terça-feira, maio 17

Moinhos de vento


Acabou antes de ontem mais uma Feira do Livro de Lisboa. Não quero saber se foi ou não foi um sucesso. Pelos rumores, não foi, mas se calhar não passa disso mesmo, apenas rumores. De uma coisa eu tenho a certeza, para os pequenos livreiros que nela não participaram, foi mesmo um sucesso, na medida em que teve um enorme efeito no decréscimo das suas vendas. E mais uma vez se verificou, um pouco por cada pavilhão, o desrespeito total pela lei do preço fixo, em livros com menos de dezoito meses de edição e nos “histéricos” descontos praticados em geral. Parece não haver nenhum tipo de fiscalização e se existe, ninguém liga nenhuma.

Muita gente pergunta porque é que a Pó dos livros, entre outras livrarias independentes, não participa na Feira do Livro. Em primeiro lugar, e uma vez que grande parte das livrarias independentes não são editoras, é necessário conseguir a representação de uma ou mais editoras (normalmente estrangeiras), para vender com margens comerciais que nos permitam fazer descontos significativos ao cliente. Afinal de contas, é essa uma das principais razões porque se realiza a Feira.

Em segundo lugar, uma livraria para poder participar nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto, com os mesmos custos dos editores, tem duas hipóteses: por um lado ou é sócia da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), e para isso paga uma mensalidade no valor correspondente ao escalão que lhe cabe de acordo com a sua facturação anual, mais a inscrição na Feira e os custos que envolvem os pavilhões, etc. Por outro lado, se não pertence à associação, tem que seguir as regras, conforme se descreve nos Regulamentos de participação das Feiras do Livro de Lisboa e Porto, nomeadamente, a alínea b) do número 1 do artigo 4.º, e que diz o seguinte: Podem participar nas feiras: editores, distribuidores, livreiros ou outros retalhistas que não integrem a associação, desde que reúnam condições de pertença e paguem uma taxa especial equivalente à respectiva quota anual.

Se os meus estudos em Direito me serviram para alguma coisa, é saber interpretar esta alínea b), que na prática nos diz o seguinte: ou pagas a taxa especial em doze prestações, fazendo-te sócio da APEL, ou pagas a pronto. Até aqui tudo bem, é o preço a pagar por não seres alinhado. No entanto, acontece que a Pó dos Livros e outros livreiros, nem sempre sabem se vão conseguir ter, todos os anos, alguma coisa para vender na Feira. E a livraria Pó dos livros (como muitas outras) não se sente minimamente representada por uma associação que não defende os pequenos livreiros e é totalmente dominada pelos grandes grupos editoriais e grandes retalhistas. É só por essa razão que não pertence à APEL. E, não sendo associada, o facto de se ter que pagar uma taxa no valor total de um ano de mensalidades, inviabiliza qualquer possibilidade económica de um pequeno livreiro poder participar na Feira. Simplesmente não temos as margens comerciais de um editor.

Vou contar uma pequena história, para que entendam melhor. A livraria Pó dos Livros participou na 79.ª Feira do Livro de Lisboa, em parceria com uma editora (para reduzir os custos e assim conseguir participar) e com bastante êxito. Foi um sucesso em termos de vendas, bem como na repercussão que teve junto dos leitores e da comunicação social. Levámos a maior representação de sempre (não exclusiva) de livros da Penguin, à Feira do Livro de Lisboa. No ano seguinte tentámos fazer o mesmo. Mas, qual não foi o nosso espanto, quando chegámos junto do representante da referida editora e nos foi dito que não era possível fazer a Feira nos mesmos moldes do ano anterior. Teriam que nos baixar substancialmente as margens comerciais, o que na prática, fazendo contas aos custos, nos impedia de participar. Perguntámos porquê, já que tinha sido, para ambos os lados, um sucesso comercial e de marketing. Apenas nos foi reafirmado que não podia ser. Mais tarde, por portas travessas, viemos a saber que um grande grupo de retalho tinha “coagido” a sede da referida editora em Espanha, com a insinuação de que as suas compras de livros à Penguin iriam diminuir substancialmente, se a representação principal da editora não passasse por eles. O que se veio, infelizmente, a verificar. Faço uma pergunta: nestes dois últimos anos, alguém ouviu falar da Penguin na Feira do Livro?

Voltando um pouco atrás. A verdade é que as grandes Feiras do Livro, provocam quedas abruptas nas vendas das livrarias, cujos efeitos se prolongam muito para além da duração das mesmas. Obrigando-as, muitas vezes, a ter que recorrer ao crédito bancário, com juros altíssimos, para fazer face às suas despesas correntes e levando-as a ter os fornecimentos cortados por parte dos distribuidores, durante uns tempos. Não podemos competir com a política de preços baixos praticada, constantemente, pelos grandes grupos de retalho ou editoras em campanhas e feiras de livros por todo o país. A concorrência é completamente desleal e por vezes até ilegal. Por outro lado, também é verdade que existe uma desmedida pressão sobre as editoras, principalmente sobre as independentes, por parte do grande retalho, no sentido de as obrigar a esmagar as suas margens comerciais. Conseguem-no servindo-se do enorme poder negocial que têm, asfixiando as já debilitadas tesourarias das editoras independentes. Todavia, estas editoras e as outras, nunca fazem o mesmo tipo de desconto aos pequenos livreiros. É frequentes os pequenos livreiros encontrarem à venda nos grandes espaços, livros com melhores descontos do que aqueles que podem conseguir comprando directamente aos editores. E esta é, lamentavelmente, a lei do mercado.

Exposto isto, não nos resta a nós, pequenos livreiros, outra alternativa senão criarmos uma Associação de Livreiros Independentes, o que não é fácil, com os escassos recursos que temos e as distâncias geográficas que nos separam.

Talvez seja eu que acabo de ler o Dom Quixote e ande a sonhar com moinhos de vento. Pode ser que seja!…

Jaime Bulhosa

10 comentários:

Pedro disse...

Os monopólios, os monopólios caro Jaime, essa besta de não sei quantas cabeças famintas de sangue...depois de ler isto fugirei das Feiras a sete-pés. Não quero alimentar monstros...

Carmen B. Costa disse...

A questão passa mesmo por criar uma associação de livreiros independentes. Uma espécie de cooperativa livreira. Ou isso ou o isolamento total.

Pipas disse...

Por essas e por outras é que eu na feira evito sempre os stands dos grandes grupos e me perco sempre nas editoras pequenas, onde se encontram sempre preciosidades.
Infelizmente a feira deixou de servir os seus principais protagonistas, a pequenas editoras e livreiros, que aproveitavam a feira para escoar fundos de catálogo e livros mais raros e passou a servir os interesses de certos senhores que de um dia para o outro se puseram a comprar editoras, apenas a pensar no lucro fácil sem respeitarem a verdadeira essência do livro e da literatura e que depois fazem barbaridades na feira, como as "praças" e aquela coisa horrenda deste ano, o "túnel" da Babel.
Em relação à APEL, nem comento, visto que o presidente é ao mesmo tempo dono de um desses grupos, por isso nunca poderá ser isento.
Para piorar ainda mais as coisas já correm os rumores que a partir de 2013, algo ainda mais terrível poderá acontecer à feira... Medo... Muito medo!!!
Nuno

SEVE disse...

Os vampiros já chegaram aos livros, olhem para os olhos deles (desses mesmo, desses dois em quem pensaram logo) e vejam se não têm cara e olhos de vampiro...

André disse...

Então de que é que estamos à espera? Afinal do que precisamos para formar uma associação ou cooperativa a nível nacional?

LC disse...

Lúcido, directo e esclarecedor.
Excelente texto.

Areia às Ondas disse...

Sonho
Sonho com uma Feira do Livro organizada por livrarias e não por editoras. Melhor, organizadas por Livreiros, daqueles que ficam à conversa, daqueles que conhecem os livros e quando lhes perguntamos por um título, dizem com propriedade, ah, esse, e fazem um olhar de saudade, enveredando por uma conversa como se o livro fosse um amigo mútuo e ali estamos nós a falar dele, a recordar-lhe peripécias, as badanas como se fossem tiques, o prefácio como se fosse o par de sapatos favorito, o final como se fosse aquele jantar que um dia lhe organizámos.
Sonho com uma Feira do Livro sem pressupostos económicos, sem túneis nem auto-estradas, mas com caminhos e veredas onde nos cumprimentamos como nas aldeias.
Sonho com uma Feira do Livro cujo último dia se prolongue pela cidade em festa, como se fazia antes.
Sonho com uma Feira do Livro da descoberta e do espanto, onde os livros adolescentes se misturem com os de barbas brancas, em tertúlia, em cavaqueira.
Sonho com uma Feira do Livro que não seja asséptica.
Toda a gente sabe que os sonhos são territórios estranhos e bizarros.

Anônimo disse...

Infelizmente os grandes monopólios acabam por asfixiar/absorver tudo à volta. Não deveria ser assim, mas é.

Há uns 2/3anos, estava eu no Algarve, zona de Lagos e quis comprar um livro. Andei, andei e nada. Lá encontrei uma papelaria/livraria e entrei para tentar comprar um livro. Mas não havia. Eu disse à senhora que me atendeu que era muito estranho não haver ali livros e livrarias e foi então que a senhora me explicou que não rendia. O custo do livro, do transporte etc, não compensava. Que agora só dava para as grandes empresas.

Felizmente encontrei uma livraria em Lagos, a única e não tive de andar uns quantos km para ir a um hipermercado.

Sou de Almada e lembro-me dos locais onde costumava ir comprar livros, estão agora fechados desde que abriu o Almada Fórum. Para mim enquanto leitora…, eu continuo a comprar os livros, o impacto não é significativo, mas para as pequenas livrarias acredito que seja complicado manter a porta aberta.

Eu espero que as livrarias não desaparecem, tem uma magia própria, talvez tenhamos de ser criativos a encontrar soluções. Há uns tempos, já largos fui a uma livraria em Lisboa, não me recordo do nome, mas adorei. Tinha café, sofás, tinha a típica arquitectura de outros tempos, delicioso.

Mónica Leal

Fiel de Armazém disse...

Num país em que existem fenómenos como os de jornalistas que se tornam escritores ou o de livreiros com 2 ou 3 anos de experiência que têm programas de televisão sobre livros, não é de admirar que a feira do livro caminhe na direcção que caminha.

Carmen B. Costa disse...

Vou citar o El País de 21/05/2011 (Babelia): "Hasta el 12 de junio la mayor librería de España estará en el parque del Retiro porque, a pesar de que la organizan los libreros, la personalidad de la feria madrileña reside en las editoriales. (...) 447 expositores divididos de la siguiente forma: 27 organismos oficiales, 11 distribuidores, 59 librerías generales, 58 librerías especializadas, 176 editores de Madrid y 116 editores de fuera de la capital."
Bastante diferente da realidade portuguesa, não?