sábado, fevereiro 19

Um livro perfeito



Aposto que esta pequena história se terá passado com a maior parte dos editores, tradutores, revisores e afins:

Como editor, nos últimos anos da sua vida, o meu pai tinha como uma das suas responsabilidades, – por vezes, acredito, mesmo para ele, bem aborrecidas – ler originais de livros em francês, a fim de aferir a qualidade dos mesmos e dar o seu parecer. Depois de já o sol se ter escondido, dando definitivamente como morto o dia e o nascimento de mais uma noite fria de Dezembro, chega a casa vindo do trabalho, com a tarefa de ler um desses manuscritos. Nesse tempo era um luxo, uma casa, possuir aquecimento central. Tínhamos apenas um radiador a gás que saltava de divisão em divisão para que o aquecimento fosse o mais equitativo possível. Não tendo nesse momento nenhuma fonte de calor junto de si, meu pai pega numa mantinha, cobre as pernas com ela e, senta-se na sua poltrona preferida. Abre o livro no seu colo e dá início à leitura. – Desconfio que não terá passado das primeiras frases do prefácio – porque logo entrou num sono profundo, profundo... passado não mais que uma hora e meia é despertado por minha mãe que, simpaticamente, lhe pergunta:

- Então, e que tal mais esse livro?

Murmurando, ainda meio estremunhado, o meu pai responde:

- Estupendo, maravilhoso... verdadeiramente regenerador.

Jaime Bulhosa

Um comentário:

Anônimo disse...

Uma história encantadora.
Isabel