quarta-feira, maio 4

Insónia


Um velho louco, um sábio ou um santo? Não sei qual das descrições é a melhor, inevitavelmente confundimos as três.
A fisionomia era a de um velho, mas não a de um velho vulgar, tinha qualquer coisa de diferente, uma característica particular que eu não sabia identificar, talvez fosse estrangeiro.
Embora aparentasse ser muito velho, o cabelo ainda era bastante abundante, comprido e totalmente branco, como se estivesse coberto por pó de talco. Fazia lembrar as cabeleiras, encaracoladas, postiças, que nos habituámos a ver nos retratos do século XVIII. De olhos encovados, parecia não dormir há séculos. A pele pálida do rosto estava flácida, caída, imensamente encarquilhada, mas, paradoxalmente, suave, diria quase de veludo. Estão a ver um Sharpei: aquela raça de cão, tamanho M, a qual vestiram com a pele de outro cão, tamanho XXL.
Notava-se que tinha sido um homem alto, mas a curvatura da espinha, sustentada por uma velha bengala, era tão acentuada, que o convertia num corcunda. Vestia bem, com um casaca comprida de boa qualidade, mas com um corte antiquado como as que se usavam no século XIX – resistência comum das pessoas idosas ao que é novo –. O perfume que lançava, coincidente com as vestimentas, cheirava, insuportavelmente, a mofo misturado com naftalina.
Esta é a descrição fiel do cliente que tinha à minha frente. Como é da praxe e obrigação, cumprimentei-o com um bom-dia e sorriso largo nos lábios. Depois, perguntei-lhe o que desejava. Respondeu-me com uma voz rouca e seca. A pronúncia, tal como suspeitava, era estrangeira, oriunda de um qualquer país francófono:
- Bonjour. – Cumprimentou-me em francês, denunciando a sua origem. – Infelizmente não lhe posso dizer qual mon désir, sem que primeiro me prometa solennellement e pour la vie que jamais revelará o segredo que estou disposto a contar-lhe, se, évidemment, vous avez ce que je cherche.
Achei engraçada a abordagem, e em pensamento encolhi os ombros e disse para comigo: «porque não… nada tenho a perder». E jurei.
- Juro! – disse eu, levantando a mão direita.
- Não chega, pour la vie – disse-me o cliente, com ar sério.
- Que não seja por isso. Juro pela minha vida!
Satisfeito com o acto majestoso, o cliente pergunta:
- Diga-me, quel âge me donnez-vous?
Pelo aspecto, diria que teria mais de cem anos, mas não quis parecer deselegante, nem perder um cliente, pelo que decidi mentir.
- Se o senhor fosse une dame, como deve imaginar, nunca lho diria. Todavia, como foi o próprio cavalheiro que me perguntou, deixe-me ver… talvez setenta, setenta e dois, no máximo!
Esboçando um ligeiro sorriso, o homem acrescenta:
- Je sais que não vai acreditar, mais plus tard entenderá – diz o cliente com um ar misterioso. – J’ai plus ou moins le même âge que Noé était quand il est mort.
- Noé!... Qual, o do Antigo Testamento? – disse eu, incrédulo.
- Celui memê.
– Quer o senhor dizer que tem novecentos e cinquenta anos!?...
- Exactement! Plus cinquante ans, moins cinquante ans. Je ne peux pas dire ao certo, porque ma mémoire já não é o que era.
Ups! Definitivamente tinha à minha frente não um sábio nem um santo, mas um velho louco. Não era a primeira vez que me via perante um alienado, por isso, resolvi seguir com a brincadeira:
- Vamos partir do princípio que o senhor me está a dizer a verdade. Contudo, deve concordar que é difícil de acreditar, o que me diz desafia todas as leis da natureza. Ora, como isso só é possível através de intervenção divina, o senhor é um milagre vivo – argumentei, sem me rir e com o semblante mais compenetrado possível.
O cliente permaneceu impávido.
- Elle est pertinente, la question posée, et je reconnais que c'est difficile à croire, mais trata-se, en effet d’un miracle. Relembro, no entanto, que comecei esta conversation dizendo que tinha un secret para lhe contar e que esse secret é un miracle, mais só lho posso revelar se tiver, na sua librairie, le livre que je cherche.
E imediatamente me sussurra no ouvido o livro que pretendia. Não vos posso revelar qual o texto em questão, porque estou sob juramento. Apenas vos posso adiantar que era um livro com mais de mil anos, de um santo muito conhecido e que eu obviamente tinha disponível. Fui buscá-lo à estante e entreguei-lho. Todo contente, de livro na mão, o cliente, como prometido, revela o seu segredo. Segredo esse, por sinal bastante desanimador, que consistia na memorização de apenas uma pequena frase. Quando dita em voz alta, de trás para a frente, no exacto momento em que a morte nos aparece, a reacção seria tão terrivelmente assustadora que a morte fugiria para longe e só voltaria a ganhar coragem para nos reaparecer alguns anos mais tarde. É claro que este segredo possibilitava que uma pessoa pudesse viver quase eternamente, mas não garantia estar desatento à chegada da morte, nem a juventude eterna – nada é perfeito – daí o aspecto do meu cliente.
Estupefacto com a revelação, questionei-me sobre qual seria a necessidade de o meu cliente adquirir um livro do qual apenas retiraria uma pequena frase de fácil memorização e por que motivo me revelaria a mim o segredo. Não aguentando de curiosidade, perguntei-lhe as razões:
- Vous savez, a idade não perdoa. E não é que cette phrase stupide avait été complètement effacée de ma mémoire. Quanto ao livre, emprestei-o há siècles a un ami que até hoje não mo devolveu et j’ai une ligeira suspeita que jamais o devolverá.
- Sim, entendo - digo eu, impaciente. – Mas porque me revelou a mim o segredo?
- Oh! Je suis fatigué. Quero quebrar o feitiço e só fini quando o revelamos a outro.
- E resulta mesmo?
- Bon, para saber isso vai ter de lui attendre.
Quando se preparava para se retirar, pára, dá meia volta e diz:
- Ah! J’ai oublié… Convém estar vigilant durante o sono, la morte est matreira e costuma aparecer de nuit. – Depois sai, delineando um sorriso acompanhado de um suspiro de alívio.

Desde esse dia, para mim,  foi um inferno. Passei a padecer de horríveis insónias, as horas parecem anos e as noites séculos e séculos.

Jaime Bulhosa

Um comentário:

Areia às Ondas disse...

Adorei ler! É uma história de livros com passado e futuro e hoje e imaginação e sonho e segredos e uma palavra mágica.