Um homem miserável e andrajoso, que muito parecia um indigente,
penetrou um dia no palácio do Rei do Faz-de-Conta, na ausência deste,
atirou-se sem meias medidas para o trono vazio. Os guardas, adivinhando
qualquer coisa de insólito, quiçá sobrenatural, não se atreveram a expulsá-lo.
Chamaram o camareiro-mor que acorreu e perguntou ao homem esfarrapado:
- Sabes tu que estás a ocupar o assento do Rei, que é o
Comendador dos Crentes?
- Sim, sei.
- E sabes quem é o Rei?
- Sei e estou acima dele.
O camareiro-mor ficou um instante a pensar e sem saber o que
fazer decidiu chamar o Santo Inquisidor. O inquisidor, um homem habituado a extrair a verdade através dos métodos da retórica e lógica, auxiliado por alguns
instrumento de persuasão de bruxas e hereges, com um ar terrível, alteando a
voz, disse:
- Perdeste a inteligência por causa da tua pobreza? Não
sabes que acima do Rei só há Jesus Cristo?
- Sei – disse o desgraçado.
- E sabes quem é Cristo?
- Sei e estou acima dele.
Os guardas parecem escandalizados. Levantam as armas para as
abater sobre o intruso que parecia completamente calmo e seguro de si. O
inquisidor deteve-os com um gesto e fez uma última pergunta:
- Não
sabes que acima de Jesus Cristo só há Deus?
- Sei – disse o desgraçado.
- E sabes quem é Deus?
- Sei e estou acima dele.
- Acima de Deus? Vês bem o que estás a dizer? Mas nada há
acima de Deus.
- Eu sei – disse o homem esfarrapado, sem se mexer do trono.
– E, precisamente, eu sou esse nada.
Nota: a partir de um conto da Idade Média.
Nota: a partir de um conto da Idade Média.
3 comentários:
Surpreendente, genial!!!
Somos todos nada...
Um poema de Emily Dickinson para ilustrar teu lindo conto:
Eu sou ninguém! Quem é você?
Você é ninguém, também?
Então somos gêmeos – não diga nada!
Você sabe, haviam de nos expulsar.
É tão triste ser alguém!
Tão público, é qual um sapo
No charco que o aplaude
Noite e dia o nome a coaxar!
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