terça-feira, março 15

Estamos todos à rasca



Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».

Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens.

Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopim – tan, tan, taran, tan, tanran, tan tan –, «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.

E certamente continuarão por aí, até que alguém se lembre de pegar numa caçadeira e acabe de vez com os malditos.

Nota: Continuamos estoicamente a espantar os abutres e já tratamos da licença de porte de arma.

Jaime Bulhosa

7 comentários:

SEVE disse...

Todos os meses tento abater pelo menos um (abutre) e não pense amigo Jaime que é com facilidade (mas puxa daqui puxa dali e lá se arranjam uns trocos para municiar o vício-comprar livros/possui-los tê-los/acarinhá-los/olhá-los/cheirá-los). Acabar com as livrarias é um dos sonhos deles, desses malditos boys que invadiram a nossa terra (e dos outros que já espreitam qual abutre pairando/esvoaçando....)

Isa disse...

Força, Jaime!
Abraço

Claudia S. Tomazi - Brasil disse...

Caríssimo Jaime Bulhosa, a mim um comedido estranhamento...
Penso que por vezes, os ditos abutres não passam de almas cuja ignorância ao desuso do verbo, fazem emoldurar uma casca sólida em que os artifícios da incredulidade emergem para vias de fato, pela vulnerável e depreciada espécie. Sendo que desnecessária, por ser vossa a preocupação. São raros, e, nem sempre ditoso este acontecimento, cuja conseqüência inspire cuidados não de uma caçada, mas do exorcismo que desemburre o que na sociedade dos dias atuais supõe ser, uma abstinência do saber. A construção da civilização trás sob a insígnia das escrituras o alicerce de milênios, então para vossa e nossa serenidade, o que entendemos por ditos abutres, são apenas resquícios do inconformismo com a perfeição.

Melhores Cumprimentos.

João Afonso Machado disse...

Sr. Bulhosa:
A caça a rapinácias é expressamente proibida.
E o mal dos livros não está nelas.
O mal está no preço dos cartuchos, quando queremos caçar - perdizes, por exemplo; e na preguiça dos caçadores, que já não caçam de salto e gostam mais que lhes atirem as aves para cima da porta, nas largadas.
Nos livros é a mesma coisa.
Cumprimentos
João Afonso Machado

Anônimo disse...

Caro Jaime.
A solução para o pequeno comérci seja de livros ou de outra mercadoria qualquer é as pessoas evitarem as grandes superfícies e saírem para a rua. Eu evito FNAC, Bertrand e outas que tais não vou à livraria do meu bairro porque não há lá nenhuma mas vou a uma independente e não tem como patrão um que todos os anos figura na lista dos bilionários.

fallorca disse...

Milho-roxo nos gajos

Anônimo disse...

E se priveligiasse-mos as livrarias independentes em vez das grandes cadeias tipo FNAC, Bertrand e Continente?