sexta-feira, dezembro 31

Ao futuro 2011

Só me é possível imaginar um futuro desconhecido com base num passado conhecido. O desejo de regresso ao indubitável amparo do útero da minha mãe é-me recorrente. Todavia, para meu desespero, o retorno ao passado é uma quimera, e o futuro, seja ele curto ou longo, espera-me, inevitavelmente, cheio de possibilidades, tantas quanto as inúmeras pessoas que existem.

Jaime Bulhosa

terça-feira, dezembro 28

Estado de espírito

Um escritor iraniano do século XX, Khanlari, conta-nos uma pequena fábula que reflecte perfeitamente o meu actual estado de espírito:

«Um grande falcão sobrevoa uma paisagem à procura de uma presa. Sente-se forte e ameaçador, nas alturas vê e domina todas as coisas. De um arco, lançada por um caçador escondido, uma flecha vem então atingi-lo. Fica ferido de morte, sente-o, já não pode mexer as suas asas que se fecham. Ao cair, olha para a flecha que o trespassa e vê que o empenamento é feito com penas de falcão. Diz então, mesmo antes de morrer:

- Porque hei-de lamentar-me? O que vem a nós vem de nós.»

Sermões Impossíveis


«apetecia-me escrever sobre as coisas sobre as quais me apetecesse escrever, por mais esotéricas e íntimas que me surgissem – coisas como um peixe de aquário ou um doce de praia, uma canção favorita ou um autor muito amado, o sexo ou a amizade, a minha casa ou a minha primeira morte.
é uma presunção, bem sei, que isso interesse a alguém, mas como sempre me interessou saber o que interessa aos outros posso crer que aos outros, para quem sou outra, interesse saber o que me interessa. posso até acrescentar que acho que nos interessamos todos – à excepção dos psicopatas, e talvez mesmo esses, já que se interessam por si próprios – pelas mesmas coisas.
e há sempre os peixes da capa.»

edição: tinta-da-china

autor: Frenanda Câncio

título: Sermões Impossíveis

formato: 14x21cm (capa mole)

n.º pág.: 309

isbn: 9789896710491

pvp: 15.90€

quarta-feira, dezembro 22

Novos-ricos

Novos-ricos, aqueles clientes que compram tudo e mais alguma coisa, na maior parte das vezes por razão nenhuma ou, então, porque fica bem com a estante da sala. Mas tenho que admitir que têm uma extraordinária vantagem: é que são ricos.

Livreiro anónimo

Que Delícia!


Lucy Cousins reconta a suas histórias infantis preferidas em textos breves e ilustrações vigorosas e vibrantes. As bem conhecidas personagens ganham uma vida nova, e ao mesmo tempo as grandes histórias tradicionais adquirem uma magia decididamente moderna. Estas histórias são tesouros do nosso imaginário que nunca deixarão de agradar.

- O Capuchinho Vermelho

- Os Três bodes Bravos do Monte

- O Nabo Gigante

- Caracolinhos de Ouro e os Três Ursos

- A Caracolinha de Ouro e os Três Ursos

- A Pequena Galinha Vermelha

- Os Três Porquinhos

Os Músicos de Bremen

edição: Caminho

título: que Delícia

autor: Lucy Cousins

formato: 26,5x29,5 cm (capa dura)

n.º pág.: 121

isbn: 9789722121194

pvp:19.90 €

segunda-feira, dezembro 20

Quim e Manecas 1915-1918


«É a arte e o talento de Stuart que dão cimento a toda esta criação. De um começo ingénuo, inspirado nas partidas de crianças, que são uma das matrizes fundadoras da BD, a série vai evoluir rapidamente para uma assinalável maturidade, rara ou mesmo única na Europa do seu tempo. O traço fácil e expressivo, a modernidade de ritmo, a harmonia estética e cromática de muitas páginas, um humor que transparece não só do texto mas das próprias personagens e situações, a ternura das figuras principais, tudo isso e muito mais fazem de Quim e Manecas uma das grandes obras da arte portuguesa do século xx.»


edição: tinta-da-china

título: Quim e Manecas (1915-1918)

autor: Stuart Carvalhais

Organização, introdução e glossário de João Paulo de Paiva Boléo

formato: 25x31cm (Capa Dura)

n.º pág.: 357

isbn: 97889896710606

pvp: 44.00€

Imbeciclopédia XIX


Desde que me levantei de manhã que o meu estupendo cérebro não parou de trabalhar, até ao exacto momento em que cheguei à livraria. Daí ter escrito este maravilhoso post.
livreiro anónimo

Nota: Este texto foi inspirado num poema de Robert Frost

sexta-feira, dezembro 17

Samos cada bêz menos livreiros


Ao entrar neste blogue entra numa livraria, compre for favor…

Livreiro anónimo


Nota: Já agora, lembramos que pode vir este Sábado e Domingo à Pó dos livros. Estaremos abertos das 10h às 19h.

Parabéns


«O Progresso é a injustiça que cada geração comete relativamente àquela que a precede»


Subíamos no elevador e olhámo-nos os dois ao espelho. Decido romper o silêncio:

- Afonso, amanhã 14 aninhos, hein… Como te sentes?

O Afonso com um sorriso na cara, ao espelho, mirando-me de soslaio, responde-me:

- Ó Pai! Sinto-me, exactamente, como tu te sentias quando eu estava aí em baixo.

Nota: O Afonso, “simplesmente”, mede 1,84 e calça o 46.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, dezembro 16

Supersticioso

Tenho por hábito entrar na livraria de manhã e pegar num livro à sorte, de um escritor qualquer, abrir numa página ao calhas (pág.168), percorrer com o dedo diversos parágrafos e parar nas primeiras palavras que me chamam mais à atenção. Leio: «Quando, furiosos de nos termos habituado excessivamente a nós próprios, começamos a detestar-nos, depressa compreendemos que é pior do que antes, que odiarmo-nos só vem reforçar os laços que temos connosco». E está vaticinado o meu dia. Hoje tive pouca sorte, mas nem sempre é assim.

Livreiro anónimo

quarta-feira, dezembro 15

Estamos sempre a aprender


Um cliente, conhecido pela exigência na escolha das suas leituras, entra na livraria e pede:

- Por favor, gostaria de dar uma vista de olhos naqueles dois livros.

- Com certeza, só um momento.

O cliente, folheia cuidadosamente os dois títulos, ao mesmo tempo que acena com a cabeça, em sinal de agrado ou, de desagrado. Depois, rapidamente, dá uma vista de olhos nas fichas técnicas e, por fim, comenta:

- Este é um livro excelente, mas infelizmente não o posso levar. Este outro é péssimo e nem com ajuda lá vai. Por isso, também não o levo.

O livreiro, na necessidade de vender, pergunta:

- Não me leve a mal, mas, que não leve um livro que acha péssimo eu percebo, agora, não levar um que considera excelente, já me custa a entender… É por causa do preço?

O cliente, sorrindo maliciosamente, responde:

- Permita-me que lhe ensine uma coisa: «Tanto causa dano uma má tradução de uma boa obra, como uma boa tradução de uma obra má».

Jaime Bulhosa

terça-feira, dezembro 14

A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen


«Há muitos pontos de interrogação no caminho que a China trilhará no século xxi: será que o estatuto de superpotência se tornará realidade? Será que existe de facto um modelo? Será que esse modelo é exportável para outros países? Sejam quais forem as respostas a estas perguntas, uma coisa é certa: o futuro de um quinto da população mundial e as suas “opções” em matéria de direitos humanos e de democracia liberal terão, como em muitas outras áreas, consequências globais. O massacre de Tiananmen foi um momento incontornável nas relações da China com o mundo e fundamental para tornar visível a tensão entre aqueles que defendem a concepção dos direitos humanos apenas como direitos do cidadão e, enquanto tal, uma concessão ou um privilégio atribuído pelo estado, e os que consideram os direitos humanos como prévios e limitadores do poder do estado. Vinte e um anos depois, a China continua uma ditadura de pedra e cal, mas as brechas abertas pelo 4 de Junho na Grande Muralha não estão ainda remendadas. Para além da superfície, há toda uma história e todo um legado que vale a pena conhecer.»

edição: tinta-da-china

autor: Raquel Vaz-Pinto

prefácio: Miguel Monjardino

1.ª edição: Novembro de 2010

n.º de páginas: 280

formato: 14x21 cm

isbn: 978-989-671-058-3

pvp: 15.90€

segunda-feira, dezembro 13

Imbeciclopédia XVIII


Pretender saber o que não se sabe, é uma doença

Lao-Tzu

- Tem livros sobre bruxismo?* Sabe é que a coitada da minha mulher não consegue dormir por causa disso.

O livreiro de forma demasiado expedita e impertinente, imediatamente, pergunta:

- Qual é exactamente o «bruxo» que pretende? É que temos vários.

O cliente franzindo a testa, desconfiado com a resposta do livreiro, pergunta:

- Não sei se está a perceber bem, o que eu pretendo?

- Meu caro senhor, tivesse eu, todos os dias, perguntas tão fáceis como essa! Sei perfeitamente o que pretende. Deixe-me adivinhar… a sua esposa sofre de um mau-olhado qualquer e o senhor gostaria de a ajudar a resolver, certo?

- De facto, gostaria de ver o meu problema resolvido, mas já vi que não é aqui que o vou conseguir.

O livreiro, vendo o cliente sair por onde entrou, de mãos vazias, murmura para o colega que se encontra a seu lado:

- Irra! Há clientes bizarros…

* Bruxismo: é um hábito parafuncional que leva o paciente a ranger os dentes de forma rítmica durante o sono ou, menos prejudicialmente, durante o dia.

O menino traquina


No conto que ides ler encontrareis todos os elementos com que é norma compor o tradicional conto da Natividade, cheio de sentimentalismo: haverá nele um pequenito e a mãe desse pequenito e uma árvore do natal, mas o certo é que o conto termina de modo muito diferente do costumado…
A sua sentimentalidade nem sequer irrompe à flor da pele. Como é sina da Natividade no Norte e como, em sua essência, é a própria vida.

A primeira conversa acerca da árvore do Natal surgiu entre volodka e a mãe três dias antes da data da festividade cristã, e não surgiu como estareis talvez a supor, intencionalmente, mas sim devido, a bem dizer, a uma coincidência quase estúpida.
Ao untar de manteiga umas fatias de pão, quando ambos tomavam o chá da tarde, provou a mãe uma delas e disse, franzindo as sobrancelhas:
- Esta manteiga tem um tal sabor que parece mesmo extraída do tronco de uma árvore.
- A propósito, mãezinha, comprar-me-ás este ano uma árvore de Natal? – Perguntou o Volodka, entre dois ruidosos sorvos de chá.
- Que mais te apetece, meu filho? Não, não terás árvore do Natal. Não temos dinheiro para brinquedos; já é para dar graças que possamos viver. Queira Deus que nunca nos falte o pão. Pois tu não vês que ando sem luvas.
- Bonita coisa! – Exclamou o Volodka. – De modo que todos os miúdos terão a sua árvore, e só eu… Como se não fosse gente!
- Trata de provar que és capaz de vir a sê-lo, um dia!
- Vais já ver como sou capaz. Olha a dificuldade! Hei-de arranjar um Natal muito melhor que o teu! Onde está a minha boina?
- Outra vez para rua? Mas que criatura esta! Vai sair-me um garoto vadio!... Ah, se teu pai fosse vivo, tu verias!...
O Volodka não fica, porém, sabendo o que é que o pai lhe faria: ainda a sua mamã não chegara a metade da frase e já ele descia lestamente, escarranchado no corrimão da escada. Apenas chegado à rua, o Volodka assumiu uma atitude extremamente séria, que quadraria muito bem ao possuidor de um grande tesouro, isto em virtude de levar na algibeirinha um enorme brilhante que, na véspera, havia encontrado no meio da rua – uma pedra refulgente, assim do tamanho de uma noz.
Naquilo havia posto todas as suas esperanças: talvez pudesse não só comprar uma árvore do Natal como assegurar no futuro os meios de vida de sua mãe.
- Seria interessante saber quantos quilates pesa – pensava o Volodka, enterrando a boina até às orelhas, enquanto ziguezagueava entre a multidão azafamada.
Torna-se oportuno notar que o Volodka tinha na cabeça um armazém de fragmentos de noções, retalhos de conhecimentos, observações, frases e ditos sentenciosos…
Em certos aspectos da sua vida revelava-se de uma grande ignorância; não se percebe, pois, como se inteirou de que os bilhetes se pesam aos quilates, e ao mesmo tempo desconhecia inteiramente o nome da província em que se situava a cidade onde vivia, qual o número obtido da multiplicação de 32 por 18, e por que razão não se pode acender um cigarro numa lâmpada eléctrica.
Toda a sua filosofia prática achava-se reduzida a estes três estribilhos, que intercalava onde podia, segundo as circunstâncias:
«Quando o pobre se casa a noite faz-se-lhe mais curta».
«Seja como for, o que falta é vê-lo».
«Diversões não são para nós; já é dar graças que possamos viver».
Este último conceito adquiriu-o ele por contágio materno, e os outros dois… só o Diabo o sabe!

Ao entrar numa joalharia meteu o volodka a mão no bolso e perguntou:
- Os senhores compram brilhantes?
- Sim, compramos. O meu caro homenzinho pretende oferecermo-los?
- Faça-me o favor de pesar esta coisita, para ver quantos quilates tem.
- Isto, meu amigo, é um pedaço de vidro – disse, sorrindo, o joalheiro.
- Vocês todos falam da mesma maneira – replicou o Volodka.
- Bem, basta de conversa; larga daqui!
Aquele brilhante de tantos quilates foi arremessado ao chão sem o menor exame sequer.
- Ai!
E o Volodka curvou-se para recolher a sua preciosa pedra. - «Quando o pobre se casa a noite faz-se-lhe mais curta».
Canalhas! Como se nunca ninguém tivesse perdido na rua um brilhante verdadeiro! Ora, que hei-de eu fazer?! «Diversões não são para nós; já é para dar graças que vivamos». Vou ver se me admitem nalgum teatro…
Deve ser confessado que havia muito tempo que tal ideia lhe verrumava o pensamento. Tinha ouvido dizer a alguém que, em determinadas ocasiões, eram pedidos miúdos para figurarem em certas cenas dalgumas peças; mas como apresentar-se e como oferecer os seus serviços, isso é que eu não sabia.
Mas o Volodka não se demorava muito a pensar nas coisas; ao chegar ao teatro introduziu-se lá como uma seta, atrevidamente, e no propósito de incutir ânimo em si próprio proferiu em voz baixa: «seja como for, o que falta é vê-lo».
Acercou-se de um porteiro e erguendo majestosamente a cabeça, dando-se ares muito importantes, perguntou:
- Vocês necessitam cá de rapazes para representar?
- Vá, vá daí para fora; não atravanques a passagem!
Depois de haver aguardado que o porteiro se distraísse, o Volodka esgueirou-se por entre os espectadores que entravam e enfiou por uma porta por detrás da qual se ouviam acordes de música.
- Faça-me o favor do seu bilhete, menino – pediu-lhe uma arrumadora.
- Ouça cá – disse-lhe o Volodka –; deve encontrar-se aqui dentro um cavalheiro de barba negra: vá dizer-lhe que acaba de dar-se na casa dele um terrível acidente, uma verdadeira desgraça: a mulher do cavalheiro matou-se. Mandaram-me à procura dele. Chame-o a senhora!
- Não tenho vagar para procurar barbas negras; Chama-o tu, se quiseres.
Metendo as mãos nas algibeiras, deu uma volta pela sala, descobriu num relance de olhos um camarote vazio e, introduzindo-se nele, tratou de se instalar e de fixar no palco a sua vista perscrutadora.
Instantes passados, sentiu uma palmadinha num ombro. O Volodka voltou a cabeça: era um oficial acompanhado de uma dama.
- Este camarote está ocupado – observou-lhes com convicção.
- Por quem?
- Por mim, ora essa! Não o vêem, por acaso?
A dama desatou a rir. O oficial, enfadado, fez menção de chamar um arrumador, mas a dama suspendeu-lhe o gesto.
- Poderá ficar aqui connosco, não é verdade? É tão pequenito e tão sério… queres ficar na nossa companhia?
- Bem, acomodem-se já os senhores… – respondeu o Volodka, como que autorizando-os a permanecerem ali.
- Que é isso, um programa? Vá, deixe-mo ver…
Assim se conservaram juntos, os três, até ao final da representação.
- É já o fim? – Interrogou o Volodka tristemente, consternado, quando viu descer o pano de boca. – «Quando o pobre se casa a noite faz-se-lhe mais curta». Já lhes não faz falta este programa?
- Não, podes levá-lo como recordação de tão agradável encontro.
O Volodka informou-se, prudentemente:
- Quanto deram por ele?
- Cinco rublos.
- Vendê-lo-ei para a segunda sessão – reflectiu o Volodka. E depois de se apoderar de outro programa abandonado no camarote vizinho, dirigiu-se resolutamente para a porta principal, a fim de oferecer a sua mercadoria.
Quando regressou a casa, cheio de fome mas satisfeito, no seu bolsinho havia, em vez de um brilhante falso, duas notas autênticas de cinco rublos cada uma.
No dia seguinte o volodka, levando apertado na mão o seu capital, vagueou largo tempo pelas ruas, aplicando a sua atenção na faina de negócios da cidade e resolvendo sem precipitações o problema do emprego do seu dinheiro.
Tendo ido parar à esplanada de um «café», ocorreu-lhe uma ideia: «Seja como for, o que falta é vê-lo». – Exclamou, ao mesmo tempo que entrava com arrojo por ali dentro.
- Que desejas, menino? – Perguntou-lhe uma criada.
- Tenha a bondade de dizer-me; não costuma vir por aqui uma senhora que usa uma pele cinzenta e uma bolsinha de ouro?
- Não…
- Então ainda deve vir… Esperarei por ela.
- O principal – pensava – é uma pessoa meter o pé; não bulam comigo e verão como eu as armo!
Amesendou-se e pôs-se de vigia, lançando olhares em todas as direcções. Duas mesas adiante da sua, um ancião dobrou vagarosamente o jornal que tinha estado a ler e preparou-se para tomar o seu café.
- Senhor – disse-lhe o Volodka quase num murmúrio, logo que se aproximou dele –, quando pagou pelo jornal?
- Cinco rublos.
- Venda-mo por dois; como já o leu… não lhe fará falta.
- Para que o queres?
- Para o vender, a ver se ganho alguma coisinha.
- Oh! amiguinho, és muito expedito! Está bem, homem… pega lá, e aqui tens três rublos de troco… queres um bocado de bolo?
- Eu não sou mendigo – replicou Volodka com dignidade –; trata-se apenas de ganhar para a árvore do Natal, só isto e nada mais…
Ao termo de meia hora havia já conseguido periódicos, um poucochinho amarrotados, é certo, mas que ainda podiam marchar muito bem.
A dama da peliça cinzenta e bolsinha de ouro continuava sem aparecer – Há certas razões para supor que só existia na buliçosa imaginação do Volodka…
Depois de ter conseguido ler a muito custo as parangonas da primeira página, completamente indecifráveis pelo seu entendimento: «A nova posição política de Lloyd George», o Volodka correu como um louco pelas ruas, apregoando com todas as suas ganas:
- Notícias sensacionais! «A nova posição de Lloyd George!» Preço cinco rublos! «A nova posição», por cinco rublos!
Antes do jantar, e no termo de uma série de operações com base nos jornais, já podia ver sobranceando uma caixinha de bombons; a expressão esculpida no seu rosto era quase impossível de distinguir debaixo daquela boina enterrada até abaixo das orelhas.
Ao sol, sentado num banco, estava um cavalheiro ocioso, a fumar com indolência.
- Meu senhor – interpelou-o o Voldka –, poderia dizer-me uma coisa?
- Venha de lá a pergunta, meu rapaz!
- Se meia libra de caramelos, que são uns vinte e sete, vale cinquenta e cinco rublos, quanto vale um só?
- É um pouco difícil dizer-to com exactidão, mas vem a sair à roda de dois rublos cada caramelo. Por que queres sabê-lo?
- De modo que já dá vantagem vendê-los a cinco rublos? Já não é mau negócio, não? Quer o senhor comprar-mos?
- Comprar-te-ei dois, com a condição de seres tu mesmo a comê-los.
- Não, não preciso; eu não sou mendigo, sou negociante… Compre-mos e ofereça-os logo a um menino seu conhecido!
- Bem, se assim queres! Tanto faz; venham de lá os caramelos!...

A mãe do Volodka regressou muito tarde da fábrica. Em cima da mesa, sobre cujo tampo também o pequeno, com a cabeça apoiada nos braços cruzados, dormia profundamente, erguia-se uma minúscula árvore de Natal ornamentada com duas maçãs, um coto de vela e três ou quatro cartõezinhos.
E tudo aquilo apresentava um aspecto digno de lástima.
Em volta da árvore estavam expostas umas tantas prendas: a fim de que não surgissem dúvidas a respeito das pessoas a quem se destinavam, junto da caixinha dos lápis de cor havia um papelito com uma inscrição muito mal escrita: «Para o Volodka». E ao pé de um par de luvas via-se outro, tão mal escrito como o primeiro dizendo: «Para a mamã».
Dormia, dormia profundamente, o menino traquina, e difícil seria saber por onde e em que esferas adejava então a sua perspicaz alminha de comerciante…

Arkady Averchenko

Neste Natal...

Obra Poética



A presente edição, agrupando pela primeira vez num único tomo a obra poética da autora, segue e actualiza os critérios de fixação de texto adoptados na segunda das referidas séries, a série das edições «revistas». Publica-se igualmente, neste volume, um conjunto de poemas dispersos em revistas, em livros colectivos, em jornais e num cartaz, desde textos que remontam à primeira fase da produção de Sophia, dos anos 1940, até aos últimos poemas escritos em 2001. Alguns destes textos já foram dados a conhecer na antologia Mar, a partir da 5.a edição, saída em 2004 (selecção e organização de Maria Andresen de Sousa Tavares). Não se inclui no presente volume um número considerável de poemas inéditos, que integram O espólio da autora, e que aguardam publicação em futura edição crítica.

edição: Caminho

título: Obra Poética

autor: Sophia de Mello Breyner Andresen

formato: Capa dura

n.º pág.: 920

isbn: 9789722121491

pvp: 49.90€

quinta-feira, dezembro 9

Rabo de Foguete


Ferreira Gullar é o pseudónimo de José Ribamar Ferreira, nascido em São Luís, no Brasil, em 1930. Poeta, prosador, crítico de arte, ensaísta, guionista de muitos dos maiores sucessos das novelas da Globo, foi nomeado para o Prémio Nobel, vencedor do Prémio Jabuti de Poesia em 2000 com Muitas Vozes e de Ficção em 2007 com Resmungos, e foi em 2010 agraciado com o Prémio Camões, a mais importante distinção dada a um escritor de língua portuguesa. Rabo de Foguete representa a sua incursão nos domínios da autobiografia, deixando como legado as memórias de um exílio forçado pela ditadura militar brasileira, primeiro em Santigo do Chile e depois em Buenos Aires, cidade onde viria a escrever o seu mais importante livro de poemas Poema Sujo. Um livro essencial para se compreender a solidão povoada de que nos falava Jorge de Sena e a maneira como, como na expressão idiomática Rabo de Foguete, nos vemos por vezes em situações tão perdidas como abraçados a um foguete na imensidão do céu.

edição: Verbo
título: Rabo de Foguete
autor: Ferreira Gullar
formato: 15,5x22cm (capa mole)
n.º pág.: 284
isbn: 9789722230087
pvp: 19.50€

terça-feira, dezembro 7

Pesadelo de criança


Na minha infância acontecia-me não pregar olho durante várias noites, tinha a sensação de que o tempo se concentrava todo em mim, como se o presente se perpetuasse e permanecesse eterno. Ficava ali, deitado, pressagiando a desgraça que me esperava. Agora adulto, continuo a não pregar olho e durante várias noites repito as sensações da minha infância, apesar de saber que: «uma infelicidade pressagiada é dez, cem vezes mais dura de suportar do que uma infelicidade que não esperávamos». *

Jaime Bulhosa

* E. M. Cioran

Novelas Exemplares



Se Cervantes é apontado com o seu "Dom Quixote" como o pai do romance moderno europeu, não deixa de o ser também para o conto com estas "Novelas Exemplares", clássico maior da literatura universal que vê aqui a primeira tradução integral em língua portuguesa em mais de 60 anos. São histórias que expõem as virtudes e fraquezas humanas servindo de exemplo para o que se deve e não deve fazer. Próximo de "Decameron" e de "Contos de Cantuária" mas diferente e mais abrangente. Miguel de Cervantes é o pai do romance europeu com o seu "Dom Quixote" que ainda hoje é a referência de base em termos de estilo literário. Recentemente, aquando da celebração dos 400 anos do seu nascimento, as celebrações correram todo o mundo e o nome de Cervantes voltou à ordem do dia.

edição: Ulisseia

título: Novelas Exemplares

autor: Miguel de Cervantes

tradução: Hélder Guégués

formato: 16x22,5cm (Capa Dura)

n.º pág.: 532

isbn: 9789725686577

pvp: 33.00€

sexta-feira, dezembro 3

Vidas Imaginárias


Para Marcel Schwob os factos—e a sua exactidão— nem sempre servem as verdades que uma vida singular constrói acima de si própria; por vezes há vidas comdireito ao mito, e preferidas neste deslumbramento pela memória dos homens, e a explicarem a personagem que as habita commais verdade do que a exactidão dos elementos obtidos por circunspectos investigadores.
Não se trata, portanto, de escolher a realidade pelas suas forças mais expressivas, mas criar uma outra realidade paralela e livre, quer em personagens que chegaram à investigação histórica diluídas por incertezas, quer nas que foram menos afectadas por este nevoeiro e Marcel Schwob força à «sua» realidade, sentida por si como todo-poderoso criador.
O incendiário, o cínico, a matrona impudica, o poeta rancoroso… piratas, assassinos… compêndio de singularidades que a Jorge Luis Borges serviu de lição para a sua História Universal da Infâmia

edição: Assírio & Alvim

título: Vidas Imaginárias

autor: Marcel Schwob

tradução: Aníbal Farnandes

formato: 13,5x21cm (Capa mole)

n.º Pág.: 170

isbn: 9769723715536

pvp: 17.00€

quinta-feira, dezembro 2

The Future of Publishing


(enviado por José Luís)

A Recompensa do Soldado


Uma das mais memoráveis obras sobre a Grande Guerra. Publicado em 1926, A Recompensa do Soldado é a primeira obra de Faulkner e um dos mais memoráveis romances sobre a Primeira Guerra Mundial. Relata a história de um veterano que regressa a casa ferido, seguindo a vida de três soldados e o impacto do seu regresso sobre a vida das pessoas, particularmente das mulheres, que foram deixadas para trás.
Encontramos aqui já a voz inconfundível de Faulkner, o seu estilo original e magistral nesta história de esperança, de humor negro, e de desespero.

edição: Casa da Letras

título: A recompensa do Soldado

autor: William Faulkner

tradução: Maria João Freire de Andrade

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º Pág.: 317

isbn: 9789724619927

pvp: 18.00€