quarta-feira, março 30

O Segredo dos Negócios


Ontem, à noite, dizia-me assim um amigo: Estou farto desta cidade chata, vulgar, em que não há nenhuma possibilidade de aventuras dignas de tal nome: em que a gente sabe, de antemão, que jamais encontrará o maravilhoso.

- E como estás tu certo disso? – perguntei-lhe.

- Ora, vamos lá, homem!...

- Com frequência as maravilhas se encontram ao alcance das nossas mãos, os milagres se produzem em frente da nossa janela… O que acontece é que é necessário ter a aptidão, a predisposição para essas coisas.

Mas ele não me quis crer e deixou-me para ir a uma agência de navegação, a fim de ver a que horas saía o primeiro barco para «o coração de África ignota», segundo o seu próprio dizer.

Eu continuei a caminhar pela mesma vereda… E escrevo esta verídica historia no sentido de que, se lida pelo meu tal amigo, ele regresse logo que chegue ao primeiro porto.

Continuei a caminhar pela mesma vereda e, pouco depois, uma mão cordial e um tanto pesada bateu-me no ombro. Voltei-me e achei-me defronte da cara rosada e sorridente de um senhor, que me disse:

- Mas, és tu?

Como efectivamente era eu e não tinha motivos sérios para o negar, como sucede, por exemplo, às pessoas que por culpa das más companhias têm mandato de captura, respondi-lhe:

- Nem, mais, nem menos.

Um pouco mais, homem, um pouco mais, pois na última vez que te vi pesavas metade do que pesas agora.

Após um bocado de conversa chegámos à conclusão de que éramos dois companheiros de colégio que se não viam desde os dias longínquos do quadro preto e dos gatafunhos; e de que logo que se sobrasse um bocadinho de tempo daria uma saltada ao seu escritório.

Fui ontem vê-lo.

Os seus escritórios estão instalados numa boa casa, em cuja porta se lê: «Pérez & Cia.,Lda.»

Para chegar junto de Pérez, que é amigo do que estou a falar, tive de percorrer várias salas e salões, muito bem mobilados todos e onde um batalhão de raparigas de diferentes tipos de beleza percutia desesperadamente as suas máquinas de escrever. Passei também diante de uma reixa dourada, por detrás da qual uns cavalheiros gordos se moviam, com gestos pousados, e contavam altas rimas de notas.

Enormes, negros solenes, muitos cofres de ferro lhes serviam de pano de fundo.

O Pérez recebeu-me muito bem, apresentou-me a um senhor que segundo me disse, era seu sócio (o senhor Cia., suponho), ofereceu-me café e, depois de várias ordens dadas por um telefone assente sobre a sua secretária, foi mostrar-me as restantes dependências da casa.

Eram tudo escritórios, arquivos, secções de máquinas de calcular, quadros de aparelhagem eléctrica privativos e o diabo a quatro.

De regresso ao seu gabinete, disse-me ele:

- Como vês, isto marcha.

- Assim parece. E em que é que te ocupas?

- Dirijo o pessoal.

E o pessoal, que faz ele?

- Faz muitas coisas: maneja os livros, escreve à máquina, tira cópias de correspondência registada nos livros rubricados, atende os agentes, organiza o arquivo…

- Bem, mas… de que tratam os teus negócios?

- De papel.

Tens então uma fábrica? Se assim é serei teu cliente, pois preciso de escrever umas cartas e não o faço desde há sete anos por carência de um bom papel.

- Não, não tenho fábrica de papel.

- Ah, já compreendo!

- Que é que tu compreendes?

- Que tens uma empresa editorial, um jornal.

- Tão-pouco.

Ele parecia gozar com a minha perplexidade.

- Papel de embrulho, com etiqueta?

- Não.

- Papel…

- Tão-pouco… vou explicar-te: nós não nos ocupamos de nada material; criamos papelada, expediente, grandes calhamaços, que vão sempre crescendo, correspondência, telegramas simples e cifrados, lançamentos e contra-ordens. Numa palavra: todos os trabalhos inerentes a uma grande empresa e nada mais. Compreendes agora?

- Nem patavina. Todos esses trabalhos se fazem para vender mercadorias, para chegar a transacções… enfim, para alguma coisa.

- Pois aqui não. Aqui exercemos a burocracia pura, o expediente pelo expediente, sem raiz em nenhuma realidade material.

- E isso dá?

- Não tenhas dúvidas. Queres tu ver o último balanço? É colossal!

Não, não; o que quero é saber de onde saem os lucros.

- Isso não sei eu próprio, nem ninguém nesta casa. Posso, porém demonstrar-te com cifras que quando um expediente é chegado à sua conclusão, quando tem todas as suas assinaturas e selos, seu número de ordem, suas idas e vindas – entra uma quantia na caixa, e disso vivemos setecentas pessoas, umas melhor que outras, como é lógico.

- Mas quem traz esse dinheiro e por que é que o traz?

- Ninguém, emana dos próprios expedientes, cai de entre a suas folhas, como o fruto cai das folhas da árvore quando chegada a estação propícia,

- Mas isso é absurdo!

- É todavia, verdade.

Quedei-me largo tempo, pensativo, a morder o charuto com que o Pérez acabava de obsequiar-me, e por fim perguntei:

- Vocês roubam alguém?

- Nem um centavo. Juro-te.

- Pois não percebo.

É muito simples: trata-se do segredo das grandes organizações, que consiste em criar papéis. Eles se encarregam, depois, de trazer o dinheiro.