terça-feira, agosto 31

Quimera

- Bom dia.

- Bom dia. Qual o valor de todos os livros?

- De todos, como... refere-se ao valor de todos os livros que tenho em Stock na livraria?

- Sim de todos.

Começo a ficar nervoso.

- Inclusive os que ninguém quer ler?

- Sim.

- Os clássicos também?

- Sim.

- Poesia e vampiros?

- Já lhe disse que sim!

- Querer dizer então… que vai comprar todos os livros que estão na loja. Está a brincar, não está?

- Não, não estou a brincar.

- E vai pagar tudo em dinheiro?

- Você é desconfiado. Sim, vou pagar em dinheiro, ponha tudo em sacos.

Coloco as mãos na cabeça e exclamo:

- Não posso acreditar!

Quando me preparo para fazer o negócio da minha vida, de repente, oiço um murmúrio etéreo, onírico, de uma voz vinda do fundo da loja.

- Jaime… Jaime...

- Humm.

- Jaime… Jaime… Estás a ouvir-me?

- Humm.

- JAIME!

Puufff!

- Desculpa, estava...

- Puxa! Sempre distraído e a falar sozinho.


Jaime Bulhosa

Salazar - Biografia Política

Não sei se foi por termos pedido satisfações. No entanto, estamos muito felizes por já ter chegado.


A primeira biografia académica escrita sobre Salazar. O autor, Filipe Ribeiro de Meneses, é um investigador português a leccionar actualmente na University of Ireland, na Irlanda: «... as consequências das decisões de Salazar eram sentidas por povos na Europa, África e Ásia. Salazar reconfigurou a política portuguesa, embora não tivesse partidários pessoais nem estivesse disposto a cortejar a opinião pública para os conquistar. Guiou o seu país através do campo minado da diplomacia e política da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial, emergindo incólume da última, não obstante as suas idiossincráticas alianças políticas e a sua neutralidade em tempo de guerra. Sob Salazar, Portugal foi membro fundador da NATO e da EFTA e diligenciou no sentido de se associar à CEE. Simultaneamente, recusou-se a aceitar a inevitabilidade da descolonização, mantendo as suas colónias africanas e asiáticas e desenvolvendo uma aliança flexível com a Rodésia e a África do Sul para proteger as suas mais preciosas possessões, Angola e Moçambique. Quando Salazar saiu de cena, Portugal era alvo de críticas infindáveis nas Nações Unidas e perdera para a União Indiana o grandiosamente intitulado Estado Português da Índia, mantendo todavia a sua atitude de desafio perante o resto do mundo.»

edição: Dom Quixote

autor: Filipe Ribeiro De Meneses

formato: Encadernado 16x24cm

n.º pág.: 803

isbn: 9789722040051

pvp: 37.00€

segunda-feira, agosto 30

Protesto

Quando me sinto preterido, excluído, enganado, gosto de dizer: «quando morrer vou pedir satisfações a Deus». Sem pensar que, se alguma vez tiver oportunidade de lhe pedir satisfações, será aqui, agora, imediatamente, sem demora, hoje.

Livreiro anónimo amofinado (para não dizer outra coisa) por não lhe terem sido ainda entregues, ao contrário de outros e como prometido, os exemplares encomendados da Nova Biografia, Salazar - Biografia Política, de Filipe Ribeiro de Meneses, das Publicações Dom Quixote.

Nota: Aos clientes cujas expectativas defraudámos, as nossas sinceras desculpas e um pouco mais de paciência.

sexta-feira, agosto 27

Um homem ridículo

Eu sei que sou ridículo. Não era necessária toda esta exaltação por causa de um simples livro, contudo, fiquei exasperado.

Outro dia perguntei ao meu colega Carlos – “rato de alfarrabista” –, se me conseguia arranjar por milagre, um exemplar de um livro de Dostoiévski. Calculem o que senti, quando ele me responde, de sorriso nos lábios: «já o tivemos na Pó dos Livros e vendeu-se imediatamente, por dois euros». Nem queria acreditar no que ouvia. Tratava-se de um exemplar do livro com o conto de Dostoiévsky, O Sonho de Um Homem Ridículo, editado pela Fomento Publicações, na série Mosaico, esgotada há uma data de anos e, de que eu faço colecção. Por sorte ou destino, não sei bem qual, a cliente era nossa conhecida. Sem perder tempo, ridiculamente, de joelhos ao telefone, roguei-lhe encarecidamente que me vendesse o que lhe tínhamos vendido a ela. Podem dizer, sou um homem feliz.

Agora mais calmo, com o meu exemplar na mão, transcrevo apenas um excerto do conto, porque a sua totalidade seria excessiva para um post. No entanto, em compensação, deixo-vos com um filme de Aleksandr Petrov, conhecido pelas suas animações feitas a partir de pinturas a óleo, como por exemplo a de O Velho e o Mar, de Ernest Heminghway (Oscar Animated Short Film 1999), A Sereira, de Aleksandr Pushkin ou, O Meu Amor, de Ivan Shelev (nomeado para Oscar Animated Short Film 2008), entre outros. A animação é apenas uma adaptação do conto de Dostoiévski e pode ser de difícil compreensão, para quem não conhece o texto e como quase todos os filmes, fica aquém do livro. Está legendado em espanhol. Porém, acho que vale a pena ver e ouvir este admirável filme, de uma estética russa, muito peculiar

Nota: podem encontrar uma tradução (Nina Guerra e Filipe Guerra) deste conto no livro A Submissa e outra Histórias, Editorial Presença 2006


Jaime Bulhosa


O Sonho de Um Homem Ridículo

Sou um homem ridículo. Agora chamam-me doido, mas não é nada disso; não subi de graduação e sou sempre o mesmo homem ridículo que outrora era. Mas já não me zango, presentemente. Agora todos os homens são para mim agradáveis, mesmo quando zombam de mim: é até nessas ocasiões que me são mais agradáveis. Riria de bom grado com eles, não precisamente a meu respeito mas por lhes ter amizade, se me não sentisse tão triste ao olhá-los. E sinto-me triste porque eles ignoram a verdade, ao passo que eu a conheço. Oh! como é penoso ser o único a conhecer a verdade! E dizer eu que eles jamais a conhecerão! Não poderiam compreendê-la…

Antes de ter descoberto a verdade, afligia-me muito o parecer ridículo. Oh! não parecia apenas: era-o. Fui-o sempre. Sei isto desde que tenho pensar, sabia-o já talvez aos sete anos, sabia-o antes de ir à escola. Na Universidade, quando mais estudava mais claramente me compenetrava de que era ridículo. Por assim dizer, todos os meus estudos universitários tiveram como resultado único convencerem-me doutamente de que era ridículo, cada ano trazendo-me um novo argumento. E mais tarde, ao longo da vida, as coisas seguiram uma progressão de todo em todo similar. Cada ano aumentava e confirmava em mim a consciência do meu ridículo, de todos os pontos de vista. Sempre e em toda a parte escarneciam da minha pessoa; mas ninguém adivinhava que, se existia no Mundo um Homem convencido do seu ridículo, esse homem era eu próprio. E que ninguém compreendesse isto era o que me humilhava mais que tudo. Todavia, a culpa era minha; tive sempre tanto orgulho, que nunca, por nada deste Mundo, cairia em estar de acordo com alguém quanto a ser eu um homem ridículo. Este orgulho crescia com a passagem dos anos e, certamente, se tivesse podido acrescentar permitir-me eu tal confissão perante não importa quem, creio bem que, nessa mesma tarde, despedaçaria a cabeça com um tiro de revólver. […]

[…] Sim, era naquela noite que eu devia matar-me. Tinha-o irrevogavelmente decidido dois meses antes, e, mesmo tão pobre como sou, comprara, nessa ideia, um esplêndido revólver e carregara-o logo. Os dois meses, porém decorreram por inteiro e o revólver permanecia na minha gaveta. Tudo me era indiferente, não é assim? Mas queria que isso fosse para mim menos indiferente, a morte, queria matar-me em um momento em que isso me não fosse indiferente de todo. Por quê? Não sei. De modo que, durante esses dois meses, todas as tardes ao penetrar em casa pensava em matar-me. Mas o momento não chegava. E eis que a estrelinha me anunciava, agora, que ele viera, Decidi então que seria absolutamente nessa noite. […]











Imbeciclopédia XII

A universidade desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez.

Anton Tchékhov




Epigrama

A vida é como um livro. O título, o baptismo. O índice, as esperanças vãs dos progenitores. O prólogo, a infância. O enredo, uma longa errata cheia de gralhas e erros. O apêndice, a velhice. O Epílogo, a morte. O pior é que não se pode fazer segunda edição.

Livreiro anónimo (ideia tirada de um poema de R.J. Crespo)

O segredo dos seus olhos


Benjamín Chaparro, vice-secretário num tribunal de instrução, vê chegar ao seu departamento o caso de homicídio de uma bela mulher que ao partir deixou um coração dilacerado pela perda. Identificado com a dor do marido da vítima, Benjamín vai além do que lhe é permitido para descobrir e punir o culpado. Esta luta obstinada pela verdade e pela justiça terá consequências que ele não poderia ter adivinhado. Passados trinta anos, Benjamín ainda não esqueceu o caso. Já reformado, decide escrever um romance, como forma de fazer um balanço da vida e exorcizar os fantasmas do passado.

edição: Alfaguara

título: O Segredo dos seus olhos

autor: Eduardo Sacheri

tradução: Vasco Gato

formato: 15x24cm

n.º pág.:309

isbn: 9789896720407

pvp: 18.50€

quinta-feira, agosto 26

Life's is too short to read a bad book


Uma livraria não é um local que convide muito à frequência de bêbados. Mas, cada vez mais livrarias têm um café e, esse facto, pode levá-los ao equívoco. Há uns anos, numa livraria com café onde eu trabalhava, um homem já velho de livro debaixo do braço e completamente alcoolizado – notava-se à distância só pelo cheiro –, entra, atraído pelo reclame da rua que dizia Livraria/Café. O colega que estava a meu lado atende-o.

- Faça favor, que deseja?

- Ora aqui tem um local que junta o útil ao agradável.

O livreiro desviando a cara para o lado por causa do bafo de Baco, agradece e volta a perguntar.

- Muito obrigado, mas qual é o livro é que deseja?

- O livro, já eu aqui tenho. O que eu quero é um copo de vinho.

O meu colega, um pouco irritado e com alguma maldade, pergunta-lhe:

- E qual dos vinhos prefere, do puro ou do aguado?

Sem demorar muito a responder, o homem com uma sabedoria literária, diz:

- Sabe, tanto me faz, o vinho a mim cai-me todo bem. Já a água… nem por isso, é como a má literatura.


Jaime Bulhosa

Bater no fundo

Sou um homem doente… sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite a medicina e os doutores. Além do mais, é intolerável como sou supersticioso; enfim, o suficiente para respeitar a medicina. (Sou bastante instruído para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) sim, é por maldade que eu não me trato. Aposto, meus senhores, que isso é uma coisa que não compreendeis. Mas eu, sim! Evidentemente, não serei capaz de explicar-vos a quem ando eu a tramar seguindo deste modo a minha maldade; sei perfeitamente que não ando a tramar os médicos quando recuso tratar-me; sou a pessoa mais bem colocada para saber que isso só a mim prejudica e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é por maldade. Dói-me o fígado. Tanto melhor, pois que me doa ainda mais!

quarta-feira, agosto 25

Hambúrgueres do McDonald's


Num encontro casual numa noite de fim-de-semana entre o Vasco de sete anos e a Leonor de 10 anos, o Vasco, aproveitando a pausa no passeio e o tema de conversa lançado pelos pais, decide, todo contente pelo o facto da sua amiga mais velha lhe estar a prestar atenção, pois raramente se digna a falar com ele na escola, contar como tinha passado a última semana.
Devo acrescentar que o relato que Vasco fez das suas refeições não é totalmente exacto: Simplesmente, porque eu detesto hambúrgueres do McDonald’s.

- Olha Leonor, na segunda fui ao McDonald’s, na terça fui outra vez ao McDonald’s, depois fui às Pizas, na quinta voltei ao McDonald’s…

A Leonor, com uma carinha de quem não quer acreditar no que ouve, apontando o dedo da inveja para o Vasco, diz em tom de acusação:

- Mãeee… eu quero ter uma vida como a dele.

Jaime Bulhosa

Ler em silêncio


Pai, estás a ler para dentro da cabeça?

Madalena, 3 anos

Ambrósio era um leitor extraordinário. «Quando ele lia», disse Santo Agostinho. «os seus olhos esquadrinhavam a página e o seu coração procurava o sentido, mas a sua voz mantinha-se em silêncio e a sua língua não se movia. Qualquer pessoa podia chegar até ele livremente e as visitas não eram normalmente anunciadas, de forma que, muitas vezes, quando o vínhamos visitar, encontrávamo-lo a ler assim, em silêncio, pois nunca lia em voz alta.»

[...] Para santo Agostinho, contudo, tal forma de ler parecia suficientemente estranha para merecer um registo nas suas “Confissões”. Pode deduzir-se que este método de leitura, este escrutínio silencioso da página, era no seu tempo algo fora do comum e que a leitura normal se realizava em voz alta. Embora se possam encontrar exemplos de leitura silenciosa em datas anteriores, foi somente no século X que esta maneira de ler se tornou usual no Ocidente. […]

Manguel, Alberto, Uma história da Leitura, Editorial Presença (1998)

terça-feira, agosto 24

É um livro!



(via Cadeirão Voltaire)

Solilóquio

- Blá, blá, blá, blá…

Enquanto isso, eu pensava: de que pode um digníssimo indivíduo falar com mais prazer?

Resposta: de si próprio.

Portanto, falará dele.

- Blá, blá, blá, blá…

Livreiro anónimo ouvindo um solilóquio depois de ter pedido um conselho sobre si. (Ideia retirada de um pequeno excerto de Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo, B.I.017

Obrigadinho, ó amigo.


O aumento nos índices de escolaridade não se fez reflectir no aumento dos índices de leitura, mas sim no desejo de ser lido.

Gabriel Zaid


Um conhecido com quem me cruzei na rua, num destes dias, e que já não me via há anos, confessava, muito entusiasmado, ser um recente e feliz proprietário de mais um blogue. Acrescentava também que havia descoberto, não há muito, o prazer da escrita. Com muita exaltação, não sei bem porquê, talvez por sermos colegas da blogosfera, elogiava, exageradamente, o blogue da Pó dos Livros.

- Eh pá, o vosso blogue é muito giro, têm imenso jeito. - E engrossava, - Não sabia que também eras escritor!

- Escritor!?...

- Não, estou a falar a sério, tens imensa piada. Sabes, eu também sou, escrevo poesia no meu blogue.

- Ah!

Era inútil explicar-lhe que existe uma grande diferença entre ter um blogue e ser um escritor ou, pretender sê-lo.

- Digo-te mais… - continuava, com toda a segurança, – sabes o que tu devias fazer?

- Não faço mínima ideia.

- Devias escrever um romance.

E despediu-se, convencido de que me tinha feito um grande favor.

- Obrigadinho, ó amigo.


Jaime Bulhosa

Sempre Vivemos no Castelo

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.» Assim inicia Shirley Jackson o seu último romance, de 1962, considerado pela crítica uma das obras-primas da literatura norte-americana. Neste, atinge o auge a sua perícia narrativa de tornar real ao leitor um mundo inverosímil, conseguindo ao mesmo tempo convencê-lo de que a loucura e o mal habitam os cenários mais comuns.

edição: Cavalo de Ferro

título: Sempre Vivemos no Castelo

autor: Shirley Jackson

tradução: Maria João Freire de Andrade

formato: 14,5x22,5cm

n.º pág.:207

isbn: 9789896231194

pvp: 16.00€

sexta-feira, agosto 20

As novas tecnologias e o fim dos livros

Creio, portanto, no sucesso de tudo aquilo que lisonjeie e alimente a preguiça e o egoísmo do homem; o elevador pôs fim às escadas dentro de casa; o fonógrafo destruirá provavelmente a tipografia [...]

-Permita-me que lhe pergunte – disse ele – como é que substituirá a ilustração dos livros? O homem, que é uma eterna criança grande, reclamará sempre imagens e gostaria de ver a representação das coisas que ele imagina ou que lhe contam.

- A sua objecção não me embaraça – repliquei. – A ilustração será abundante e realista e poderá satisfazer os mais exigentes. Ignora talvez a grande descoberta de amanhã, aquela que em breve nos deixará estupefactos. Refiro-me ao cinetógrafo de Thomas Edison.[...]

E o Jornal diário, perguntar-me-ão, a Imprensa, tão considerável em Inglaterra e na América, o que será feito dela?

Não se preocupem, ela seguirá o rumo geral, pois a curiosidade do público não cessará de crescer [...] Na redacção de um futuro grande jornal fonográfico: o importante será ser-se informado rapidamente e em poucas palavras, sem comentários.

Octave Uzanne, O Fim dos Livros, (1895)

Aléksei K. Tolstói e Ivan Turguéniev

Aleksei Konstantinovitch Tolstói dá-nos aqui duas histórias de amor envoltas no ambiente do mito vampírico: O Vampiro (Upir), de 1841, e, mais ou menos da mesma época mas nunca publicada em vida do autor, A Família do Vampiro (Semiá Vurdalaka). Os títulos russos contêm duas palavras para a mesma “realidade”. Para avaliarmos a importância destas histórias no panorama literário e imagético mundial, não esqueçamos que, na época, este mito tinha apenas bases e contornos folclóricos e não era ainda um fenómeno cultural de massas, datando do período pré-Drácula de Bram Stoker.

Biografia: Aleksei Konstantinovitch Tolstói (1817-1875) nasceu em Petersburgo numa família da alta aristocracia, foi companheiro de infância do futuro imperador Alexandre II, o Libertador. Educado em casa, entrou aos 16 anos para o serviço público nos Arquivos de Moscovo. Estudou na Universidade de Moscovo, onde absorveu as ideias da filosofia idealista alemã. Foi o primeiro dos Tolstói (o segundo foi Lev, o de Guerra e Paz), mas não há provas de que exista qualquer relação de parentesco entre as duas famílias. Muito interventivo política e socialmente, foi um crítico mordaz da opressão política e da inépcia das autoridades, mas também do materialismo vulgar dos revolucionários russos, conseguindo ser mal visto tanto pela direita como pela esquerda.



Nasci há trinta anos, filho de proprietários rurais bastante ricos. O meu pai era um jogador apaixonado; a minha mãe era uma senhora de carácter… uma senhora muito virtuosa. Mas não conheci nenhuma mulher a quem a virtude proporcionasse menos satisfação. Oprimida sob o fardo das suas qualidades, atormentava toda a gente, a começar por si própria.

Biografia: Ivan Sergeyevich Turguéniev nasceu em Orel no Império Russo a 9 de Novembro de 1818. A sua Obra-Prima Pais e Filhos é considerada uma das grandes marcas do século XIX. Aos 25 anos, com a publicação de Parasha obteve, pela primeira vez, a atenção da crítica. Com os romances Rudin, Gnedo, Dvorianskoe e Nakanune deixa a sua marca literária com o mérito de ter sido o primeiro escritor russo com reconhecimento considerável na Europa Ocidental. É também conhecido como o inventor do termo nihilista. Termo esse que aplicou ao protagonista do romance Ottsy I Deti e que acabou por chegar aos nossos dias com o significado de ausência de sentido, finalidade ou resposta, aplicado a áreas tão diversas como a arte, as ciências humanas, a literatura, a ética ou a moral, entre outros. Em 1862 na sequência da publicação de Ottsy I Deti e da controvérsia à sua volta gerada, abandona a Rússia e, após passagens pela Alemanha e Inglaterra, estabelecesse-se em Bougival, arredores de Paris, onde acabaria por morrer em 3 de Setembro de 1883.

quinta-feira, agosto 19

Os Flamingos Perdidos de Bombaim


Uma descrição apuradíssima da sociedade urbana contemporânea e da sua obsessão indecorosa com a celebridade e o sensacionalismo; é também uma história comovente acerca das traições do amor e do poder redentor da amizade.Karan Seth, um conceituado fotógrafo do The India Chronicle, está em Bombaim numa missão privada: imortalizar a cidade num registo fotográfico único dos seus rostos ocultos. Em busca do seu sonho ambicioso, Karan encontra aliados improváveis: Samar Arora, o pianista excêntrico que inexplicavelmente recusou as luzes da ribalta no auge da sua carreira, Zaira, cuja tímida elegância contrasta com o seu estatuto de estrela deslumbrante do cinema de Bombaim, e Rhea Dalal, cuja melancolia sedutora, nascida dos sonhos por realizar e de um casamento sem filhos, atrai Karan para uma relação terna mas complexa. A tragédia surge então, inesperada e horrenda, destruindo a vida destas quatro pessoas. Segue-se um sombrio julgamento por homicídio, que revela outras realidades desta vibrante e pulsante cidade, e Karan é exposto a um mundo de sexo, crime e interesses políticos.

edição: Civilização
título: Os Flamingos Perdidos de Bombaim
autor: Siddharth Dhanvant Shanghvi
tradução: Maria João Freire de Andrade
formato: 15,5X21,5cm
n.º pág.: 414
isbn: 9789722631747
pvp: 18.50€

quarta-feira, agosto 18

O gato morreu com dignidade

A curiosidade é a própria essência da educação e, se me disserem que a curiosidade matou o gato, responderei simplesmente que o gato morreu com dignidade.

Arnold Edinborough

- Por favor, ando à procura de um conto de que ouvi falar, em sussurro entre os meus pais e uns amigos, num jantar lá em casa. Parece que é um conto obrigatório de ler e muito famoso.

- Entendo, mas vai ter de me dizer o nome do conto e se possível o do autor.

- O nome do autor é fácil - é Machado de Assis. O problema está no título. Sabe, depois de ter ido ao dicionário saber o seu significado, percebi porque falavam baixinho lá em casa e, por isso, tenho um bocado de pudor em dizê-lo.

- Assim fica difícil. O Machado de Assis escreveu mais de duzentos contos, vai ter de perder o pudor e dizer-me qual é o conto.

- É sobre pessoas que se isolam.

- Compreendo, mas ainda é um pouco vago.

- Pronto, eu digo: «O Onanista».

O livreiro, que imediatamente se apercebe do equívoco, diz:

- O Alienista?

- E não é quase a mesma coisa!?... Diz o cliente, muito assarapolhado.


Jaime Bulhosa

o bazar alemão


A Lei da Protecção do Sangue Alemão e da Honra Alemã, promulgada pelo Governo do III Reich em Setembro de 1935, desencadeou - como é de todos conhecido - uma perseguição sistemática contra os judeus que ultrapassou as fronteiras do Reich e atingiu núcleos residentes no estrangeiro. Na ilha da Madeira, elementos da comunidade alemã de origem hebraica, ali estabelecidos e integrados, viram-se confrontados com insistentes tentativas de discriminação exercidas por compatriotas seus, não só através de pressões e chantagens directas, mas também de cartas de denúncia anti-semita enviadas para Berlim, com imediatas repercussões na sua vida pessoal e profissional. É a memória desses cidadãos do mundo, do seu sofrimento, da sua resistência e da sua vitória final, que este livro recupera.

Edição: Dom Quixote

Título o bazar alemão

Autor: Helena Marques

Formato: 15,5x23,5cm

n.º pág.:218

isbn:9789722041188

pvp: 15.09€

segunda-feira, agosto 16

Sonho de Uma Noite de Verão

Tive um sonho: sonhei que me encontrava a ler Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, numa sala enorme, toda branca, com paredes e tecto de um branco fulgente que fere os olhos, como aquele branco que se vê nos filmes para melhor transmitir a sensação de sonho. A sala não tinha janelas, no entanto, era iluminada e completamente despida de móveis ou objectos. O chão era composto por grandes mosaicos de mármore de Carrara, uns brancos, outros negros, formando um colossal tabuleiro de xadrez. Em cada mosaico encontrava-se alguém que conheço, uns vestidos de preto e outros de branco; cada um representava uma peça de xadrez: os peões, as torres, os cavalos, os bispos, etc. No meio deste cenário completamente minimalista, inesperadamente, encontrava-se no lugar da rainha branca a minha sobrinha Madalena, de três anos, vestida de rosa choque, tiara na cabeça e rindo, rindo muito. Interprete quem souber.

Jaime Bulhosa

Os Passos Perdidos


Um livro estimulante, quase mítico. Representativo daquilo a que o próprio Alejo Carpentier chamou “o real maravilhoso americano”, este romance constitui uma busca das origens, a procura de uma Idade de Ouro perdida. A personagem central dispõe-se a subir Orenoco, na Venezuela, em busca de um tempo primordial, tentando assim alcançar as raízes da vida. Desfilam nesta obra os mineiros dos campos de petróleo, os padres missionários, os vaqueiros, os astrólogos, as prostitutas em busca do El Dorado, os índios dos lugares visitados, os espíritos, os rituais, as histórias e os mitos de um tempo em que um homem branco ainda não pisara o continente americano. Para Carpentier, a América é um repto de um “novo mundo” apressadamente entrevisto por viajantes e poetas, poucas vezes correctamente apreendido.

edição: Camões e Companhia

título: os Passos Perdidos

autor: Alejo Carpentier

tradução: António Santos

formato: 16x23cm

n.º pág.: 224

isbn:9789896372446

pvp: 18.97€

sexta-feira, agosto 13

Estou no cinema e como eu muitas outras mulheres sozinhas enchem a sala. Penso: que estúpidos que os homens são.

Livreiro anónimo a pensar em ir ao cinema mais logo.

Se Isto É Um Homem



Tenho o hábito de escolher a dedo alguns livros para ler nas férias – não fosse eu um livreiro –, mas, sistematicamente, e não sei porquê, acabo sempre por roubar o que os outros levam para ler. Foi o que sucedeu novamente este ano e com vários livros, entre eles, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi. Não resisti, era um daqueles livros que sempre tinha ouvido dizer ser de leitura obrigatória. Sentado à beira-mar, na cadeirinha de praia – não se riam, sei que ainda não tenho idade para cadeirinha de praia, mas, convenhamos, é tão mais confortável para ler –, comecei a lê-lo. O primeiro impulso que tive, após as perturbadoras primeiras páginas, foi deixá-lo para outra altura, não fosse o tema do Holocausto estragar-me as férias. Mas aconteceu precisamente o contrário, por cada linha que lia, feita das memórias de sofrimento do autor, por cada horror contado, por cada homem para quem o amanhã deixava de fazer sentido, eu tomava consciência da precariedade da vida e da liberdade e gozava triplamente a sorte que tinha em estar sentado ao sol, naquela cadeirinha de praia.

«Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da resistência, é detido pelas forças alemãs. Tendo confessado a sua ascendência judaica, é deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte; aí permanecerá até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado. Da experiência no campo nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta. Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente um clássico da literatura italiana e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus.»

Jaime Bulhosa

Editor:Teorema

Ano de edição: 2009

ISBN: 9789726957829

C.I.: 00000212348

Número de páginas: 176

Tradutor: Simonetta Cabrita Neto

Encadernação: Brochad

PVP: 14.13€


quinta-feira, agosto 12

Pó dos Livros

Compraremos os livros que julgamos que se irão vender, exibiremos os que julgamos conseguir vender, um ou outro que nos agrade, mesmo que não se venda, por alguma razão é a nossa livraria e não a de outro.

Livreiro anónimo

quarta-feira, agosto 11

sem título

Há alguma coisa mais triste do que ser enganado com a mentira? Há, ser enganado com a verdade.

Benavente

terça-feira, agosto 10

Imbeciclopédia X

A estupidez é um estado de graça, um privilégio, um dom divino. Pode-se chegar a ser inteligente, mas estúpido, não. Estúpido nasce-se.
Pitigrilli

O onanista (não confundir com o Alienista, de Machado de Assis)
No início de 1994, um grupo fundamentalista islâmico da Jordânia lançou uma campanha terrorista que incluía ataques a sítios seculares, tais como livrarias, videoclubes ou supermercados que vendessem álcool. No final de uma manhã de 1 de Fevereiro, Eid Saleh al Jahaleen, um canalizador de 31 anos, entrou no cinema Salwa na cidade de Zarga. O cinema era famoso por exibir filmes pornográficos oriundos da Turquia. Jahaleen, que alegadamente recebera 50 dólares para colocar uma bomba, nunca tinha visto pornografia e ficou completamente paralisado, embasbacado, perante as imagens que via projectadas na tela. Quando a bomba explodiu, Jahaleen ainda se encontrava sentado numa das cadeiras da sala. Perdeu apenas as pernas.

segunda-feira, agosto 9

Sobre as diferenças de género


- Eu queria uma história para uma criança?

- Para rapaz ou rapariga?

- Faz alguma diferença?

- Não propriamente, se bem que ultimamente tenho voltado a pensar que sim.

O Rapaz:

- Vasco. Gostas do novo vestido da mãe?

O Vasco sem prestar nenhuma atenção ao que a mãe dizia e depois de, provavelmente, ter recebido um-chega-para-lá do irmão mais velho, aproxima-se muito irritado, de lágrimas nos olhos e respiração ofegante.

- O Afonso vai pagá-las!

- O que é que aconteceu desta vez? pergunta a mãe sem muita paciência.

- Nada, nada… Ah, mas vai pagá-las... diz entre dentes.

- Pagar o quê?

O Vasco sabe que as queixinhas costumam provocar uma retaliação por parte do irmão. Lembrando-se disso a tempo, atabalhoadamente, enrola a resposta:

- Vai pagar… vai pagar… mil euros.

- Mil euros?

O Vasco rapidamente percebe que a resposta não faz sentido e por isso, decide assumir.

- Sim, mil euros de porrada!

- E mil euros de porrada são o quê!?...

Pergunta a mãe com ar de reprovação.

- Muita!

A Rapariga:

A mãe do Vasco volta a exibir, toda orgulhosa, o seu novo vestido liso, de um lindo azul, à sua sobrinha Madalena, de apenas três anos.

- Madalena. Gostas do novo vestido da tia?

A Madalena olha de baixo para cima, percorre todo o vestido, presta a máxima atenção a todos os pormenores e abanando a cabeça, em sinal de desagrado, diz:

- Tia, porque é que não vais vestir qualquer coisa com mais... flores?

Jaime Bulhosa

sexta-feira, agosto 6

Parrot e Olivier na América

Título: Parrot e Olivier na América
Autor: Peter Carey
Tradução: Ana Falcão Bastos
Revisão: Alda Rodrigues e Inês Fraga
Edição: Gradiva, 2010
PVP: 25,00€

Uma improvisação sobre a vida de Alexis de Tocqueville e um retrato intensamente divertido da amizade impossível entre um amo e um criado.
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Peter Carey, duas vezes premiado com o Booker Prize, explora neste livro a aventura da democracia americana, na teoria e na prática, com uma inteligência e um espírito inventivo deslumbrantes.*
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"Peter Carey tece a sua história cuidadosa e desveladamente. Esta possui todos os seus elementos predilectos: ausência de lei, revolução, esperança no futuro, homens impelidos pela paixão. No seu âmago, Parrot e Olivier na América é um western: a mais simples história na História, moldada no brilho dos olhos de um filósofo: a demanda do Homem pela liberdade." *
Salter Reynolds, Los Angeles Times
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*Textos retirados da contracapa e da badana

quinta-feira, agosto 5

Sobre manter um diário



"É superficial encarar um diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados e secretos de cada um - como um confidente surdo, mudo e analfabeto. No diário não só me exprimo de uma forma mais aberta do que faria com qualquer pessoa, mas crio-me a mim própria. O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emcional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária - em muitos casos - oferece uma alternativa a ela."
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Susan Sontag, in Renascer - Diários e Apontamentos 1947-1963, Quetzal 2010

quarta-feira, agosto 4

Feminina

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Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nos banquetes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
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Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins» - muito entretida.
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Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.
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Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...
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Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...
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Mário de Sá Carneiro
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Título: Verso e Prosa
Autor: Mário de Sá Carneiro
Edição: Fernando Cabral Martins / Assírio & Alvim, 2010
PVP: 28,00€

terça-feira, agosto 3

Fome


"Um romance original e cativante, uma exploração do amor e da traição e uma evocação sensual do prazer de comer"
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J. M. Coetzee

Título: Fome
Autor: Elise Blackwell
Tradução: Safaa Dib
Revisão: António Marques
Design: Pedro Marques
Edição: Livros de Areia, 2010
PVP: 10.60€