quinta-feira, setembro 30

Ontem o meu gato arranhou-me

Nota: Ontem à noite o meu gato, que se chama Book, arranhou-me enquanto lia Edgar Allen Poe. Pensei: estranho, singular acontecimento.

Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes, Uma fúria se apossou rapidamente de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se ausentava do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, perverso, arranquei-lhe um olho da órbita!

Edgar Allen Poe, O Gato Preto, Alma Azul


Jaime Bulhosa

A Viagem dos Inocentes


«Quando penso como fui enganado pelos livros de viagens sobre o Oriente, só me apetece comer um turista ao pequeno-almoço.»

Mark Twain


«A Viagem dos Inocentes contém já tudo aquilo que viria a ser central na personalidade literária de Mark Twain, fazendo dele um autor decisivo: da linguagem exacta e sem ornamentos a um impiedoso sentido de humor.

O humor é, na verdade, o elemento primordial deste relato. Mark Twain não poupa nada, nem os próprios companheiros de viagem. O sarcasmo do escritor não se limita, contudo, a um relato de peripécias mais ou menos burlescas num navio carregado de “inocentes” americanos em excursão pelo Velho Mundo.

O olhar de Mark Twain nunca é indulgente. Não o é para os passageiros e é-o ainda menos para alguns dos lugares visitados. Em certas passagens, pode chegar a extremos de contundência para os quais, no nosso tempo, se inventou a expressão “politicamente incorrecto”.»


Carlos Vaz Marques


edição: tinta-da-china

título: A Viagem dos Inocentes

autor: Mark Twain

formato:14x19,5cm (capa dura)

n.º pág.: 688

isbn: 978-989-671-050-7

pvp: 21.90€

quarta-feira, setembro 29

Coincidências

A propósito deste post enviaram-nos esta imagem. Gostaríamos de esclarecer que, neste caso, não se trata de um plágio, nem de nenhuma ilegalidade ou de aproveitamento do trabalho dos outros. Situações como esta são bastante comuns, principalmente entre editoras de países diferentes. Existem bancos de imagens onde os editores compram os direitos de uso das fotografias que utilizam na composição de capas. Segundo a ficha técnica do livro editado pela Quetzal, esta foto foi comprada a Patrícia Mcdonough/Corbis. E, necessariamente, o tratamento dado à imagem e lettring utilizado são diferentes. No entanto, não poderíamos deixar de assinalar a coincidência.


Alice n.º3, a não perder

O terceiro número da revista online (Setembro/Outubro) já está disponível.

Maldita inspiração



Durante um largo período de tempo, atendi um cliente que gostava de fazer comentários maldizentes em relação aos livros e autores que comprava, como se tivesse necessidade de justificar, perante os livreiros, as suas más escolhas. Nunca entendi bem porquê, até porque os títulos, por ele escolhidos, não eram aquilo a que podemos chamar de má literatura, bem pelo contrário. Contudo, havia um autor, um poeta, em especial – esse até eu não achava grande coisa, embora nunca lho tivesse dito – por quem este cliente tinha um verdadeiro ódio de estimação. Nunca deixava de o comprar, por vezes mais do que um exemplar de cada vez, durante anos e sempre que desse autor saía um novo livro. Depois era vê-lo e ouvi-lo agitar-se, esbracejar, amaldiçoar, blasfemar, dizer todo o tipo de impropérios ao inculpável poeta. Um dia, quando mais uma vez o cliente esconjurava o rimador de apego, enchi o peito de coragem e perguntei-lhe:

- Não me leve a mal, mas se não gosta do poeta, porque é que teima em lê-lo?

O cliente, inesperadamente calmo, responde:

- Meu caro, eu não me leio tão-somente por insistência, é por desespero. Eu escrevo, isso sim, pela mais cruel das teimosias.


Jaime Bulhosa

Marina


«Por qualquer estranha razão, sentimo-nos mais próximos de algumas das nossas criaturas sem sabermos explicar muito bem o porquê. De entre todos os livros que publiquei desde que comecei neste estranho ofício de romancista, lá por 1992, Marina é um dos meus favoritos.» «À medida que avançava na escrita, tudo naquela história começou a ter sabor a despedida e, quando a terminei, tive a impressão de que qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que ainda hoje não sei muito bem o que era, mas de que sinto falta dia a dia, ficou ali para sempre.» Carlos Ruiz Zafón «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

edição: Planeta

título: Marina

autor: Carlos Ruiz Zafón

tradução: Maria do Carmo Abreu

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

isbn: 9789896571191

pvp: 18.85€



terça-feira, setembro 28

Eco


- Eu deixei aqui há uns meses um livro de poesia à consignação e queria saber se alguém já…

O livreiro, cheio de comiseração pelo pobre poeta, diz:

- Não, infelizmente, ainda não se vendeu nenhum.

- Mas, por amor de Deus! Esta é sexta vez que cá venho.

- Pois, nós sabemos.

- São vocês que fazem de propósito e não põem o livro à vista ou, existe alguma outra razão que eu não esteja a descortinar?

O livreiro, chamando o poeta ao pé de si, sussurra-lhe no ouvido:

- Está a ver uma pétala de flor?

- Sim.

- Agora imagine que a deixa cair do cimo de uma montanha.

- Sim.

- Conseguiu ouvir o eco?

- Não.

- Então, é o que acontece quando se publica um livro de poesia.

Nota: a todos os poetas incompreendidos e indignados

O Pirata de Elba


Há uma rua de Hamburgo com o nome do burgomestre Simon von Utrecht, mas quase nenhum hamburgês sabe quem foi tal sujeito, nem por que é que merece ser recordado. A única coisa que sabem dele é que ordenou a execução de um homem que vive nas memórias dos irreverentes, em centenas de canções e narrativas que se contam na costa do Mar do Norte ou nos cálidos cafés de Weddel ou Blankenesse. O homem – que esse sim, é recordado – chamou-se Klaus Störtebecker e era um pirata. O Pirata do Elba.
Na ano de 1390, a Liga Hanseática impunha a ferro e fogo o seu domínio mercantil sobre o Atlântico Norte e o Mar Báltico. A Liga estabelecia impostos absurdos, fixava preços arbitrários aos artesãos e agricultores, e nos seus mil barcos os capitães hanseáticos utilizavam a força para castigar qualquer falta.Mas, e como sempre aconteceu na História, um grupo de marítimos liderados por Klaus Störtebecker, um gigantão de rosto feroz e barba vermelha, disse que não, que bastava de impostos chicote e corda , depois de um motim, fizeram-se ao mar com um barco que começou a navegar sob a bandeira da liberdade.
Em 1392, na ilha de Gotland, os homens de Störtebecker ditaram a sua declaração de princípios a um sacerdote, que traduziu para latim as palavras pronunciadas em todos os dialectos que se falavam no Norte da Europa. Diziam elas que os homens são escolhidos por Deus para praticar a felicidade e que só a felicidade concedia a necessária vitalidade para suportar qualquer penúria.A partir daquele momento começaram a chamar-se “Die Vitalienbrüder”, os Irmãos Vitais, e foram o flagelo da Liga Hanseática. Abordavam os barcos carregados de bens e, interrogavam os marinheiros acerca dos castigos sofridos e muitos oficiais e capitães sentiram nas suas carnes os arranhões do gato de sete caudas ou o ar mesquinho que a forca permite. O produto do saque era repartido, metade pela confraria e a outra metade pelas populações ribeirinhas do Elba ou das costas do Báltico. A chegada de Störtebecker e dos Vitalienbrüder era esperada como uma bênção pelos pobres de então.
Como era de esperar, a Liga Hanseática fixou o preço à cabeça do pirata, e dúzias de capitães alemães, suecos e dinamarqueses lançaram-se na sua captura. Não depararam com uma tarefa fácil, porque Klaus Störtebecker conhecia todos os segredos do Elba e resistiu até já correr o ano de 1400. Numa manhã de Primavera desse ano, toda a Hamburgo marcou encontro junto da “Teufelbrücke”, a Ponte do Diabo, para presenciar a execução do pirata e de uma centena dos seus camaradas. Simon von Utrecht, o burgomestre, pronunciou a sentença com voz firme: morte por decapitação. O verdugo fez reluzir a espada e esperou a primeira vítima, que devia ser um marinheiro raso, visto que parte do castigo imposto a Störtebecker era assistir à morte dos seu homens. Então o pirata de barba vermelha falou:- Quero ser o primeiro, e mais: proponho-lhe um acordo para melhorar o espectáculo, senhor burgomestre. - Fala – ordenou Simon von Utrecht.- Quero ser o primeiro. Quero ser decapitado de pé, e quero que, por cada passo que de depois de a minha cabeça ter tocado no solo, salve um dos meus homens.Viva o Pirata do Elba!, gritou alguém do meio da multidão , e o burgomestre, certo de que era tudo fanfarronice aceitou.
A ciciante folha de aço cortou o ar da manhã, entrou pela nuca e saiu pelo queixo do pirata. A cabeça caiu sobe as pranchas da ponte e, perante a estupefacção de todos, o decapitado deu doze passos antes de cair redondo.
Aconteceu isto numa manhã de Primavera do ano de 1400. Quase seiscentos anos mais tarde, na primeira semana de Julho deste ano, a polícia de Hamburgo deteve vários rapazes que tentavam pela centésima vez alterar o nome de uma rua. Lavavam uma compridas fitas adesivas azuis com letras brancas que diziam “Rua Klaus Störtebecker” e punham-nas a cobrir as placas metálicas com o nome do nada célebre burgomestre von Utrecht. Os meus filhos gostam desta história, e espero ainda contá-la um dia um dia aos meus netos, porque se é certo que a vida é breve e frágil, também é verdade que a dignidade e a coragem lhe conferem a vitalidade que nos faz suportar os seus enganos e desditas.

Rosas de Atacama, de Luis Sepúlveda
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Nota: Para todos os alunos do 8.º ano que, desesperadamente, andam à procura do conto O Pirata de Elba, inserido no livro de Luis Sepúlveda, Rosas de Atacama, que se encontra esgotado, aqui fica o conto na integra para que possam cumprir com os seus deveres escolares.

Milagrário Pessoal


Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Maravilhada, perplexa e assustada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano, com um passado sombrio, e os dois partem em busca de uma colecção de misteriosas palavras, que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”. Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.

edição: Dom Quixote

titulo: Milagrário Pessoal

autor: Agualusa

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º pág.:190

isbn: 9789722041706

pvp: 15.00€

segunda-feira, setembro 27

As Aventuras de Augie March


É voz corrente que "As Aventuras de Augie March" equivalem, no século XX, às de Huckleberry Finn. Martin Amis, por exemplo, diz que "As Aventuras de Augie March" é o grande romance da Literatura americana, e que não vale a pena procurar por melhor. Nesta narrativa picaresca das glórias e vicissitudes da fortuna, o herói, um homem de qualidades indefiníveis, cuja motivação principal é a busca do amor, conta a sua história. Esta envolve uma inigualável gama de esquemas e episódios mirabolantes - que vão do trato com pugilistas ao contrabando de emigrantes; do roubo de livros à organização de sindicatos; da segurança de Trotstky, no México, ao treino de águias temperamentais na caça de lagartos gigantes, ou ao resgate da humanidade pela abolição do aborrecimento. Escusado será dizer que estes projectos são acompanhados (ou interrompidos) por relações com mulheres fortes, sempre excelentes amantes, e às vezes ricas.

edição: Quetzal

título: As Aventuras de Augie March

autor: Saul Bellow

tradução: Salvato Telles de Menezes

formato: 15x23cm (capa mole)

n.º pág.: 709

isbn: 9789725648988

pvp: 28.00€

sábado, setembro 25

Livro

Era ainda de manhã e um cliente bem disposto:

- Eu queria o Livro.

- Sim, calculo que queira um livro, ah, ah ,ah.

- Está na montra.

O livreiro não querendo parecer mal educado.

- Sim, é verdade... temos muitos livros bonitos na montra.

O cliente insiste.

- O Livro, de José Luís Peixoto, o novo, aquele de que muita gente fala!?...

Desta vez foi o livreiro que ficou com cara de parvo.



Jaime Bulhosa

sexta-feira, setembro 24

Livro


Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura. Livro confirma José Luís Peixoto como um dos principais romancistas portugueses contemporâneos e, também, como um autor de crescente importância no panorama literário internacional.

edição: Quetzal

título: Livro

autor: José Luís Peixoto

formato: 15x23cm (capa mole)

n.º pág.: 263

isbn: 9789725648995

pvp: 17.95€

quinta-feira, setembro 23

Blogtailors mudaram de casa

(clique na imagem para saber onde eles estão)




Informação:

A próposito do post anterior, a editora Fonte da Palavra anuncia, no seu sítio da Internet, que o livro Angelina. Uma Mulher do Povo na I República, de Manuel Dias Duarte, vai ser retirado do mercado.

quarta-feira, setembro 22

Oh!

Já vi capas de livros, no nosso mercado, para todos os públicos. Algumas excelentes, outras com bom gosto e muitas de mau gosto. Mas a grande maioria são inócuas. Já vi capas que me fazem lembrar outras capas de livros estrangeiros e vi outras que se inspiram noutras capas de livros de sucesso, enfim, já vi um pouco de tudo no que se refere a capas de livros. Agora, espanto. O que nunca tinha visto era uma capa de um livro de uma editora (tinta-da-china) ser directamente digitalizada por outra editora (Fonte da Palavra), para fazer uma capa de um novo livro. A editora Fonte da Palavra nem se dá ao trabalho de fazer quaisquer retoques. Limita-se a fechar a imagem para não se ver o título e o logo de colecção do livro plagiado. Até a barra no topo deixaram visível. Observem bem as duas capas em causa: a primeira do livro Os Postais da Primeira República, editado pela tinta-da-china com a data de Janeiro de 2010, e a segunda do livro Angelina. Uma Mulher do Povo na I República, editado pela Fonte da Palavra em Setembro de 2010:

(tinta-da-china)


(Fonte da Palavra)


Evidentemente, neste caso, os postais da república já não têm direitos, mas a escolha dos postais, de entre várias centenas, e o arranjo gráfico, assinado por Vera Tavares (designer da tinta-da-china) tem.
Fui tentar saber quem são ou o que são a Fonte da Palavra e encontrei, no seu sítio da Internet, um curioso texto de apresentação da editora que só pode ser para rir. Sublinho as passagens mais interessantes:

«A criação da Fonte da Palavra vem no seguimento de um trabalho editorial que dura há 35 anos e também por uma exigência do mercado. Por vezes é necessário mudar e José Marques, editor vai para 20 anos, em conjunto com outras pessoas, decidiram que estava na altura de aparecer uma nova editora com outra dinâmica e com outra filosofia.

José Marques já passou por alguns projectos editorais, uns mais conhecidos que outros, já esteve ao lado de grandes escritores e reconhece, neste novo projecto que nasceu no decorrer de 2009, poder vir a estar ao lado de outros grandes escritores. Um dia sem sabermos podemos ter a sorte de ter ao nosso lado um autor que venda muito, é preciso acreditar que isso pode acontecer. Há sucessos que se fabricam, mas também há outros que nascem espontaneamente. José Marques já viu e passou por alguns assim. Não refere nomes para não ferir susceptibilidades.

Esta editora não tem uma especialização, quer fazer livros. Cada livro é um livro e têm que se acompanhar o melhor que soubermos e pudermos. Isto é como ter um filho, primeiro temos que fazê-lo, depois ajudá-lo a crescer, é isso que se tenta fazer com todos os livros que a Fonte da Palavra lança no mercado. Nesta editora gostamos de todos por igual. No entanto, duas ou três colecções vão merecer a nossa atenção, são colecções dirigidas a públicos universitários por professores universitários. É preciso criar esta imagem porque são os estudantes que mais ajudam a divulgar o nosso trabalho.

Tudo ou quase tudo pode ser editado na Fonte da Palavra. Temos desde o romance, à poesia, ao ensaio, biografias, livro infantil, teatro, cinema, lazer, gastronomia, etc., etc. Mas também vamos tentar arranjar ideias e lançar projectos que não sejam só livros. Temos a certeza que vão aparecer pessoas com projectos criativos e que nos possam interessar fazer.
Projectos para o futuro é difícil responder, porque o futuro é já o próximo livro. No entanto, ao momento, estamos trabalhar alguns livros novos, de alguma forma já a pensar no futuro. Mas não podemos deixar de pensar no presente. E porque estamos a trabalhar com vários organismos oficiais, podem também eles apresentar alguns projectos de futuro. Quer isto dizer no imediato.»
-
Jaime Bulhosa

O Lóbi de Israel




Enquanto superpotência económica e militar, os EUA exercem enorme influência um pouco por todo o mundo. No Médio Oriente, o papel dos americanos é diariamente tema nos noticiários. O debate sobre as verdadeiras razões da intervenção militar e diplomática norte-americana naquela região nunca cessa. Em O Lóbi de Israel, somos confrontados com um incrível manancial de testemunhos, documentos e factos, nos quais se apoia a teoria de que a intervenção dos EUA no Médio Oriente é comandada pelo lóbi pró-israelita americano. Em lugar de protegerem os interesses do seu próprio país, os governantes americanos — cujas campanhas presidenciais e demais apoios políticos dependem da ajuda de uma vasta rede lobista favorável a Israel — consideram que proteger o estado de Israel deve obter prioridade máxima. O que explica, entre muitos outros fenómenos, que se tenha avançado com a invasão do Iraque de Saddam (em busca de armas de destruição maciça) e que, tragicamente, não se dêem passos significativos para a criação de um estado palestiniano viável. A política externa norte-americana para o Médio Oriente encontra neste livro explicações muito claras e que, seguramente, darão origem à mais acesa polémica.

edição: tinta-da-china
título: O Lóbi de Israel e a Política Externa dos EUA
autor: John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt
tradução: Rita Graña
formato: 15,5x23,5cm (capa mole)
n.º pág.:603
isbn: 9789896710118
pvp: 29.90€

Catalunha em Pó

Realiza-se hoje, quarta-feira, dia 22, às 18h30, mais uma sessão de Catalunha em Pó: No Último Azul, Carme Riera, Editorial Teorema, tradução de Miranda das Neves. Com a presença de Carlos Veiga Ferreira (editor) e Sebastià Bennasar (jornalista e escritor).

segunda-feira, setembro 20

Desespero

Um monstro de auto-estima, que se delicia com os muitos e fascinantes aspectos da sua personalidade, Hermann Hermann talvez não seja pessoa para se levar muito a sério. Mas, um encontro casual com um homem que ele acredita ser o seu duplo, revela uma assustadora ruptura na sua natureza. Com um inconfundível estilo, já então, Nabokov conduz-nos por um mundo perturbante, cheio de um humor surpreendente e sem peias, dominado pela figura egoísta e sobranceira de um assassino que se vê a si próprio como um artista.
Desespero é um dos primeiros romances de Nabokov. Escrito originalmente em russo, em Berlim, em 1932, foi publicado pela primeira vez em Paris por um revista de emigrados, em 1934. Em 1937, Nabokov traduziu-o ele próprio para inglês e publicou-o em Londres. Finalmente em 1965, fez uma profunda revisão do romance, como explica no seu prefácio. É a tradução dessa última versão que a Teorema agora publica.

edição: Teorema

título: Desespero

autor: Vladimir Nabokov

tradução: Telma Costa

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 232

isbn: 9789726959250

pvp: 16.90 €

sexta-feira, setembro 17

LIRA

O livro errante bate às portas do ser. Abandonado num quarto de hotel, esquecido no banco do comboio, perdido no aeroporto. Desperta e rejubila com o bafo dos passageiros. Abandonado esquecido perdido. Achado e reencontrado. Tornado imóvel, comprimido numa pilha com outros seres semelhantes. Resgatado do pó da biblioteca. No outono perdido no bosque e na primavera seguinte recuperado do gelo das folhas e do estrume. Todo ele estremece com a passagem das estações sobre a erva. Todo ele vibra com a passagem do tempo sobre a Terra. Sebento e sujo. Mendigo nos caminhos dos homens. Jazente, renova-se ao contacto com outro ser, também ele errante e fragmentado. Ambos se recolhem um no outro, de si desapossados. Inquietos como dois amantes inexperientes. Deste encontro fazem revelação. O livro-errante é o livro-leitor-feliz. Ambos conhecem a lentidão amorosa, o suspiro na queda e a perda. Ambos caem com volúpia.
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in LIRA, de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne, 2010; PVP:8.08€

(Lira: parte fixa de uma prensa manual, assim chamada por apresentar a forma de uma lira.)

Amanhã na Pó dos livros

(clique sobre a imagem para ampliar)


Falta de jeito


Nenhum entretenimento é tão barato como a leitura, nem nenhum prazer tão duradouro.

Lady Montagu Wortley


Entra uma cliente, dos seus onze, doze anos, de sorriso nos lábios e com um livro na mão, nitidamente, já lido.

- Olhe, por favor, eu queria um daqueles livros que nunca acabam.

O livreiro sisudo e com falta de jeito – que evidentemente não é da nossa casa –, fica pensativo com a pergunta e responde com outra:

- Um livro que não acaba!?... A qual dos sentidos metafóricos se está a referir, isto é, deseja um clássico intemporal, um calhamaço de mil páginas ou, uma daquelas sagas chatas e compridas que nunca mais acabam?

A miúda, meio confusa, titubeante com a reacção do livreiro, responde:

- Pode ser esse do metafórico. Desde que seja para eu ler.

Jaime Bulhosa

História Política do Diabo


Originalmente publicado em 1726, e agora pela primeira vez traduzido em Portugal, este é um texto que combina a visão bíblica e o senso comum, oferecendo uma panorâmica abrangente do papel do Diabo na sociedade ao longo dos tempos. O feroz crítico de Milton e do seu Paraíso Perdido apresenta o Diabo como um Robinson Crusoe na sua ilha deserta, condenado ao destino de se ver rodeado de hipocrisia e cupidez por todos os lados humanos. Satã - como anjo caído ou cavalheiro de levantada condição - revela-se-nos nas duas partes bastante diferentes que compõem o livro e que fascinam pela sua irreverência mordaz, cuidado histórico e actualidade.

edição: Guerra e Paz

título: História Política do Diabo

autor: Daniel Defoe

tradução: Maria João Medeiros

formato: 15x23cm (capa mole)

n.º pág.: 414

isbn: 9789898174901

pvp: 20.00€

quinta-feira, setembro 16

Imbeciclopédia XIII

A literatura ensina-nos imensas coisas, nomeadamente que, por vezes, a única, verdadeira e eficaz solução para a falta de cérebro é o silêncio. Ora, é precisamente isso que me falta. Não, não me refiro ao silêncio. Senão, teria ficado calado.

Livreiro anónimo

O Bom Inverno


Quando o narrador, um escritor prematuramente frustrado e hipocondríaco, viaja até Budapeste para um encontro literário, está longe de imaginar até onde a literatura o pode levar. Coxo, portador de uma bengala, e planeando uma viagem rápida e sem contratempos, acaba por conhecer Vincenzo Gentile, um escritor italiano mais jovem, mais enérgico, e muito pouco sensato, que o convence a ir da Hungria até Itália, onde um famoso produtor de cinema tem uma casa de província no meio de um bosque, escondida de olhares curiosos, e onde passa a temporada de Verão à qual chama, enigmaticamente, de O Bom Inverno. O produtor, Don Metzger, tem duas obsessões: cinema e balões de ar quente. Entre personagens inusitadas, estranhos acontecimentos, e um corpo que o atraiçoa constantemente, o narrador apercebe-se que em casa de Metzger as coisas não são bem o que parecem. Depois de uma noite agitada, aquilo que podia parecer uma comédia transforma-se em tragédia: Metzger é encontrado morto no seu próprio lago. Porém, cada um dos doze presentes tem uma versão diferente dos acontecimentos. Andrés Bosco, um catalão enorme e ameaçador, que constrói os balões de ar quente de Metzger, toma nas suas mãos a tarefa de descobrir o culpado e isola os presentes na casa do bosque. Assustadas, frágeis, e egoístas, as personagens começam a desabar, atraiçoando-se e acusando-se mutuamente, sob a influência do carismático e perigoso Bosco, que desaparece para o interior do bosque, dando início a um cerco. E, um a um, os protagonistas vão ser confrontados com os seus piores medos, num pesadelo assassino que parece só poder terminar quando não sobrar ninguém para contar a história.

edição: Dom Quixote

título: O Bom Inverno

autor: João Tordo

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 289

isbn: 9789722041379

pvp: 14.95€

quarta-feira, setembro 15

Rentrée literária


A pior coisa que a «rentrée» nos traz, para além do vento e da chuva, é a quantidade de livros novos que saem por minuto, quando a maioria não presta. Porém, pensando melhor, é uma bela desculpa para já não termos lido os do ano passado.

Livreiro anónimo na senda da leitura de clássicos

O ogre

Destruir o pai. Parece impossível para Jean Calmet, professor de Latim em Lausanne, na Suíça. Depois de assistir à cremação do pai, os fantasmas e as humilhações do passado voltam para o tiranizar. Neste livro, que ganhou o Prémio Goncourt, Jacques Chessex desenrola o fio de uma vida devorada por um ogre estrondoso que roubou o prazer da vida aos filhos e lhes fez pagar a sua cobardia. Um pai nunca morre…

Jacques Chessex (1934-2009) é um romancista, ensaísta e poeta suíço considerado como um dos escritores contemporâneos mais importantes da língua francesa. Recebeu em 1973 o Prémio Goncourt pelo romance O ogre e, em 2004, o Prémio Goncourt de Poesia. Tem uma obra vasta e obteve também, em 2003, o grande Prémio da língua francesa pelo conjunto da sua obra.

edição: Sextante

título: O ogre

autor: Jacques Chessex

tradução: José Carlos Gonzalez

formato: 15x23,5cm

n.º pág.: 159

isbn: 9789896760243

pvp: 14.60€

segunda-feira, setembro 13

O domínio das mulheres

Retrato de Lev Tolstoi (1887), de Ilya Efimovich Repin
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"- A propósito - recomeçou ele a falar, arrumando no saco o chá e o açúcar -, o domínio das mulheres com que todo o mundo sofre é causado pela mesma coisa.
- O domínio das mulheres como? - perguntei. - Os direitos e os privilégios pertencem aos homens.
- Sim, sim, isso mesmo - interrompeu-me -, é disso que lhe quero falar, é isso mesmo que explica o fenómeno extraordinário de a mulher, por um lado, ter sido empurrada para a mais completa humilhação, mas por outro, dominar tudo. Do mesmo modo que os judeus se vingam da opressão de que são vítimas com o seu poder financeiro, assim se processa o domínio das mulheres. Dizem os judeus: «Então, quereis que nós sejamos apenas mercadores. Está bem. Nós, mercadores, vamos apossar-nos de vós todos.» Dizem as mulheres: «Então, quereis que nós sejamos apenas objectos de sensualidade. Está bem. Então, como objectos de sensualidade, vamos escravizar-vos.» A ausência de direitos da mulher não consiste em não poder votar ou ser juíza (não há quaisquer direitos nesta actividade), mas em não poderem ser iguais ao homem nas relações sexuais, em não terem o direito de utilizar o homem, ou abster-se dele por sua própria vontade, em escolheresm um homem por sua livre vontade, em vez de serem escolhidas. Diz-me que isto está mal, não é? Muito bem, nesse caso o homem também não deve ter estes direitos. Actualmente a mulher está privada de um direito que o homem possui. Em consequência, para compensar a falta deste direito, ela influencia a sensualidade do homem e, através da sensualidade, domina-o de tal maneira que ele só formalmente faz a sua escolha, quem escolhe de facto é ela. E, ao ter aprendido uma vez a utilizar este método, a mulher abusa dele e adquire um poder terrível sobre os homens."
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Lev Tolstoi, A Sonata de Kreutzer, BI (Biblioteca de Editores Independentes), 2010, PVP: 6,00€

sexta-feira, setembro 10

E já lá vão três anos...


... de Pó dos livros.

O Segredo de Joe Gould

Li-o na altura em que foi publicado pela Dom Quixote (2001) e nunca o esqueci. Recentemente, a propósito de uma conversa aqui na Pó dos livros, voltei a pegar nele. Depois de uma segunda leitura, a opinião é semelhante: é um segredo bem guardado este "pequeno" livro de Joseph Mitchell.

As duas crónicas que compõem o livro, "sobre os personagens mais variados e exóticos da cidade", foram escritas para a secção "Perfis" da revista New Yorker e publicadas "com vinte cinco anos de diferença entre elas: a primeira "O Professor Gaivota", em 1942; a segunda, que dá título ao volume, em 1964, sete anos depois da morte de Joe Gould (...)".
"Joseph Mitchell foi um do jornalistas do The New Yorker que certamente mais contribuiu para marcar o tom e o estilo desta mítica revista americana. O seus artigos, espelhos fiéis de uma cidade e dos seus habitantes, sem nunca cederem ao sentimentalismo ou à nostalgia, definem padrões que serviram de modelo a muitos outros repórteres depois dele.
Foi sobretudo através dos chamados "Perfis", como o de Joe Gould, agora publicado em português, que Mitchell trouxe às páginas da revista um infindável galeria de vencidos da vida, vagabundos, bêbados, artistas falhados, donos de bares, e que inclui ainda o dono de um circo de pulgas amestradas, uma mulher barbuda, um vendedor de baratas de corrida, e outros personagens dos bairros populares e dos cais - gente de Nova Iorque, tão viva e imprevisível como a "gente de Dublin" de Joyce, ou os personagens de Gogol, dois escritores que ele muito apreciava. "As únicas pessoas que não me interessam", escreveu Mitchell, "são as senhoras da sociedade, os dirigentes da indústria, o autores distintos, ministros, exploradores, actores de cinema (excepto W.C. Fields e Stepin Fetchit), e qualquer actriz com menos de trinta e cinco anos".

Nascido de uma família de cultivadores de tabaco e de algodão, na Carolina do Norte, Mitchell chegou aos vinte e um anos a Nova Iorque, em 1929, chamado pelo Herald Tribune que publicara uma reportagem que ele tinha enviado sobre a cultura do tabaco. Durante nove anos trabalhou para vários jornais da cidade, iniciando a sua galeria de tipos, que haveria de prosseguir em The New Yorker, onde entrou em 1938, e onde se manteve até à sua morte em 1996."
"O Segredo de Joe Gould", Joseph Mitchell, tradução de José Lima, edição Dom Quixote, 2001. Pvp - 11.00 euros

Nota: os textos entre aspas foram retirados das badanas do livro.

Débora Figueiredo

terça-feira, setembro 7

Capas (Santuário)

Publicado pela primeira vez em 1931, “Santuário”. É assim que é feita, na contracapa, a introdução a este livro. Agora, olhem (em cima) para a capa do livro e comparem-na com a da primeira edição (em baixo) - tem tudo a ver, não tem? William Faulkner é considerado, a par de James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, entre outros, um dos maiores escritores do século XX.
Passada no condado (fictício) de Yoknapawpha, no Mississípi, a história envolve traficantes de bebidas, gangsters, um homem que se quer separar da mulher por razão nenhuma, uma estudante de cabeça vazia, uma prostituta, violação, assassinato. Faulkner conta-nos a trajectória da jovem Temple Drake rumo à sua decadência, a luta infrutífera de Horace Benbow por justiça e a fantástica presença de Popeye, personagem de extrema força, cujas simplórias aparições em cena conferem um tom singular à narrativa.
Olhem novamente para a capa do livro e reparem na menina de cabeça cortada vestida tão à anos trinta. Manifestamente um tiro ao lado em relação ao público-alvo, não vos parece? Uma capa mais apropriada para outro tipo de literatura, mas não, com certeza, para a escrita de William Faulkner. O livro foi adaptado para o cinema em 1933 com o título The Story of Temple Drake. Coloco aqui um pequeno clip do filme, para que melhor tenham noção do ambiente que vos espera, se, evidentemente, não se assustarem com a capa e escolherem ler este magnífico livro.

Jaime Bulhosa

edição: Bertrand Editora
título: Santuário
autor: William Faulkner
tradução: Ana Maria Chaves
Capa: (Não vem indicado)
formato: 15x23cm
n.º pág. 295
isbn: 9789722521277
pvp: 16.90€



segunda-feira, setembro 6

Sílvio Domador de Caracóis





"Quando for grande, quero ser

domador de caracóis.

É muito perigoso

-diz a mãe.




E pastor de libelinhas?

As libelinhas pastam na frescura do rio.

Sabes nadar sobre a água?

-diz a mãe.




Serei médico das árvores, é mais seguro.

Onde fica o coração das árvores?

-diz a mãe.


Vou aprender a arte de colecionar nuvens.

Choram muito...

-diz a mãe. (...)"


São as primeiras páginas do belíssimo livro "Sílvio Domador de Caracóis" escrito por Francisco Duarte Mangas e ilustrado por Madalena Moniz, edição da Caminho*.


*pvp 11.90 euros


Débora Figueiredo

sábado, setembro 4

Poetas...


Compraste livros e encheste estantes, ó amante das Musas.

Quer isso dizer que és agora um erudito?

Se comprares instrumentos de corda, plectro e lira hoje:

Julgas que amanhã o reino da música será teu?

Décimo Magno Ausónio (poeta gálico Séc. IV)

Nota: Não acreditem numa só palavra do que este senhor disse. Há pessoas que obstinadamente se empenham em estragar o negócio dos outros.


Jaime Bulhosa

sexta-feira, setembro 3

De livros e editores

Em Portugal a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro.

Para quem faz crítica literária e gosta de garatujar encómios em vez de panegíricas palavras na averiguação aturada de sinónimos e epítetos. *

Quando comecei a escrever, pensei que tudo devia ser definido pelo escritor. Dizer, por exemplo, «a lua» era estritamente proibido; era necessário encontrar um adjectivo, um epíteto para a lua. (Claro que eu estou a simplificar as coisas. Sei disso porque escrevi por diversas vezes La luna, mas isto é uma espécie de símbolo que eu fazia.) Bem, eu pensava que tudo tinha de ser definido e que não podiam ser usadas frases com fórmulas comuns. Eu nunca teria dito; fulano de tal entrou e sentou-se, porque isso era demasiado simples e demasiado fácil. Pensei que tinha de encontrar uma forma interessante de o dizer. Agora, descobri que esse tipo de coisas, em geral, é um aborrecimento para o leitor. Mas julgo que a raiz da questão reside no facto de que quando um escritor é jovem sente, de certa forma, que aquilo que vai dizer é bastante tolo ou óbvio, um lugar-comum, e por isso tenta escondê-lo sob uma ornamentação barroca; ou, se não for isso, caso ele se mostre moderno, faz o contrário: põe-se permanentemente a inventar palavras ou a referir-se a aviões, a comboios ou ao telégrafo e ao telefone porque está a fazer tudo o que pode para ser moderno. Depois, à medida que o tempo passa, sentimos que as nossas ideias, boas ou más, devem tentar passar essa ideia ou esse sentimento ou esse estado de espírito para o leitor. Se, ao mesmo tempo, estamos a tentar ser, digamos, um Sir Thomas Browne ou um Ezra Pound, então é impossível. Por isso acho que um escritor começa sempre por ser demasiado complicado – está a jogar diversas partidas em simultâneo. Quer proporcionar um determinado estado de espírito; ao mesmo tempo tem de ser contemporâneo, e se não for contemporâneo, então é um reaccionário e um clássico. Quanto ao vocabulário, a primeira coisa que um jovem escritor decide fazer, pelo menos neste país, é mostrar aos seus leitores que possui um dicionário, que conhece todos os sinónimos de uma palavra […]

Jorge Luis Borges em Entrevistas da Paris Review, tinta-da-china 2009


* Livreiro anónimo, depois de ter lido uma crítica a um livro sem ter percebido patavina.

White Jazz


Los Angeles 1958. O FBI decide proceder a uma investigação para acabar com as lotarias clandestinas do pugilismo, ligadas ao crime organizado e às máfias que proliferam em toda a região do Sul da Califórnia. No entanto, esta iniciativa é encarada como manobra política e forma de lançar suspeitas sobre o Los Angeles Police Department. O tenente Dave Klein, um polícia com um passado pouco recomendável, é destacado para investigar um assalto, mas envolve-se numa trama de interesses contraditórios e torna-se um possível alvo a abater no fogo cruzado entre os rivais, Dudley smith, o polícia mais corrupto de Los Angeles, e Ed Exley, o chefe dos inspectores do Los Angeles Police Department . Klein terá de recorrer a todas as armas de que dispõe para se defender, num jogo que pouco tem de limpo. O seu percurso levá-lo-á aos clubes de jazz do sul da cidade, onde se cruza com os ícones do be-bop, os amantes do White jazz, e tantas outras personagens do submundo do crime, habituais nos romances de Ellroy.

edição: Presença

autor: James Ellroy

tradução: Marta Mendonça

formato: 14,5x23cm

n.º pág.: 441

isbn: 9789722343930

pvp: 21.90€

quinta-feira, setembro 2

Querubins

Se trabalhar directamente com o público e se estiver atento ao que o rodeia, terá sempre histórias engraçadas para contar. Não sou de ouvir conversas alheias, porém, por vezes, não sendo surdo, é-me impossível deixar de ouvir o que os clientes dizem. A história que vos vou contar não contém nomes, por razões óbvias.

Certo dia de manhã, encontrava-me ao balcão a atender uma senhora, ainda jovem, bonita, bem vestida, com uma criança de meses ao colo, fazendo lembrar querubins de cabelos aos caracóis muito loiros. Entretanto, enquanto atendo a cliente, entra um homem de meia-idade e bem parecido que se dirige ao balcão da livraria. Surpreendido, parecendo mesmo incomodado com o encontro inesperado com aquela mulher, reconhecendo-a, não tendo outro remédio senão cumprimentá-la pelo nome, atrapalhado, de sorriso meio cor do sol quando se põe de Inverno, pega na mão do menino e pergunta-lhe:

- É seu?

Ela responde, sem perder tempo e muito expedita:

- E seu.

Jaime Bulhosa

A verdade

Um aluno pergunta ao seu professor – a pergunta que mais tarde ou mais cedo todos fazemos –, o que é a verdade? O mestre mandou que trouxessem uma bacia de água e ordenou ao aluno que mergulhasse lá dentro a cabeça.

Feito isto, o professor segurou com toda a força que tinha a cabeça do aluno. Subiam bolhas de ar à superfície. Quando as bolhas começaram a rarear, o professor deixou de fazer força e o aluno, quase sufocado, pôde retirar a cabeça de dentro de água.

- Porque fizeste isto?

Pergunta o aluno fulo.

- Quando necessitares da verdade com a mesma força com que necessitas do ar, então saberás o que é a verdade.

Citado por Roland Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso, Edições 70.

quarta-feira, setembro 1

Passa-palavra


Os livros que lemos podem ser-nos revelados de diversas maneiras, através dos seus títulos, dos seus autores, do lugar que ocupam numa estante da livraria ou lá de casa, de uma referência a um título que lemos noutro livro ou num blogue, revista, jornal, das ilustrações da capa, do tamanho, formato, encadernação, papel, tradutor, etc. Mas os livros são-nos revelados sobretudo pelo passa-palavra, isto é, pelo aconselhamento de alguém que se tem em conta e, isso sim, é verdadeiro marketing. Não é rápido, no entanto, dura e cresce sempre.
A mim, ultimamente, os livros têm-me sido revelados pelo aconselhamento especializado da minha colega Débora, que já leu tudo o que eu li e mais alguma coisa. E, extraordinariamente ou não, ela acerta sempre.
-
Jaime Bulhosa

Khadji-Murat

A Cavalo de Ferro lançou em Junho – esta edição já não é propriamente uma novidade, mas Tolstoi juntamente com Dostoiévski, Gogol, Gorki, Pushkin, Tchékhov, vale sempre a pena divulgar –, na Colecção Gente Independente, Khadji-Murat, obra póstuma de Lev Tolstoi, autor de títulos como Guerra e Paz, Anna Karenina ou A Morte de Ivan Ilitch.

Publicada postumamente em 1912, «Khadji-Murat» é a última obra de grande fôlego de Tolstoi. Uma história de luta e vingança. A história trágica e sublime do chefe guerreiro que decide abandonar os seus companheiros, que combatem obstinadamente contra a tirania do Czar e, para reivindicar a sua própria liberdade, se alia ao inimigo russo. Uma escolha sem retorno, que o fará ser refutado tanto por amigos como por inimigos. No seu estilo inconfundível, Tolstoi descreve os lugares e as paisagens do Cáucaso, um mundo inocente e violento, que conhecera na sua juventude – Tolstoi combateu na guerra que opôs populações locais ao Império Russo aquando da anexação da Tchetchénia e do Daguestão – realçando o simbolismo dos destinos individuais. Uma obra elogiada por gerações de leitores, que não perdeu a sua actualidade, fazendo ainda luz sobre a cruel história contemporânea.

edição: Cavalo de Ferro

autor: Lev Tosltoi

tradução: Olga Solovova

formato: 13x18,5cm

n.º pág.: 181

Isbn:9789896231262

Pvp: 10.00€