segunda-feira, fevereiro 14

A propósito do dia dos namorados, algo sobre o fim das relações amorosas.


Ultimamente o que mais tenho ouvido dizer são frases como estas: «a felicidade é um dever exclusivo de cada indivíduo», «não dá para delegar nos outros a nossa própria felicidade» ou «essa responsabilidade é pessoal e intransmissível». De facto, parecem ser frases verdadeiras, de uma verdade tão autêntica que, por mais que nos custe admitir, apresentam-se de certa forma egoístas, cruéis, diria mesmo implacáveis. Contudo, quando me ponho a pensar nelas, estas frases parecem-me fazer todo o sentido. Principalmente para quem se quer desresponsabilizar de um compromisso assumido com outrem. Já do outro lado, ou seja, para aquele que foi, por alguma razão, como se costuma dizer, apanhado na curva, tais frases são, de alguma modo, um paradoxo. Porque, se é verdade que não podemos ser responsáveis pela felicidade dos outros, então também não é menos verdade que, mesmo involuntariamente, podemos ser responsáveis pela infelicidade dos outros. Quero eu dizer com isto que a nossa felicidade ou infelicidade depende essencialmente de nós e dos outros, a não ser que queiramos ser uns eremitas, anacoretas, solitários solteirões. Mas não vale a pena desesperar, porque podemos sempre voltar a ser felizes, é claro, sozinhos, com a mesma ou com outra pessoa qualquer.

Jaime Bulhosa

8 comentários:

Cristina Torrão disse...

Essas frases resultam em oposição a que não podemos depositar a nossa felicidade exclusivamente nas mãos dos outros, pois, se nos sentirmos infelizes, há sempre alguém que tem a culpa, não faltam "bodes expiatórios". É descartarmo-nos de responsabilidades, incutindo sentimentos de culpa nos que nos rodeiam. Por isso mesmo, as frases só aparentemente são egoístas.

Claro que temos compromissos perante outros, mas, quando, para alguém, uma relação acaba, normalmente, é má ideia prolongá-la. Em vez de um infeliz, há dois. Pior: há dois infelizes "a brincar à felicidade".

s. disse...

Jaime Bulhosa, várias vezes ao dia venho ao seu blog para ler algo que você e sua equipe tenham postado e sempre me surpreendo com a sensiblidade e a sutileza de pensamento que encontro nos escritos expostos aqui.
É com muita felicidade e um sentimento de satisfação que venho cumprimentar-lhes pelas excelentes mentes que compõem a Pó dos Livros. Pode ter certeza, quando for a Lisboa, o primeiro lugar que visitarei será a Pó dos Livros!!! E não se importe em ter que me dar um autógrafo!!

Um abraço forte!

Areia às Ondas disse...

Não acredito na felicidade, acredito sim, em momentos felizes. Tenho a convicção que existimos com a missão de ajudar o outro, sempre. Assim, em última análise, a sucessão de momentos felizes será maior quanto maior for a nossa disponibilidade para ou outros.

Pó dos Livros disse...

S.

Obrigado. Quanto ao autógrafo... ;)

Jaime

Pó dos Livros disse...

Cristina Torrão,

Concordo inteiramente consigo.E não vejo, no que escrevi, uma ideia contrária à sua.

Obrigado

Jaime

JoZe disse...

http://exiladonomundo.blogspot.com/2011/02/as-flores-do-ramos.html

fallorca disse...

Cristina, e o que é a felicidade? a infelicidade conheço-a bem, convivemos há mais de meio século.
Mas damo-nos muito mal... eheh

Cristina Torrão disse...

Jaime,

Algo no seu texto me confundiu, acho que foi essa coisa de, mesmo involuntariamente, podermos ser responsáveis pela infelicidade dos outros. Mas é verdade, sim, não somos eremitas, as nossas atitudes têm sempre reflexos nos outros. O problema é como arcamos com as responsabilidades, não é ;)