sexta-feira, fevereiro 18

Tipicamente português


No outro dia fui jantar com uma amiga, estacionámos o carro ainda longe do restaurante onde pretendíamos comer. Estava uma noite fria de chuva intensa. Percorremos umas boas centenas de metros, sem chapéu-de-chuva, até chegar ao restaurante, que, para nosso azar, se encontrava encerrado para descanso do pessoal. Não desesperámos, continuámos em busca de outro restaurante e... de novo, fechado. Parece que naquela zona dos arredores de Lisboa, os restaurantes são como eram os museus há uns anos atrás: sempre fechados nos dias em que os podíamos ir visitar. Sem alternativa, corremos o mais depressa que conseguimos. A chuva batia-nos forte no rosto, provocando aquela sensação desagradável de arrepio, a mesma de quando nos colocam, por brincadeira, cubos de gelo nas costas, espinha abaixo.

Por sorte, logo na rua seguinte, um restaurante aberto, ou melhor, uma tasca. Espreitámos lá para dentro, pela vitrina, e reparámos que a decoração era típica de uma boa tasca portuguesa. As paredes forradas a azulejos azuis e brancos, de uma má imitação da azulejaria portuguesa do século XVIII, as mesas e cadeiras, de um alumínio cinzento, a condizer com a intempérie cá fora, guardanapos e toalhas de papel em cores diferentes, para enfeitar o ambiente. Olhámos um para o outro e, sem ser necessário dizer nada, pensámos em conjunto: «normalmente até se come bem e barato, nestas tascas portuguesas», e de imediato decidimos entrar e sentar. A tasca encontrava-se cheia de gente – o que augura sempre uma boa refeição –, as pessoas falavam muito alto, única forma de se sobreporem à conversa um dos outros e ao som intenso do televisor de ecrã plano pendurado na parede. Até aqui nada de anormal. Enquanto esperávamos para ser atendidos, olhámos de soslaio para a gente que nos rodeava. Estranhamente – não sendo aquele um lugar turístico –, não havia um único rosto de fisionomia latina. Porém, a língua que falavam, no meio de todo aquele burburinho, soava mais ou menos a português, mas não conseguíamos perceber uma só palavra do que diziam. Pegámos na ementa e tentámos ler os nomes dos pratos disponíveis; tinham todos nomes estranhos e incompreensíveis. «Onde viemos parar?», perguntámo-nos.

Foi então que reparámos que no televisor – objecto “indispensável” a qualquer boa tasca portuguesa – passava um canal ucraniano.

Uma senhora grande, loira, de olhos azuis, sorriso largo e face bonita aproximou-se da nossa mesa e, num sotaque eslavo carregado, perguntou-nos num português quase correcto:

- Senhores, desejam comer?

Nem um nem outro fazíamos ideia de que seria feita a gastronomia ucraniana. Confesso a minha ignorância, mas da cultura da Ucrânia pouco mais sei para além de lá ter nascido o escritor soviético Nikolai Gogol. A senhora simpática que nos atendia bem se esforçou por nos explicar, um a um, os pratos ucranianos ao nosso dispor. Os ingredientes e sabores de uma mistura, entre o melhor, da cozinha oriental e ocidental, foram descritos com todo o pormenor. Contudo, disfarçadamente e ao contrário do conto de Nikolai Gogol, pudemos torcer o nariz. Concluímos que seria melhor não arriscar. Perguntámos, tentando não ferir susceptibilidades, se por acaso, não teriam nenhum prato de cozinha portuguesa. A senhora insistiu nos pratos da sua terra natal:

- Olhê que são muito bons!

- Não duvidamos – disse a minha amiga, – mas vínhamos mesmo com intenção de ter uma refeição, como dizer… mais familiar. Percebe?

Com ar triste, a senhora, lá nos disse:

- Bem, temos bacalhaó a lagareira.

De imediato, a minha amiga exclamou, toda contente:

- Ah, bacalhau à lagareiro!?...

Para meu espanto, depois de um curto mas confrangedor silêncio reflexivo, a minha amiga, perguntou:

- Desculpe, e como é o bacalhau à lagareiro?

E assim acabámos os dois a noite, estupidamente, a comer bacalhau à lagareiro, com sabor a papila de sêmola, kasa e o “delicioso” iogurte.

Jaime Bulhosa

4 comentários:

Jamil S.P. disse...

A comida podia não estar tão boa, mas a história está ótima! :)

Pedro disse...

delicioso!!

fallorca disse...

Quem anda à chuva, molha-se

josé luís disse...

:))
... mas, se a vingança se serve fria (como a dobrada pessoana), talvez um dia um par de amigos ucranianos entre num restaurante "tipicamente ucraniano" numa noite de chuva em kiev e só lá estejam emigrantes nossos, desde o cozinheiro aos clientes... e todo o peixe saiba a sardinha assada, a carne a coiratos e até a vodka tresande a bagaço!