quarta-feira, dezembro 28

Pobre poeta




Sou um poeta… artista. Tenho a certeza que o sou. Li todos os grandes poetas e não me considero inferior. Falta-me um golpe de sorte, alguém com sensibilidade capaz de entender a minha poesia. Das sete artes aquela a que me dedico com maior paixão e ardência. Caminho sem ter noção do tempo. Uma perna a seguir a outra. De olhos no chão, esbarro constantemente contra os outros transeuntes, distraído com os meus pensamentos. Os poemas de amor estão-me constantemente a latejar no cérebro, a imaginação flui e à minha musa, ao meu amor, à minha Rosa Maria, os quero dedicar plenamente. Ser feliz é viver morto de paixão.*1
Não sei que raio de azar é o meu, por infortúnio ou destino, a verdade é que até hoje nenhum editor reparou em mim. Não sou jovem, longe disso, tenho quase quarenta anos e uma vida inteira consagrada à poesia, tirando o tempo que passo no escritório a rabiscar facturas, uma atrás da outra. Sem poesia não há amor e com o amor a poesia nasce naturalmente. É pela palavra que o bem-querer deve ser demonstrado. Não desisto. A responsabilidade de vencer e de não errar é para com aqueles que amamos. Escrevi uns livros, edições de autor, bem sei… talvez não seja bastante… talvez não chegue a imortal com pequenas edições de autor... Mas quantos homens deixaram maior marca do que aquela que deixa uma gota de chuva no meio de um oceano? E o que é o reconhecimento público comparado com o sorriso do meu amor quando lhe atinjo o coração pelas palavras? O homem que vive na indiferença é aquele que não ama. Uma vez que o meu coração está vivo, viverei mais que o suficiente: Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer é que te amo? *2


Tu já tinhas um nome, e eu não sei
Se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor. *3


Cheguei. Encontro-me em frente da livraria Balzac, onde deixei o meu livro. Pergunto-me: porque que será que as livrarias têm quase sempre nomes de escritores ou apelidos de família? Não deveriam ter nomes mais poéticos?
Entro na livraria, parece mais um alfarrabista do que uma livraria, cheia de livros velhos e com pó e as estantes com caruncho. Ora, aqui está um bom nome para uma livraria. Ah, a minha veia poética! Um dia alguém ainda se lembrará de dar o nome Pó dos Livros a uma livraria.
Sou recebido, de imediato, pelo livreiro sisudo. Dá-me a sensação de que já não se recorda de mim. Cumprimento-o:
- Bom dia. Não se lembra de mim?
- Bom dia. Não… desculpe mas não. Em que posso ser-lhe útil?
- Eu sou autor de um livro. Há uns meses deixei, nesta livraria, uns exemplares à consignação. Gostaria de saber quantos exemplares já se venderam?
- Como se chama?
- O meu nome ou o pseudónimo? É que tenho vários.
- Não, referia-me só ao título do livro.
- Ah! O título do livro é Sentimento Inescrutável.
O livreiro fez um ligeiro esgar, talvez reconhecendo em mim um estereótipo e observa:
- Deixe-me adivinhar: é poesia?
- Sim, é uma dedicatória ao amor. – Digo com orgulho.
De seguida, o livreiro pesquisa no computador em busca do título do livro e num instante:
- Aqui está! Infelizmente, não se vendeu nenhum e, mantêm-se os seis exemplares que cá deixou. Quer que os devolva?
Fiquei surpreendido com a resposta. Não por não ter vendido nenhum, já estava acostumado. O eco que um livro de poesia provoca, num mundo de ignorantes insensíveis, não é maior do que aquele que uma pena provoca quando cai do cimo de uma montanha. Contudo, não podia ser… tinha de haver algum engano. Sem perder tempo, cabisbaixo, esclareço:
- Não, deixe-os estar, pode ser que um dia lhes dêem valor. Todavia, deve haver algum equívoco, eu apenas deixei cinco exemplares.
O livreiro encolhe os ombros. Parecia habituado a estas situações.
- Vamos confirmar. E voltando-se para o colega no fundo da livraria, onde se encontravam, menosprezados, os livros de poesia, pergunta-lhe:
- António! Vê aí, por favor, na secção de poesia quantos exemplares temos do livro, Sentimento Inescrutável?
A procura não foi fácil, o segundo livreiro não fazia a mínima ideia onde poderiam estar os meus livros. Percorreu todas as estantes da secção de poesia e nada… ao fim de alguns minutos confrangedores, escondidos por detrás de outros livros, longe da vista de qualquer apreciador de boa poesia, lá os encontrou:
- Seis exemplares. – Disse.
- Meu caro senhor, confirma-se.
Novamente fiquei incrédulo.
- Não pode ser… de maneira nenhuma! Reforço, tenho a certeza de que só deixei cinco exemplares.
O livreiro, agora mais afável, mais humano, como se estivesse com pena de mim, diz:
- Desculpe, não leve a mal, mas provavelmente alguém veio aqui deixá-lo ou trocá-lo por outro. Quem sabe!?... É mais comum do que possa pensar.
Eu sabia que não era um poeta famoso. No entanto, achei estranho, ofensivo, que alguém pudesse, depois de ler o meu livro, abandoná-lo numa qualquer livraria. Afinal de contas tratava-se de um livro sobre o verdadeiro amor, poesia, a arte suprema. Só podia ter sido alguém sem o mínimo de sensibilidade, iletrado, bruto. Enquanto pensava nisto, do fundo da livraria o outro livreiro interrompe:
- Temos aqui um dos seis exemplares dedicado pelo próprio autor!
De impulso viro a cabeça, curioso, e digo expectante com o peito vazio:
- E o que diz, homem!?... O que diz?
E oiço, enquanto era levado pelas vagas de um tsunami:
- Para a Rosa Maria, rainha de todas as flores, de aromas de concupiscências mil. Para o meu amor, porque sem ti não teria sido possível escrever este livro (…).

*1 – Vinicius de Morais
*2 – Fernando Pessoa
*3  – Madrigal, Eugénio de Andrade

Jaime Bulhosa

5 comentários:

Malu disse...

Jaime, essa Rosa é somente espinhos?
Não é verídico, ou é?
Qualquer mulher adoraria ser transformada em versos, seria uma honra.
Eu diria :
Queria ser para ti a própria poesia
Musa inspiradora a te fazer sonhar
Todo o encanto no mundo da fantasia
E sempre em teus versos me transformar.

Pó dos Livros disse...

Esta pequena história é baseada num acontecimento verídico. Passada nos anos 80 na livraria Balzac que já não existe. O poeta,já falecido, é hoje reconhecido. ;)

Jaime

Rui M. disse...

Muito interessate. Sinto algo de especial neste blog...
Fica o convite para ver os meus contos em: http://talesforlove.blogs.sapo.pt/

Quem era o poeta do livro abandonado?
Obrigado
Rui

Pó dos Livros disse...

Rui M.

Não posso divulgar o nome do poeta, seria feio. ;)

jaime

Rui M. disse...

utilize sff o meu mail pois eu enviei um mail para a livraria para colocar uns livros ah consignacao.

ruiprcar at gmail.com

Obrigado
Rui