sexta-feira, julho 6

Personalidade influente


Num dia incerto, após uma sequência esperada e ininterrupta de dias monótonos – decididamente nada ocorre na vida tal como se prevê –, um estranho entra na livraria. Cabisbaixo, com semblante carregado, cambaleando de uma tristeza tão triste, que quase não se lhe ouvem os murmúrios provenientes da trémula boca. O livreiro, ao ver aquele espectro de homem, com pelo menos meia vida percorrida, de cabeça redonda com cabelo arruivado, metade nua e reluzente, contrastando com a tez pálida, cor de defunto, naquele estado desgraçado, visivelmente reflectido nas suas pobres e gastas vestimentas; não pôde deixar de sentir compaixão por ele. – Um sentimento que, como todos sabemos, é comum à maior parte das pessoas. Uma necessidade que nasce dentro de nós e que se revela num impulso exterior, de um altruísmo incontrolável, na tentativa de aliviar o sofrimento dos outros, sem pedir nada em troca. – De imediato, o livreiro ampara-o entre os braços, disponibilizando-se para o ajudar no que fosse necessário, e antes mesmo de saber o teor dos seus lamentos exclama: «Oh, pobre homem… que Deus Nosso Senhor o ajude!»

O nosso estranho, sentindo finalmente apoio e comiseração por parte de um desconhecido, enche de ar os pulmões, num movimento de peito como quem vai gritar alto, num pedido de socorro. Mas mais não consegue do que um sopro, demorado, emitindo um som agudo assobiado, de suspiro, no entanto profundo… tanto quanto o tamanho da sua aflição. Depois, recuperando as forças e em silêncio, com o dedo fazendo sinal para que o livreiro o seguisse até um local menos frequentado, desabafa na orelha. Uma orelha aberta, enorme, daquelas que existem unicamente nos seres humanos capazes de ouvir os outros – como os padre na confissão –, seres humanos imbuídos da mais sincera humanidade e ausência total de interesse próprio, ao mesmo tempo capazes de manter segredo - discrição difícil de ver em muitos seres humanos frequentadores de igrejas. Não, meus caros amigos, não se ponham já a protestar, porque isto é apenas o narrador a pensar, não o autor . Em sussurro, tem uma voz tão fraca que o próprio narrador, bem como o leitor, pouco mais terão oportunidade de ouvir do que coiso e tal… e isto e aquilo… e o que se segue: pedindo segredo absoluto, porque todo o cuidado é pouco, tanto mais tratando-se de um funcionário do Estado, ainda que subalterno, conta como se havia envolvido num processo de justiça. Processo esse tão injusto, que, mesmo depois de ter pago o que tinha e o que não tinha em recursos legais, não conseguiu levar por diante o seu intento, isto é, o de lhe fazerem a devida justiça, devolvendo-lhe o que haviam roubado. Os ladrões!… e os outros, os que por lei o juraram defender, como eles iguais.

Ouvindo-o com toda atenção, o livreiro, apercebendo-se rapidamente da complexidade do caso e de que dali não viria nenhuma vantagem ao comércio, antes pelo contrário, lamentou muito o facto, gostava muito de o ajudar, mas que, infelizmente e com todo o pesar, isso não estava ao seu alcance. Não era uma personalidade influente, era tão-somente um humilde livreiro. Depois abanou a cabeça e lá lhe foi dizendo o que o estranho há muito devia saber: que, apesar do contributo inestimável de Montesquieu, conquanto devesse haver separação dos poderes e tal, tudo era pura ficção, como a maior parte dos livros que vendia. Pior ainda quando se tratava de funcionários do Estado. «Ufa!» Porque era assim que as coisas funcionavam. Acabou toda esta ladainha aconselhando-o a dirigir-se «a determinada personalidade influente, porque a essa personalidade influente bastaria escrever e contactar com a pessoa certa para o caso avançar com mais êxito. Nada a fazer. [O nosso amigo] decidiu dirigir-se à personalidade influente. Qual era e em que consistia o cargo da personalidade influente, isso ainda hoje se ignora. É de referir porém que tal personalidade influente se tornara personalidade influente havia pouco e que, antes disso, era uma pessoa sem qualquer influência. Aliás, o cargo dele, mesmo agora, não era considerado assim tão influente, em comparação com outros, claro, mais influentes. No entanto, haverá sempre um círculo de pessoas para as quais quem não tem influência aos olhos dos outros é de facto influente. De resto, a dita pessoa tentava reforçar a sua influência por muitos outros meios, como sejam: estabeleceu que os subalternos o recebessem logo à sua chegada ao serviço, isto é, ainda nas escadas; que ninguém se atrevesse a entrar directamente no seu gabinete, mas que tudo obedecesse a uma ordem rigorosíssima: O registador de colégio devia informar o conselheiro titular, ou outro equiparado, e que só então o caso chegasse até ele. É assim na nossa santa [terrinha]: tudo está contaminado de imitação, cada qual imitando e macaqueando o seu superior. Dizem até que determinado conselheiro titular, mal foi nomeado chefe de uma pequenina repartição, mandou instalar divisórias com a finalidade de isolar uma divisão para si, denominando-a de «sala de reuniões» e pondo à entrada contínuos com golas vermelhas e galões, contínuos esses que pegavam nas maçanetas e abriam a porta a quem entrava, embora na «sala de reuniões» dificilmente coubesse uma mesa de trabalho, Os usos e costumes da personalidade influente eram solenes e majestosos, mas não muito complicados. A base principal do seu sistema era a severidade. Severidade, severidade e, ainda severidade, costumava ele dizer e, dita a última palavra, olhava na cara, muito significativamente, a pessoa com quem falava. De resto, não havia necessidade nenhuma disso, porque a dezena de funcionários que constituíam toda a máquina administrativa da repartição já sem isso levavam a sua existência com o devido temor: mal o viam ao longe, abandonavam os seus afazeres e perfilavam-se em posição de sentido durante o tempo em que o chefe atravessava a sala. A sua conversação normal com os subordinados caracterizava-se pela severidade e quase se resumia a três frases:

«Como se atreve? Não sabe com quem está a falar? Não compreende quem está à sua frente?» De resto, no fundo era um bom homem, simpático com os companheiros, obsequioso, só que o título de general criara nele grande confusão. Obtido o título de general, perdeu a cabeça, desencaminhou-se e não acertava na maneira de se comportar, quando lhe calhava estar na companhia dos seus pares, ainda era uma pessoa como deve ser, uma pessoa, em muitos sentidos, decente, nada estúpida até: mas, bastava-lhe cair numa sociedade de pessoas inferiores a si um grau para que tudo lhe corresse de mal a pior: calava-se, a situação dele provocava a compaixão dos outros, quando, ainda por cima, sentia que podia passar o tempo incomparavelmente melhor. Via-se-lhe às vezes nos olhos o fortíssimo desejo de se meter numa conversa interessante ou de se juntar a um círculo qualquer, mas uma ideia o detinha: não seria ir longe de mais, não significaria entrar em familiaridades, não comprometeria com isso a sua influência? Em consequência de tais raciocínios, ficava sempre no mesmo estado taciturno, apenas pronunciando de vez em quando uns sons monossilábicos, pelo que adquiriu assim o título de homem supinamente enfadonho. Foi a esta personalidade influente que o nosso funcionário recorreu […]»

Como esta história acaba, não vos conto. Porque o meu funcionário do Estado não é o mesmo que o funcionário da personagem do excelente texto – desde que foram abertas as aspas e letras de cor diferente, até que se fecharam – pertencente ao conto «O Capote», de Nikolai Gógol. Se desejarem saber todo o envolvimento, trama e final deste fantástico conto, terão, tal como eu, de o ler até ao fim. E esta foi a maneira singela que encontrei de contribuir para divulgação do livro e da leitura. Para além, é claro, da maravilhosa acção generosa e altruísta que foi tentar vender mais uns livrinhos.

(Colecção Gato Maltês, Assírio & Alvim).

Jaime Bulhosa

2 comentários:

Antonio Abreu disse...

Gostei do blog, é o que procuro, atende a todos os quesitos sobre literatura da qual aprecio... Estou seguindo... Um abraço

Arnaldo Ventura disse...

Que curiosidade caro Jaime. Comprei, aí na livraria, os "Contos de São Petesburgo" há 2 ou 3 semanas. Terminei hoje mesmo "O Capote" e consequentemente o livro.
Fiquei estarrecido com a escrita de Gogol. Nunca tinha lido nada dele.
É incrível como nesta compilação de 6 contos se nota tão bem a evolução da qualidade da escrita de Gogol, "O Retrato" e o "O Capote" são bem mais maduros que os restantes ("O Nariz" ou a "Avenida Nevski" por exemplo, que foram escritos alguns anos antes).
Muito bom.
Cumpts