terça-feira, janeiro 25

ELAC


Se os meus gostos literários têm sobretudo influência do meu pai, o mesmo não acontece em relação aos meus gostos musicais. Se em minha casa as estantes estavam cheias de livros que transbordavam para o chão, fazendo-me tropeçar constantemente, não poderei dizer o mesmo em relação aos discos. É verdade que tínhamos a sorte de possuir um gira-discos de marca ELAC, que ainda hoje funciona e é uma autêntica relíquia. Mas a discoteca era pobre. Para além de uma pequena colecção de ópera, da soprano norte-americana (de ascendência grega) Maria Callas, existiam em minha casa mais uns cinco ou seis discos. Um deles era de Nat King Cole a cantar em castelhano. Um outro era o LP Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, em parceria com Sérgio Godinho nalgumas letras, que seria um dos discos que eu mais ouviria em toda a minha vida. Lembro-me muito bem deste título, em particular, porque está ligado a um acontecimento marcante da minha vida: um dia, decorria o ano de 1971, o meu pai, vindo do trabalho e trazendo com ele, debaixo do braço, um embrulho envolto no mais severo secretismo, mandou sentar em círculo, no tapete da sala, os seus cinco filhos. Depois, no tom de voz mais sério que conseguiu arranjar, disse o seguinte: «Não digam a ninguém que temos este disco em casa e, se alguma vez o colocarem no gira-discos a tocar, então que seja com o som muito baixinho.» Foi nesse ano, com apenas sete anos de idade, que tomei consciência, pela primeira vez, da existência da ditadura, da PIDE-DGS, de Salazar, de Marcelo Caetano, da censura, das prisões políticas e das conversas em sussurro.

Só anos mais tarde, já em democracia e através do meu irmão mais velho, é que pude alargar os meus conhecimentos musicais. Nessa altura, o meu irmão já trabalhava e garantia o seu próprio sustendo. Aproveitando sempre a sua genuína generosidade, em plena adolescência e frenética descoberta da música, girava em torno dele, massacrando-o continuamente, com notícias da saída de novos discos, de forma a conseguir, por exaustão, mas desconfio que também por gosto, que ele me passasse para mãos uma ou duas notas de contos de réis. Depois, corria para o supermercado Pão de Açúcar, com os olhos a brilhar de tanta excitação por poder comprar um novo disco dos Genesis, dos Yes, dos Pink Floyd, dos Deep Purple, dos Led Zeppelin, entre muitos outros com que ele me presenteou. Obrigado, Pedro.


Jaime Bulhosa

7 comentários:

Francisca prieto disse...

Tanto Yes, tanto Genesis e tanto Pink Floyd ouvi eu à conta dos meus irmãos meia velhos, meu Deus.
Também somos 5 e eu sou a mais nova.

Cristina Torrão disse...

A paixão pela música surgiu-me antes da paixão pelos livros. E costumo comparar as duas formas de arte. Se há livros que nunca deveriam ser publicados, também há discos/CDs que nunca deveriam ter visto a luz do sol. Se bem que, com música, é costume ser-se mais tolerante. E, no fundo, quem está verdadeiramente apto a julgar?

Anônimo disse...

Tinham poucos, mas bons discos!
Também ainda tenho um gira-discos.
E funciona.
Mas é mais recente.

Isabel

Anônimo disse...

Dezembro de 1971...
A dúvida, nesse distante Natal, foi escolher entre o "Mudam-sa os Tempos, Mudam-se as Vontades" e o "Cantigas de Maio"; os dois era impossível, porque o dinheiro não abundava. Acabou por ganhar o segundo, como prenúncio do que viria a ser o ano 1974.

Beatrix Kiddo disse...

esta é a história que eu nunca tive e gosto sempre de saber quem passou por isso

irmão mais velho + música nos tempos do vinyl...

Anônimo disse...

boas. desde já peço desculpa de invadir este espaço, pois gostaria só de perguntar se está interessado em vender o elac (pois eu tenho um que não está nas melhores condições)ou eventualmente troca-lo,...(ex. 4 livros raros de 1960/1)obrigado. jluislopes@vodafone.pt

Pó dos Livros disse...

jluislopes, não está à venda. ;)