terça-feira, fevereiro 27

Pó dos Livros



Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».
Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens.
Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopim – tan, tan, taran–, «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.
Escrevi este texto em Março de 2011 e já previa este fim. É verdade chegou a hora da livraria Pó dos Livros «celebrar o dia da liquidação total». No dia 31 de Março de 2018, mais esta livraria passará a ser uma mera recordação, um pedaço de pó na memória de poucos.
Mais tarde escreverei sobre as causas e razões. Farei também os devidos agradecimentos a quem sempre nos apoiou, porque percebe qual importância da existência  de uma rede de livrarias independentes em todas as nossas vilas e cidades.
Até breve. 

Jaime Bulhosa

22 comentários:

SEVE disse...

Todos os meses tento abater pelo menos um (abutre) e não pense amigo Jaime que é com facilidade (mas puxa daqui puxa dali e lá se arranjam uns trocos para municiar o vício-comprar livros/possui-los tê-los/acarinhá-los/olhá-los/cheirá-los). Acabar com as livrarias é um dos sonhos deles, desses malditos boys que invadiram a nossa terra (e dos outros que já espreitam qual abutre pairando/esvoaçando....)

Isa disse...

Força, Jaime!
Abraço

Claudia S. Tomazi - Brasil disse...

Caríssimo Jaime Bulhosa, a mim um comedido estranhamento...
Penso que por vezes, os ditos abutres não passam de almas cuja ignorância ao desuso do verbo, fazem emoldurar uma casca sólida em que os artifícios da incredulidade emergem para vias de fato, pela vulnerável e depreciada espécie. Sendo que desnecessária, por ser vossa a preocupação. São raros, e, nem sempre ditoso este acontecimento, cuja conseqüência inspire cuidados não de uma caçada, mas do exorcismo que desemburre o que na sociedade dos dias atuais supõe ser, uma abstinência do saber. A construção da civilização trás sob a insígnia das escrituras o alicerce de milênios, então para vossa e nossa serenidade, o que entendemos por ditos abutres, são apenas resquícios do inconformismo com a perfeição.

Melhores Cumprimentos.

João Afonso Machado disse...

Sr. Bulhosa:
A caça a rapinácias é expressamente proibida.
E o mal dos livros não está nelas.
O mal está no preço dos cartuchos, quando queremos caçar - perdizes, por exemplo; e na preguiça dos caçadores, que já não caçam de salto e gostam mais que lhes atirem as aves para cima da porta, nas largadas.
Nos livros é a mesma coisa.
Cumprimentos
João Afonso Machado

Anônimo disse...

Caro Jaime.
A solução para o pequeno comérci seja de livros ou de outra mercadoria qualquer é as pessoas evitarem as grandes superfícies e saírem para a rua. Eu evito FNAC, Bertrand e outas que tais não vou à livraria do meu bairro porque não há lá nenhuma mas vou a uma independente e não tem como patrão um que todos os anos figura na lista dos bilionários.

fallorca disse...

Milho-roxo nos gajos

Anônimo disse...

E se priveligiasse-mos as livrarias independentes em vez das grandes cadeias tipo FNAC, Bertrand e Continente?

bea disse...

É com imensa pena que leio esta notícia.

a das artes disse...

Que dizer mais? Um abraço, Jaime. Tentaste, e bem, nas várias vertentes. Um abraço, enquanto, na fila, vou tentando ficar para trás. Tentando. Nem um Ministro poeta e um Presidente bibliófilo têm dois dedos de testa para tentarem alterar algo. Somos invisíveis e, assim, está bem para o povo do shopping. Abraço rijo.

Graça Sampaio disse...

Lamento muito. Mais uma porta do chamado comércio local que se fecha em prol das grandes superfícies... :(

Conceição Paulino disse...

za é o que sinto. Força para este embate.

L. disse...

fico triste. a cidade fica mais pobre. dito isto, devo assumir que fui um dos que não foi à pó-dos-livros o suficiente. a última vez foi no natal. e lembro-me do que levei, um livro de poesia do ricardo marques e outro da raquel nobre guerra.

Noite disse...

Estou destroçada. A minha neta, quando era mais pequena, dizia-me: "Avó, só há uma Pó dos Livros no mundo inteiro".

IsaKastelo disse...

Fiquei tristíssima com esta notícia. É, de longe, a minha livraria preferida. Por tudo. Pelo espeço, pela simpatia de todos que nela trabalham, pelos bons livros que lá encontro.
Ainda nem estou a acreditar que isto é verdade.... :(

Ana Santos disse...

Lamento ter conhecimento do fecho da Po dos Livros.
Desejo-vos as maiores felicidades.

Anônimo disse...

Custa-me muito saber esta notícia. A Pó dos Livros ainda é das poucas livrarias que dá primazia à qualidade do que vende. É uma livraria onde quem nos atende tem um vasto conhecimento literário. Sinto mesmo muita pena.

Anônimo disse...

É com grande tristeza que leio esta notícia.
Até quando é que continuamos a assistir ao contínuo desaparecimento das livrarias?
Um abraço de solidariedade
Isabel Castanheira, ex-Loja 107, Livraria

Anônimo disse...

Lamento. Nunca gostei de limitar as escolhas dos meus filhos. Mas peço-lhes para não comprar livros em supermercados nem em cadeias de distribuição, importadas. Cada macaco no seu galho. Um Livraria tem alma e um só cheiro. Ao contrário dos locais atrás referidos.
Um abraço

Anônimo disse...

Já não tenho resiliência para tanta perda.
Um abraço,
Jasmim

Anônimo disse...

Bom dia

Lamento o desfecho anunciado da livraria. (Mais um passo em direcção a um futuro standardizado.)

Só um pedido: não apague o blog, por favor.

Saudações Cordiais
Desidério

Anônimo disse...

E vocês ficam bem? Quero eu dizer, os 4 que me habituei a ver dia após dia na livraria, depois 3, depois 2, ficam bem? Têm novos projetos ou, pelo menos, para onde ir?

Anônimo disse...

Façam lá o favor de reconsiderarem e abram um pequeno estabelecimento em Arroios.