de gente como você e como o outro que este país não anda para a frente!
E sai porta fora.

segunda-feira, março 15

Especialíssima


Numa loja especializada em tudo, até em livros infantis, e quase tão especializada como a Pó dos livros:

- Queria um livro para uma criança de cinco anos?

Antes de responder a funcionária especialista e com altivez, pergunta:

- Sexo masculino ou feminino?

- Não considero isso relevante, apenas pretendo uma pequena história que seja engraçada.

- Desculpe! É muito importante.

A cliente tentando demonstrar alguma paciência:

- É uma história para rapaz.

- A que nível?

- Como a que nível? Diz a cliente expectante.

- Sim, a nível priabónico ou intelectivo?

- Oiça lá! Você é só idiota ou ao mesmo tempo também é parva?

Nota: Priabónico sinónimo de lúdico. Intelectivo sinónimo de cognitivo.

História Universal da Destruição dos Livros

Agora que está na ordem do dia o assunto destruição de livros, nada como aconselhar a leitura deste livro História Universal da Destruição dos livros, de Fernando Báez, editado em 2009 pela Texto Editora (grupo Leya). Desde os tempos da Suméria, onde os livros não passavam de tábuas de cerâmica, passando pela antiguidade grega e romana com a paradigmática destruição da biblioteca de Alexandria, até ao Mundo Islâmico, desde os códices pré-hispânicos perdidos no fogo durante a época colonial ou a destruição nazi de milhares de livros judaicos, até às situações actuais de censura em países como Cuba e China. Para encontrar uma resposta, Fernando Báez recorre a diversos momentos da história, cuja desafortunada pedra de toque tem sido a destruição dos livros, sempre em nome de diversas razões: raciais, sexuais, culturais, políticas e, acrescentaria eu, económicas.

Jaime Bulhosa

Acerca de Roderer


Acerca de Roderer narra o confronto vital e intelectual entre dois jovens de inteligência privilegiada. O primeiro usa esta inteligência de forma prática para se adaptar ao mundo, o segundo na busca de um conhecimento absoluto que lhe permita compreender o mundo, deslizando perigosamente até aos limites da loucura e do suicídio.Esta incursão narrativa brilhante nos meandros da rivalidade e da inteligência oferece-nos um romance inquietante, de suspense e ambiguidade


Edição: Sextante
Título: Acerca de Roderer
Autor: Guillermo Martínez
Tradução: José Riço Direitinho
Formato: 14x20cm
N.º Pág.: 112
Isbn:9789898093165
Pvp: 14.50 €

sexta-feira, março 12

O Terceiro Reich

- Diga-me lá de que é trata este último livro do Roberto Bolaño.

- É sobre um tipo chamado Udo Berger, que sempre quis ser um grande escritor, mas que tem de se conformar em ser o campeão de “jogos & estratégia de guerra em Stuttgart”, decide ir ao Hotel del Mar, na Costa Brava catalã, com a sua nova namorada, Ingeborg (nome de uma das personagens de 2666). O objectivo é treinar-se para participar num novo jogo de estratégia, justamente o Terceiro Reich, e preparar-se para ganhar um torneio internacional.

- Mmm... Não sei... Acho que vou procurar outro livro para ler!

Com o cliente seguinte, o livreiro faz-se esperto.

- De que é que trata este livro de que toda a gente fala, O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño?

- Não tenho a certeza, mas se no título diz O Terceiro Reich, deve ser sobre o Hitler…

- Vou levar!

Jaime Bulhosa

Verão


Um jovem biógrafo inglês trabalha num livro sobre o falecido escritor John Coetzee. O seu projecto é concentrar-se nos anos entre 1972 e 1977, época em que Coetzee, então na casa dos 30, compartilhava com o pai viúvo uma degradada casa rural nos arredores da Cidade do Cabo. Trata-se, segundo o biógrafo depreende, do período em que aquele estava "a apalpar terreno como escritor". Sem nunca ter conhecido pessoalmente Coetzee, abalança-se a uma série de entrevistas a pessoas que foram importantes para ele: uma mulher casada com quem teve um caso, a sua prima preferida, Margot, uma bailarina brasileira cuja filha teve aulas de Inglês com ele, e velhos amigos e colegas. A partir dos seus testemunhos surge um retrato do jovem Coetzee como um indivíduo desajeitado e livresco, dotado de pouco talento para se abrir com os outros. No seio da família é visto como um forasteiro, alguém que tentou fugir da tribo e que agora voltou, mais contido. Na África do Sul da época, a sua obstinação em fazer trabalhos braçais, o cabelo e a barba crescidos e os boatos segundo os quais escreve poesia, não suscitam outra coisa que não a desconfiança. Ora comovente, ora francamente divertido, Verão mostra-nos um grande escritor em pleno aquecimento para o seu trabalho. Verão completa a trilogia de memórias ficcionadas que se iniciou com Boyhood e Youth.
-
Edição: Dom Quixote
Título: Verão
Autor: J.M. Coetzee
Tradução: j. Teixeira de Aguilar
Formato: 15,5x23,5
N.º Pág.: 280
Isbn:9789722039864
Pvp: 17.50€

Para não causar estranheza



Amanhã, sábado, a Pó dos livros vai estar cheia de seres estrambólicos. Elesucanto, um paquiderme formidável de corrida impetuosa das profundezas abissais, Titagato, um animal feroz de vida subterrânea de ambientes malsãos, Catro, um camelídeo resisitente de voo pujante das costas arenosas e muitos outros, que os participantes inventarem, vão ser nossos convidados. Se, por volta das 11 horas da manhã, passarem pela porta e ouvirem sons esquisitos ou caras desconhecidas, não estranhem, é só o Atelier Estrambótico do Professor Revillod que já começou.





Débora Figueiredo

quarta-feira, março 10

I love bestsellers


As livrarias tradicionais vão fechando por esse país fora e raramente são notícia, o que vai deixando o mercado livreiro cada vez mais na mão dos mesmos. Num destes dias, ao falar com um velho e antigo livreiro que se queixava imenso da qualidade literária, muito duvidosa, da maior parte dos livros editados em Portugal nos últimos anos, ele confessou-me: «Também eu receio vir a ter em breve de fechar as portas.» Perguntei-lhe a sua opinião sobre qual seria a razão por que estava ele com tantas dificuldades. Respondeu-me de forma lacónica: «Sempre fui verdadeiro com os meus clientes em relação ao que pensava dos livros. Nada mais me tem enganado do que a minha sinceridade.»
-
Jaime Bulhosa

Alergias


- Qual é mesmo o nome da livraria?

- Pó dos Livros.

- Atchim!

O Olho de Hertzog (Prémio Leya 2009)


O que procura Hans Mahrenholz, um oficial alemão que se faz passar por empresário e jornalista inglês, nas ruas da Lourenço Marques de 1919, ainda no rescaldo da Grande Guerra? E por que não assume a sua verdadeira identidade? E por que procura desesperadamente um mulato com nome grego e uma longa cicatriz? E como o pode ajudar um dos mais famosos jornalistas dessa cidade, um mestiço assimilado e carismático? Hans Mahrenholz (ou Henry Miller) chega ao norte de Moçambique num zepelim e é largado de pára-quedas, sozinho, em plena selva, com a missão de se juntar ao contingente do general Lettow. Consegue-o. Mas todo o resto da campanha militar é assombrada pela estação das chuvas, a floresta virgem, a malária e os confrontos com os exércitos inglês e português. Quando chega a Lourenço Marques, Hans já não é o herói ingénuo e corajoso que se juntou a Lettow. É uma personagem misteriosa com uma missão misteriosa…


Edição: Leya
Título: O Olho de Hertzog
Autor: João Paulo Borges Coelho
N.º Pág.: 442
Isbn:9789896600396
Pvp: 15.00 €

terça-feira, março 9

Entre o Céu e o Inferno


Sabíamo-lo tanto assíduo de igrejas como de livrarias, o cliente que se transformou em motivo de curiosidade e assunto de conversa entre livreiros. O mistério, na origem de tanta bisbilhotice, residia no facto, pouco comum, de um cliente que se definia como um bom católico praticante comprar sistematicamente livros de autores considerados anti-religiosos, desde Sade, Voltaire, Diderot, Montesquieu ou William Blake, Nietzsche, David Hume, José Saramago, Philip Roth, etc. No entanto, para além desse pormenor curioso, o que por si só, na nossa opinião, demonstrava apenas bom gosto, o cliente fazia também questão, talvez para se autojustificar, de classificar os livros que comprava, afirmando em alto e bom som, perante os livreiros, como tendo sido escritos por autores ímpios, blasfemos e hereges, sobre os quais recaíam os piores sacrilégios e pecados. Insistia para que nós, os livreiros, não os aconselhássemos a outros clientes, menos preparados para resistir a tanto encorajamento ao pecado.

Um dia, repetindo-se a cena do costume, certo livreiro, não aguentando mais de curiosidade e enchendo-se de coragem, pergunta-lhe:
- Desculpe a impertinência, mas, se os considera a todos uns heréticos, porque os lê?
Ao contrário do que se esperava, o cliente misterioso respondeu com um sincero sorriso nos lábios:
- Eu, aprecio muito o Céu, por causa do clima, e o Inferno, por causa dos frequentadores *.

Nota: Soube-se mais tarde que o cliente era um cónego muito bem-humorado.
* A frase é geralmente, mas abusivamente, atribuída a Mark Twain. Na realidade pertence ao Cardeal Bernis 1715-1794.

-
Jaime Bulhosa

segunda-feira, março 8

Nova Iorque


«Excepcional e engenhoso monólogo, o livro de Brendan Behan é um solilóquio tão emotivo quanto humorístico sobre a cidade de Nova Iorque, que o autor considera (eu também) o lugar mais fascinante do mundo. Nada — diz Behan — pode comparar-se a essa cidade eléctrica, que é o centro do universo.O resto é silêncio, flagrante obscuridade. «Depois de ter estado em Nova Iorque», diz Behan, «qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-á conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro.» A mim acontece-me sempre isto quando deixo Nova Iorque e regresso à minha cidade, e este livro de Behan é em parte culpado de isso me acontecer, porque o livro deixou em mim uma estranha saudade de bares onde nunca entrei.»
--
Enrique Vila-Matas
----
Edição: tinta-da-china
Título: Nova Iorque
Autor: Brendan Behan
Cordenador de Colecção: Carlos Vaz marques
N.º Pág.: 150
Formato: 14.5x20cm
Pvp: 16.20€

Fumo



"Fumo, de Turguénev, contém, uma notável diagnose da vida política e intelectual russa de meados do século passado*, e por isso alguns ctíticos têm querido considerá-lo um roman à thèse. Sem dúvida, as longas diatribes sobre os problemas políticos e sociais do tempo podem levar-nos a pensar assim. Mas este romance contém também uma das mais belas histórias de amor de Turguènev, e narrada com uma técnica insuperável. E precisamente o que me leva a não aceitar a opinião dos partidários do roman à thèse é esta extraordinária história de amor. Julgo que ainda ninguém notou como é singular: uma história de amor que, nas mãos de um escritor romântico como Turguènev [perdoem-me os que o consideram realista, que também é] insolitamente não se resolve em cataclismo.»
[Manuel de Seabra]

*Séc. XIX

Título: Fumo
Autor: Ivan Turguènev
Tradução e Notas: Manuel de Seabra
Edição: Relógio d'Água, 2010
PVP:14,00€

quinta-feira, março 4

Um alfabeto muito especial

Cinzento como o dia de hoje.


O Corvo

Numa fria noite de Inverno, sozinho em casa, um homem sofre a dor imensa da morte da sua amada. Prestes adormecer, parece-lhe ouvir alguém bater à porta e descobre que se trata de um corvo. Invadindo-lhe a casa, a ave acaba por conduzi-lo ao desespero devido à insistente repetição de uma palavra que o faz compreender que nada lhe devolverá Leonore… NEVERMORE

O famoso poema de Edgar Allan Poe, ilustrado por Gustave Doré, traduzido para português por Fernando Pessoa e para espanhol por Juan António Pérez Bonalde.


Edição: Manuel Caldas
Título: O Corvo
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Fernado Pessoa
Formato: 24x34cm
N.º Pág.: 62
Isbn:9789898355003
Pvp:13.00€


quarta-feira, março 3

Vou ver um filme

Chego a casa tardíssimo e o trabalho parece que não acaba. Continuo a ter imensas coisas para fazer, nomeadamente, e não esquecer, dar atenção aos miúdos. Ler um bom livro até seria uma boa solução para relaxar, mas isso requer tempo disponível de qualidade, isto é, sossego, e, como não estou de fim-de-semana e muito menos de férias, sossego, nicles. Apetecia-me ver um bom filme antes de ir para cama, ou então vê-lo já mesmo na cama, sair de casa novamente não é hipótese e na televisão só está a dar novelas, concursos e seus sucedâneos, e os canais com filmes de jeito dão a horas proibitivas. Porra!, ou melhor, arroz! Também tem dois erres e alivia na mesma.

Chegou hoje à Pó dos Livros uma selecção de DVD de excelentes filmes da Atalanta com preços médios na ordem dos 15 €. Ficam aqui alguns exemplos:


- Agente Triplo
- Alguns Dias Em Setembro
- Almoço de 15 de Agosto
- American Splendor
- O Amor é Tudo
- O Apóstolo
- A Aventura
- Batalha no Céu
- Belleville Rendez-vous
- Porta de Embarque
- O Bobo
- Body Rice
- Café e Cigarros
- Caimão
- Canções de Amor
- Cão, General e os Pássaros
- Caramel
- Casa de Loucos
- O Céu Gira
- Climas
- Coisa Ruim
- Corações
- A Costa dos Murmúrios
- A Criança
- Dogville
- Dom Quixote de Orson Welles
- Dou-te os Meus Olhos
- Duas
- O Elemento do Crime
- Elephant
- Entre os Dedos
- Amelie
- O Fatalista
- Feliz Natal
- À Felicidade
- Os Fragmentos de Tracey
- Genelogias de Um Crime
- O Gosto dos Outros
- Grande Silêncio
- Histórias de Caçadeira
- Um Homem Chora
- A Inglesa e o Duque
- Inland Empire
- Janela da Frente
- Jet Lag
- La Caja
- Lat Days
- Liam
- Luz Silenciosa
- Mar Adentro
- Muito Bem Obrigada
- Mulholland Drive
- Nada a Esconder
- Oito Mulheres
- Olhem Para Mim
- A Outra Margem
- Palindromes
- Paranoid Park
- O Quarto Filho
- Querido Diário
- O Rei das Rosas
- Seraphine
- Os Tempos Que Mudam
- Tetro
- Transe
- 3 Macacos
- Um Conto de Natal
- A Valsa Com Bashir
- Viagem a Lisboa
- A Vida é Um Milagre
- Vitus
- Viúva Rica, Solteira Não fica
- O Voo do Balão Vermelho
- O Regresso
- Saraband

Jaime Bulhosa

Animalário Universal



Vem descobrir o mirabolante universo do Animalário Universal do Professor Revillod, onde existem os mais extraordinários animais: um tigre com corpo de vaca e cabeça de galinha ou um estrambótico hipopótamo com corpo de pulga e rabo de peixe. Neste atelier, vamos explorar as diferentes combinações de animais, inventar o nosso próprio animal e responder a um sem-número de perguntas: Que som fará? O que come? Como se movimenta? São 45 minutos de imaginação, orientados por Susana Alves, no acolhedor espaço da Pó dos Livros.


PARTICIPAÇÃO LIVRE: aparece e aprende, divertindo-te!
ANIMALÁRIO UNIVERSAL DO PROFESSOR REVILLOD
Atelier estrambótico para crianças 5 - 9 anosLivraria
Pó dos Livros 13 Março sábado 11h00Livraria
Pó dos Livros Avenida Marquês de Tomar n.º89 Lisboa

terça-feira, março 2

Livros anónimos

Há qualquer coisa de misterioso nos livros em segunda mão que me fascina - o facto de transportarem, por vezes, dentro de si, objectos, cartas, pequenas histórias particulares que, juntamente com outras, constituem a nossa História colectiva. Se nós pudéssemos, à semelhança de Italo Calvino, que inventou, para as suas cidades e diálogos imaginários, fios estendidos de cores diferentes ligados a cada um de nós, se pudéssemos, como dizia, à medida que nos vamos movimentando e cruzando na vida, seja por um mero encontro casual, um namoro, uma amizade ou uma relação profissional, ir deixando no meio desses imensos entrelaçados e emaranhados de fios uma ponta que nos desse a possibilidade de os seguir, podendo reconstituir, dessa forma, facilmente, o nosso passado... Pena é que a grande maioria dos fios que nos ligam sejam invisíveis. Se assim não fosse, poderia rapidamente matar a curiosidade de saber quem eram as pessoas da fotografia encontrada no interior deste livro comprado em segunda mão pela Pó dos Livros e que, provavelmente, serviria apenas como marcador da obra de Charles Dickens com o título em português A Guilhotina, publicado pela Inquérito em 1947, com uma dedicatória na fotografia, datada de 9 de Setembro de 1928, assinada por Maria Natália Silva Duarte e Francisco Duarte. É-me difícil deixar de pensar quem seriam estas pessoas, como terá sido a sua vida e quais seriam as suas relações com o antigo proprietário deste livro. Imagino o espanto que seria alguém que me esteja a ler, reconhecer na fotogfrafia os pais, avós ou mesmo os seus bisavós.


Nota: Vale a pena seguir este link: http://www.forgottenbookmarks.com/

Jaime Bulhosa

segunda-feira, março 1

Livreiro(a) precisa-se

Uma troca de palavras ouvida numa moderna livraria de um centro comercial muito movimentado. Na montra um papel colado dizia: Livreiro(a) precisa-se.

- Tem Cartas Persas?
O “livreiro” sussurrando muito baixinho: «Olha outro a pensar que está numa papelaria.»
- Não vendemos baralhos de cartas.
O cliente completamente atónito.
- Montesquieu, nunca ouviu falar?
- Montes de quê!?...
- De paciência... - Diz o cliente desmoralizado.
- --
Jaime Bulhosa

O Homem Que Corrompeu Hadleyburg



Mark Twain, pseudónimo de Samuel Langhorne Clemens, (Florida, 30 de Novembro de 1835 – Reddin, 21 de Abril de 1910), foi escritor, humorista e romancista norte-americano. No seu auge, Mark Twain foi uma das celebridades mais conhecidas de sua época. William Faulkner disse que foi ele «o primeiro escritor verdadeiramente americano, e todos nós desde então somos seus herdeiros». Mark Twain não é só o autor da obra-prima As Aventuras de Huckleberry Finn, ou o criador de Tom Sawyer. Foi um grande contador de histórias, com grande sucesso público e da crítica, como hoje se diria. Entre as muitas histórias que publicou, conta-se esta, que está entre as melhores short-stories americanas, pela primeira vez saída a público em 1890 no livro The Man That Corrupted Hadleyburg and Other Stories and Essays. O tema é hoje tão actual como ontem. O da corrupção e o da tentação. Os homens não são "anjos" ou "santos", e o "diabo" está sempre à espreita. Esta é a história de uma cidade que se chama Hadleyburg, conhecida em toda a América por todos os seus habitantes serem "incorruptíveis". Até que um dia...

Edição: Assírio & Alvim
Autor: Mark Twain
Título: O Homem que Corrompeu Hadleyburg
Páginas:96
ISBN: 9789723708165
Pvp: 10.00 €