quarta-feira, maio 11

Meia-idade


Tenho quase… até tenho vergonha de o dizer, não porque me sinta velho; o sentimento da idade é relativo: é-se sempre jovem ou velho por comparação com outra pessoa. Compreende-se que os homens de quarenta ou cinquenta anos continuem a sentir-se jovens, pois sabem que ainda existem homens de setenta ou oitenta. Eu estou, precisamente, nessa faixa etária, ou seja, naquela idade em que ainda nos podemos comparar com os da última idade. No entanto, esta idade traz-nos pelo menos uma vantagem em relação aos homens ainda jovens: a de tentarmos viver o mais vagarosamente possível e aproveitarmos aquilo que a vida nos traz de bom e, relativizarmos o que a vida nos traz de mau.

Li um texto muito curto, extraordinariamente belo, de Júlio Ramón Ribeyro, retirado do Livro Prosas Apátridas, edição AHAB, que exemplifica exactamente o que vos quero dizer:

Conhecer o corpo de uma mulher é uma tarefa tão lenta e tão louvável como aprender uma língua morta. A cada noite que passa, acrescenta-se um novo território ao nosso prazer e uma nova palavra ao nosso já considerável vocabulário. Mas haverá sempre mistério por desvendar. O corpo de uma mulher, todo o corpo humano, é por definição infinito. Começa-se por ter acesso à mão, esse apêndice utilitário e instrumental do corpo, sempre à mostra, sempre disposto a entregar-se a quem quer que seja, que lida com todo o tipo de objectos e adquiriu, à força da sociabilidade, um carácter quase impessoal e anódino, como se fosse o funcionário ou o porteiro do palácio humano. Mas é o que se conhece em primeiro lugar: cada dedo vai-se individualizando, adquirindo um estatuto familiar, e depois cada unha, cada veia, cada ruga, cada imperceptível sinal. Além disso, não é só a mão que conhece a mão: também os lábios conhecem a mão e lhe emprestam um sabor, um odor, uma consistência, uma temperatura, um grau de suavidade e aspereza, uma comestibilidade. Há mãos que se devoram como a asa de um pássaro; outras acostam-se na garganta como um eterno cadafalso. E que dizer do braço, do ombro, do seio, da coxa, do...? Apollinaire fala das sete Portas do corpo de uma mulher. Apreciação arbitrária. O corpo de uma mulher não tem portas, como o mar.

E agora, algumas das minhas queridas leitoras estarão a pensar: «Mas… mas… o meu não me conhece assim!...»

Dir-vos-ei: ou estão com um demasiado jovem – e nesse caso é bem-feito – ou as minhas caras amigas não são a mulher certa.

Jaime Bulhosa

4 comentários:

josé luís disse...

:))))


(o sr. ribeyro só se enganou num pormenor: como o mar, o corpo da mulher tem na verdade infinitas portas)

Cláudia disse...

Serei eu Senhor, então a mulher certa? Sempre desconfiava desta anormalidade alfa, quase convincente. Pois agora, resta-me uma agonia, por confirmar-se de certeza plena.

Oh! Pobre e mortal mulher, que entendeis das misérias humanas.

Pó dos Livros disse...

Cláudia,

Lol ;)

Ana Diogo disse...

Não poderá dar-se o caso de não ser "ele" o homem certo?...