segunda-feira, março 21

Sumidades

(Desenho Heinrich Kley)

Alguns críticos literários e outras sumidades intelectuais de vários quadrantes políticos e até literários haviam-se reunido em conselho. Fartos de verem o seu trabalho cair em saco roto, deliberaram que se deviam empenhar em espalhar a sua inteligência e sabedoria pelo povo, na persecução da elevação do gosto literário do grande público. Defendiam eles que, de uma vez por todas, era chegada a altura de acabar com o trash literário dominado pelos bestsellers de literatura light. Este princípio regia-se pelo slogan «People can not read what they want, but what we give them to read», criado em inglês, especificamente, para que as massas populares o repetissem como papagaios pelo mundo fora.

Havia já algum tempo que se dedicavam a esta tarefa, com empenho e dedicação. Os estrondosos efeitos destas medidas culturais faziam-se já sentir no mercado. A venda dos clássicos tinha aumentado, em apenas um ano, para o dobro, enquanto os bestsellers – que continuavam, no entanto, e em grande escala, a ser bestsellers –, tinham passado para metade.

Foi então que um eminente editor de grande superfície, levantando a mão – tal como fazem os meninos bem comportados diante de sua sumidade, o professor – e respeitosamente erguendo-se, perante a sala de audiências do conselho de críticos, pede permissão para falar:

- Meus caros amigos! Em meu nome e dos demais colegas de profissão, dos livreiros e distribuidores, peço-vos que desistais dos vossos intentos. Bem sei que as intenções são as melhores, que ganhais bom dinheiro, prestígio e benesses com este género de coisas, mas pensai só no dano que causais aos negócios dos outros!

Nota: Este texto foi inspirado em Esopo emendado & outras fábulas fantásticas, de Ambrose Bierce, edições Antígona.

Jaime Bulhosa

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