quinta-feira, novembro 10

O meu amor

O Vasco tem oito anos. Murcho veio aninhar-se a mim e perguntou baixinho:
- Pai! Já alguma vez sentiste aquela dor de gostar de alguém e ela não gostar de ti?
Fiquei surpreendido com o teor da pergunta, tendo em conta que o Vasco gosta é de jogar à bola.
- Sim, já senti, mas porque é que me perguntas isso.
- Porque eu gosto de uma menina lá da escola.
- Gostas de uma menina? Mas isso é bom! E já lhe disseste que gostas dela.
- Já.
- E ela?
- Oh! Ela só me despreza, diz que eu sou esquisito, diferente e depois... fico muito, muito triste.
De coração partido, pensei qual seria a melhor maneira de o poder ajudar. Usar as mesmas armas!?… É isso!
- Olha Vasco, amanhã na escola, quando ela vier falar contigo, dá-lhe o mesmo desprezo que ela te dá a ti. Vais ver que resulta.
O Vasco fez uma cara de quem não ficou muito convencido e disse:
- Não sei pai… não sei… Estou muito preocupado.
No outro dia de manhã, quando o deixava junto ao portão da escola, lembrei-me da conversa que tínhamos tido no dia anterior e, antes dele entrar, perguntei:
- Então, já pensaste sobre o que fazer em relação àquela menina?
O Vasco encolhe os ombros, dobra o sobrolho e repondeu:
- Qual menina, pai? – De seguida, entra na escola a correr, olha para trás e diz-me adeus.
Fiquei num misto de orgulho e dúvida. Das duas uma: ou o Vasco resolveu pôr em prática a minha fabulosa táctica, ou o amor se volatilizou por completo.
Nota: Pelo sim ou pelo não, resolvi levar-lhe este livro:
«Eu sou um animal estranho. Uma coisa esquisita, com pêlos de cão e cabeça de porco. E no entanto…»

edição: Bags of Books edições
título: O meu amor
autor: Beatrice Alemagna
isbn: 9789899707610
pvp: 15.00€


Continuação:

- Pai! Tu e a mãe podem comprar-me, uma vez por mês, um pacote de pastilhas?
Meio sem saber o que responder, digo:
- Sim… acho que sim. Mas porquê?
- Olha, sabes aquela rapariga de quem eu gosto?
- Qual?
- Oh pai, aquela de caracóis, mas não é a dos caracóis loiros!
- Ah, sim. A Margarida?
- Essa.
Um bocado intrigado pergunto-lhe:
- E então, o que é que as pastilhas elásticas têm a ver com isso?
Muito expedito o Vasco explica-me:
- Eu tenho duas colegas da escola que me vão ajudar a engatá-la.
- Como assim? – Pergunto eu cada vez mais curioso.
- Então, por cada vez que as minhas amigas consigam fazer com que a coisa avance, eu pago-lhes em pastilhas elásticas.
Não entendendo bem como a coisa iria funcionar, perguntei ao Vasco:
- Mas quem te garante que elas o consigam fazer?
- Pai, por amor de Deus.... Sou eu que lhes vou dizer o que elas têm que fazer.
Mais baralhado, pergunto:
- Por que precisas delas, então?
- Sinceramente pai! Toda a gente sabe que as miúdas é que falam a língua das miúdas.
- Bem visto!

Jaime Bulhosa

7 comentários:

Cristina Torrão disse...

Lindo, lindo, é o filho de oito anos vir ter com o pai e fazer uma pergunta dessas.

Lindo, lindo, é o pai levá-lo a sério e dar-lhe o melhor conselho que pode :)

Margarida disse...

Não esqueceu nada, mas é um valente!
Acho que num instante a miúda vai andar na sua peugada...
Boa, Vasco!

sofia wahnon disse...

adorável!

Carmen B. Costa disse...

Depois conte, conte... como é que ele reagiu ao bonito livro.

Carmen B. Costa disse...

... mesmo que se trate de uma licença poética.

George Sand disse...

Citadinho do Vasco...a primeira é sempre pior :)Mas com o tempo, passa.
Com a minha filha aconteceu o inverso. Tinha sete anos e apaixonou-se por um rapazinho que só jogava à bola. Esteve mesmo vai não vai para a furar :)

asminhasquixotadas disse...

...E a língua de miúdas ainda não tem gramática nem dicionário disponíveis. Brilhante!