sexta-feira, abril 30

Os livros das coitadinhas


- Procuro um livro.
- Que livro é que procura?
- Um livro para ler...
- Pois, calculo que sim.
- O pior é que não me lembro do título.
- E de que é trata, mais ou menos?
- É sobre uma rapariga, coitadinha, que nasceu num país islâmico, casada à força pela família. Aos dezoito anos, tornou-se na quarta mulher de um homem de cinquenta e dois anos. Em quinze anos, teve oito filhos. A vida desta mulher não tem qualquer valor. Deixada pelo marido é apanhada pelas redes de tráfico sexual e a sua vida transforma-se num caos de violência e escravatura. Sem perceber porquê é levada para a prisão de Twhid, cenário de um calvário que se prolongaria muito para além dos três meses previstos de encarceramento…
- Espere aí, espere aí! – Interrompe o livreiro, a já longa descrição. – Não se lembra do título, mas também não tem a mínima importância. Pelo resumo, saídos apenas este ano, consigo-lhe mais de 20 títulos, com exactamente a mesma história. Só varia o título, a autora e a editora. Que me diz?...

Diário da Bicicleta


Desde o princípio dos anos 1980 que David Byrne usa a bicicleta como principal meio de transporte em Nova Iorque. Há vinte anos, descobriu as bicicletas desdobráveis e começou a levá-las para as tournées e outras viagens de recreio. A escolha de Byrne deveu-se mais à conveniência do que a qualquer motivação política. E à medida que via mais cidades a partir da sua bicicleta, foi ficando apanhado por este meio de transporte e pela sensação de liberdade que o mesmo proporciona. Convencido de que o ciclismo urbano favorece um conhecimento mais profundo da pulsação e do ritmo das populações e topografias, Byrne começou a escrever um diário com as suas observações.

De Berlin a Buenos Aires, de Istambul a São Francisco, de Sydney a Nova Iorque, Diário da Bicicleta regista não só o que Byrne vê e quem encontra, como também as suas reflexões sobre world music, urbanismo, moda, arquitectura, e muito mais, numa combinação pessoalíssima de humor, curiosidade e humildade.

edição: Quetzal

título: Diário da Bicicleta

autor: Davis Byrne

tradução:Vasco Teles de Menezes

formato: 15x23cm

n.º pág.: 380

isbn: 9789725648698

pvp: 18.95€

quinta-feira, abril 29

Abriu hoje a 80.ª Feira do Livro de Lisboa


Não sei porquê, mas não tenho vontade nenhuma de falar nisso.

Livreiro anónimo angustiado.

Rótulos

- Por favor, onde tem a secção de literatura gay? Tenho um amigo que lhe deu para essas coisas...
- Não temos uma secção com esse nome, até por que não nos faz muito sentido chamar “Literatura Gay” a livros que, só por acaso, foram escritos por escritores gay. Mas temos muita literatura.
- Não posso acreditar! Que pena e parecia uma livraria tão moderna...

quarta-feira, abril 28

Horas de deleite


Dumas, Balzac, Goethe, Gorki, Tolstói, Dickens, Zola, Ibsen, Walter Scott, Dostóievski, Gógol e outros grandes nomes de escritores universais foram, nas suas obras-primas, revelados há mais de 100 anos, pela colecção Horas de Leitura da Guimarães Editores. Quem não leu O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, Ivanhoe de Walter Scott, ou Os Cadernos de Pickwick de Charles Dickens e tantos, tantos outros. Autênticas horas de deleite, parece ter passado, provavelmente sob a cobertura destes grandes nomes da literatura, aparentando ser um fervoroso leitor e devorador de clássicos, o antigo proprietário deste livro, por nós comprado em segunda mão, com o título A Alegria de Viver, de Émile Zola e dificilmente mais apropriado. Livro que pelo seu óptimo estado, tendo em conta que se trata de uma edição de 1959, percebemos nunca ter sido lido. Para que queria então, este magnífico livro, o seu antigo proprietário? A resposta estava no seu interior. Nestas lindas fotografias, das clássicas literárias balzaquianas, que caíram ao chão assim que o abrimos. Enfim, as histórias que não há por trás de cada livro...

Jaime Bulhosa

A Arte de Morrer Longe


Situemo-nos num quadro familiar, comum aos nossos dias, de um jovem casal citadino, a viver lá para os lados do Lumiar, frequentadores da Avenida de Roma: «Chamavam-se Arnaldo e Bárbara, andavam pelos trinta anos, eram empregados de escritório, e cada qual estaria, segundo informação mais aludida que confessada, "interessado" n’outrem.» A decisão sobre que destino dar a uma tartaruga doméstica acompanha o quotidiano deste casal desavindo, funcionando como o último elo de ligação à espera de uma solução jeitosa. A solução tarda, e entretanto o casal vai vivendo com partilhas comuns mais ou menos agrestes.


edição: Caminho
título: A Arte de Morrer Longe
autor: Mário de Carvalho
formato: 13.5x21cm
n.º pág.: 125
isbn: 9789722121095
pvp: 15.00

terça-feira, abril 27

De geração em geração


Devia ter uns nove anos – seria um pouco mais velho do que tu – e decorria o ano de 1932, quando ainda vivia na Galiza e era pastor. Um dia, perdendo a noção do tempo, talvez por causa da brincadeira, e, como acontece nos dias de Inverno, sem se dar por isso já a luz do dia esmorece, dei conta de que poderia estar em apuros. Por mais que eu corresse ou fizesse correr o gado que comigo se encontrava nas montanhas, nunca conseguiria chegar antes que a noite me assombrasse o regresso a casa. Assim pensei, assim aconteceu. No caminho descendente, ainda longo, que ligava os trilhos dos montes marcados pelas pedras milenares das estradas antigas do Império Romano, à minha minúscula aldeia, composta por apenas três casas num lugar muito bonito e de nome poético, A Pousa – já lá foste com o pai –, trazendo apenas comigo os animais, um pau e uma pequena lanterna de petróleo que a minha avó sempre me obrigava a levar para em caso de necessidade, como este, me iluminar o caminho, dei de caras com pior pesadelo de criança. Seis pares de olhos e seis pares de grandes e brancos caninos reluziam na minha frente.
Era uma pequena alcateia, muito comum naquela época, na Galiza, que se encontrava a uns escassos metros de mim e me barrava o caminho para as já visíveis e protectoras luzes da aldeia. Não eram os primeiros lobos que via, mas nunca tinha estado tão perto deles, só dos mortos, como aqueles que os caçadores exibiam em dias de festa. Também me lembro dos momentos inesquecíveis, junto à lareira, com a minha avó a contar-me velhas histórias assustadoras ao mesmo tempo que ouvia os uivos dos lobos, nas noites frias de Inverno, nas austeras montanhas galegas.
Eu sabia que os lobos não atacariam as vacas, pois só em casos muitos raros os lobos atacam vacas adultas, preferindo presas mais fáceis e menores, como bezerros, potros ou ovelhas.
O lobo alfa, todo negro, fitou-me nos olhos, eu tremi quase sem me mexer, estendi o braço, balouçando a lanterna. De repente, apercebendo-me de que naquele dia não trazia novilhos, potros, nem ovelhas, numa onda de terror que me percorreu todo o corpo vindo do chão até ao cocuruto da cabeça, subiu-me em forma de remoinho uma náusea que tudo fez girar à minha volta, numa tontura enorme, e, imaginando-me transformado num bezerro, perdi os sentidos.
Quando acordei, não posso precisar exactamente quantos segundos ou minutos depois, dei por mim rodeado pelas minhas vacas, colocadas estrategicamente como se fossem um escudo protector. Sem saber se tinha sido intencional ou não, o que é certo, felizmente para mim, é que os lobos, ou porque não tinham fome, ou porque temeram a luz da pequena lanterna, ou simplesmente porque sempre recearam o homem, mesmo sendo eu apenas um miúdo, tão silenciosamente como tinham surgido, desapareceram na escuridão da floresta.
Corri o mais que pude em direcção às luzes da minha aldeia, sempre entre as minhas amigas vacas, com um olho mirando adiante e outro mirando a retaguarda, abracei-me à minha avó.
Mais tarde, já no meu quarto, vendo-me ao espelho pronto para me lavar, reparo que tinha a cara suja de terra com aquilo que parecia ser a marca de uma enorme pata de lobo.

Esta foi a história (verdadeira) que o meu pai me contou, quando um dia lhe pedi para me ler, antes de dormir, uma história com lobos. Recordo-me de ter sonhado, nessa noite, com o que ainda eram lobos maus. Ontem, contei-a eu ao meu filho que imediatamente me disse:

- Pai eu não tenho medo de lobos, eles são tão queridos!

Jaime Bulhosa

Morrem Mais de Mágoa


Kenneth Trachtenberg, o narrador de Morrem mais de Mágoa, é um especialista em literatura russa que abandona Paris, a sua cidade natal, para ir ao encontro do tio. Morrem mais de Mágoa tem o humor ágil da farsa francesa, mas são inseparáveis do seu enreedo tragicómico as análises engenhosas do autor sobre a vida moderna e o dilema de dois homens, cujos espíritos brilhantes não os salvam de Benn Crader, um botânico famoso. As muitas facetas da relação entre estas duas personagens inquietantes, irrequietas e excêntricas - ambas procurando no erotismo e num amor calmo, diverso das convulsões sexuais do século XX, resposta para a satisfação que os persegue - são o pretexto de uma narrativa cheia de humor e inteligência e sabedoria. Por que será que, quando surgem os problemas, as pessoas procuram em primeiro lugar o remédio sexual? Por que será que as pessoas inteligentes e dotadas se encontram invariavelmente atoladas numa miserável vida particular? Por que será que os sobredotados, os intuitivos, os que são capazes de ler no livro dos mistérios da Natureza, hão-de ser tão incautos e tolos?

edição: Quetzal
título: Morrem Mais de Mágoa
autor: Saul Bellow
tradução: Lucília Filipe
formato:15x22.5cm
Isbn: 9789725648681
Pvp: 19.90€

Um clássico



Esta história foi-nos contada por uma cliente.

Um dia, sem paciência para escolher ela própria um livro para ler, decide entrar numa livraria e pedir ajuda ao jovem livreiro de serviço:

- Por favor, queria um clássico para ler. Género Jane Austen que ironize a sociedade, está a perceber? Um título a que os anos já tenham dado credibilidade.

- Com certeza, minha senhora.

Passado uns segundos:

- Aqui tem!

A cliente sem saber bem o que responder:

- Sei Lá, de Margarida Rebelo Pinto!?... Está certo!

segunda-feira, abril 26

Caído do céu


- Bom dia. Vou ser sincero, não tenho muitas esperanças de que nesta livraria me resolvam o problema.
- Não seja assim tão pessimista.
- Não, agora a sério! Já percorri meia Lisboa à procura, em várias livrarias, de um livro de que necessito para fazer um trabalho e não encontro. Inclusivamente, tentei na Internet.
- É uma novidade?
- Não, é um livro antigo.
-Sabe o que é? Cada vez mais as livrarias só têm as novidades e o fundo editorial é devolvido, desaparece, chegando mesmo posteriormente a ser destruído pelas editoras.
- Acho que os deuses estão todos contra mim! - Diz o cliente, completamente desanimado, e acrescenta: - Se nesta livraria encontrar o livro que procuro, prometo a Deus que passo a ser muito bonzinho, a ir à missa todos os domingos e a contribuir com parte do meu ordenado para ajudar os pobres.
- Não desespere, diga lá qual é livro que procura?
- Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.
- Meu caro senhor, esse livro é difícil de encontrar, mas não é impossível e, por acaso, até temos um exemplar.
-Ai é!?...
O cliente olha para o céu como se estivesse lá alguém, abana a cabeça em sinal de insatisfação e, falando sozinho, resmunga.
- Olha, escusas de te incomodar, que este senhor já me resolveu o problema!

Sobre o plágio


Um livreiro com um pouco de curiosidade lê tantas pequenas coisas, uma citação aqui, uma frase ali, um livro acolá, que às tantas perde a noção e já não sabe se aquilo que pensa é seu ou somatório de tudo o que leu. E, mesmo que pense que não é seu, já não faz ideia da fonte. Mas, também, quem é que sabe o que é de quem?

Livreiro anónimo

cuidado!


Chegou na sexta-feira passada uma encomenda muito especial à Pó dos livros. A embalagem vinha bem selada, dizia "ATENÇÃO, FRÁGIL" e quando a abrimos para espreitar, levámos logo uma simpática dentada. Nem foi preciso ler o remetente para descobrir donde vinha, era o livro "Lágrimas de crocodilo" da Bruaá. Por isso, deixamos aqui o aviso: andam crocodilos à solta na Pó dos livros, podem saltar de qualquer estante e dão perigosas dentadas. Quando isso acontece, somos mordidos por uma belíssima história, bem "contada-ilustrada", divertida e com muito sentido de humor. Agora que já foram alertados, ponham os braços e as pernas à jeito, porque vale bem a pena a dentada.

Lágrimas de Crocodilo, André François, Bruaá, 2010-pvp 16.00 euros


Débora Figueiredo

quinta-feira, abril 22

O Livro de Cabeceira

(Retrato de Sei Shonagon)



-Por favor, queria um livro de cabeceira?

- Ah!... O Livro de Cabeceira, esse extraordinário relato dos costumes da Corte japonesa do século X, considerado um dos maiores clássicos da literatura japonesa, foi escrito por Sei Shonagon, a dama de companhia da Imperatriz Teishi. Sabe, ela foi contemporânea de Murasaki Shikibu, a mulher que escreveu o primeiro romance de sempre A Lenda de Gengi. Com certeza, já ouviu falar? Murasaki terá inclusive feito referência no seu livro a Sei Shonagon. Aliás, não em termos muito elogiosos, chegando a dizer que Shonagon era uma libertina (evidentemente para a sua época, o que lhe dá até uma certa graça) e profetizou que não iria acabar bem os seus dias. Nestes dois livros, tanto A Lenda de Gengi como O Livro de Cabeceira, a vida cultural e social dos homens e das mulheres é explorada em grande pormenor. Porém, e se calhar ainda bem, pouca atenção é prestada às manobras políticas que ocupavam uma grande parte do tempo dos funcionários masculinos da Corte japonesa, esse era um mundo completamente vedado às mulheres. Seja como for, estas duas mulheres escreviam, essencialmente, para si próprias e para outras mulheres. Analisando minuciosamente a sua vida ao espelho e partilhando com as outras a inteligência, a perspicácia e a observação das questões psicológicas muito comuns nas mulheres de todos os tempos.
Acho que já estou a falar demais. Infelizmente O Livro de Cabeceira nunca foi traduzido para português. Ou melhor, parece que está a ser traduzido agora, finalmente, ao fim de tantos séculos. No entanto, poderei encomendar uma tradução em inglês, alemão, italiano ou até, provavelmente, em espanhol, o que acha?

- Olhe! Toda essa conversa é muito bonita e deve fazer imenso sentido para si, mas o que eu pretendia, mesmo, era um livro de cabeceira. Sabe? Daqueles tipo diário!

Pensei para comigo: «Jaime andas a ler demais e estás a ficar um chato!»

Jaime Bulhosa

O Músico Cego




«A parteira não ouvia no grito do bebé nada de especial e, vendo que a jovem mãe falava como que em sonho, pelos vistos a delirar, afastou-se dela e pôs-se a tratar da criança. A jovem mãe calou-se, e apenas de vez em quando um penoso sofrimento, incapaz de prorromper em forma de movimento ou palavra, espremia dos seus olhos as lágrimas em bágoas. Corriam silenciosamente através das espessas pestanas pelas faces brancas como mármore. Talvez o coração da mãe sentisse que, juntamente com o filho recém-nascido, viera ao mundo uma desgraça negra e desesperada que pendia por cima do berço para acompanhar a nova vida até ao túmulo. De resto, talvez fosse mesmo delírio. Fosse como fosse, a criança nasceu cega.»

Vladimir Galaktionovich Korolenko nasceu na Ucrânia em 1853, filho de um juiz distrital cossaco. Romancista, jornalista e activista político, a sua posição crítica em relação ao regime czarista revela-se cedo, as suas alegadas actividades revolucionárias levando-o a ser expulso de dois dos institutos onde estudou. Publica os seus primeiros contos em 1879, mas a sua carreira literária é interrompida nesse mesmo ano quando é detido e enviado para o exílio na Sibéria durante cinco anos. Depois de regressar, publica O sonho de makar, obra que estabelece definitivamente a sua reputação como escritor em 1885.
Os seus contos aliam o realismo a um certo romantismo, caracterizando-se por uma descrição crua da realidade que o rodeia e tendo muitas vezes como personagens principais os vagabundos, criminosos e párias sociais que encontrou durante o seu exílio. Eleito para a Academia de ciências, renuncia em 1902 quando Máximo Gorki é expulso daquela instituição.
Ainda que fosse um forte opositor do czar, recebe a Revolução Russa de 1917 sem grande entusiasmo, criticando violentamente até à sua morte, em 1925, a natureza despótica cada vez mais evidente do regime bolchevique.

edição: Estrofes & Versos
título: O Músico Cego
autor: Vladímir Korolenko
tradução: Nina Guerra e filipe Guerra (do russo)
tema: Romance
formato: 13x20cm
isbn:9789898292308
pvp:16.00€

quarta-feira, abril 21

Histórias Etíopes

«Sempre acompanhado de um caderno onde se misturam desenhos e anotações, tenho viajado pela chamada “Etiópia histórica”. Escrevo e desenho para lembrar o que é desaparecer do meu mundo habitual e continuar ainda assim vivo, podendo ver, ouvir, cheirar e falar. Faço-o para criar um testemunho gráfico do que sinto como viagens de ida e volta a um mundo ao contrário. Quando viajei pela primeira vez para a Etiópia, em 1999, ressuscitei um prazer que me tinha negado durante anos, desde a traumática perda de um caderno de desenhos em Tavira: o de desenhar despreocupada mas obsessivamente quando viajo. Desde então, tenho uma consciência mais aguda do que implica fixar, em caderno, clichês memorias: enquanto viajo, o desenho não passa de um subproduto irrelevante da minha actividade de desenhador e fixador de visões, mas quando regresso a casa o desenho torna-se um precioso catalisador da memória e do imaginário.»












edição: tinta-da-china
título: Histórias Etíopes
autor: Manuel João Ramos
Coordenador da colecção: Carlos Vaz Marques
tema: Literatura de viagens
formato: 15,5x20cm (encadernado)
n.º pág.:338
isbn: 9789896710347
pvp: 21.90 €



sem título


Não há nada como um subtil erro para atestar que o que escrevo é absolutamente genuíno.

Livreiro anónimo cheio de dúvidas


Facebook Manners And You

Nova colecção de acessórios Primavera-Verão 2010.

Será marketing? Será moda? P'ró menino ou p'rá menina? Será piada? Será genial? Será um livro?




edição: Livros de Seda
título: Praia Lisboa
autor: Henrique Levy
formato: (temos dúvidas)
n.ºpág.:215
isbn: 9789727707218
pvp: 14.70

terça-feira, abril 20

O poder da leitura


Da ignorância do fraco, nasce a força do déspota
Livreiro anónimo

Em 1660, Carlos II de Inglaterra decretou que o concelho das Plantações Estrangeiras ensinasse os preceitos do cristianismo aos nativos, servos e escravos das colónias britânicas. Os opositores ao decreto de Carlos II não acreditavam naqueles que defendiam que a alfabetização através da Bíblia reforçaria os laços da sociedade. Se os escravos fossem capazes de ler a Bíblia, poderiam também ler panfletos abolicionistas e, mesmo que isso não acontecesse, acreditavam que nas Escrituras seria possível encontrarem ideias de revolta e liberdade. A oposição a este decreto foi mais forte nas colónias americanas, onde, um século mais tarde, foram promulgadas leis rigorosas que proibiam todos os negros, escravos ou homens livres, de serem ensinados a ler. Estas leis vigoraram até meados do século XIX. Durante centenas de anos, os escravos aprenderam a ler em condições extraordinariamente adversas, arriscando a própria vida. Por todo o sul dos Estados Unidos da América era comum os proprietários enforcarem os escravos que tentassem aprender ou ensinar outros a ler e escrever. Existem muitos relatos: o escritor americano Frederick Douglas, que nasceu escravo e se tornou um dos mais eloquentes abolicionistas do seu tempo, recorda na sua autobiografia: «O facto de ouvir com frequência a minha dona a ler a Bíblia em voz alta […] despertou-me a curiosidade em relação ao mistério da leitura e acicatou-me o desejo de aprender. Até àquela altura, eu nada sabia desta maravilhosa arte e a minha ignorância e inexperiência daquilo para que me poderia servir, assim como a confiança que tinha na minha patroa, deram-me a ousadia de lhe pedir que me ensinasse a ler […]. Em pouquíssimo tempo, com a sua bondosa ajuda, aprendi o alfabeto e consegui ler palavras de três ou quatro caracteres... O meu amo proibiu-a de me continuar a ensinar, mas a determinação que ele expressara em me manter num estado de ignorância apenas me deu mais determinação a procurar instrução.» Thomas Johnson, um escravo que veio a tornar-se um pregador missionário famoso em Inglaterra, explicou que aprendera a ler estudando as letras de uma Bíblia que furtara. Como o seu patrão lia todas as noites em voz alta um capítulo do Novo Testamento, Johnson pedia-lhe que lesse o mesmo capítulo várias vezes, até o saber de cor e ser capaz de encontrar as mesmas palavras na página impressa. Quando o filho do amo estava a estudar, Johnson sugeria ao menino que lhe lesse parte da lição em voz alta. «Deus nas alturas», dizia Johnson para o animar, «leia isso outra vez», o que o menino fazia com frequência, julgando que o escravo estava a admirar os seus dotes de leitor. Graças à repetição, aprendeu o bastante para conseguir ler jornais. Outro escravo, de identidade anónima e doméstico (porque aqueles que trabalhavam nas plantações não tinham as mínimas condições para aprender a ler), aprendeu as artes da leitura, pelo mesmo método da repetição de frases de uma Bíblia. Conta-se que, ao surpreendê-lo a ler em voz alta uma passagem da Bíblia, a sua dona, muito admirada, ter-lhe-á perguntado: «Como aprendeste a ler?» Atrapalhado, respondeu: «Pela Bíblia, minha senhora.» «Foste abençoado por Deus.» Ao que o escravo replica: «Se Deus me ensinou a ler... então, também ele me fez escravo!»
Para os escravos, aprender a ler não significava um salvo-conduto para a liberdade, mas antes uma forma de aceder a um dos instrumentos mais poderosos dos seus próprios opressores. À semelhança de ditadores, tiranos, monarcas absolutistas e outros detentores ilícitos do poder, tinham consciência da força da palavra escrita. Sabiam, muito melhor do que alguns dos nossos actuais leitores, que ler é uma força avassaladora mais poderosa do que muitos exércitos.

Jaime Bulhosa

Bibliografia consultada: James Walvin, Uma História da Escravatura, tinta-da-china, Lisboa, 2008, e Alberto Manguel, Uma História da Leitura, Editorial Presença, Lisboa, 1998.

Se Não Estudas Estás Tramado




«Só com muito trabalho, muita dedicação e muito esforço será possível enfrentar e ultrapassar as questões tão graves que a educação encara e vai continuar a encarar, uma vez que a educação não é um projecto delimitado no tempo, mas antes um processo intemporal em que todos participamos como protagonistas, seja como pais, como estudantes, como professores ou como educadores. [...] Não posso deixar de expressar o meu sentimento de esperança em relação ao futuro nas áreas da educação, da formação e da produção do conhecimento. Faço-o não porque me sinta compelido a “terminar em beleza”, mas porque vejo à minha volta uma nova geração que é muito melhor do que aquela a que eu pertenço. Jovens com excelente formação, cultos, determinados e profissionais. Dirão os pessimistas que são poucos, uma vez que a maioria é ignorante, não gosta de estudar e só se interessa por futebol, telenovelas e subsídios do Estado. Em minha opinião, quero crer que o País vai dispor de um número crescente de quadros e de mão-de-obra qualificada capaz de evitar as visões catastrofistas que alguns profetas da desgraça nos vêm anunciando. Só espero que o futuro me dê razão.»

Eduardo Marçal Grilo


edição: tinta-da-china
autor: Eduardo Marçal Grilo
tema: Educação/Política
prefácio: António Câmara
1.ª edição: Abril de 2010
n.º de páginas: 232
formato: 14x21 cm
isbn: 9789896710330
pvp: 15.90€

segunda-feira, abril 19

Los rojos

Um senhor já idoso, de pera no queixo, entra na livraria e pergunta:
- Quanto custa O Capital, de Karl Marx?
Admirado com uma pergunta que já não me faziam há muitos anos, respondo:
- É uma obra composta por vários volumes e é muito raro, hoje em dia, alguém pedi-la. Por isso, se de facto desejar comprá-la, terei de a encomendar.
Acrescentei que todos os volumes não lhe sairia nunca por menos de 80 euros.
O cliente franze o rosto, como que a dizer que não pode pagar tanto, sorri maliciosamente.
- Espero que, para seu bem, não venha aí a revolução.
Sem entender onde queria chegar com aquele comentário, respondi:
- Como?...
- Vou contar-lhe uma história: diz-se que Manuel Aguilar (editor espanhol) um dia decidiu publicar pela primeira vez em Espanha uma versão completa de O Capital, de Karl Marx. Calculou o tempo que demoraria a vendê-la e o interesse com que seria recebida por parte do público. Concluindo que o interesse seria grande, pensou, com ganância, vendê-la a um altíssimo preço, para poder comprar um automóvel Chrysler Imperial, maravilhoso e caríssimo. E assim sucedeu.
- E?... - perguntei eu, continuando sem perceber onde o senhor queria chegar.
- E… esta história não acaba aqui, tem uma adenda.
- Continue, continue!
- Mal tinha acabado de comprar o carro, rebenta a guerra civil de Espanha. Uma noite vieram os rojos e levaram o Chrysler para sempre. «Marx o deu, Marx o tirou», terá respondido Manuel Aguilar.
- Está bem, está bem… Eu faço-lhe um desconto!


Jaime Bulhosa

Literatura Catalã na Pó dos Livros

Tem início no próximo dia 23 de Abril um ciclo de debates Catalunha em Pó sobre literatura catalã, organizado pela Associação Cultural Catalunha, em colaboração com a livraria Pó dos Livros. As secções realizar-se-ão todos meses pelas 18h30.


CATALUNHA EM PÓ


POSOLOGIA: uma vez por mês às 18h30mn na Pós dos Livros

COMPOSIÇÃO:

23 de Abril, sexta-feira
Pandora no Congo, Albert Sánchez Piñol, Editorial Teorema, tradução de Miranda das Neves.
Com a presença de Anna Cortils (tradutora) e Sebastià Bennasar (jornalista e escritor).

26 de Maio, quarta-feira
Casa da Misericórdia, Joan Margarit, OVNI Editora, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas.
Com a presença de Rita Custódio (tradutora), Àlex Tarradellas (tradutor) e Álvaro Góis (editor).

29 de Junho, terça-feira
As Vozes do Rio Pamano, Jaume Cabré, Edições Tinta-da-China, tradução de Jorge Fallorca.
Com a presença de Jorge Fallorca (tradutor) e Sebastià Bennasar (jornalista e escritor)

22 de Setembro, quarta-feira
No Último Azul, Carme Riera, Editorial Teorema, tradução de Miranda das Neves.
Com a presença de Carlos Veiga Ferreira (editor) e Sebastià Bennasar (jornalista e escritor).

25 de Outubro, segunda-feira
Bearn ou a Sala das Bonecas, Lorenço Villalonga, Editorial Teorema, tradução de Helena Tanqueiro
Com a presença de Helena Tanqueiro (responsável do Centro de Língua Portuguesa em Barcelona e tradutora) e Anna Cortils (tradutora)

22 de Novembro, segunda-feira
A Felicidade, Luís-Anton Baulenas, QuidNovi, tradução de Maria João Teixeira Moreno
Com a presença do autor, Luís-Anton Baulenas, e de Sebastià Bennasar (jornalista e escritor)



CONTRA-INDICAÇÕES: desperta a curiosidade.

(Contacto da Associação Cultural Catalunha)

sábado, abril 17

Hoje, às 16h00

Lançamento: "Livro dos 5 Poetas", de Constatino Alves, José Gil, Jorge Vicente e Gonçalo B. de Sousa. Apresentação por José Felix e um momento musical com Patrícia Domingues.

sexta-feira, abril 16

Pequenas coisas

Um rapaz entrou na livraria, entregou-me um livro e disse:

- Gostaria de lhe oferecer este livro.

Apanhado completamente desprevenido, sorri, expectante.

- Ofereço este livro a um livreiro, porque gosto muito da livraria e do vosso blogue.

Escreveu uma pequena dedicatória no belíssimo livro O Último Espectáculo, de Manuel do Nascimento (confesso a minha ignorância, não conhecia), informando que era um escritor da sua terra, e saiu tal como entrou.

Ao fim de tantos anos como livreiro, nunca ninguém tinha elogiado a minha profissão desta maneira. Queria agradecer ao Eduardo Duarte o par de horas que me fez passar a ler, deliciado, este pequeno livro de contos.

Jaime Bulhosa





Manuel do Nascimento Correia, de seu nome completo, nasceu em Monchique a 27 de Dezembro de 1912 e morreu em Lisboa a 30 de Dezembro de 1966. Filho de proprietários e comerciantes desta vila serrana, frequentou, na capital, a Escola Académica e depois o Instituto Industrial de Lisboa, tendo aí tirado o curso de Técnico Superior de Minas. Nesta profissão, trabalhou nas Minas de Jales, onde travou conhecimento com Soeiro Pereira Gomes e com a literatura de teor social, enquanto acompanhava e convivia com o trabalho árduo e mal pago dos mineiros, situação que depois retrataria nos seus livros.

Falar é Fácil

Lançado no passado dia 14 de Abril na Fnac do Colombo o livro de crónicas de Zé Diogo Quintela, Falar é Fácil.



«Estão aqui representadas algumas das minhas opiniões sobre vários assuntos. Tenho outras opiniões sobre os mesmos assuntos, mas achei que não fazia muito sentido estar a contradizer-me no meu próprio livro.»

Zé Diogo Quintela nasceu em 1977, em Lisboa. Tem quase um curso de Comunicação Social, pelo Instituto Superior de Ciências sociais e Políticas. Em 2003, juntamente com Tiago Dores, Miguel Góis e Ricardo Araújo Pereira, formou o grupo humorístico Gato Fedorento. Começou a escrever crónicas no Independente. Neste momento, escreve semanalmente no jornal A bola e na revista Pública.


Edição: tinta-da-china
Título: Falar é Fácil
Autor: Zé Diogo Quintela
Formato: 13.80 x 21 cm
N.º Pág.: 269
Isbn:978896710293
Pvp: 15.80€

Três Mulheres Poderosas


Três histórias, três mulheres que dizem não. Chamam-se elas Norah, Fanta, Khady Demba. Cada uma delas bate-se para preservar a sua dignidade contra as humilhações que a vida lhes inflige. A ligá-las, a África, a França, algumas aves, o drama das migrações e da difícil integração. A arte de Marie NDiaye manifesta-se aqui em toda a sua singularidade e o seu mistério. A força da sua escrita reside na sua aparente doçura, nas lentas circunvoluções que arrastam o leitor pela encosta de uma prosa impecável e refinada, nos meandros de uma consciência entregue à pura violência dos sentimentos.

Prémio Concourt 2009


edição: Teorema
título: Três Mulheres Poderosas
autor: Marie NDiaye
tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
formato: 15,5X23,5 cm
n.ºpág.: 296
isbn:9789726959090
pvp: 20.00€

quinta-feira, abril 15

Na língua dos deuses

Na livraria, em conversa sobre religião com um amigo:

- Tens os livros sagrados das três principais religiões monoteístas.
- Referes-te à Bíblia e ao Alcorão?
- Sim, conheces outros?
Diz o meu amigo num tom de escárnio.
- Podias estar a referir-te a outros livros, como por exemplo, os textos apócrifos?
- Vou ensinar-te uma coisa, esses textos não são sagrados, só os grandes textos, como a Bíblia, inspirados nas ideias de Deus e traduzidos para a linguagem dos homens, podem ser considerados sagrados.
- Sim, mas estás a esquecer-te que aquilo que para uns são textos canónicos, para outros são textos apócrifos.
- Sim, tens razão. Mas o judaísmo tem raiz no Velho Testamento, o cristianismo no Novo Testamento e o islamismo no Alcorão que são considerados pelas suas respectivas religiões textos sagrados.
- Tens certeza de que não têm todos a mesma origem?
- Como assim?... Se têm todos origem no Velho Testamento?
- Não! Não serão todos textos com origem em ideias dos homens, escritos em linguagem dos deuses?
-
Jaime Bulhosa


Ao longo de uma história com mais de 800 anos, a presença e a participação de deus na realidade quotidiana portuguesa sempre foi uma constante. Umas vezes seguindo directivas do catolicismo romano, outras vezes adoptando supersticiosidades com antecedências pagãs, Portugal sempre acreditou naquilo a que se convencionou chamar de «sobrenatural» ou «transcendente». Apresentando-se como filosofia que nega a existência do divino, o ateísmo quebra a unanimidade prevalecente e propõe como alternativa uma vivência sem deus. A presente obra analisa o percurso dessa tendência ateísta em Portugal, dando a conhecer personalidades, ideologias e movimentos que contribuíram activamente para erodir o «conceito de deus», apontando ainda os condicionalismos que conseguiram refrear - e manter numa quarentena de vários séculos - a natural apetência do ser humano para questionar e duvidar.

edição: Guerra & Paz
título: História do Ateísmo Em Portugal
autor: Luís F. Rodrigues
formato: 15x23cm
n.ºpág.: 380
isbn: 9789898174642
pvp: 22.00€

quarta-feira, abril 14

Outros pós


A Pó dos livros está cheia de velharias, junto aos livros, um pouco por todo o lado. Telefones, máquinas de escrever, grafonolas, rádios, taxímetros, microscópios, etc. É engraçado ver a reacção dos mais novos aos objectos que nunca tinham visto ou o despertar da memória dos mais velhos perante aparelhos que já há muito não viam. As máquinas de escrever, se calhar por se encontrarem mais à mão, ou porque o teclado lhes é mais familiar, são as velharias que maior curiosidade despertam. As crianças mais pequenas (as mais crescidas nem se atrevem a tocar-lhes) rapidamente percebem como funcionam e logo se põem a carregar nas teclas e, sentindo o peso, carregam com demasiada força. Ao mesmo tempo que escrevem, carregando em várias teclas simultaneamente, perguntam aos pais para que é que aquilo de facto serve, para além de escrever. A resposta é, invariavelmente, a comparação com outro aparelho que nem sequer existia na altura:
- Ó filha! Eram os nossos computadores e só serviam para escrever.
- Que grande porcaria… - respondem elas depois de encravar a máquina. Muito aflitas, sem saber o que fazer, perguntam:
- Como é que se faz delete?
O telefone de disco que temos no balcão, e que ainda funciona, é outro dos aparelhos antigos que mais perguntas suscitam: - O que é isto? – É um telefone antigo? – Que pesado e grande que ele é! Sem perceberem que o disco é para rodar, imediatamente, carregam nos números como se fossem botões e exclamam: - Mãe, isto não funciona! – Onde está a lista de contactos?
A grafonola, essa, é demasiado arcaica para que consigam instintivamente perceber para que serve e como se dá à corda; por isso, as perguntas que se seguem a o que é isto?, são: – Onde está o botão para ligar? – Por onde sai o som?
Os livros em papel, claro, ainda reconhecem, mas por vezes acontece os mais pequenos mexerem em capas de livros brilhantes e com relevo, como se fossem os iphones dos pais. Isto é, tocam-lhes com o dedito para ver se a imagem mexe.
-
Jaime Bulhosa

Correios


Correios, o primeiro romance de Bukowski, é baseado na sua experiência como empregado dos Serviços Postais dos Estados Unidos ao longo de uma década, e foi publicado num momento em que o seu nome ascendia ao plano do reconhecimento literário universal. Ponto de partida ideal para qualquer leitor que se queira iniciar na prolífica obra de Bukowski, encontramos em Correios as qualidades dos seus restantes trabalhos. Repleto de cenas hilariantes, este romance é também um retrato fiel das frustrações de um funcionário público sofredor. As suas personagens, entre a ficção e a realidade, captam a essência e a universalidade do ser humano e nós, leitores, continuaremos a topar, em Bukowski, com bebedeiras, mulheres, zaragatas, eventuais rebates de consciência, enfim, com os trambolhões da vida.

edição: Antígona
título: Correios
autor: Charles Bukowski
tradução: Rui Lopes
formato: 12.5x21.5
n.º pág.: 234
isbn:9789726082101
pvp: 16.00€

terça-feira, abril 13

As livrarias que não caçam com cão, caçam com gato


Saiu no passado dia 11 de Abril, no jornal Público, um artigo sobre as livrarias independentes de Lisboa:

«As livrarias que não caçam com cão, caçam com gato. Escolha criteriosa de títulos, atendimento personalizado e eventos. Face à pressão das grandes cadeias, é preciso diversificar. Porque só vender livros não chega. É preciso que aconteça alguma coisa.»

«Desde a entrada em Portugal da cadeia mundial Fnac, em 1998, o conceito de livraria alterou-se radicalmente. Para além de concentrarem num só espaço diferentes produtos culturais e técnicos, as Fnac surgiram com salas de leitura, cafetarias e uma programação permanente, obrigando as pequenas e médias livrarias a seguirem algumas ideias. Um ano depois do encerramento da Byblos, aquela que foi a maior livraria do país, descodificámos o que as livrarias independentes de Lisboa fazem para sobreviver. "O mercado do livro não está em crise. Edita-se e vende-se cada vez mais", começa por dizer José Pinho, um dos sócios da Ler Devagar, instalada, desde Abril de 2009, na Lx Factory, em Alcântara, Lisboa. O problema está na multiplicação dos espaços que vendem livros: "Os CTT, as gasolineiras, os supermercados e os aeroportos estão a roubar vendas. E como só vendemos livros, temos uma capacidade de atracção menor." Eventos imprescindíveis. Depois de ter apostado em cinco livrarias em diferentes pontos de Lisboa, José Pinho resolveu concentrá-las num só espaço. "Em todos os pólos, tínhamos à venda livros muito especializados. Depois de só perdermos dinheiro, chegámos à conclusão de que em Portugal não existe mercado para livrarias especializadas." A nova Ler Devagar tem 150 accionistas, ocupando agora a área onde trabalhava uma rotativa que imprimia jornais. São cerca de 600 metros quadrados distribuídos por dois pisos, com estantes repletas, um auditório, uma sala de conferências que também dá para concertos, uma galeria e dois bares. "Uma livraria independente só consegue sobreviver nestes moldes. Se não organizarmos eventos, acabamos por desaparecer", justifica. Em Março, como em todos os meses, houve uma programação diversificada: a peça de teatro. Os meus não dão problemas..., do grupo Holofote; o lançamento de Um Pai em Nascimento com a presença do autor, José Eduardo Agualusa; a exposição Something and spoken sobre Anne-Marie Schwarzenbach; o debate. O Clima Farto de Nós; e um jantar gastronómico a fechar.Na Ler Devagar só encontrámos um best-seller, o 2666, de Roberto Bolaño. "Não recebemos muitas novidades e as que aparecem aqui obedecem a um único critério: o nosso gosto pessoal. Somos uma livraria generalista, direccionada para os fundos de catálogo, e é nisso que tentamos ser bons", diz Pinho. A tramar qualquer coisa. Desde que abriu portas na Rua São Filipe Nery, a Trama também apresenta mensalmente uma programação recheada de concertos, apresentações, sessões de poesia, workshops e exposições. "O nosso objectivo nunca passou por vender só livros. Também queremos que na Trama aconteça alguma coisa nova todas as semanas", explica Catarina Barros, 26 anos. Tiago Sousa, Gonçalo Prazeres, Diogo Chaves, Goran Titol, Rui Pereira, a banda Prowl e João Berhan são alguns dos músicos que vão dar música à Trama em Abril. Há aqui um amor notório à causa. "O que aqui acontece tem a ver com o nosso imaginário do que deveria ser uma livraria. Um sítio que é mais do que um espaço comercial, onde se cria e estabelecem relações entre pessoas, através dos livros, da música e do cinema", conta Ricardo Ribeiro, 30 anos, sócio da Trama. Muitas vezes saem da livraria já depois da meia-noite e na manhã seguinte estão de serviço. "Numa semana podemos chegar às 70 horas de trabalho. Saímos muitas vezes dormentes, mas quase sempre entusiasmados." Os dois livreiros assumem, no entanto, que o propósito destes eventos é dar a conhecer a livraria: "O que organizamos paralelamente serve para ajudar a publicitar o espaço." O Senhor Teste de Paul Valéry, dado como esgotado na editora, é um dos destaques do primeiro piso. No segundo, encontrámos um conjunto de livros da Relógio d"Água a preços de saldo. Há também uma edição inglesa de Leaves of Grass de Walt Whitman, entre outros livros usados. Quanto mais criteriosos são na escolha das obras, mais vendem. Dois pisos, muitos sofás virados para duas janelas enormes e uma pequena cafetaria ajudam o leitor a sentir-se em casa, rodeado por lombadas e capas que não vai encontrar nas livrarias de grandes dimensões. Blogues também ajudam"O sucesso da Pó dos Livros está muito ligado ao blogue. Muitos leitores vêm cá porque seguem a nossa página na Internet", começa por explicar Jaime Bulhosa, sócio da Pó dos Livros, a par de Isabel Nogueira. Nesta livraria bairrista, localizada na Avenida Marquês de Tomar, a dois passos da Fundação Calouste Gulbenkian, não encontrámos livros cobertos de pó, mas duas salas repletas de estantes pretas, paredes azuis e muitas velharias espalhadas entre os livros. É uma livraria moderna com visual retro, aberta desde Setembro de 2007. Os clientes têm um "grau cultural muito elevado" e é a este público que Jaime Bulhosa se dirige quando escreve no blogue, destacando algum título ou contando as peripécias que diariamente acontecem na livraria. Sem capital para investir em publicidade, aposta nos sites, blogues e redes sociais para divulgar os seus espaços e livros. Para além dos textos, no blogue há vídeos caseiros feitos por Jaime Bulhosa, com a câmara do telemóvel. O sucesso é imediato. Em cima das mesas, muitas novidades seleccionadas: "Nos lugares de destaque colocamos livros considerados mais elitistas porque os best-sellers são menos procurados", diz Jaime Bulhosa, que se dirige a um nicho, apostando numa selecção diferenciada. Aqui também há eventos, mas ao contrário da Trama, que aposta muito na música, na Pó dos Livros são mais as apresentações, tertúlias e debates políticos. No último mês organizaram um "atelier estrambólico" para crianças dos 5 aos 9 anos, sobre o universo do Animalário Universal do Professor Revillod. Uma equipa de livreiros com mais de 20 anos de experiência é outra das mais-valias. "A Pó dos Livros não é só comércio. É também um prazer", sublinha Bulhosa. Aposta na especialização"É um sinal de progresso existir numa cidade uma livraria de poesia. Não é só um SPA ou um restaurante gourmet que torna uma cidade cosmopolita", diz Changuito, enquanto acende mais um cigarro. Poesia Incompleta é o nome da primeira livraria exclusiva de poesia em Portugal que abriu no n.º 11 da Rua Cecílio de Sousa, em Novembro de 2008. Aqui não há eventos. O espaço é pequeno, mas tem um sofá vermelho que convida a sentar e a meter conversa. "É preciso muito pouco para um espaço destes subsistir. Não tenho empregados e a renda, embora me custe muito a pagar, não é astronómica." O importante é disponibilizar a maior diversidade possível, desde edições de autor a tudo o que de relevante se edita em Portugal, e muitos livros importados, em várias línguas. "Dá para ir aguentando", conta. Mantém um segundo emprego: a exploração do bar do Teatro da Barraca. "Não pretendo comprar um Bentley com esta livraria. E quem já percebeu isso, é aqui que compra os seus livros de poesia", ressalva, com a ironia de sempre. O blogue potencia a venda através da Internet e "dá uma ajuda". "Mas não deixa de ser um contra-senso. Em média, [o blogue] recebe 250 visitas diárias e existem momentos em que estou completamente só. No Facebook, a livraria tem 1000 amigos e quase nunca aparece cá algum." "As livrarias independentes têm de ser acarinhadas. E acarinhar não é ser amigo no Facebook ou encontrar o livreiro na rua e dizer "tenho de lá ir". É mesmo ir." Avessa a modasQuem não vai em modas é a Letra Livre, a casa dos "livros impossíveis", com as portas abertas desde 2006, na Calçada do Combro. "Não estamos no mundo do espectáculo. O que me importa é comprar e vender bons livros", diz Eduardo de Sousa. Especializada em literatura e ciências humanas, a Letra Livre disponibiliza livros novos e usados. Dá primazia às pequenas editoras como a Averno, Antígona, Frenesi, Fenda, Deriva ou & Etc, que têm direito a prateleiras próprias. "O que nos interessa não é a literatura ligeira, de grande circulação, mas a boa literatura. Se alguém quer ler um Foucault, um Derrida ou um Marx, acabará por cair nestes espaços." Os próprios livros que editam, com tiragens muito reduzidas, não têm pretensões comerciais: "Publicamos livros que ninguém quer editar em Portugal. Também lançamos alguns de poesia e estamos a preparar a edição de alguns clássicos", explica Eduardo de Sousa, realçando que a actividade principal continua a ser a livreira. Pontualmente, há uma ou outra apresentação de obras publicados pela Letra Livre e de amigos da casa. A publicidade está bem longe das preocupações: "Os leitores que verdadeiramente interessam sabem dos espaços que existem. O mundo é pequeno." Este ano, a Letra Livre abriu um novo espaço, na Galeria Zé dos Bois, seguindo os mesmos princípios. "Estamos a sobreviver com alguma tranquilidade, mas sem grandes pretensões", afirma. O prazer vem antes do negócio. Afinal, as livrarias independentes não pretendem imitar as grandes cadeias dos espaços comerciais. Embora não deixem de aplicar o ditado "quem não tem cão caça com gato". Só que os livros são outros, os leitores também. E como pergunta Changuito, "se vamos ao melhor dentista ou se levamos o nosso carro à garagem da Mercedes para não sermos enganados, por que não vamos às melhores livrarias?".»

Por Eduarda Sousa

(in Público).

segunda-feira, abril 12

sem título


«Se a troco de umas moedas posso chegar ao céu, porque têm inveja de mim?»

Citação de um viciado em livros ou de outra coisa qualquer.

Uma velhinha

(10 da manhã do dia 22 de Dezembro de 2009)

Uma senhora, tão magrinha como velhinha, vem à Pó dos livros quase todos os dias de manhã e pede emprestados entre 20 e 50 cêntimos. No dia seguinte, vem e paga, para no outro voltar a pedi-los. Há dias em que se esquece de pagar, noutros quer pagar duas vezes. Não sabemos porque o faz, se por gostar de falar connosco, ou por gostar de estar junto dos livros. Hoje foi diferente, não pediu dinheiro emprestado. Em vez disso:
-
- Empreste-me, por favor, um livro dos novos, porque os velhos já li todos.

(11 da manhã do dia 9 de Abril de 2010)
-
- Bom dia, como está? Em que posso ser-lhe útil?
- Para lhe dizer a verdade, não sei bem…
- Não se recorda do título do livro que pretende, é isso?
- Não sei, deve ser… Sabe quando estamos sentados a olhar para o horizonte sem nada focar a não ser o pensamento?
- Sim, sei.
- E depois de um impulso súbito o nosso cérebro dá ordem às pernas para que comecem andar, sem nenhum destino ou intenção especial? Acompanhados apenas das próprias cogitações, deixamos que as pernas, sem nenhuma intervenção da nossa vontade, a não ser a de que cada uma delas tente estar sempre na dianteira da outra, de forma a possibilitar o movimento que nos transporta para a frente, seguindo caminho?
- Sim...
- E, enquanto avançamos, cruzamo-nos com pessoas que vêm na rua em sentido contrário, desviamo-nos delas e ouvimos o som das suas vozes sem prestarmos atenção ao que dizem, sentimos um pequeno cão que as acompanha e nos fareja os pés. Depois, passamos pelos edifícios dos escritórios, das habitações, da igreja, dos cafés, paramos nos semáforos vermelhos e atravessamos no sinal verde e, de repente, sem darmos por isso, sem nos recordarmos de nada, nem sequer do percurso que instantes antes percorremos, provocados por um estímulo externo, acordamos de um estado quase onírico, num lugar completamente inesperado. Tenho a sensação de que ando assim, ultimamente, como se de facto as minhas pernas fossem autónomas e independentes do meu corpo, como se se movimentassem sozinhas, traçando aleatoriamente o meu destino. Sinto como se a minha vida estivesse de pernas para o ar. Agora que penso nisso, deve haver uma razão qualquer para que as minhas pernas me tenham trazido até esta livraria...
- Eu posso ajudar. De quanto é que precisa?
- Trinta cêntimos. Trago amanhã.
- Não se preocupe.

Jaime Bulhosa

Descubra as diferenças

Só aparentemente estas capas são iguais. No entanto, podemos encontrar oito subtis diferenças. Divirta-se a encontrá-las:


Soluções: (1- Editora; 2 – Autor; 3 - Título; 4 – Colecção; 5 – Tatuagem; 6 – Sexo do modelo; 7- Frase; 8 – Cor do lettring)

sábado, abril 10

Adoecer


«Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações. Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de enteajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade. Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima. Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.»


edição: Relógio D’Água
título: Adoecer
autor: Hélia Correia
formato:
n.º pág.: 296
isbn: 9789896411602
pvp: 13.50€

sexta-feira, abril 9

Jaume Cabré ganha Prémio de Honra das Letras Catalães

O filólogo e escritor Jaume Cabré foi o vencedor do 42.º Prémio de Honra das Letras Catalães. Em Portugal, há dois livros editados do escritor espanhol: As Vozes do Rio Pamano e Sua Senhoria, ambas obras editadas pela Tinta da China. As Vozes do Rio Pamano foi considerado em 2008 um dos melhores livros editados em Portugal, numa obra de um fulgor e genialidade incrível, tendo como pano de fundo a Guerra Civil espanhola. Segundo o júri, Cabré tem uma obra «sólida e madura». O Prémio de Honra das Letras Catalães apresenta o valor monetário de 30 mil euros. Além de escritor, Cabré é professor e argumentista televisivo e cinematográfico. «É uma honra receber este prémio e agradeço a distinção. Agora vou continuar a escrever aquela novela que ficou interrompida quando o júri ligou (…) Sou uma pessoa que gosta de comunicar as suas paixões aos outros. Ler e escrever é a minha vida porque é uma maneira de ver o Mundo.» O prémio será entregue no dia 14 de Junho, no Palau de la Música, em Barcelona.

ler mais sobre Jaume Cabré aqui e a aqui

Alegrias do casamento


Uma livraria é procurada, na maior parte das vezes, por gente que gosta de ler e que vem comprar livros, mas também o contrário.

- O senhor, por acaso, não quer comprar uma biblioteca inteira de livros? É uma colecção de livros em óptimo estado que ganhei de herança.
- Que tipo de livros são?
- Ora essa!?... São livros de todas as cores!
- Nós não compramos livros a particulares. No entanto, se não leva a mal a pergunta, porque não fica com eles para si?
- Para mim?... E que vou eu fazer com um montão de livros?
- Eu diria… Lê-los!?...
- Eu ler?... Tenho apenas trinta e cinco anos.
- E o que é que isso tem a ver?
- Não, eu não! Ainda para mais sou solteiro, ia lá agora pôr-me a ler... Ainda se fosse casado.
-
Jaime Bulhosa

quinta-feira, abril 8

Curiosidades nominais


Vá-se lá saber porquê, Jane Austen detestava o nome Richard (veja-se o primeiro parágrafo de A Abadia de Northanger) e boicotava-o resolutamente.
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O nome Wendy diz-se que foi inventado por J. M. Barrie, autor de Peter Pan.
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A primeira mulher de Evelyn Waugh chamava-se Evelyn. Será esta a única ocasião na história da literatura em que esta coincidência homónima se verificou?
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Diz a lenda, que Florence Nightingale foi a primeira mulher a ser baptizada com este nome; os seus pais quiseram celebrar o facto de ela ter nascido nesta cidade italiana. A sua irmã, Parthenope, teve menos sorte, tendo nascido em Nápoles. (Parténope era o nome antigo da cidade).
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Charles Dickens adoptou o nome Florence para a jovem heroína do seu romance Dombey & Son (1848). O que não fica claro é como é que Dickens se lembrou de tal nome, anos antes de a senhora com a lâmpada na mão se ter tornado famosa na Guerra da Crimeia, em 1855.

quarta-feira, abril 7

Contos da América profunda


"(...) no momento em que uma pessoa tomava uma das verdades para si própria, chamando-lhe a sua verdade, e se esforçava por conduzir a sua vida de acordo com essa verdade, a pessoa tornava-se grotesca e a verdade que abraçava tornava-se uma mentira."
in Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson
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Winesburg, Ohio é um vivo retrato de uma pequena povoação da América profunda. O fio condutor da narrativa é o jovem George Willard, um repórter do jornal local a quem os habitantes da povoação confidenciam as suas esperanças, sonhos e medos. Com uma escrita tão depurada como sensível, Anderson mostra-nos a vida íntima de figuras estranhas e comoventes marcadas pelo desassossego e pela solidão.
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Winesburg, Ohio é considerada uma obra de referência da narrativa norte-americana e o quilómetro zero de onde partem, entre muitos outros, Hemingway, Faulkner, Cheever, Carver e Updike.
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"Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson é um daqueles livros de tal modo conhecidos pelo título que imaginamos saber o que há dentro dele: o esboço de uma população vista mais ou menos em corte transversal, de uma pequena cidade do Midwest americano. É tanto isto quanto os quadros de Edward Munch são retratos da classe média norueguesa na viragem do século. O mais importante, para Anderson e para Munch, não são as roupas e os móveis ou sequer os corpos, mas o grito que eles escondem - a pressão ou torsão psicológica sob a aparência social. Por mais que o seu tom possa soar como factual, Winesburg, Ohio é febril, fantasmático, onírico. Anderson tinha apropriadamente intitulado esta colectânea de contos frouxamente interligados O Livro do Grotesco; o seu editor, B. W. Huebsch, sugeriu um título mais apelativo. O livro foi publicado em 1919, quando Anderson tinha quarenta e três anos; valeu-lhe a fama e continua a ser a sua obra-prima."
do posfácio, de John Updike
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Título: Winesburg, Ohio
Autor: Sherwood Anderson
Tradução: José Lima
Edição: Edições Ahab, 2010
ISBN: 9789899634039
PVP: 17,95€

terça-feira, abril 6

Diário Volúvel


Título: Diário Volúvel
Autor: Enrique Vila-Matas
Tradução: Jorge Fallorca
Edição: Teorema, 2010
ISBN: 9789726958758
PVP: 17,00€
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"O Sol irrompe com o despertar da manhã, última quarta-feira deste estranho Fevereiro primaveril. Não sei porquê, gosto de ler certos autores quando comentam os livros dos outros. Habituei-me a fazê-lo em casa, orientado na direcção do Sol, cujos raios me obrigam a um esforço acrescido para ler, embora seja um esforço - não gosto que ler me seja sempre tão fácil - que acabo por agradecer. Esta manhã, por exemplo, deparo-me com Julien Gracq fascinado perante umas linhas onde Proust descreve os passos de Gilberte pelos Campos Elísios. O grande leitor que é Gracq detém-se feliz nesse ponto em que Proust fala da neve sob a balaustrada da varanda onde o Sol que emerge deixa fios de ouro e reflexos negros.
«É perfeito», comenta Gracq, «não há nada a acrescentar: aqui está uma conta saldada como deve ser com a criação, e Deus a pagar com uma moeda que tilinta com tanta solidez como uma moeda de ouro em cima da mesa do caixeiro.» O que a mim me parece que é na realidade perfeito é o comentário de Gracq. A sua moeda ficou a tilintar-me na memória. E, quem sabe, talvez também a manhã seja perfeita. Breve arrebato de alegria e de pequena festa, graças apenas a uns poucos lampejos de sol e leitura. Como se tivesse iniciado uma segunda vida.
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(...)
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Começar é muito fácil. Mas o pior vem depois, quando é preciso continuar a dar-lhe. A princípio, começa-se, chega-se, procura-se a protecção de um grupo geracional e devora-se o mundo. O difícil vem depois, quando é preciso continuar a devorar o mundo. O mais difícil é manter-se, para já nem falar em acabar. Ödön Von Horváth costumava dizer: «A maior alegria do mundo é começar.» Mas não passará à história por isso, mas precisamente pela sua maneira de acabar. Morreu fulminado por um raio em plenos Campos Elíseos de Paris. Von Horváth foi um caso raro como escritor, porque soube começar e acabar."
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Enrique Vila-Matas, in Diário Volúvel

segunda-feira, abril 5

Não sei se é capaz de me ajudar?

Ulisses e as Sereias - John William Waterhouse
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- Não sei se é capaz de me ajudar? Eu estou à procura de um livro que o meu professor disse que nós devíamos ler, porém, de momento, não me ocorre o título.
- Será que me sabe dizer, mais ou menos, qual é o enredo?
- O meu professor falou numas aventuras extraordinárias de um herói grego que leva imensos anos a regressar a casa. Acho que o nome dele era qualquer coisa como... Hércules.
O livreiro, identificando de imediato o livro que o cliente pretendia:
- Creio que o livro que pretende é a Odisseia de Homero e o nome do herói grego é Ulisses.
- É isso mesmo diz o estudante todo contente.
- Só um momento... vou buscar.
Passado poucos segundos, o cliente, dirigindo-se ao balcão:
- Não! Este não. Eu quero um livro.
- Mas este é um livro. E é o livro que me pediu.
- Não! Você não me entende. Tem que ser um livro!
O livreiro olha para o tecto tentando ver o céu, na esperança de uma intervenção divina, mas do tecto nada veio.
- Vamos lá ver se nos entendemos… O que eu lhe dei para as mãos não é um livro?
- Sim, mas tem que ser um livro para ler, de aventuras, não um livro cheio de versos e poemas.
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Jaime Bulhosa

quinta-feira, abril 1

Hoje é dia um, dia de fazer nenhum

Pregue uma boa mentira no seu emprego, aos colegas, ao chefe, ao patrão e a si mesmo e vá para casa ler um bom livro e ouvir uma boa música.

Bandas sonoras para alguns clássicos:

1- Dom Quixote, de Miguel Cervantes (Miles Davis – Concierto de Aranjuez)

2- A Origem das Espécies, de Charles Darwing (Ravel – Bolero)

3- Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski (Mozart – Requiem - Lacrimosa)

4- Os Miseráveis, de Victor Hugo ( Verdi – Nabuco - O Coro dos Escravos)

5- O Poço e o Pêndulo, de Edgar Alan Poe (Stravinsky – Sagração da Primavera)