quinta-feira, outubro 6

Salvemos o Lince e a Serra da Malcata



É um lugar-comum dizer-se, nos dias de hoje, que vivemos num mundo em constante mudança. Um mundo em que as alterações do mercado são tão velozes que nos coíbem, sobretudo aos menos preparados e marginalizados, de reagir, às contrariedades, em tempo útil. Usando uma metáfora diria: como na natureza, qualquer ser vivo que não se adapte às alterações, rápidas, do seu meio ambiente, extingue-se. A não ser que o homem de forma inteligente, ou com alguma intervenção divina, o evite.


Antes de avançar para o tema específico deste texto, desejaria abrir um parêntesis, fazer uma breve distinção entre o que é uma livraria propriamente dita e o que é, por oposição, um espaço comercial que também vende livros.
As diferenças e desigualdades entre uma e outra são muitas e não importa aqui analisá-las todas em pormenor - elas são óbvias. Diria, de uma forma simples, que a principal diferença estará, provavelmente, na presença de um livreiro ou, pelo contrário, de um mero vendedor de livros. Tipicamente, o lema do vendedor de livros será «vender livros é como vender batatas». Um lema que se tornou anedota entre os livreiros: para vender batatas é preciso saber conseguir distinguir entre batatas para fritar, cozer ou assar; o que é quase a mesma coisa, como toda a gente sabe, de ambicionar a saber diferenciar entre, por exemplo, literatura surrealista, neo-realista e existencialista.
Ironia à parte, é exactamente por isso que se diz que já não há livreiros como antigamente. Que são uma espécie em vias de extinção. Que as grandes cadeias acabaram com eles. Que o funcionário que nos acolheu não sabia o que estava a fazer. De facto, tudo isso é verdade. Mas isso só acontece porque o livreiro é uma figura rara. Existiram e existem muito poucos, e sempre foi assim. Viver no meio de todo um universo de conhecimento humano, ainda que seja um privilégio, requer exigência e complexidade. E, como tal, não devemos pautar-nos pela mediocridade.
O livreiro é um autodidacta, não há nenhuma licenciatura que o possa formar. Claro que se pode e deve dar formação a quem queira trabalhar numa livraria, ou que, enquanto gestor e empresário, pretenda criar uma. Todavia, ser livreiro é outra coisa, é muito mais do que, simplesmente, vender livros. Tem de saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, lê-los, relê-los, entusiasmar-se por quem os escreve. Tem de compreender toda a cadeia do livro, desde que nasce, da mão do autor, até chegar ao leitor. Tem de conseguir vendê-los honestamente e incentivar o gosto pela leitura. E, se assim for, poderá reivindicar para si um papel importante como agente cultural.
Terminaria esta curta introdução, com uma afirmação que parece contraditória: Um livreiro não vende livros!
Um livreiro vende, antes de mais: aventuras, viagens e “Dom Quixote de La Mancha”; continentes, países, cidades e “Volta ao Mundo em Oitenta Dias”; romances, dramas, sexo e “Orgulho e Preconceito”; história, civilizações e “Odisseia”; batalhas, ódios e “Guerra e Paz”; reis, rainhas, “O Príncipe” e “ O conde de Monte Cristo”; música, versos, poemas e “Pessoa”; sonhos, auto-ajuda, artes divinatórias e outras mentiras. Tudo isto e muito mais, numa caixa chamada livro.

Passo agora para o tema aqui em questão:


O presente e o futuro das livrarias


Nos dias que correm parece ser uma fatalidade, em qualquer lado, em vez de ouvir falar, por exemplo, de livros, literatura e lazer, ser obrigado a ouvir falar de crise económica, política e mercado. A contragosto, também eu me vejo a isso forçado.
Começo com uma pergunta: será que as livrarias, tal como as conhecemos hoje, estarão a extinguir-se?
Eu responderia que sim. Porquê? Por causa da crise económica e financeira? Das políticas culturais e baixos índices de leitura? Das novas tecnologias e do livro digital ou, antes disso, uma causa interna ao próprio mercado do livro? Estas são algumas das possíveis questões, às quais vou tentar responder em traços largos.
Nos últimos meses têm-nos chegado notícias preocupantes sobre o encerramento contínuo de livrarias, tanto no estrangeiro como em Portugal. Para dar um exemplo, só nos últimos seis meses, encerraram mais de dez livrarias independentes, espalhadas pelo país. Infelizmente, é provável que fechem mais, não apenas entre as livrarias independentes, mas também entre as lojas das grandes cadeias - muito à semelhança do que está a acontecer por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Evidentemente, a crise económica, que teve o seu início em 2008, será a razão principal para o que está a acontecer, ou seja, o golpe que faltava para que as livrarias tradicionais definhassem de vez. Não podemos escamotear que esta é uma crise económica real, de dimensão inesperada e bem perceptível na degradação das condições de vida da maioria das pessoas. Mas não servirá esta crise, como bode expiatório perfeito para todos os males da cadeia do livro? Parece-me que sim.
Deixem-me colocar de lado a crise económica e financeira, para passar a abordar outro tema, outra crise, anterior à crise económica, e que vou apelidar de crise endógena.
Não poderemos compreender o presente, nem perspectivar melhor o futuro, se não olharmos primeiro para o passado. Neste sentido permitam-me partilhar a minha experiência, de 26 anos, a trabalhar com o livro e para o livro.
Quando comecei o ofício de livreiro, o mercado do livro generalista não era um mundo perfeito, nem idílico. Todavia, era mais homogéneo, simbiótico, bastante mais do que é hoje, no sentido em que todos dependiam de todos, como deve ser um mercado que pretende atingir a concorrência perfeita.
Os diversos agentes da cadeia do livro estavam razoavelmente equilibrados, tanto ao nível das dimensões quanto ao número de editoras, livrarias e outros agentes do livro. Era sobretudo composta por pequenas e média empresas. Havia diversidade cultural e partilhavam o mercado, com as suas especificidades, em concorrência saudável.
As regras tácitas estavam estabelecidas e eram quase sempre honradas. Particularmente no que se refere às margens comerciais e prazos de pagamento, concedidas pelos editores aos livreiros. As margens de pequenos, médios e grandes livreiros oscilavam entre 30% e 35% sobre o preço de venda ao público. Mas esta diferença podia facilmente ser anuladas através da diferenciação da qualidade do serviço. Actualmente, a discrepância da margem entre pequenos livreiros e grandes retalhistas varia entre 30% e 60%. O que é manifestamente injusto e incompatível para a manutenção de um mercado de concorrência equilibrada.
Evidentemente que a tiragem do número de livros e títulos editados também era muito menor, mas quantidade não significa qualidade e nem sempre melhores proveitos.
Uns anos mais tarde, por volta do ano de 1998, tudo mudou. Entram em cena os grandes grupos de retalho. Os livros passam a vender-se, um pouco por todo o lado, na FNAC, nos hipermercados, nos CTT, nas Bombas de gasolina, etc. As livrarias independentes, que representavam cerca 50% do mercado, diminuem rapidamente, para menos de 15%. Este factor fez com que estas passassem a ser, por comparação com o grande retalho, ostracizadas pelos editores. Simplesmente porque, individualmente, significavam uma pequeníssima parcela das suas vendas. Portanto, dispensáveis para a viabilidade económica de grande parte das editoras. – A meu ver, isto é incompreensível, tendo gerado grandes prejuízos no passado, e indo ainda gerar outros tantos no futuro, e não me refiro só aos livreiros, mas também a editores e leitores.
Neste novo ambiente, dá-se uma espécie de «bolha especulativa» da edição, do número de livros editados, sem correspondência proporcional com o aumento das vendas – «parece que as pessoas, com o aumento da escolaridade, em vez de quererem ler mais, passam a querer ser lidas» –.
É a chamada democratização do livro e, com ela, a uniformização, que tem infelizmente como resultado a tradução de edições pouco cuidadas e de qualidade literária duvidosa.
A dimensão de alguns retalhistas e a convergência da maioria das vendas em poucos operadores levaram à consequente diminuição das margens comerciais dos médios e pequenos editores. O sector editorial, sem capacidade negocial junto do grande retalho, vê-se em apuros. E procura uma saída para a crise nos novos grupos económicos, recentemente atraídos ao mercado do livro, que aparentemente consideraram ser um bom negócio. A seguir dá-se a concentração editorial, as pequenas e médias editoras passam de editoras independentes a meras chancelas, propriedade de investidores especulativos. Este novo cenário conduziu a que o mercado do livro se tenha transformado num oligopólio, tanto no sector editorial, como no sector do retalho. Com a especulação, as margens comerciais passam a ser ilógicas, totalmente desiguais, injustas. É como se tivéssemos colocado no mesmo ringue de boxe, sem árbitro, um peso pesado e um peso pluma e depois, de poltrona, ficarmos à espera de um final surpreendente.
A lei do preço fixo passa a não ser respeitada. A proliferação de feiras e campanhas, um pouco por todo o lado, cria no leitor a percepção de que o livro é barato, vulgar e que deve ser vendido com respectivo desconto e brinde a custo zero. E, no entanto, pura ilusão. Afinal de contas, não será que as coisas gratuitas nos podem trazer problemas, uma vez que objectos que nunca sonharíamos comprar se tornam tão apelativos, assim que são gratuitos? –
A lei da concorrência – não sendo eu jurista – parece não estar a ser aplicada, especificamente em algumas alíneas dos artigos n.º 4 e n.º 7. Na minha perspectiva, há controlo da distribuição, bem como privação temporária das fontes de abastecimento em prazo razoável de concorrência. Acontece, igualmente, fazerem-se edições de livros exclusivos, designadamente para a FNAC, privando o resto dos livreiros de acederem aos mesmos – não é ilegal, mas é no mínimo deselegante e pouco solidário entre parceiros. Para dar outro exemplo, os pequenos livreiros recebem, frequentemente, títulos que encomendaram ao mesmo tempo que os grandes retalhistas, e qual não é espanto quanto recebem os mesmos livros apenas um mês depois. Por vezes nem sequer recebem a primeira edição, mas as segundas ou terceiras edições. Será esta prática de abastecimento equitativa, adequada a uma concorrência saudável?
Depois da crise endógena e da crise económica, surge, quase ao mesmo tempo, a crise do livro impresso.
O livro, em forma de códice, tal como ainda o concebemos, vem sendo paulatinamente substituído pelo livro digital e pelo acesso fácil a conteúdos na Internet, particularmente no que diz respeito aos livros práticos e técnicos – alguém ainda se lembra da última vez que comprou uma enciclopédia em papel? Talvez sejam excepção os livros que se querem ler na íntegra, como os romances, a poesia, os livros infantis e similares. Todavia, temos recentemente o exemplo do último livro de José Saramago, que saiu primeiro em ebook e só depois em papel. Provavelmente, muitos mais se seguirão. Creio ainda que, através do livro electrónico, a leitura deixará de ser um acto individual, para passar a ser uma leitura social em rede. Não quer isto dizer, necessariamente, que seja uma má notícia para os leitores. No entanto, se o livro impresso deixar de ser financeiramente interessante para as grandes superfícies comerciais, serão estas, também, as primeiras, tão rapidamente como lhes deram importância, a retirar-lhes o espaço merecido.
A verdade é que há coisas, ou contrário de outras, que actualmente surgem muito depressa; absurdamente ou não, até a multinacional IKEA pretende lançar brevemente estantes para ebooks. Seja lá isso o que for, parece-me sintomático.
Quanto ao futuro das livrarias. A vantagem de se falar do futuro é de que ele ainda não aconteceu. E, como tal, tudo o que eu pudesse dizer não estaria errado. Se, por acaso, no futuro se verificasse o contrário, teria boas hipóteses de ninguém se lembrar do que eu disse. Por outro lado, se adivinhasse o futuro, seria considerado um visionário. Mas prefiro não arriscar vaticínios e deixar simplesmente algumas reflexões em jeito de perguntas:
- Será que um sector livreiro que assegure a pluralidade e a diversidade cultural, que divulgue o livro e a leitura, não deve ser protegido em caso de necessidade?
- Será que a variedade que caracteriza o mercado livreiro não é apenas a expressão do desenvolvimento cultural de um país, mas também a de todo um espaço linguístico?
- Por oposição aos supermercados de papel, não é verdade que os livreiros oferecem outros serviços, como o aconselhamento técnico, a selecção e a encomenda de outras obras que não só aquelas do êxito do momento?
- Não é verdade que, por cada livraria de bairro ou de província que tenha de fechar, por ser incapaz de acompanhar os baixos preços das grandes superfícies, representa uma perda para o abastecimento espiritual e cultural daquela zona?
Se o mercado do livro se mantiver como está, persistindo na prática de uma concorrência imperfeita, regulação e fiscalização estatal ineficazes, falta de ética, procura do lucro fácil e alimentando a perspectiva de que o livro é produto para consumidores e não para leitores (no sentido tradicional), correremos o risco de um dia, ao passearmos pelas ruas de algumas das nossas vilas e cidades, ao lado dos nossos já crescidinhos netos, sermos surpreendidos com a pergunta:
- Avô, o que é uma livraria?


Jaime Bulhosa

4 comentários:

disse...

Infelizmente estamos a passar por uma crise, que afecta tudo e todos. É transversal. Na minha opinião acho que estamos a cometer muito erros. Infelizmente os homens só aprendem com os erros que cometem e estamos agora a sofrer as consequências dos excessos e para tentar resolver os excessos, estamos a ser excessivos com os cortes. Olhando para trás para a história dos homens, facilmente se vê que oscilamos muito entre o 8 e o 80. A virtude exige muitas correcções e reflexões que por vezes, já chega demasiadamente tarde, se chegar.

A quilo que vai acontecer é que tudo vai estar na mão de grandes grupos económicos, não havendo espaço para mais nada nem ninguém. Não existindo concorrência poderemos ficar reféns de uma ditadura imposta, no plano intelectual, económico, etc. É muito perigoso.
Na verdade acho que com o estado actual das coisas caminhamos a uma velocidade tal em direcção a esse sol, que nos arriscamos a ficar sem asas e a cair muito em breve.

Espero que tudo o que se está a passar desperte as pessoas do estado em que se têm encontrado e olhem para onde caminhamos. Esta na hora do despertar!

Quanto aos livros, para mim continuam a ter de ser em papel. Não acho que alguma vez me vá adaptar aos ebooks. Não é a mesma coisa, não dá o mesmo prazer. Não se pode sentir as folhas, o desfolhar, o cheiro do livro, o lugar que ele ocupa dentro e fora da nossa vida. Um dia, provavelmente, os livros vão ser antiguidades como a máquina de escrever de um post anterior, eu sinceramente espero que não.

Areia às Ondas disse...

Não tenho conhecimentos suficientes para falar do mercado do livro, face a este texto, mas tenho-os mais que suficientes para falar de livrarias que, aqui, podiam ser substituídas por ‘igrejas’: sou fiel, acredito, tenho fé, frequento-as, sou-lhes dedicada e amo-as.
Obrigo-me a pensar que o mundo cresce à medida que envelhece e nele cabe de tudo: o que já existe e o que nasce de novo e vai ficando, co-ficando. Como amante de livros em todos os sentidos – desde a criação literária e/ou científica, à edição, passando pela condição de leitora (ávida e viciada) e frequentadora de livrarias – acredito que não estou condenada à extinção e que há outros como eu. Porém, acabo também por seguir pela estrada alcatroada e sinalizada da e-leitura e o ‘também’ aqui faz toda a diferença, porque não prescindo dos caminhos de terra batida, quantas vezes escondidos por entre a vegetação, que são as livrarias, livrarias com porta para a rua e com livreiros que sabem melhor que eu o que eu quero, livreiros que me dão a hóstia na forma de conselho, com uma conversa, que sabem responder às minhas perguntas e mostram desolação verdadeira se esta cliente anónima não encontra o que deseja. Repito: o que deseja, pois só um livreiro sabe que há leitores que desejam os livros, não os querem só. Todas as Fnac’s juntas não o conseguem fazer e este é um bom exemplo como a quantidade prejudica a qualidade. Estes templos do livro têm seminaristas de primeiro ano a darem missas e, não sei se se apercebem ou não, afastam os fiéis, os fiéis verdadeiros, aqueles que fazem peregrinações em busca do que procuram e que os verdadeiros livreiros conhecem.
A minha livraria é como a minha mercearia: conheço-as e conhecem-me e ambas vendem produtos de primeira necessidade; guardam-me o que sabem que eu vou querer; esperam por mim e eu sinto-me como se estivesse em casa. Na grande superfície sou uma anónima, compre o que comprar, satisfeita ou não; a diferença entre uma livraria e um supermercado de livros é igual aos amigos verdadeiros versus amigos do Facebook: são muitos mas não lhes vejo o sorriso e não se preocupam com as minhas lágrimas.

Anônimo disse...

http://www.guardian.co.uk/books/2011/jun/03/james-daunt-waterstones-interview

Um artigo interessante.

Isabel Castanheira disse...

Era...
Abraço
Isabel Castanheira