quinta-feira, janeiro 27

A morte de um funcionário


Numa maravilhosa noite, o não menos maravilhoso amanuense Ivan Dmitritch Tcherviakov assistia, na segunda fila da plateia, à opereta «Os sinos de Corneville». Olhava para o palco através de um binóculo e sentia-se o mais feliz dos homens. Mas, de repente… Este «mas, de repente…» aparece nas histórias com muita frequência. E não sem razão: a vida está cheia de surpresas!... Mas, de repente, contraiu o rosto mostrando o branco dos olhos e sustendo a respiração, afastou a mão com que segurava o binóculo, dobrou o corpo e… Atchim!!! É verdade, deu um espirro. Uma pessoa tem o direito de espirrar onde quer que esteja. Espirram os camponeses, os comissários da polícia e, por vezes, até os próprios conselheiros privados. Toda a gente espirra. Tcherviakov não se embaraçou absolutamente nada com o caso. Limpou o rosto a um lenço e, como era um homem de boas maneiras, passeou os olhos em torno de si para ver se não teria incomodado alguém com o seu espirro. E então é que viu algo que o fez sentir-se embaraçado: um velho sentado na primeira fila, mesmo à frente dele, enxugava cuidadosamente a calva e o pescoço com uma luva, murmurando qualquer coisa entre os dentes, Tcherviakov, reconheceu no velho o general Brizjalov, alto funcionário do Ministério dos transportes Ferroviários.

«Salpiquei-o! É certo que não sou subordinado dele, mas de qualquer forma foi uma indelicadeza. Tenho que pedir-lhe desculpa.»

Tcherviakov tossiu, inclinou-se mais para a frente e cochichou ao ouvido do general:

- Perdoe-me o descuido. Vosselência. Salpiquei-o… mas não foi de propósito…

- Não é nada, não é nada…

- Queira desculpar, foi sem querer, acredite…

- Pronto não se fala mais nisso. Deixe-me ouvir!

Confuso, Tcherviakov sorriu estupidamente e tornou a fixar o olhar no palco. Porém, já não gozava a felicidade de pouco antes. Começou a atormentá-lo um certo desassossego. No intervalo, acercou-se de Brizjalov, andou algum tempo à sua volta e, vencendo por fim a timidez, balbuciou:

- Há pouco salpiquei Vossa Excelência… Peço-lhe desculpa… é que não foi por…

- Ora, deixe-se disso! Já nem me lembrava da coisa e o senhor vem agora bater na mesma tecla! – replicou o general, fazendo um trejeito de impaciência com o lábio inferior.

«Ai que não se lembrava! Então porque aquela malícia nos olhos? – interrogava-se Tcherviakov, espiando o general com desconfiança. – e nem quer falar, corta-me logo a palavra… Tenho que explicar-lhe que foi sem querer… por força de uma lei natural. Senão fica a pensar que lhe cuspi. Se esta ideia ainda não lhe ocorreu acabará por ocorrer-lhe mais tarde…»

Ao chegar a casa, Tcherviakov falou à mulher da grosseria que tinha praticado. Ela não se preocupou muito com o caso. A princípio, mostrou-se assustada, mas logo sossegou quando soube que Brizjalov era doutro ministério.

- Mas o melhor é ires pedir-lhe desculpa – opinou. – Para que não julgue que não sabes portar-te em público.

- Isso mesmo! Já tentei desculpar-me, mas ele… não sei… Não se expressou claramente. De resto, não havia tempo para conversas.

No dia seguinte, Tcherviakov vestiu uma nova casaca, cortou o cabelo e foi explicar-se… quando entrou no gabinete do general, viu ali reunidas muitas pessoas, entre as quais estava o próprio Brizjalov. Este atendia já os requerentes. Depois de despachar alguns, levantou os olhos para Tcherviakov.

- Ontem, no «Arcádia», não sei se Vosselência se lembra – começou o amanuense –. Dei um espirro e… salpiquei-o, por acaso… Des…

- Que tolice! O senhor tem cada uma! – O general voltou-se para outro requerente. – em que lhe posso ser útil?

Tcherviakov empalideceu. «Nem me dá ouvidos! Decerto que está agastado… - dizia para com os seus botões. – Não, as coisas não podem ficar neste pé. Tenho que fazer-lhe ver…»

Quando o general acabou de falar com o último requerente e se dirigiu para os aposentos interiores, Tcherviakov foi-lhe no encalço.

- Excelência! Se me atrevo a incomodar Vossa Excelência é unicamente por estar arrependido da minha falta. Saiba que não foi intencional.

De cara chorosa, o general fez com a mão um gesto de enfado. – O senhor está a fazer torça de mim! – lançou, desaparecendo atrás de uma porta.

«Qual troça, qual carapuça! Acaso pode haver troça da minha parte!? Muito me admira que, sendo um general, não compreenda isso. Bom nesse caso não pedirei mais desculpas a este fanfarrão. Que vá para o diabo! Mando-lhe uma carta e pronto. Não volto mais a falar-lhe, palavra que não volto!»

Era nesses termos que Tcherviakov raciocinava a caminho de casa. Todavia, não chegou a escrever a prometida carta. Matutou muito tempo no assunto, mas não conseguiu redigi-la. No dia seguinte, resolveu ir explicar-se outra vez.

Ante o olhar interrogativo do general, tartamudeou:

- Já estive aqui ontem… mas creia que não foi para troçar, como Vossa Excelência se dignou dizer. Queria só pedir desculpa por tê-lo salpicado com um espirro… Não foi minha intenção troçar do Senhor. Acaso uma pessoa como eu ousaria fazer uma coisa dessas? Se a gente andasse a troçar, não haveria nenhum respeito… às autoridades…

- Rua! – berrou outra vez o general, começando de repente a tremer, com o rosto congestionado.

- Como? – perguntou Tcherviakov num sussurro, entorpecido de terror.

- Rua! – berrou outra vez o general, batendo com os pés no soalho.

Tcherviakov sentiu qualquer coisa dilacerar-se-lhe nas entranhas. Sem nada ver nem ouvir, recuou até a porta, saiu para a rua e lá foi arrastando os pés. Chegou maquinalmente a casa, deitou-se no sofá sem tirar o casaco e… morreu.

Anton Tchékhov (1883)

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