quinta-feira, novembro 10

A leitura não tem que ser um acto solitário




A senhora X, octogenária, vem desde há quatro anos, todas as tardes, à livraria Pó dos Livros. Entra silenciosamente e, como é costume, cumprimenta-nos com um suave:
 - Boa tarde.
Depois, dirige-se para as estantes junto ao café, retira como é habitual dois ou três títulos e tão silenciosamente como entra, senta-se no café a ler. Quando chega a hora de fechar, deixa os livros em cima da mesa e retira-se com outro ameno:
 - Boa noite.
Em quatro anos, boa tarde e boa noite, foram as únicas palavras que lhe ouvi proferir. Não foi pelo facto da senhora utilizar a livraria como biblioteca que decidi perguntar-lhe a razão porque o fazia há tanto tempo, apenas por curiosidade. Respondeu-me:
- Venho para cá porque vocês me fazem companhia. Em casa estaria, mais uma vez, sozinha.
A senhora Y, já reformada, visitava-nos muitas vezes. A Pó dos Livros, dizia-nos, era a sua livraria preferida. No entanto, fazia mais de dois anos que não aparecia. Pelo destino tinha ido viver para longe de Lisboa. Ontem, voltou a visitar-nos. Os seus olhos brilhavam, a boca sorria e com entusiasmo conta-nos:
- Sabem, uma amiga ofereceu-me um livro. Quando reparei que o papel de embrulho era da vossa livraria a sensação foi igual a ter reencontrado um familiar querido que já não via há muito tempo.

Jaime Bulhosa

2 comentários:

Amélia disse...

QUE BONITA HISTÓRIA A DESSA SENHORA!

tetisq disse...

É o que espero para a minha reforma...se ainda existirem livros, claro.
:)