terça-feira, junho 7

Adeus

Nota: Um dos mais belos poemas que me deram a ler.

Jaime Bulhosa



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro

nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao

outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes

verdes.

E eu acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um

Aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.


Eugénio de Andrade

Edição: Modo de Ler

Título: Poesia

5 comentários:

Cláudia S. Tomazi disse...

Como é bom refletir! Linda Poesia.

E o verbo se fez carne.
Quando meus olhos ainda são verdes, e a solenidade deste amor disse: na riqueza e na pobreza...
À Deus é sem adeus.

Nazaré Oliveira disse...

Boa tarde, Jaime Bulhosa!

Excelente poema de um poeta de excelência!
Parabéns por este blogue, que sigo, e parabéns pelo seu trabalho.

Um abraço

Filipa disse...

Lindo mas triste e desiludido...

Bill disse...

credo. que assombro de poema.

TERESA RIBEIRO disse...

Eugénio de Andrade é sempre excelente, mas este poema é realmente... lindíssimo.
Boa escolha.

Excelente Blogue, vou passar a acompanhar, pois O Jaime vai colocando umas boas dicas de livros interessantes... a ler.
O poema... esse já o recolhi!
Teresa Ribeiro