quarta-feira, junho 29

O que tem dentro?


- A vida está difícil e eu quero ler qualquer coisa divertida, alegre, alguma coisa, como dizer… daqueles livros que nos fazem levantar o ânimo.

Claro está que quando recomendo um desses livros, muito divertidos, inevitavelmente me fazem a pergunta:

- E de que se trata?

Tenho respondido a esta pergunta, ao longo de vários anos, de maneiras muito diversas. Por exemplo:

Em épocas de vacas magras e doido por conseguir vender um livro, respondo: Trata-se de uma toxicodependente que conhece um pederasta e que no meio dos horrores da guerra se salvam um ao outro graças ao amor, isto é, conto o argumento e normalmente tenho sucesso. Contudo, independentemente da época e quando não estou muito compreensivo para com os clientes, se lhes digo que se trata de um velho que enlouquece e que se empenha em ser o herói dos livros que leu, mascarando-se de cavaleiro, colocando uma tigela na cabeça, saindo para a rua montado numa pileca velha, é fatal dizerem-me que não estão interessados em velhos loucos. No entanto, é exactamente disso que trata, o Dom Quixote.

Em épocas de vacas gordas não necessito de contar nada.

Nos momentos em que me sinto um pedagogo, digo: os romances não valem pelos temas que abordam mas pela capacidade que o autor tem em criar um mundo verosímil no qual nos inclui durante trezentas páginas e donde, quem sabe, não sairemos nunca. Mas esta pode ser uma explicação insuficiente e pouco clara. Os romances valem sobretudo pela forma como estão narrados e não pelo que narram. A ficção pode ser verdade ou mentira dependendo do talento do narrador. Os romances não valem pela sua historieta mas pelas virtudes do narrador. O que interessa é descobrir a riqueza do relator e não daquilo que é relatado. Nenhuma história é válida se não estiver bem narrada.

livreiro anónimo

3 comentários:

Pedro disse...

"Os romances não valem pela sua historieta mas pelas virtudes do narrador. O que interessa é descobrir a riqueza do relator e não daquilo que é relatado. Nenhuma história é valida se não estiver bem narrada."

todas as histórias
válidas
(ou não válidas)
terão como mais valia
que sejam bem narradas
(com o tempo que valida)

:)

Ivone Costa disse...

Tem um desafio lá no meu blogue :)

Cláudia disse...

Você pode ser um livreiro anônimo e dizer o que pensa, quando o mundo te acha.
Ou, um nobre escritor e esconder-se na cabeça do alfinete e o mundo ainda vai achá-lo.

Do que foge então?
Igualmente por teu tamanho.