quarta-feira, novembro 23

Biblioteca Universal





Os clientes bizarros, de uma livraria, são tão frequentes que se tornaram para nós comuns. Há muito que deixamos de nos surpreender com as questões absurdas que nos colocam. Aceitamo-las sem espanto, resignados, subjugados ao facto de que nem tudo tem que ter uma explicação. Um cliente com postura de eminência, falando com tom de sumidade, introduz o conceito de universalidade:

- Bom dia. Desejava um livro que contivesse todos os livros.      
- Um livro com todos os livros? Como assim? Um livro com o conteúdo de todos os livros?
- Por amor de Deus! Não faça pouco da minha inteligência. Sei perfeitamente que os volumes necessários para um livro desse tipo seriam infindáveis. Mas o que pretendo é uma coisa bastante mais modesta. Quero um livro onde tenha inscrito os títulos, autores, editoras e ano de edição, de todos os livros existentes no mundo.

O sonho de uma biblioteca universal é antigo, mas até hoje não foi exequível. Nem de perto nem de longe a Biblioteca do Congresso dos EUA contém todos os livros editados. Não existe, também, nenhuma base de dados com todos os livros do mundo. A generalidade das pessoas não tem noção da quantidade de livros que foram escritos desde que foi inventada a escrita e que deve andar na ordem dos milhares e milhares de milhões. O espaço físico ou digital de uma Torre de Babel, como essa, seria absurdamente grande. Mas um cliente é um cliente e, como tal, deve ser levado em conta.

- Não me leve a mal, no entanto, necessito que me explique melhor o que deseja. Se o compreendi bem, o senhor pretende um livro, isto é, uma espécie de lista telefónica onde estejam inscritos todos os títulos de livros?
 - Exactamente! Não custa assim tanto entender, pois não?
 - Não, parece simples de entender. No entanto, o conceito de biblioteca universal não é estático. Uma biblioteca universal estaria em constante expansão, diariamente teriam que ser introduzidos milhares de novos títulos nesse livro. O que levaria a que, o livro por si desejado, estivesse sempre desactualizado. Não concorda? Um livro desse tipo não existe.
- Também o universo infinito está em constante expansão, ele é aberto em todas as direcções, para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo, para frente, para trás, na diagonal, transversal, sem princípio nem fim. E ninguém até hoje o conseguiu provar ou explicar. Porém, mesmo assim, a maioria das pessoas acredita que ele existe e é infinito. Posto isto, como deve concordar, nem tudo o que não se explica quer dizer que não exista.

Jaime Bulhosa

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