quinta-feira, outubro 13

Déjà vu


Maquiavel apegava-se à convicção de que os homens são sempre os mesmos e têm sempre as mesmas paixões, de forma que, quando, as circunstâncias são similares, as mesmas causas devem conduzir aos mesmos efeitos:

Reparei no homem que estava, há bastante tempo, sentado à mesa do café da livraria. Deveria andar perto do seu sexagésimo aniversário. De estatura meã, sumida e semblante esguio. Lábios finos como se fossem apenas uma linha contínua que lhe desenhava os contornos da boca. Chamou-me a atenção, não pela aparência e trajes bem cuidados, mas pelo facto de segurar um livro, escrito em inglês, de pernas para o ar. Dava a sensação de que o fingia ler da direita para esquerda e de baixo para cima. O ligeiro movimento oposto que fez com a cabeça, levou-me, imediatamente, a suspeitar dele. Era óbvio que arquitectava algum plano para me roubar. Tão preocupado que estava, em seguir a minha actividade, nem deu conta que tinha segurado no livro ao contrário. – Este já eu apanhei! – Pensei para comigo.

Sem perder tempo, dirigi-me a ele:

- Ó meu caro amigo! a mim não me engana.

Interrompido, de forma abrupta, o “cliente” levanta a cabeça, vira os olhos na minha direcção e exclama:

- Já esperava ser incomodado!

- Escusa de estar, para aí, a fingir que lê inglês.

Disse eu, arrojado.

O homem, perto de um sorriso maldoso, responde-me:

- Todavia, estou de facto a ler. Não gosto muito é de ser interrompido quando o faço.

- Aí sim. Então porque segura o livro invertido?

- É um velho hábito. Não é que eu não consiga ler normalmente, mas foi assim que aconteceu. Sabe, fui educado por um preceptor que para além de ser inglês era excêntrico, maquiavélico e que achava que havia vantagens em aprender a ler com os caracteres de pernas para o ar. Não queira saber os incómodos que este método já me causou. Quando era jovem passava a vida a ter que fazer o pino, só para conseguir ler um cartaz de cinema. E os equívocos! tantas vezes provocados, apenas por ler livros virados do avesso. Imagine, noutros tempos, o que era estar sentado numa esplanada, sossegado e, ter por azar, na mesa da frente, uma bela mulher. De quanta chacota e risada, já fui alvo. Antigamente irritava-me muito…

Mandei-o parar com a conversa e intervim:

- Oiça lá, o senhor julga que me engana com essa ladainha!

- Cada um acredita no que quer.

Com esta resposta, levanta-se e dirige-se para a porta de costas, como num filme rodado ao contrário. Contudo, antes de sair, coloca o livro na estante onde ele pertencia.

Para meu espanto, passados apenas uns segundos, volta a entrar. Agora a caminhar normalmente. Pega novamente no livro, senta-se na mesa do café e inicia a leitura.

Abano a cachimónia entorpecido, tudo o que tinha acabado viver, não passava de um déjà vu. Não me atrevi a aborrecê-lo. Entretanto, fui distraído, durante um minuto, por outro cliente. Mal finalizo o que estava a fazer, não resistindo à curiosidade, procuro com os olhos o misterioso homem. Fiquei estupefacto, nem homem, nem livro e maldigo:

- Fui roubado! Traído por um safado de um déjà vu.

Nenhum comentário: