sexta-feira, dezembro 9

O sótão


                                                                                           Desenho de Heinrich kley

“Fé” significa não querer saber o que é a verdade.
Friedrich Nietzsche


O sótão de uma velha casa é sempre um dos lugares preferidos para as crianças brincarem. Não só pelo facto de se estar longe dos olhares indiscretos dos adultos, mas também por ser um sítio onde normalmente se podem encontrar monstros, fantasmas, assombros e uma panóplia de objectos esquecidos, velharias sem uso, brinquedos antigos e quinquilharias variadas. Não há nada melhor para o despertar da imaginação de uma criança do que um sótão sombrio, poeirento e assustador. Mais ainda quando é habitado por animais repelentes, como osgas paralisadas, hibernadas, de cabeça para baixo, de olhos redondos, fixados em nós, negros, penetrantes que se negam a mexer, mesmo, quando nos aproximamos; aranhas suspensas no ar, correrias de centopeias a fugir dos ratos e outros insectos que voam e se agarram à nossa cara assim que lá entramos.
Antes de vos contar o estranho fenómeno passado no sótão de minha casa, no longínquo ano de 1974, deixem-me descrever melhor o cenário. Não era fácil o acesso ao sótão. Para lá entrar tinha que ir por um esconso arrumo, trepar por uma corda com os pés apoiados na parede e passar por uma abertura, quadrangular, estreita, no tecto. Não havia escadas, ausência que o transformava num lugar pouco frequentado por adultos mas muito mais desejado por mim. O sótão tinha, juntamente com as velharias, uma estante de livros enorme, mais comprida do que alta, horrorosa – achava eu na altura –, de madeira trabalhada, escura, forrada por um papel gasto, comido pela traça e estampado com cornucópias vermelhas e brancas. A estante estava preenchida com uma colecção de livros, excluídos, banidos, como se pertencessem ao Index Librorum Prohibitorum – o livro dos livros proibidos –, longe de todas as curiosidades perversas. Mais tarde, perguntei a meu pai porque razão se encontravam aqueles livros escondidos. Nunca obtive resposta e ainda levei uma reprimenda por mexer onde não devia. Tenho hoje a suspeita que seria por um motivo muito complexo, de índole erótica ou religiosa que ultrapassava a minha compreensão. Seja lá qual tenha sido a razão, a verdade é que o meu pai achava que esses livros não deviam estar na sala. O sótão era como se fosse uma espécie de Biblioteca Apostólica Vaticana. – Biblioteca onde existe a maior colecção de livros sobre sexo no mundo, vá-se lá saber porquê…
Apesar de os livros serem, de todos os objectos existentes no sótão, aqueles que menos vontade tinha de descobrir, foi, exactamente, um livro esparramado no meio do chão que me chamou à atenção. Um livro no chão era coisa que não podia ser. Apenas me era permitido deixar descuidados os meus próprios livros. Aos outros podia tocar-lhes, folheá-los, com cuidado e técnica apropriada para o efeito e que o meu pai, repetidamente, me ensinava. A técnica consistia no seguinte: primeiro apoia-se o livro com a palma da mão, neste caso a mão esquerda, depois com os dedos indicador e polegar, da outra mão, agarra-se no canto superior direito da página e percorre-se pelo lado oposto da folha no sentido descendente, de forma suave, até à outra ponta junto à costura. Dessa forma evita-se o perigo de dobrar ou rasgar as folhas. Sabendo muito bem o cuidado que o meu pai dedicava aos livros e quanto o irritava ver os seus livros mal tratados ainda para mais sendo esse livro a Bíblia Sagrada, achei melhor apanhá-la e voltar a colocá-la no sítio de onde, provavelmente, teria caído. Depois virei as contas à estante e de olhos bem abertos, por causa da escassa luz, circundei o sótão em busca de algo mais interessante com que brincar. Encontrei um velho gira discos e logo me ocupei a rodar o prato com o dedo, enquanto imaginava dar a volta ao mundo. Depois encontrei uma moldura muito antiga, com uma fotografia de um velho, antepassado de meu pai, tão velho quanto a moldura. Se calhar não era assim tão velho, mas o bigode enrolado e a roupa do início do século passado, transforma, à luz dos nossos actuais parâmetros, qualquer pessoa num velho. O semblante daquela pessoa estava carregado, como se estivesse zangado. Fez-me lembrar um retrato de Velázquez, porque as suas personagens se assemelham sempre a alguém que conheço. As fisionomias dos habitantes do passado repetem-se no futuro. – Teria que perguntar quem era ao meu pai –. Fazia isto quando, ouvi atrás de mim, inesperadamente, um som surdo que me fez saltar de medo e dar dois gritos. Um pelo susto e outro por ter batido com a cabeça nas telhas. O sótão quase não tinha altura suficiente para um adulto andar corcunda; de maneira que não foi preciso muito para o acidente acontecer. Mas, felizmente, tudo não passou de mais um galo na cabeça que eu cocei, num misto de dor e admiração, depois de ver a bíblia outra vez no chão sem que ninguém lhe tivesse tocado. Passado o primeiro momento de perplexidade pensei que a teria arrumado de forma desleixada. Peguei na bíblia e voltei a colocá-la no lugar. Antes de me virar esperei uns segundos para me certificar de que não voltava a cair. De repente, por artes mágicas ou vontade divina, como se tivesse sido impulsionada por uma mola invisível, a bíblia salta para fora da estante e estatela-se no chão. Aterrorizado, dei um salto para trás e pensei que o meu sótão estava assombrado. Passado o susto inicial, raciocinei: não, espera aí… tem de haver uma explicação científica, a razão deve prevalecer sobre a crença. – Tinha eu aprendido na escola e não na catequese –. Aproximei-me da estante para observar melhor; olhei por baixo, por cima e nada… Nada de mola ou qualquer outro dispositivo visível. Apenas livros que para mim não tinham nenhuma diferença dos livros da sala, a não ser aqueles com fotografias de mulheres nuas. Reparei também nalguns títulos e nomes de autores que eu, na época, não fazia ideia de serem heréticos. Sem qualquer explicação lógica, voltei a colocar, a medo, a bíblia no lugar. E… de novo, salta da estante, voltei a pô-la no sítio, outra vez o mesmo, infinitamente, agora sem medo, repeti a brincadeira, gargalhando alto até perder a graça por cansaço.
Resolvi tomar medidas drásticas. Tive uma ideia peregrina, diria mesmo milenar. Peguei em dois pregos grandes e num martelo que por ali se encontravam perdidos e preguei, literalmente, a bíblia teimosa ao móvel. Fiquei expectante a ver o que acontecia. De início nada… pouco depois, a estante começou a tremer, como se de um terramoto se tratasse, parecia que a qualquer momento iria explodir. Fugi, rapidamente, para um canto do sótão, coloquei os braços e as mãos de forma a proteger a face, e… vi, maravilhado, todos os livros, num movimento em forma de leque, e cores do arco-íris, voarem para fora do móvel. Rodopiaram, sobre a minha cabeça, a um metro do chão, várias vezes, até que caíram com um imenso estrondo que ecoou por toda a casa. Ainda tonto, de rabo no chão, sacudo a cabeça aparvalhado com o que acabava de assistir. Para além dos livros todos espalhados pelo sótão, espanto dos espantos, a bíblia continuava presa ao móvel vazio, como se estivesse a fazer pouco de mim.
É claro, levei duas palmadas, uma pelos livros espalhados e outra pelas chagas provocadas na bíblia. Fiquei vários dias de castigo e proibido de entrar no sótão por uns tempos. Apesar de ter insistido com o meu pai, veementemente, na tentativa inútil do esclarecimento do acontecimento insólito:
- Que lindo serviço arranjaste! Estás sempre a meter-te em sarilhos. – Disse o meu pai, azedado.
- Não fui eu, pai! Os livros bateram as folhas e voaram sozinhos, tal e qual os morcegos do sótão.
- Claro! Está-se mesmo a ver... E a bíblia também se pregou sozinha ao móvel?
Estive quase para dizer que também Cristo tinha sido cravado na cruz e por vontade própria. Mas engoli em seco e tentei mudar de assunto:
- Mas, meu pai… por enquanto não há explicação racional, científica que possa explicar o fenómeno. No entanto, cumpre-nos, pois, procurar a verdade e avançar na ciência do desconhecido. – Disse eu convictamente. Infelizmente, para mim, o argumento não vingou. É como se tivesse dito que tinha visto um disco voador, nunca ninguém acredita. Porém, se dissesse que tinha visto, ajoelhado, com muita luz a Nossa Senhora, tinha sido milagre e virava beato canonizado. Foi melhor assim...
Desde esse dia tornei-me agnóstico descrente. Tive dúvidas: será que foi Deus que recusou os livros ímpios ou, pelo contrário, terão sido os livros ímpios a rejeitar Deus?
Mais tarde voltei a entrar no sótão, ainda lá se encontrava a estante cheia de livros, a Bíblia Sagrada nem vê-la e, por isso, tudo estava de acordo com as leis da natureza, imóveis e no seu devido lugar, as velharias, as osgas e os livros.

Jaime Bulhosa


2 comentários:

disse...

Adorei! : )

Malu disse...

Adorei a riqueza de detalhes,fruto de uma imaginação fecunda.
Parabéns!