terça-feira, maio 10

Prosas Apátridas


«Tal como eu, o meu filho tem as suas especializações, as suas fontes, as suas referências, às quais recorre quando quer justificar uma afirmação ou uma ideia. Mas se as minhas são os filósofos, os romancistas ou os poetas, as do meu filho são os vinte álbuns de aventuras do Tintim. Neles tudo está explicado. Se falamos de aviões, animais, viagens interplanetárias, países longínquos ou tesouros, ele tem sempre à mão a citação certa, o texto irrefutável que vem em socorro das suas opiniões. É o que se chama ter uma visão, porventura falsa, do mundo, mas coerente e muitíssimo mais sólida do que a minha, pois inspira-se num só livro sagrado, sobre o qual ainda não recaiu a maldição da dúvida. Só com o tempo é que o meu filho se dará conta de que essas explicações tão simples não se harmonizam com a realidade e que é necessário procurar outras mais sofisticadas. Mas essa primeira versão ter-lhe-á sido útil, como a placenta intra-uterina, para se proteger das contaminações do mundo adulto e desenvolver-se com essa margem de segurança necessária a seres tão frágeis. A primeira brecha no seu universo colorido e aos quadradinhos será o sinal da perda da sua candura e da entrada no mundo individualista dos adultos, depois de habitar o mundo genérico da infância, do mesmo modo que no seu rosto surgirão os traços dos antepassados, quando se resignar à mascara da espécie. Então terá de perscrutar, indagar, apelar a filósofos, romancistas ou poetas, que devolvam ao seu mundo harmonia, ordem e sentido; inutilmente, aliás.»

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, edição AHAB

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