quinta-feira, maio 12

E... a polémica que p'rá aqui vai

Por Maria do Rosário Pedreira
Por causa de um artigo publicado no suplemento literário do Público sobre jovens narradores, criou-se uma polémica no Facebook quando a jornalista Raquel Ribeiro perguntou porque eram estes quase todos do sexo masculino. Muitos dos intervenientes defenderam que, na verdade, não são, mas que a comunicação social é, de algum modo, machista e só dá destaque a escritores homens; houve um escritor homem que pediu então licença para intervir no meio de tantas mulheres e disse que os editores têm muita culpa – porque, como há muito mais mulheres do que homens a ler, promovem melhor os livros de autores masculinos a pensar nos «consumidores». Todos terão alguma razão, embora eu, como editora, não faça nada disso; e a verdade é que recebo dezenas de originais todos os meses para avaliar mas, lamentavelmente, só dez por cento são escritos por mulheres. Em tempos, disse à mesma jornalista Raquel Ribeiro que achava que isso podia acontecer porque as mulheres, lendo mais, são mais exigentes com o texto e não se aventuram a escrever qualquer coisa (como muitos dos aspirantes a escritores que me mandam livros para avaliação); mas uma das leitoras dessa entrevista afiançou num blogue que, apesar de os tempos estarem decididamente a mudar, as mulheres ainda têm uma vida muito ocupada com a criação dos filhos e a organização doméstica, pelo que não lhes sobra grande tempo para se dedicarem à escrita, inclusivamente quando, como era o caso, gostariam de o fazer. É provável que, mesmo existindo ainda preconceito de género, esta seja mesmo a principal razão. (pode ler os comentários aqui)

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Por Jaime Bulhosa

Pois eu cá acho, na minha modéstia opinião, que o facto de existirem menos mulheres escritoras do que homens (nos dias de hoje, realço), não tem nada a ver com passar a ferro ou lavar a loiça. Isso também eu faço todos os dias. A culpa é do mercado, é sempre do mercado. E como o mercado é uma entidade abstracta, não se acusa ninguém e fica toda a gente contente. O mercado, lá está, é que dita o que se vende e o que não se vende, influenciando o que se edita e o que não se edita. Logo, como a grande maioria dos leitores de romances são mulheres… raciocínio imediato: a maior parte das mulheres gosta de homens, certo!?... Bem, é melhor não me adiantar sobre este assunto. Ora, toda gente sabe que os homens falam pouco, se comparados com as mulheres, que falam demais – como ficou bem patente nos comentários colocados no post da Maria do Rosário Pedreira, cuja leitura aconselho vivamente. Vai daí ser natural que as mulheres já estejam fartas de se ouvir e aproveitem os “poucos” momentos de lazer e silêncio – isto é, ausência de outra mulher na mesma sala –, que o acto de ler necessariamente implica (pelo menos para os homens que não conseguem fazer duas coisas ou mesmo tempo), para escutar o que os homens têm a dizer, nem que seja através de um livro. É que normalmente em casa eles não falam, seja porque elas não deixam, seja porque eles foram “espairecer” um pouco a cabeça. Ufa! Tenho dito!

Nota: Devo esclarecer que quase tudo o que escrevi é pura ironia e representa um vulgar estereótipo de mulher. A verdade é que as mulheres continuam a ser prejudicadas, tanto nesta área como em quase todas as outras.

11 comentários:

JJ disse...

Pois eu acho que o factor principal é a auto-exigência.

Há muitas mulheres a escrever (e muito) para a gaveta, pessoas com família, amigos, interesses e uma profissão - ora ligada às letras, onde distante delas. Há muitas mulheres a escrever agora com um conhecimento mais profundo e aturado da literatura, e da vida, do que muitos dos autores publicados actualmente.

O problema é a tirania do espelho. ;)

Ceridwen disse...

Naturalmente que o facto de as mulheres portuguesas dedicarem cerca de 4 horas diárias nas tarefas domésticas - as quais, como sabe, ultrapassam muito a lavagem da loiça ou a passagem da roupa a ferro - enquanto os homens portugueses ocupam "pouco mais de hora e meia" (dados da OCDE) deve ter impacto (negativo) na disponibilidade física e mental na produção de trabalho intelectual. O mercado pensa nos consumidores...que são maioritariamente mulheres.Quanto a isto nada a dizer - não faço ideia se as mulheres preferem escritores a escritoras. Quanto a mim, confesso que o género autoral interfere pouco ou nada nas minhas escolhas. Talvez seja um lugar comum achar-se que @s escritor@s são das pessoas que mais lêem, e por esta ordem de ideias deveria haver (consequentemente) mais escritoras.

Pó dos Livros disse...

Ceridwen,

Tem toda a razão. Quase tudo que escrevi representa um vulgar estereótipo de mulher e é pura ironia. A verdade (por mais que custe aos homens) é que as mulheres continuam a ser prejudicadas, tanto nesta área como em quase todas as outras. Entendo perfeitamente o que as mulheres sentem ao ser descriminadas. Um pouco como os homens se sentiam e ainda sentem noutros paragens, quando levados compulsivamente para a guerra ou serviço militar obrigatório. Foi o meu caso durante 18 meses. Não entendi, na altura, porque é que as minhas amigas continuavam em casa a estudar. ;)

Jaime

Cláudia S. Tomazi - Brasil disse...

De rerum natura.
Mulheres escritoras somente as que têm gens dominantes. As variáveis de gens recessivos são queridas e estimadas leitoras, compulsivas inseguras a mercê da melhor opinião enquanto afirmação de seus desejos, que juntamente aos genes, fora reprimida por resultantes da memória genética de subserviência desde sempre.
Resumindo, Fêmeas demais, para operar metáforas de um mundo historicamente do intelecto masculino. Aliás o mercado percebe essas carência para o aprimoramento do intelecto feminino pelo consumo das mesmas ou, não.

Pronto falei.

Cristina Torrão disse...

Essa de passar a ferro e lavar a loiça todos os dias também é ironia? Se não é, o Jaime representa uma excepção ;)

Além da falta de tempo, eu acho que as mulheres, devido à educação, são menos susceptíveis de arriscarem ou de se atreverem a algo. Guardam mais na gaveta.

Cláudia disse...

De rerum natura.
Além de tudo, é “predisposição”!
Como as mulheres podem superar num salto de décadas, em operar metáforas de um mundo historicamente do intelecto masculino?

Sinceramente, até que as mulheres estão, Muito Bem.

SD disse...

Como pessoa que participou nos comentários desse post, acabei por concluir várias coisas(e não concluí lá porque aquilo já está demasiado confuso): os autores que entram nesses artigos são ditados pela influência do editor que por sua vez influencia a imprensa literária. os autores desse artigo do Público foram ou são da Maria do Rosário Pedreira e do Francisco José Viegas. Agora o porquê de serem mais destacados os homens que eles editam do que as mulheres, isso concordo que seja determinado pelo mercado (no fundo, somos todos peões de estratégias de marketing sofisticadas e agressivas). São cada vez mais os autores jovens e "com pinta" que andam a conquistar a fama neste meio. Já lá vai o tempo em que eram os senhores cinquentões veneráveis que pela força do seu mérito e prestígio conquistavam as massas e vendas. Esses eram e continuam a ser chatinhos e muito densos aos olhos dos leitores comuns. Ultimamente, acaso dá-se a mesma importância a um vencedor do Prémio Camões do que a um vencedor do Prémio José Saramago na imprensa e livrarias e festivais e feiras, etc? Pelo que consigo depreender, este destaque recente dado à juventude é uma das formas que foi encontrada de aliciar as mulheres leitoras, que cada vez lêem e consomem mais, ao serviço da literatura portuguesa. Metem-nas a suspirar por esses escritores "que fazem livros que são fáceis de ler" e com os quais se identificam mais... É um golpe baixo perante o qual as mulheres escritoras não têm hipótese.
Confesso que aprendi muito com esta polémica, embora possa não ter gostado propriamente das conclusões. E na verdade, se calhar esse artigo do Público está a ter mais atenção do que deveria.

SD

ana disse...

Desculpe a minha audácia mas a sua nota estragou tudo.
É naturalíssimo que as mulheres procurem a escrita masculina. Sou mulher e reparo que escolho mais obras do sexo oposto. Salvo raras excepções.
Não vi os comentários mas irei espreitar.
ana

disse...

Fazendo uma analogia com a polémica das mulheres escritoras. A sua livraria é mais frequentada por mulheres?

Pó dos Livros disse...

MO, ahahahh

É! ;)

Jaime

disse...

Logo vi, hoje isso pareceu-me evidente : )