quinta-feira, dezembro 15

A Queda




Naquele dia tinha tempo. Estava à espera que chegasse a hora da consulta ao cardiologista. A minha vida era um inferno, desde que fiquei gravemente doente e só. Tudo depois da minha mulher me ter abandonado. De qualquer forma ela era uma cretina. É sempre melhor ficar velho, desgarrado, sem filhos, amigos ou companheira do que aturar aquela mulher. Sabia que minha vida se exauria, com o coração fraco, sentia-me miserável, com raiva e não gostava de ninguém. Pensava nisso, quando esbarrei contra a porta de uma livraria. Já por várias vezes a tinha avistado de longe e passara junto dela uma ou duas vezes, sem nunca ter tido vontade de lá entrar. Por acaso, o consultório do médico ficava ali ao lado. Olhei para cima, sem muito interesse, para tentar ler na placa o nome da livraria; impossível, as letras estavam gastas pelos anos e intempéries. Depois, reparei que na montra estava um gato persa, cinzento e branco que dormia, serenamente, em cima dos livros, como muitas vezes se vê nas lojas típicas, da cidade de Paris. Toquei primeiro ao de leve no vidro, depois com firmeza, na esperança que o bicho desse um pulo de susto, nada… Foi mais pelo gato que pelos livros que entrei. Não havia nenhum objectivo concreto, era só para matar o tempo. Assim que abri a porta uma sineta tiniu uma nota plangente, prevenindo com o som a minha chegada. Não vi ninguém, nem livreiro nem clientes e um silêncio de presbitério enchia o espaço. Imediatamente me apercebi que aquela não era uma livraria comum, como tantas outras, indefinidamente iguais e onde se vendem sempre os mesmos livros. A sala surpreendeu-me pelo tamanho, tendo em conta a sensação de exiguidade que dava o edifício visto de fora. O cheiro característico dos livros. As estantes colossais de madeira verdadeira, provavelmente de carvalho, erguiam-se pelas paredes ao longo de um pé-direito de pelo menos cinco metros. Havia livros até ao cimo, destacava-se no tecto uma clarabóia redonda de vitrais pitorescos que iluminavam a loja com colorações maravilhosas, dando-lhe um ambiente extraordinário, de biblioteca, sublime, honorífica, como numa fantasia de Hollywood. Os livros todos encadernados em pele, como os livros antigos, sem nenhum tipo de gravura nas capas. Ao fundo da livraria ou da biblioteca, agora já não tinha a certeza, havia uma escadaria que bifurcava em duas plataformas de metal junto às estantes, circundando a sala em forma de elipse, dividindo-a em dois andares. As mesas maciças cheias de livros que não destoavam dos outros. Peguei num livro ao acaso, cujo título e autor não me diziam nada, Zadig ou o Destino, de Voltaire. Abri-o e fiquei admirado quando verifiquei que todas as suas páginas estavam em branco. Abri outro que estava mesmo ao lado, por mera curiosidade, O Ingénuo, novamente de Voltaire, e… em branco. O Crime e Castigo, e O Idiota, de Dostoiévski e outro, e outro, e outro… excepto as capas que exibiam os títulos e autores estampados a dourado, os livros estavam todos em branco.
Enquanto, atónito, cogitava sobre a inutilidade dos livros, surge por detrás de uma porta, quase invisível, forrada com papel a imitar livros, um homem que supus ser o dono ou o bibliotecário.
Sobressaltei-me com o aparecimento repentino daquele indivíduo invulgar. Mais ou menos da minha idade, de cabelo imensamente preto, parecia pintado, muito ralo e penteado de forma a tapar a calvície. As orelhas peludas, uma maior que a outra. Um nariz, proeminente, ampliado pela alta estatura e magreza do corpo, enfarpelado com uma casaca negra comprida. Os olhos ensanguentados dirigiram-se a mim.
- Em que posso ser-lhe útil? – Perguntou, colocando as duas mãos escanzeladas sobre o balcão.       
Sem saber bem o que dizer, pois não tinha entrado ali por estar interessado em livros, longe disso, decidi a contragosto, impelido pelo ambiente que me rodeava, fazer uma pergunta:
- Estamos numa biblioteca ou numa livraria?
Responde-me, enigmaticamente, com outra pergunta:
- Faz alguma diferença para si?
- Não. Quer dizer… Faz! Se for uma livraria vende livros, certo?
Olhou para mim, como se tivesse percebido perfeitamente que eu não era um leitor habitual e disse:
- Em todo o caso não fará nenhuma diferença para si. Todos os meus livros estão completamente em branco.
Sem demonstrar muita surpresa, pois eu próprio já o tinha confirmado, pergunto:
- Então, para que servem todos estes livros?
- Os meus clientes conhecem, perfeitamente, o conteúdo dos livros que compram, não necessitam de os ler, já o fizeram antes. No entanto, aqueles que honram e merecem os meus livros podem sempre reescrevê-los. A leitura que se faz de um livro é sempre diferente, depende da pessoa e da idade com que se lê.
- Ah! – Exclamei, como se o tivesse apanhado em falta. E com algum sarcasmo disse:
 – Isto não é nem livraria nem biblioteca, mas uma papelaria requintada. – Ri, de boca fechada, para não se notar muito que estava a saborear o momento.
Sem mudar de expressão e condescendente, o homem responde:
- Os meus clientes não vêm cá, exactamente, para comprar livros. Vêm para comprar outra vida. Esta é uma casa encantada e os livros são mágicos por definição. Os leitores, aqueles que amam verdadeiramente os livros, têm através deles uma segunda oportunidade, uma segunda vida. Ao elegerem um livro dá-se uma metamorfose física e moral, fantástica, portentosa, perfeita, acontece assim que saem por aquela porta, não me pergunte porquê. Porém, é a mais pura das verdades. Encarnam a personagem principal do livro, tão intensamente, que o que é ficção passa a ser realidade. Quão bela pode ser a fantasia quando tomada por verídica. Não acha?
Deu-me vontade de rir. É ridícula a maneira como os livreiros são capazes de enfatizar, efabular a leitura. Resolvi ripostar:
- Ah, ah, ah, é claro! Sem qualquer dúvida. – Digo ironizando – Mas sabe o que penso disso!?... Os livros já passaram de prazo e foram escritos, na sua grande maioria, por pessoas que já morreram ou por quem nada tem a acrescentar. Ler é viver a vida dos outros e não ter vida própria. Ler requer tempo e o tempo nos dias de hoje é um luxo. A verdadeira sabedoria está na experiência da vida per se e não nas sumidades da enciclopédia. A escrita é um simulacro da fala que parece muito útil para a memória, o saber, a imaginação, mas que acaba por ser contraproducente. As pessoas confiam nela e não desenvolvem a suas próprias capacidades. Se quer saber, acho que as pessoas lêem demais. Antes de lerem um livro, deveriam reflectir sobre se esse livro irá de facto melhorar a sua vida; é que a grande maioria deles não melhora.
O livreiro manteve-se impávido. Obsequioso, diz:
- Há alguma verdade no que disse, de facto existem alguns livros que não melhoram a vida das pessoas, até pelo contrário. Contudo, a opção é sempre pessoal, a felicidade é dever exclusivo de cada indivíduo, depende só de nós e nunca dos outros. Mas… cuidado! A ignorância praticada de livre e espontânea vontade é o maior dos erros. O perigo não está em ler muitos livros, mas sim em ler apenas um.

Encolhi os ombros em sinal de desprezo. Estava na hora da consulta, tinha que me retirar, mesmo assim, decidi comprar um livro que estava em cima do balcão, com um título que li de relance e que me pareceu adequado à situação bizarra: qualquer coisa que tinha a ver com uma comédia. O livreiro sorriu, maliciosamente, enquanto me dava o troco. Virei-lhe as costas sem me despedir e a sineta tiniu novamente com a porta a fechar-se atrás de mim.
Ainda não tinha dado um passo na rua quando senti uma pontada no peito e uma enorme atroada se deu sob os meus pés. Sinto a superfície a tremer, abriu-se uma fenda no chão e, de repente, tudo à minha volta desaparece, os prédios, os carros, as pessoas, como se tivessem subido aos céus. Enquanto caía a grande velocidade, num movimento circular, por uma espécie de fossa em forma de cone invertido, comecei a ouvir gritos de dor e sofrimento misturados com sons de furacão. Vejo seres mitológicos, um com três cabeças, meio cão, meio dragão e com cauda de serpente. Cascatas e rios de água com sangue borbulhante, fervente. No centro de uma muralha de ferro e de um fogo intenso, vejo mil anjos caídos. Começo a acreditar que o livreiro me tinha dito a verdade. Lembrei-me do livro que tinha comprado. Tentei ler novamente o título e o autor, para tentar perceber o que me estava a acontecer: Dante Alighieri, A Divina Comédia; fiquei na mesma…
Continuei a cair, a cair, durante uma eternidade, pela cova sombria, envolto numa tempestade de gelo e neve que ia arrefecendo, cada vez mais, à medida que se aproximava do centro da Terra. Bati no fundo, atordoado, no meio de um lago gelado. Olhei em volta horrorizado e li, em letras miúdas, o subtítulo que me tinha escapado à primeira:
Parte I, O Inferno.  

Jaime Bulhosa

4 comentários:

Pinóquio disse...

Belo texto filosófico, que nos faz pensar sobre a função dos livros, do papel e das letras e a relação que estes podem ter com a vida de cada um, enquanto autor-escritor. Coloca muitas questões e vai ao encontro do que também penso: ler ou escrever um livro pode mudar a vida de uma pessoa, tem um peso indelével na história da humanidade e é insubstituível por qualquer outro suporte tecnológico. Um livro será sempre um livro, único nas nossas vidas.

disse...

Adorei Jaime!

Carlos Barbosa disse...

Jaime, eu não disse?

Malu disse...

Amo te ler.
Acompanho teu blog através do Reader já há algum tempo.
Você escreve admiravelmente bem.
Tens uma imaginação excepcionalmente fecunda.