terça-feira, dezembro 27

Nada



Um homem miserável e andrajoso, que muito parecia um indigente, penetrou um dia no palácio do Rei do Faz-de-Conta, na ausência deste, atirou-se sem meias medidas para o trono vazio. Os guardas, adivinhando qualquer coisa de insólito, quiçá sobrenatural, não se atreveram a expulsá-lo. Chamaram o camareiro-mor que acorreu e perguntou ao homem esfarrapado:
- Sabes tu que estás a ocupar o assento do Rei, que é o Comendador dos Crentes?
- Sim, sei.
- E sabes quem é o Rei?
- Sei e estou acima dele.
O camareiro-mor ficou um instante a pensar e sem saber o que fazer decidiu chamar o Santo Inquisidor. O inquisidor, um homem habituado a extrair a verdade através dos métodos da retórica e lógica, auxiliado por alguns instrumento de persuasão de bruxas e hereges, com um ar terrível, alteando a voz, disse:
- Perdeste a inteligência por causa da tua pobreza? Não sabes que acima do Rei só há Jesus Cristo?
- Sei – disse o desgraçado.
- E sabes quem é Cristo?
- Sei e estou acima dele.
Os guardas parecem escandalizados. Levantam as armas para as abater sobre o intruso que parecia completamente calmo e seguro de si. O inquisidor deteve-os com um gesto e fez uma última pergunta:
- Não sabes que acima de Jesus Cristo só há Deus?
- Sei – disse o desgraçado.
- E sabes quem é Deus?
- Sei e estou acima dele.
- Acima de Deus? Vês bem o que estás a dizer? Mas nada há acima de Deus.
- Eu sei – disse o homem esfarrapado, sem se mexer do trono. – E, precisamente, eu sou esse nada.


Nota: a partir de um conto da Idade Média.

3 comentários:

sonia disse...

Surpreendente, genial!!!

Areia às Ondas disse...

Somos todos nada...

Malu disse...

Um poema de Emily Dickinson para ilustrar teu lindo conto:

Eu sou ninguém! Quem é você?
Você é ninguém, também?
Então somos gêmeos – não diga nada!
Você sabe, haviam de nos expulsar.

É tão triste ser alguém!
Tão público, é qual um sapo
No charco que o aplaude
Noite e dia o nome a coaxar!