sexta-feira, abril 1

Cadernos do Subterrâneo





Para aqueles que se atreveram a olhar-me, que me repudiaram, pontapearam, chamaram louco, bêbado e indigente. Para os outros, nada, sempre fui invisível.

 Cadernos do Subterrâneo, de Dostoiévski.

Provavelmente, nunca ninguém lerá este pequeno caderno guardado nas minhas vestes mortuárias. E se algum de vós um dia o fizer, não estarei a partilhar convosco este mundo, mas sim outro Inferno. Se até Deus não me quiser…
Tenho que vos dizer, antes de morrer, que nunca me zanguei, nem por ser pontapeado, nem quando escarneciam de mim. Não porque vos tenha perdoado, mas porque todos os homens me são completamente indiferentes. Pago na mesma moeda, por assim dizer. Há já algum tempo que me conformei em ter como única companhia o desdém. Sou um dos habitantes de viadutos e casas abandonadas desta cidade. Colector de lixo, companheiro de quarto de pombos, ratazanas e outros iguais a mim. Dito doutra forma, sou um indigente.
Escusado será dizer que no Inverno os meus ossos enregelam, apesar de estar encharcado em álcool e coberto por mantas de jornal do dia anterior, com notícias, ainda quentes, do terremoto de Fevereiro de 1969. 
E nos meses de calor… «que bom! um abrigo cheio de estrelas».
Não pensem que a minha vida sempre foi assim. Em tempos, também fui como um de vós. Um ser humano com plenos direitos, mulher, filhos, casa e trabalho. Histórias de um passado que sei hoje ter sido feliz, porém, longínquo, perdido nas borras do fundo de uma garrafa. Recordações que não passam, agora, de um imenso calvário, de memórias cruéis que se agarram no meu cérebro e não se desvanecem.
«Lembro-me de uma manhã de Inverno,  um invisível  – denominação que atribuímos a nós próprios –, acordando de mais uma noite gelada, tiritando de frio, esfregava o corpo com as mãos rígidas, tentando aquecer o sangue, quase solidificado nas suas veias. Viu-o todo encolhido, com a cabeça entre as pernas. Contudo, apesar disso, reparei que se esboçava um leve sorriso nos seus lábios. 
Resolvi perguntar, mal-humorado:
- Por que estás com essa cara? Esta noite não foi diferente das outras, só frio e fome.
- Pois não, mas tive um sonho extraordinário. Sonhei que vivia numa enorme casa, com as paredes ornamentadas a papel bordado a ouro, lareira acesa, lençóis perfumados, criados ao meu serviço, crianças em volta a correr, a mulher sorrindo e vinhos do melhor. 
Depois perguntou,  com uma comiseração pouco comum entre indigentes:
- E tu, com o que sonhaste?
- Eu não sonhei com nada – respondi de semblante carregado.
- Tens sorte. – Respondeu, após ter reflectido um pouco.
- Olha que não, tu é que tens sorte.
- Não! Desculpa, és tu que tens.
-Não, tens tu. – E discutimos, eternamente, sem conseguirmos chegar a qualquer entendimento.»
Estou um velho, cansado, no entanto, não cheguei ainda aos sessenta anos. O meu corpo não passa de um esqueleto, em forma de cabide, com andrajos sujos, rasgados que exalam odores a vómito de vinho tinto avinagrado. 
Reflecti muitas vezes, de que me valia continuar a vaguear pelas ruas sem destino ou finalidade. No entanto, sem nunca ter chegado a uma conclusão, faço-o há anos, tantos que já lhes perdi a conta. Estou farto, há muito tempo que pressinto que a minha hora se aproxima. Não vou durar muito tempo, disso tenho eu a certeza, pelo menos desde que comecei a cuspir sangue. «Deve ser das beatas que fumei ou dos pombos (ratos com asas) que comi?»
Tomei uma decisão, não vou esperar por ela. Pelo menos, por uma vez, serei eu a comandar a minha vida. Pensei em diversas formas de o fazer: lançar-me da ponte Salazar, deitar-me na linha do comboio, esbarrar-me contra um automóvel numa avenida qualquer. Não o fiz, não por falta coragem. Para a morte ainda a tenho, falta-me é a coragem para a vida. E, simplesmente, não quero ser notícia de jornal e virar cobertor.  
Decidi então que devo morrer, anonimamente, como aliás quase sempre vivi. Tanto engendrei, que arranjei maneira.  
Para que funcione, os farrapos que visto terão de ter pior aspecto do que aquele que já têm, cheirar ainda pior, não a vinho, mas a cadáver em putrefacção. Isso será fácil de conseguir, bastar-me-á esfregá-los nas carcaças das ratazanas, meio comidas pelas suas congéneres e pelos vermes. Depois, terei de conseguir ingerir o máximo de álcool possível, de forma a ficar a sonhar, por muito e bom tempo, com o Paraíso.
No dia seguinte, tal como esperei, fui levado para a morgue e dado como morto. Despachadas as diligências e papeladas burocráticas necessárias. Numa carroça guiada por um coveiro desdentado, puxada por uma velha mula sorridente, fui transportado para o cemitério – porque mais não merece quem nunca fez por merecer. É o que pensam os demais, aqueles que não têm em conta o acaso ou as circunstâncias da vida –. Depois, sem direito a padre, lágrimas ou epitáfio escrito numa lápide de pedra, fui sepultado.
Quando já pensava que me encontrava no vazio do universo, acordo estupefacto, num quarto lácteo de hospital.
Contaram-me, mais tarde,  como tudo se tinha passado: Parece que momentos antes de ser enterrado, numa vala comum, por mera casualidade, sorte ou azar, o coveiro terá ouvido um pequeno movimento, seguido de um ligeiro gemido depois da primeira pá de terra ter sido lançada sobre o meu caixão. Não muito surpreendido, habituado a mortos-vivos, o coveiro terá perguntado:
- Oh, homem! Você ainda está vivo?
Sem me mexer nem abrir os olhos gritei, num som surdo vindo do fundo do caixão:

- Continue, em silêncio, por respeito ao morto!

Parece que nem à morte um invisível tem direito.


Jaime Bulhosa

4 comentários:

fallorca disse...

Em sintonia com o «Dia das Mentiras»; fiufiu...

Cláudia Tomazi - Brasil disse...

No horto quando um morto, assim sorria.
E a morte lhe gemia.
Por que desta agonia?
E o morto:
É de vossa ironia.

João Afonso Machado disse...

O coveiro desdentado... com um kentuky ao canto da boca e umas cuspidelas na mão antes de agarrar a enxada. É o retrato.

SEVE disse...

É por estas e por outras que sou um leitor compulsivo (não gosto nada desta palavras....)