quinta-feira, janeiro 20

O Génio Vazio


Tasso na Escócia

Dumas afirma que o romance é tão antigo como a Humanidade. É possível. Constitui a metáfora da vida. Se olharmos para o reverso de uma moeda falsa, podemos ouvir a canção ociosa de um dia que não teve a pretensão de gerar no mundo maior agitação que qualquer outro e se revelarmos a poesia que nele jaz adormecida, temos o romance.

Numa pilha de livros antigos e poeirentos (tenho uma predilecção por antiguidades) encontrei um volume mais recente: Novelas com Seis Gravuras. Abri-o e deparei-me com a história de um rei da Escócia prestes a tornar-se preso da morte às mãos de um crânio humano embalsamado. Agora, tentem adivinhar quem é que o litógrafo escolheu para figurar como rei da Escócia nas suas gravuras? Tasso! A explicação é simples: economia. Procurei o retrato de Tasso com o expresso propósito de os comparar. Era ele, traço a traço. Que bizarras coincidências podem existir neste mundo, disse eu para comigo, sorrindo no meu sonho. Poderia uma história como aquela que eu estava a ler ter acontecido a Tasso?

Mas tinha-me esquecido de que tudo o que é impossível na realidade é possível na nossa mente, e que, ao fim e ao cabo, tudo o que vemos, ouvimos e pensamos não passa apenas de criações demasiado arbitrárias da nossa própria subjectividade e não de coisas reais. A vida não é mais do que um sonho.

Era uma noite triste. A chuva caía miúda nas ruas não pavimentadas de Bucareste, que serpenteavam, estreitas e lamacentas, por entre as casas pequenas e mal acabadas que constituem a maior parte da capital da Roménia. Quem se atrevesse a dar um passo em frente, dava por si em charcos de lama que o borrifavam com água pegajosa. Das tabernas e lojas, através das montras grandes e encardidas, filtrava-se uma luz baça, ainda mais enfraquecida pelas gotas de chuva que inundavam os vidros. De vez em quando, surgia uma janela com cortinas vermelhas, onde uma mulher exibia os seus encantos numa semi-escuridão… Aqui e ali, descortinava-se um romântico a passear, assobiando baixinho. Um bêbedo gritava enrouquecido sob as janelas da perdição e atrás do vidro a mulher pintada acendia um fósforo para mostrar a sua cara besuntada e o peito nu e mirrado – talvez o meio derradeiro de sufocar desejos sujos em almas embotadas e devastadas pela corrupção e pela embriaguez. O bêbedo entrava, a semi-escuridão tornava-se negrume e o crepúsculo contemplativo tornava-se uma meia-noite plúmbea ao pensar que tais criaturas poder-se-iam imaginar homem ou mulher. São assim três quartos do mundo, e o restante – só Deus sabe quão escassas são as criaturas dignas de serem consideradas humanas.

Pela porta aberta de uma taberna ouvi o chiar de cordas desafinadas, torturadas por um pobre garoto cigano, os seus dedos secos cerrados sobre um arco miserável; à sua volta pulavam energicamente uma mulher e um cigano alto e esfarrapado, os seus pés nus arrumados em botas largas e cheias de palha. Uma alegria grotesca e disforme desenhava-se nos rostos de ambos.

Ao lado havia um café. A chuva e o frio que tinham penetrado no meu corpo obrigaram-me a entrar. O cheiro de tabaco e o barulho constante dos jogadores de dominó produziram um efeito estranho sobre os meus sentidos, já de si confundidos pela chuva e pelo frio. O relógio, fiel intérprete do tempo antigo, soou doze vezes no seu idioma metálico para relembrar às pessoas, que não o escutavam, que a décima segunda hora da noite acabara de se escoar. Aqui e acolá, viam-se em redor das mesas grupos de jogadores com cabelos desgrenhados, segurando as cartas com uma mão trémula, estalando os dedos da outra antes de apostar, taciturnos, com olhos fixos, mordendo os lábios sem dizer uma palavra, e, de vez em quando, sorvendo ruidosamente o café ou a cerveja que tinham à sua frente… belo sinal de triunfo!

Um jovem debruçado sobre uma mesa de bilhar não parava de escrever a giz no tecido verde o nome «Ilma». Pensei que fosse um descendente de Arpad[1] e que tivesse ido buscar aos recessos da sua memória o nome de alguma doce namorada ou de algum ideal húngaro dos romances de Mauriciu Jokay. Não me preocupei mais com a figura daquele jovem, talvez desiludido com o amor, mas comecei a folhear alguns jornais estrangeiros, revistas literárias e artísticas, etc. (Os nossos não têm nada a dizer nesses domínios nem tão pouco revelam qualquer vontade de o fazer.)

O jovem aproximou-se de mim.

–?Depois de si, se faz favor – murmurou ele, fazendo uma vénia. Um sotaque romeno puro – não era húngaro.

–?Aqui tem – disse-lhe eu, oferecendo-lhe um jornal, surpreendido pelo interesse que ele despertou em mim assim que ergui os olhos.


[1]
Arpad (c. 850-907 d.C.), filho de Almos, é considerado o primeiro governante da Hungria, provável chefe das tribos magiares e o fundador da Casa de Arpad.
(N. da T.)

edição: alfabeto

autor: Mihai Eminescu

tradução: do romeno, Monica Cozacenco

n.º pág.:167

isbn: 9789898475015

pvp: 14.00€

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