segunda-feira, agosto 1

Auto-de-fé

Nota: Há muito tempo que não lia um primeiro capítulo de um livro tão prometedor.

Jaime Bulhosa

- Que fazes aqui, pequeno?

- Nada.

- Então, porque estás parado?

- Porque…

- Sabes ler?

- Sei sim, senhor.

- Quantos anos tens?

- Nove, já feitos.

- Que preferias: um chocolate ou um livro?

- Um livro.

- Porque não mo disseste antes?

- O meu pai ralha-me.

- Ah… Como se chama o teu pai?

- Franz Metzger.

- Gostarias de viajar até outro país?

- Sim, senhor. Até à Índia. Há lá muitos tigres.

- E onde querias ir mais?

- À china. Tem uma muralha enorme.

- Gostarias de escalá-la?

- É demasiado larga e alta. Ninguém pode escalá-la. Foi por isso que a construíram.

- Sabes bastantes coisas. Vê-se que tens lido muito.

- Sim, estou sempre a ler. O meu pai tira-me os livros. Gostava de frequentar uma escola chinesa. É preciso aprender quarenta mil letras. Todas juntas não cabem num livro.

- Isso é o que tu julgas.

- Contei-as.

- De qualquer maneira, não está certo isso. Deixa lá os livros da montra. Não há lá um único que seja bom. Tenho aqui na pasta uma coisa melhor. Espera aí que já ta mostro. Sabes que escrita é esta?

- Chinesa! Chinesa!

- És aquilo a que se chama um rapazinho esperto. Já tinhas visto algum livro chinês?

- Não, mas adivinhei.

- Estes dois caracteres significam Meng-Tse, o filósofo Meng. Foi um grande homem na china. Viveu há 2250 anos e as suas obras continuam a ser lidas. Recordar-te-ás disto?

- Sim, senhor. Agora tenho de ir para a escola.

Ah! Com que então olhas para as montras das livrarias quando vais para escola? Como te chamas?

- Franz Metzger. Como o meu pai.

- Onde moras?

- Na Rua Ehrlich, 24.

- Eu também vivo aí. Não me lembro de te ter visto.

- O senhor desvia sempre os olhos quando se encontra com alguém na escada. Eu conheço-o há muito tempo. O senhor é o professor Kien, mas não dá aulas. A minha mãe diz que o senhor não é professor de verdade. Mas eu julgo que é, porque tem uma biblioteca. Ninguém é capaz de imaginar o que isso é, disse a Maria. É a nossa criada. Quando for grande, hei-de ter uma biblioteca. Com todos os livros e em todas as línguas e um em chinês também. Agora tenho de ir a correr.

- Quem escreveu este livro? Recordas-te?

- Meng-Tse, o filósofo Meng. Há exactamente 2250 anos.

- Muito bem. Podes ir um dia à minha biblioteca. Diz à minha governanta que te dei autorização. Mostrar-te-ei postais da Índia e da China.

- Que bom! Lá irei! Claro que irei! Pode ser esta tarde?

- Não, não, pequeno. Tenho de trabalhar. Não antes de uma semana.»


Auto-de-fé é o único romance de Elias Canetti. Obra magistral, catapultou este escritor de génio forte e individual para a categoria dos principais autores europeus, ao lado de Robert Musil, Hermann Broch e Karl Kraus. Proibido pelo regime nazi aquando da sua publicação, este é hoje considerado um dos livros fundamentais da história da literatura ocidental. Auto-de-fé narra a história do professor Peter Kien: sinologo e erudito. O seu apartamento é uma imensa biblioteca onde Kien se refugia para evitar todo e qualquer contacto físico e social. O ponto de viragem da sua vida é o casamento com Therese, a sua governanta. Se Kien é um homem composto de livros, Therese é a sua contra figura pragmática e mesquinha. Expulso da sua própria casa, Kien empreenderá uma viagem aos infernos, com final trágico e surpreendente.

edição: Cavalo de Ferro

título: Auto-de-fé

autor: Elias Canetti

tradução: Luís de Almeida Campos

n. º pág.: 525

isbn: 9789896231422

pvp: 22.00€

3 comentários:

Luís Graça disse...

Perfeitamente fabuloso.
Li-o em 1982, na colecção "Dois Mundos".

Fartei-me de o elogiar e tantas e tantas vezes falei com pessoas que não o tinham lido, mesmo gente com gostos literários sofisticados.

Até que enfim surge uma reedição.

O autor é espantoso na forma como consegue criar o ambiente físico e integrar as personagens nesse ambiente, deixando no leitor uma omnipresente impressão de asfixia e impotência, à medida que Kien vai perdendo o controlo da situação.

Imperdível.

krasiva disse...

Fiquei curiosa...vou pôr na minha lista pata próximas aquisições.

M disse...

gostei. quero gostar mais. vou ler.