quarta-feira, janeiro 19

A corda


Se for um filme de Hitchcock, alguém irá morrer, mas em A corda (1948) a morte abate-se logo na primeira cena. Foi através de um livro, A Filosofia Segundo Hitchcock, Davis Baggett e William A. Drumin, Estrela Polar, que eu descobri este filme. Este filme é a demonstração do cruzamento que tantas vezes acontece entre a literatura e o cinema. A acção do filme centra-se em dois estudantes universitários (supostamente homossexuais e digo, supostamente, porque o filme é de 1948) que estrangulam o seu antigo colega de universidade. A Corda está longe de ser um típico filme de Hitchcock. O filme está construído em apenas oito muito longos takes, uma técnica que se espera que imite as interacções da “vida real”. À excepção das legendas de abertura, o filme é inteiramente rodado em interior, dentro do confinamento de um apartamento da cidade de Nova Iorque. Mesmo o próprio homicídio parece terrivelmente higiénico. Não há sangue derramado como acontece com outros filmes de Hitchcock. Depois vemos os assassinos – o exuberante, rico e mimado Brandon (John Dall) e o seu frágil amigo pianista Philip (Farley Granger) – a prepararem-se para uma festa planeada para essa mesma noite. Na arca – onde escondem o corpo da vítima David –, colocada no centro da sala, são dispostos as bebidas e acesas as velas. A arca faz lembrar um altar preparado para uma missa negra e a festa uma cerimónia sacrificial. A arma do crime – a corda –, com que estrangulam David, é deixada à vista de todos, pendurada ao canto da arca. A somar à lugubridade da cena, cedo reconhecemos os convidados para a festa como sendo o pai e a tia de David, a sua noiva e o velho professor de Brandon e de Philip, Rubert (James Stewart) . Todos, à excepção destes dois, esperam que David apareça e brincam com o seu hábito de chegar tarde.

Segundo os padrões de Hollywood, A corda é um filme invulgarmente filosófico. Não só Rubert é editor de livros filosóficos “livros de letra pequena, palavras grandes, pequenas vendas”, que assume que “as pessoas não conseguem apenas ler, mas conseguem também pensar”, como um bem conhecido filosófo é mesmo mencionado directamente: o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Na festa Rubert começa, à sua maneira brincalhona, a dissertar sobre a estética do crime e as prerrogativas dos poucos homens superiores, quando Brandon se junta à conversa, acrescentando a sua vigorosa defesa dessas ideias. Brandon prossegue: “ poucos são aqueles homens de tal superioridade intelectual e cultural que se encontram acima dos conceitos morais tradicionais, O bom e o mau, o certo e o errado, foram inventados para o homem vulgar e ordinário, o homem inferior, porque que precisa deles.” O mesmo argumento filosófico, podemos encontrar no livro de, Dostoiévski, Crime e Castigo.


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