sexta-feira, abril 1

O Morto

Nota: Esta carta foi encontrada num livro em segunda mão - Cadernos do Subterrâneo, de Dostoiévski.

O Morto

Lisboa, 13 de Fevereiro de 1989.

Para aqueles que se atreveram a olhar-me, que me repudiaram, pontapearam, chamaram louco, bêbado e indigente. Para os outros, nada, sempre fui invisível.

Provavelmente, nunca ninguém lerá estas linhas. E se algum de vós um dia o fizer, não estarei a partilhar convosco este, mas sim outro Inferno, se Deus quiser…

Tenho de vos dizer, antes de morrer, que nunca me zanguei, nem com os pontapés, nem quando escarneciam de mim. Não porque vos tenha perdoado, mas porque todos os homens me são completamente indiferentes. Pago na mesma moeda, por assim dizer. Há já algum tempo que me conformei em ter como única companhia a solidão. Sou um dos habitantes de viadutos e casas devolutas desta cidade. Companheiro de quarto de pombos, ratazanas e outros iguais a mim. Dito doutra forma, sou um mendigo.

Escusado será dizer que no Inverno os meus ossos congelam, apesar de estar encharcado em álcool e coberto por mantas de jornal amarelado, com notícias, ainda quentes, do grande incêndio do Chiado, do verão passado. E nos meses de calor… «que bom! um tecto cheio de estrelas».

Não pensem que a minha vida sempre foi assim. Em tempos, também fui como um de vós. Um ser humano com plenos direitos, mulher, filhos, casa e trabalho. Histórias de um passado feliz, porém longínquo, perdido nas borras do fundo de uma garrafa. Recordações que não passam, agora, de um imenso calvário, de memórias cruéis.

«Uma vez, numa manhã de Inverno, um abandonado – denominação que atribuímos a nós próprios –, acordando de mais uma noite gelada, tiritando de frio, esfregava o corpo com as mãos rígidas, tentando aquecer o sangue, quase solidificado, nas veias e artérias. Enquanto isso, ia pensando onde arranjaria comida. Estava nisto, quando olhou na direcção do companheiro. Viu-o todo encolhido, com as pernas entre os braços, e reparou que se esboçava um leve sorriso nos seus lábios. Resolveu perguntar, mal-humorado:

- Por que estás com essa cara? Esta noite não foi diferente das outras, só frio e fome.

- Pois não, mas tive um sonho extraordinário. Sonhei que vivia numa enorme casa, com as paredes ornamentadas a papel bordado a ouro, lareira acesa, lençóis perfumados, criados ao meu serviço, crianças em volta a correr, a mulher sorrindo, vinhos do melhor – respondeu o companheiro. E retorquiu, com uma comiseração pouco comum entre abandonados:

- E tu, com o que sonhaste?

- Eu não sonhei com nada – respondeu o primeiro, de semblante carregado.

- Tens sorte – disse o companheiro, após ter reflectido um pouco.

- Olha que não, tu é que tens sorte.

- Não! Desculpa, és tu.

-Não, és tu. – E discutiram, eternamente, sem conseguirem chegar a qualquer acordo.»

Estou um velho, cansado e doente, porém não cheguei ainda aos 50. O meu corpo não passa de um esqueleto, em forma de cabide, para andrajos sujos, rasgados que exalam odores a vómito e vinho azedo. Reflecti muitas vezes, de que me valia continuar a vaguear pelas ruas e ruelas, sem destino ou finalidade. No entanto, sem nunca ter chegado a uma conclusão, faço-o há anos, tantos que já lhes perdi a conta. Estou farto, há muito tempo que pressinto que a minha hora se aproxima. Não vou durar muito tempo, disso tenho eu a certeza, pelo menos desde que comecei a tossir sangue. «Deve ser dos ratos que comi?...», penso eu para comigo.

Tomei uma decisão, não vou esperar por ela. Pelo menos, por uma vez, serei eu a comandar a minha vida. Pensei em diversas formas de o fazer: lançar-me de uma ponte, deitar-me na linha do comboio, com a cabeça no lado de dentro dos carris, esbarrar contra um automóvel, em alta velocidade, na Avenida 24 de Julho. Não quero ser notícia de jornal e virar cobertor. Decidi então que devo morrer anonimamente, como aliás quase sempre vivi. Tanto engendrei que arranjei maneira. Para que a coisa funcione, os farrapos que visto terão de ter pior aspecto do que aquele que já têm, cheirar ainda pior, não a vinho, mas a cadáver. Isso será fácil de conseguir, bastar-me-á esfregá-los nas carcaças das ratazanas defuntas, meio comidas pelas suas congéneres e pelos vermes. Depois, terei de conseguir ingerir o máximo de álcool possível, de forma a ficar a sonhar, por muito e bom tempo, com o Paraíso.

No dia seguinte, tal como esperei, fui levado para a morgue e dado como morto. Despachadas as diligências e papeladas burocráticas necessárias. Numa carroça guiada por um coveiro desdentado, puxada por uma mula velha sorridente, fui transportado para o cemitério – porque mais não merece quem nunca fez por merecer. Depois, sem direito a padre, lágrimas ou epitáfio escrito numa lápide de pedra, fui sepultado.

Quando já pensava que me encontrava noutro mundo, acordo estupefacto, num quarto branco de hospital. Mais tarde, contaram-me como tudo se tinha passado. Parece que momentos antes de ser enterrado, numa vala comum, por mero acaso de sorte ou azar, o coveiro terá ouvido um pequeno movimento, seguido de um ligeiro gemido. Não muito surpreendido, habituado a mortos-vivos, o coveiro terá perguntado:

- Oh, homem! Você ainda está vivo?

Sem me mexer nem abrir os olhos gritei, num som surdo vindo do fundo do caixão:

- Não, por favor, continue com o seu serviço e em silêncio! Por respeito ao morto.

Para todos os efeitos, ressuscitei, como Cristo. Encontro-me hoje regenerado. Não por ter deixado de beber, mas porque me tornei num pobre, tuberculoso e não menos abandonado escritor anónimo.

4 comentários:

fallorca disse...

Em sintonia com o «Dia das Mentiras»; fiufiu...

Cláudia Tomazi - Brasil disse...

No horto quando um morto, assim sorria.
E a morte lhe gemia.
Por que desta agonia?
E o morto:
É de vossa ironia.

João Afonso Machado disse...

O coveiro desdentado... com um kentuky ao canto da boca e umas cuspidelas na mão antes de agarrar a enxada. É o retrato.

SEVE disse...

É por estas e por outras que sou um leitor compulsivo (não gosto nada desta palavras....)