sexta-feira, julho 1

No creo en brujas, pero que las hay, las hay.


A Galiza, de onde vêm as minhas origens paternas e onde passei a maior parte das férias da minha infância e juventude, é uma região de Espanha onde as tradições são profundamente influenciadas pela religião católica. Todavia, estas tradições misturam-se ainda, nos meios mais populares, com ritos e mitos pagãos de origem politeísta, oriundos talvez dos povos celtas que por ali viveram e deixaram a sua marca.
Desde pequeno que oiço contar histórias sobre meigas. Mulheres com poderes extraordinários e mágicos que fazem pactos com os demónios. A figura da meiga está muito enraizada na tradição popular galega e confunde-se com a figura da bruxa, mas diferencia-se desta última por nem sempre ter comportamentos maléficos. Elas são também conhecidas como curandeiras ou videntes e são, muitas vezes, procuradas pelas gentes das aldeias pelos seus poderes mágicos e curativos. Na Galiza, juntamente com as meigas, acredita-se na existência de muitos outros seres, mais fantásticos, de um mundo menos material, mais espiritual e invisível para a grande parte das pessoas. Estou a falar de fadas, dos espíritos dos mortos e dos trasnos, também conhecidos no Norte de Portugal como trasgos e mais vulgarmente denominados duendes ou gnomos.
Os trasnos não são seres malévolos. Dizem os mais velhos que são os espíritos das crianças que morreram sem serem baptizadas. Parece que gostam de viver nos jardins luxuriosos das casas do campo. Como recompensa de um jardim cuidado, zelam para que as sementes se transformem em plantas viçosas de flores coloridas, frutos maduros, grandes e untuosos. Mas, como todas as crianças, deliciam-se a pregar partidas aos habitantes vizinhos. Por vezes, entram de noite nas casas, movem os objectos de um lado para outro, fazendo uma terrível e assustadora barulheira.
A minha avó, que afirmava convictamente ser ela própria uma meiga, costumava, na sua velhice, falar sozinha. Sentava-se num lugar especial e mágico, aqui captado pela fotografia que ilustra este post. (Como curiosidade, se aumentarem a fotografia e olharem bem para o lado direito, mais ou menos a meio, entre a folhagem do pinheiro, poderão ver um pequeno trasno, com as suas orelhas em bico. Alguns conseguirão ver, outros não.) Dizia eu que a minha avó falava sozinha e, quando se lhe perguntava com quem estava a falar, ela respondia com um semblante rabugento e muito sério: «Falo con xente pequena

Na Pó dos livros, ultimamente, têm acontecido fenómenos estranhos. Sobretudo desde que regressei de umas curtas férias à Galiza. Os vizinhos têm-nos feito queixas. Dizem-nos que ouvem, durante a noite, sons de correria e risos de crianças, como se estivessem a brincar no recreio da escola. Nós próprios temos confirmado ocorrências misteriosas. Alguém ou alguma coisa anda a mexer nos livros. Certo é que, quando abrimos de manhã a livraria, damos com alguns livros espalhados no chão, marcados como tendo sido lidos. Terei trazido comigo, dentro da bagagem, inadvertidamente, alguns trasnos?
Se sim, os malvados gostam de boa literatura infantil.

Jaime Bulhosa

Nota: Se quiserem conhecer melhor este lugar mágico, sigam este link: (mi jardín, mi paraiso)

10 comentários:

Anônimo disse...

a propósito, já leste "escola de menciñeiros", de álvaro cunqueiro?

Pó dos Livros disse...

Menciñeiro o mesmo que meiga mas no masculino.
O meu pai matava-me. :)

Jaime

pco69 disse...

Já agora, já leu 'Criança Roubada', editado pela SdE? Os seres que trocam crianças, foram traduzidos pelo Jorge Candeias como sendo Trasgos.

Anônimo disse...

Bonito post.
Linda fotografia (vi o tresno lá atrás a espreitar, sim senhor).
A sua vida não vai ser nada fácil daqui para a frente:tresno que entra em livraria, nunca mais de lá sai!

Isabel

Pó dos Livros disse...

"Criança Roubada"? Nunca li.

Jaime

Cláudia disse...

De tudo que entra, tem como sair
e que este saiba para onde ir!

Sr. Jaime Bolhosa por gentileza a Missa Gregoriana é a possível solução para seu caso.

Cláudia disse...

Sr. Jaime Bulhosa*

Perdão pela falta de atenção para com vosso nome.

Pó dos Livros disse...

Cláudia, Bolhosa ou Bulhosa vai dar no mesmo, continua feio. ;)

Jaime

Anônimo disse...

Eu vejo um trasno, mas não sei se é o mesmo que diz... Quantos trasnos podem estar no mesmo pinheiro?
Que sorte a sua, em ter uma avó assim :)

Maria disse...

Agora viajei até à minha galiza! Verões passados no meio do verde e de histórias. Desde o titulo do post (expressão que utilizo frquentemente), às histórias de sofás que se mexiam, o medo quando se fazia o ritual da "queimada", a casa que ficava mesmo em frente ao cemitério, as canções cantadas pelos maiores....:)

Um tresno galego e leitor, só pode ser uma boa companhia! :)