Sexta-feira, Dezembro 30

Não penses...



Leio porque posso. Leio porque sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque busco um sentido para a vida: O que é o bem? O que é o mal? Quantas coisas belas encontrei nos livros, a arte, a música, a amizade, o amor… No entanto, em tudo o que li, na ciência, na religião, na metafísica, na literatura, nunca encontrei uma resposta satisfatória para as perguntas: O que sou? Para que vivo eu? Como o devo fazer? O que é o mundo? Ou seja, «a causa primeira». Aliás, cada vez que as sumidades o tentam fazer, parece-me tão intricado, complexo, confuso, misturado, que as respostas se tornam absurdas. Dá-me a sensação de que todos falam ao mesmo tempo, muitas vezes, apoiando-se e louvando-se reciprocamente para que em ricochete, também os apoiem e os louvem; outras vezes irritando-se tentam gritar mais alto do que os outros – tal como num manicómio. Penso muitas vezes para mim: se não podes compreender o sentido da vida, então não penses, vive.
É, por vezes, nas coisas mais simples – digo simples, não básicas, não são necessariamente sinónimos – onde podemos descobrir as melhores explicações para a vida. Foi precisamente dentro de um livro, a Confissão, de Lev Tolstói, que encontrei uma pequena parábola – pequenas fábulas que tanto aprecio –, com milhares de anos, do tempo ainda dos rolos do Pentateuco, e que me parece exemplar para a explicação de como é a vida. Infelizmente, também ela não explica «o porquê da vida», e tenho a ligeira suspeita de que, em toda a sabedoria humana, não a vou encontrar:

Era uma vez um viajante apanhado na estepe por uma fera enfurecida. Tentando salvar-se da fera, o viajante saltou para um poço seco, mas viu no fundo um dragão que abriu as goelas para o devorar. O desgraçado não se atrevia a saltar para o fundo do poço para ser devorado pelo dragão; então, agarrou-se aos ramos de um arbusto bravo que crescia nas fissuras do poço e ficou suspenso. As suas mãos estavam a fraquejar e sentia que em breve tinha de entregar-se à morte que o esperava dos dois lados; mas continuava a agarrar-se e, enquanto teve forças para isso, olhou em volta e viu que dois ratos, um branco e outro preto, andavam em redor do tronco do seu arbusto, roendo-o de todos os lados. A qualquer momento o arbusto ia quebrar-se e o viajante cairia nas goelas do dragão. O viajante via-o e sabia que a sua morte era iminente, mas, enquanto ainda pendia dos ramos, procurou à sua volta, encontrou nas folhas do arbusto gotas de mel, chegou a elas com a língua e pôs-se a lambê-las.

Bom ano novo.

Jaime Bulhosa

10 comentários:

fallorca disse...

«...se não podes compreender o sentido da vida, então não penses, vive.»
Bom ano

Cristina Torrão disse...

Caro Jaime, anda à procura do sentido da vida? Douglas Adams, na sua série iniciada com "À Boleia pela Galáxia", explicou tudo.
Foi essa mesma pergunta que introduziram no computador. Este demorou milhões de anos a dar a resposta. Mas ela veio! E a resposta era... 42!!! (Já não posso assegurar que seja este o número, mas, para o caso, é indiferente).
Perplexos, os que leram a resposta logo perguntaram o que queria dizer aquilo. "Ai isso", respondeu o computador. "Bem, para processar essa informação, preciso de mais uns milhões de anos"!

Cristina Torrão disse...

P.S. Bom Ano :)

Pó dos Livros disse...

Cristina Torrão,

Não li o Adams, mas li Voltaire.;)
Perante isto, pensamos nós, bom mesmo, para nos facilitar a vida, era alguém ter sido capaz de escrever um livro possível de ler e onde estivesse escrito o sentido de todas a coisas. Houve até em tempos alguém que o fez - não, não é a Bíblia. Esta história está descrita num texto de Voltaire chamado Micromegas (vale a pena ler, até porque a dimensão da obra não é grande e, no entanto, o seu conteúdo é imenso). Este livro relata-nos a história de «um jovem de espírito de oito léguas de altura: entenda-se, por oito léguas, vinte mil passos geométricos de cinco pés cada um, que vivia num desses planetas que giram em volta da estrela de Sírio» e que, por mero acaso, veio parar ao minúsculo planeta Terra. Depois de algumas reflexões e muitas peripécias,o jovem de espírito e de sabedoria gigante propôs-se escrever um livro em letra muito miúda, de maneira que os seres microscópicos chamados homens pudessem lê-lo, e onde estaria contido o sentido de todas as coisas. Este texto seria escrito para oferecer àqueles homens da Terra que achavam que sabiam o segredo de tudo e que tudo era feito unicamente para o homem. Feito isto, o livro "O Sentido de Todas as Coisas" foi levado como um tesouro para ser aberto apenas pelo secretário da Academia das Ciências de Paris. Qual não foi a surpresa quando este o abriu e viu apenas um livro em branco. «Ah! Bem que eu desconfiava…», disse ele.

bom ano e bjs
Jaime

Areia às Ondas disse...

Há uma coisa que tenho como certa: o sonho comanda a vida. Bom 2012.

Pinóquio disse...

Para que vivemos nós? Qual o sentido da vida? São perguntas pertinentes, talvez, mas não tenho a certeza que valha muito a pena procurar uma resposta. Esta seria diferente de segundo para segundo. Se obtivéssemos «a resposta» para este mistério, tudo acabava logo, a vida como nós a conhecemos deixava de existir, pois passávamos a ser autómatos,sabendo o que se iria passar no momento seguinte.
A solução é mesmo viver, enquanto podemos.
Bom ano de 2012.

Malu disse...

Lembrei-me da efemérida que vive somente um dia e do que meu amigo escreveu:

Perguntei a efemérida que buscava a luz, se a vida tem significado, num viver tão breve?
E ela me respondeu:
- Eu nasço, amo e morro. Acho que é esse o significado. E você ?

eu respondi sem jeito, preso ao chão:
- Eu ainda não aprendi a voar e a luz parece tão longe !

Pó dos Livros disse...

Pinóquio,

Acho que tem razão. A parábola é exactamente isso. É como a ilusão da imortalidade, se fossemos imortais a vida perdia toda a graça. No entanto, pensar sobre as coisas é essencial, mesmo que não cheguemos a nenhuma conclusão. O contrário seria a ignorância. :)

Jaime

Carlos Barbosa disse...

Há uns anos atrás, não muitos, tendo em conta o tempo dos tempos, alguém disse que:
"filosofar é um masturbar-se intensivamente sem nunca chegar ao orgasmo da realidade". A essência de todas as coisas, provavelmente, é um caminho e não um objetivo. A mesma pessoa que disse a frase anterior também disse esta:
"A verdade é a essência e o destino de todo o Ser".
A ilusão da imortalidade possibilita-nos que percorramos esse caminho numa esperança constante de chegada a algo ou coisa nenhuma, quem sabe?. Chegaremos? Não sei. Mas cá vamos caminhando...

Carlos Barbosa

Isabel Araújo disse...

A vida pode não ter sentido; nós, os tais seres microscópicos é que precisamos desesperadamente de lho atribuir... Caeiro diria, talvez, que o seu sentido é não ter sentido nenhum, basta simplesmente viver...
Eu, que acredito em Deus, deveria dizer que Deus dá sentido à minha vida, no entanto, é com as gotinhas de mel que vou lambendo aqui e ali que preencho a minha vida, dando-lhe sentido... Quem sabe Deus não está nessas doçuras...