quinta-feira, fevereiro 10

Em Busca do Tempo Perdido


Acordo sozinho, melancólico, numa manhã escura e triste de Inverno. Levanto-me, tomo banho, vejo-me ao espelho, ignoro a barba por fazer, as rugas, os cabelos brancos e visto-me. Abro a porta e saio de casa sem ter que me despedir de ninguém. Pensei apenas, ao fechar a porta à chave, como seria se os meus filhos estivessem comigo.
Pus-me a caminho pela auto-estrada que me leva à cidade de Lisboa. Estaciono o carro e percorro a pé o caminho que me falta, até à livraria onde trabalho. Entre muitas pessoas que seguem no passeio, esbarro com uma velha que caminha lentamente na direcção oposta. Quase a derrubo. Desvio o olhar, sem a cumprimentar nem pedir desculpa, como fazemos aos que passam por nós nas ruas da cidade. Contudo, alguma coisa me fez parar. Não tive intenção de voltar atrás para lhe pedir perdão ou cumprimentá-la, apenas senti um estranho pressentimento que me percorreu a espinha e me fez pensar: «Eu conheço esta velhinha de algum lado.»
Decido mudar bruscamente de direcção, para conseguir vê-la melhor. No mesmo instante, a velhota dobra a esquina e, por uns segundos, deixo de a ver. Sigo-a, do outro lado, e encontro no seu lugar uma mulher de cinquenta anos. Para meu espanto, os traços fisionómicos são os mesmos, só que mais jovens e familiares. A minha perplexidade é total e a curiosidade aumenta. Decido continuar a segui-la. Ela caminha, agora bastante mais veloz, e volto a perder-lhe o rasto. Acelero o passo e torno a vê-la. Desta vez, está ainda mais jovem, perto dos quarenta. Já não se encontra só, leva consigo quatro filhos, três rapazes e uma rapariga adolescente, de cabelo comprido, negro e tez morena. É sem dúvida a mais velha dos quatro filhos. Na mão direita a mulher segura o filho mais novo, uma criança loira, bochechuda e sorridente que, de tão pequena que é, por cada três passos que dá, dois são de corrida, única maneira de os poder acompanhar. Mais uma curva e novamente a perco. Dobro a sinuosa rua e, de novo a vislumbro. De repente, o seu rosto torna-se perfeitamente identificável. Porém, o cenário que nos envolve muda. Os prédios são quase todos os mesmos que existiam, naquela zona da cidade, nos finais dos anos sessenta, mas mais degradados e sujos. As pessoas vestem-se também de maneira diferente, muitas mulheres de lenço negro na cabeça e alguns homens de chapéu. O trânsito automóvel, àquela hora, é substancialmente menor, os táxis modelo Mercedes Benz 180D, pintados de preto com capota verde. A mulher, agora visivelmente grávida do quinto filho, tem pouco mais de trinta anos. Tenho que aligeirar novamente o passo, sinto-me uma criança pequena, com o coração a palpitar, assustado, corro o mais depressa que posso em direcção àquela mulher. E, num impulso despropositado e completamente irracional, agarro-me às suas pernas.
Ao pressentir-se agarrada, a mulher, colocando-me a mão carinhosamente na cabeça, exclama aliviada:
- Por onde andaste tu, meu filho!?... Ando eu desesperada, mais os teus irmãos, feita louca, à tua procura.
Depois acordo, sozinho, melancólico, numa manhã escura e triste de Inverno.
Jaime Bulhosa

9 comentários:

fallorca disse...

O melhor comentário é avisar-te que vou «vitaminar» o meu blogue roubando-te estas calorias, meu Amigo.
Dá cá um abraço

sonia disse...

Emocionou de verdade!
Abraço.

Isa disse...

que lindo...

SEVE disse...

Obrigado Caro Amigo Jaime Bulhosa por esta pérola. Não poderia começar esta manhã da melhor maneira. Simplesmente delicioso e arrebatador.
Um abraço

Filipa disse...

5 estrelas!!

Anônimo disse...

O tempo, esse grande estupor... e nós na sua roda viva, sem grande hipótese de fuga. Ou não? Óptimo texto! Parabéns, Jaime.

J Morales

Patty disse...

Que bonito.

carla disse...

Maravilhoso. Obrigada.

Maruxa disse...

Cuando en el caminar encuentres una imagen del pasado, no pares,todo está en el mañana.
Un saludo afectuoso.
Tia Maruxa.