sexta-feira, janeiro 28

Sermões Impossíveis

(clique na imagem)

Quando a realidade ultrapassa a ficção


Em 1714, um marinheiro japonês Chunosuke Matsuyama, decidiu embarcar numa aventura de caça ao tesouro, em pleno oceano Pacífico. Inesperadamente, a frágil embarcação foi apanhada por uma tempestade e naufragou. Mesmo assim, Matsuyama conseguiu nadar, várias milhas, até a uma pequena ilha de coral. Matasuya terá morrido, eventualmente de fome. Mas antes de morrer, Matsuyama decidiu enviar uma mensagem de socorro. Escreveu o acontecido numas lascas de madeira, colocou-as dentro de uma garrafa, lançando-a ao mar. A garrafa flutuou vagarosamente pelo oceano, chegando a terra, onde "finalmente" foi encontrada, 150 anos depois, na mesma praia onde tinha nascido.

quinta-feira, janeiro 27

Chove a cântaros

Chove a cântaros lá fora:

- Por favor, será que tem o livro O estudo dos salpicos?

O livreiro atrapalhado, pergunta:

- Um livro sobre o estudo dos salpicos!?... Poderia ser um pouco mais específico?

- Sim. Eu queria um livro que responda à questão sobre o que realmente acontece quando uma gota de água cai no chão e salpica.

Livreiro ri para dentro. Profissionalmente finge e não desiste:

- Deixe-me, por favor, o seu nome e telefone que nós iremos fazer uma busca.

Depois virando-se para o colega do lado, diz:

- Aparece aqui com cada um.

Uma semana depois, o livreiro, e após de ter engolido um grande sapo:

- Aqui tem o seu livro A Study Of Splashes, A.M. Worthington



Nota: Este livro, editado pela primeira vez em 1908, é composto por 197 fotografias que ajudam a responder à questão: O que realmente acontece quando uma gota cai? Este livro, de Worthinggton é considerado tão valioso para os estudantes de Física que tem sido, por diversas vezes reeditado.

Jaime Bulhosa

A morte de um funcionário


Numa maravilhosa noite, o não menos maravilhoso amanuense Ivan Dmitritch Tcherviakov assistia, na segunda fila da plateia, à opereta «Os sinos de Corneville». Olhava para o palco através de um binóculo e sentia-se o mais feliz dos homens. Mas, de repente… Este «mas, de repente…» aparece nas histórias com muita frequência. E não sem razão: a vida está cheia de surpresas!... Mas, de repente, contraiu o rosto mostrando o branco dos olhos e sustendo a respiração, afastou a mão com que segurava o binóculo, dobrou o corpo e… Atchim!!! É verdade, deu um espirro. Uma pessoa tem o direito de espirrar onde quer que esteja. Espirram os camponeses, os comissários da polícia e, por vezes, até os próprios conselheiros privados. Toda a gente espirra. Tcherviakov não se embaraçou absolutamente nada com o caso. Limpou o rosto a um lenço e, como era um homem de boas maneiras, passeou os olhos em torno de si para ver se não teria incomodado alguém com o seu espirro. E então é que viu algo que o fez sentir-se embaraçado: um velho sentado na primeira fila, mesmo à frente dele, enxugava cuidadosamente a calva e o pescoço com uma luva, murmurando qualquer coisa entre os dentes, Tcherviakov, reconheceu no velho o general Brizjalov, alto funcionário do Ministério dos transportes Ferroviários.

«Salpiquei-o! É certo que não sou subordinado dele, mas de qualquer forma foi uma indelicadeza. Tenho que pedir-lhe desculpa.»

Tcherviakov tossiu, inclinou-se mais para a frente e cochichou ao ouvido do general:

- Perdoe-me o descuido. Vosselência. Salpiquei-o… mas não foi de propósito…

- Não é nada, não é nada…

- Queira desculpar, foi sem querer, acredite…

- Pronto não se fala mais nisso. Deixe-me ouvir!

Confuso, Tcherviakov sorriu estupidamente e tornou a fixar o olhar no palco. Porém, já não gozava a felicidade de pouco antes. Começou a atormentá-lo um certo desassossego. No intervalo, acercou-se de Brizjalov, andou algum tempo à sua volta e, vencendo por fim a timidez, balbuciou:

- Há pouco salpiquei Vossa Excelência… Peço-lhe desculpa… é que não foi por…

- Ora, deixe-se disso! Já nem me lembrava da coisa e o senhor vem agora bater na mesma tecla! – replicou o general, fazendo um trejeito de impaciência com o lábio inferior.

«Ai que não se lembrava! Então porque aquela malícia nos olhos? – interrogava-se Tcherviakov, espiando o general com desconfiança. – e nem quer falar, corta-me logo a palavra… Tenho que explicar-lhe que foi sem querer… por força de uma lei natural. Senão fica a pensar que lhe cuspi. Se esta ideia ainda não lhe ocorreu acabará por ocorrer-lhe mais tarde…»

Ao chegar a casa, Tcherviakov falou à mulher da grosseria que tinha praticado. Ela não se preocupou muito com o caso. A princípio, mostrou-se assustada, mas logo sossegou quando soube que Brizjalov era doutro ministério.

- Mas o melhor é ires pedir-lhe desculpa – opinou. – Para que não julgue que não sabes portar-te em público.

- Isso mesmo! Já tentei desculpar-me, mas ele… não sei… Não se expressou claramente. De resto, não havia tempo para conversas.

No dia seguinte, Tcherviakov vestiu uma nova casaca, cortou o cabelo e foi explicar-se… quando entrou no gabinete do general, viu ali reunidas muitas pessoas, entre as quais estava o próprio Brizjalov. Este atendia já os requerentes. Depois de despachar alguns, levantou os olhos para Tcherviakov.

- Ontem, no «Arcádia», não sei se Vosselência se lembra – começou o amanuense –. Dei um espirro e… salpiquei-o, por acaso… Des…

- Que tolice! O senhor tem cada uma! – O general voltou-se para outro requerente. – em que lhe posso ser útil?

Tcherviakov empalideceu. «Nem me dá ouvidos! Decerto que está agastado… - dizia para com os seus botões. – Não, as coisas não podem ficar neste pé. Tenho que fazer-lhe ver…»

Quando o general acabou de falar com o último requerente e se dirigiu para os aposentos interiores, Tcherviakov foi-lhe no encalço.

- Excelência! Se me atrevo a incomodar Vossa Excelência é unicamente por estar arrependido da minha falta. Saiba que não foi intencional.

De cara chorosa, o general fez com a mão um gesto de enfado. – O senhor está a fazer torça de mim! – lançou, desaparecendo atrás de uma porta.

«Qual troça, qual carapuça! Acaso pode haver troça da minha parte!? Muito me admira que, sendo um general, não compreenda isso. Bom nesse caso não pedirei mais desculpas a este fanfarrão. Que vá para o diabo! Mando-lhe uma carta e pronto. Não volto mais a falar-lhe, palavra que não volto!»

Era nesses termos que Tcherviakov raciocinava a caminho de casa. Todavia, não chegou a escrever a prometida carta. Matutou muito tempo no assunto, mas não conseguiu redigi-la. No dia seguinte, resolveu ir explicar-se outra vez.

Ante o olhar interrogativo do general, tartamudeou:

- Já estive aqui ontem… mas creia que não foi para troçar, como Vossa Excelência se dignou dizer. Queria só pedir desculpa por tê-lo salpicado com um espirro… Não foi minha intenção troçar do Senhor. Acaso uma pessoa como eu ousaria fazer uma coisa dessas? Se a gente andasse a troçar, não haveria nenhum respeito… às autoridades…

- Rua! – berrou outra vez o general, começando de repente a tremer, com o rosto congestionado.

- Como? – perguntou Tcherviakov num sussurro, entorpecido de terror.

- Rua! – berrou outra vez o general, batendo com os pés no soalho.

Tcherviakov sentiu qualquer coisa dilacerar-se-lhe nas entranhas. Sem nada ver nem ouvir, recuou até a porta, saiu para a rua e lá foi arrastando os pés. Chegou maquinalmente a casa, deitou-se no sofá sem tirar o casaco e… morreu.

Anton Tchékhov (1883)

quarta-feira, janeiro 26

Para o sucesso comercial de um livro

Existiam três segredos para o sucesso comercial de um livro: publicidade, publicidade, publicidade. Evidentemente, agora não resulta porque toda a gente já sabe. Psst! não digam a ninguém, mas os segredos agora são: dinheiro, dinheiro, dinheiro.

livreiro anónimo

O dever de memória

Acaba de sair para o mercado livreiro uma nova colecção de livros, das edições cotovia, sobe a temática o Judaísmo. Os títulos são os seguintes:

- O Dever de Memória, Primo Levi

- Sobre a Questão Judaica, Karl Marx

- Entre Árabes e Judeus, Helena Salem

- Os Cristãos-novos em Portugal no Séc. XX, Samuel Schwarz

- Judaísmo Dispersão e Unidade, Moacyr Scliar

- Judaísmo Para Todos, Bernardo Sorj

Damos destaque a este:


O dever de memória é a transcrição de uma longa conversa entre Primo Levi e dois universitários italianos, Anna Bravo e Federico Cereja, que iniciaram em 1982 uma recolha de testemunhos de 220 sobreviventes dos campos de extermínio. Ao longo da discussão surgem dois temas recorrentes: factos relacionados com o quotidiano no campo de extermínio, e, o segundo tema, sem dúvida mais surpreendente – a transmissão da memória e o papel do testemunho.

edição: Cotovia

título: o dever de memória

autor: Primo Levi

formato: 13,5x21cm (capa dura)

n.º pág.: 107

isbn: 9789727953080

pvp: 16.00 €

terça-feira, janeiro 25

ELAC


Se os meus gostos literários têm sobretudo influência do meu pai, o mesmo não acontece em relação aos meus gostos musicais. Se em minha casa as estantes estavam cheias de livros que transbordavam para o chão, fazendo-me tropeçar constantemente, não poderei dizer o mesmo em relação aos discos. É verdade que tínhamos a sorte de possuir um gira-discos de marca ELAC, que ainda hoje funciona e é uma autêntica relíquia. Mas a discoteca era pobre. Para além de uma pequena colecção de ópera, da soprano norte-americana (de ascendência grega) Maria Callas, existiam em minha casa mais uns cinco ou seis discos. Um deles era de Nat King Cole a cantar em castelhano. Um outro era o LP Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, em parceria com Sérgio Godinho nalgumas letras, que seria um dos discos que eu mais ouviria em toda a minha vida. Lembro-me muito bem deste título, em particular, porque está ligado a um acontecimento marcante da minha vida: um dia, decorria o ano de 1971, o meu pai, vindo do trabalho e trazendo com ele, debaixo do braço, um embrulho envolto no mais severo secretismo, mandou sentar em círculo, no tapete da sala, os seus cinco filhos. Depois, no tom de voz mais sério que conseguiu arranjar, disse o seguinte: «Não digam a ninguém que temos este disco em casa e, se alguma vez o colocarem no gira-discos a tocar, então que seja com o som muito baixinho.» Foi nesse ano, com apenas sete anos de idade, que tomei consciência, pela primeira vez, da existência da ditadura, da PIDE-DGS, de Salazar, de Marcelo Caetano, da censura, das prisões políticas e das conversas em sussurro.

Só anos mais tarde, já em democracia e através do meu irmão mais velho, é que pude alargar os meus conhecimentos musicais. Nessa altura, o meu irmão já trabalhava e garantia o seu próprio sustendo. Aproveitando sempre a sua genuína generosidade, em plena adolescência e frenética descoberta da música, girava em torno dele, massacrando-o continuamente, com notícias da saída de novos discos, de forma a conseguir, por exaustão, mas desconfio que também por gosto, que ele me passasse para mãos uma ou duas notas de contos de réis. Depois, corria para o supermercado Pão de Açúcar, com os olhos a brilhar de tanta excitação por poder comprar um novo disco dos Genesis, dos Yes, dos Pink Floyd, dos Deep Purple, dos Led Zeppelin, entre muitos outros com que ele me presenteou. Obrigado, Pedro.


Jaime Bulhosa

Memórias do Cárcere



Trata-se de uma das grandes obras-primas de Camilo Castelo Branco, uma obra a um tempo original e comovente.
Camilo, preso na Cadeia da Relação do Porto por suspeita de adultério com a sua amada Ana Plácida, também aí detida, fala de si e de alguns dos seus companheiros de infortúnio, numa narrativa dramática e jocosa.
O livro para além do seu valor literário é um documento de incalculável valor histórico sobre o ambiente daquela prisão. E é ilustrado com extraordinárias fotos de prisioneiros desse período.

Prefácio e organização da colecção Maria Alzira Seixo
Estabelecimento do texto Sérgio Guimarães de Sousa

edição: Parceria A. M. Pereira

título: Memórias do Cárcere

autor: Camilo Castelo Branco

formato: 16,8x24cm (capa mole)

n.º pág.: 383

isbn: 9789728645700

pvp: 19.70€

segunda-feira, janeiro 24

Uma promessa de livro

Uma promessa de livro é quando no começo se atira um ferro em brasa para dentro de um barril de pólvora e, no fim, este não explode

livreiro anónimo

Nota: Inspirado em Jonathan Swift

Não basta escrever bem


- Aconselhe-me um livro, de um ou dois autores, para ler?

- Que tal este?

O cliente dobra o sobrolho, puxa o canto da boca para o lado esquerdo, num gesto de alguma indecisão e diz:

- Não, esse não. Escreve bem, mas não sei, não sei, falta-lhe qualquer coisa...

- E este último, de um novo autor que a crítica diz tão bem?

O cliente repete os trejeitos anteriores, só que desta vez vira o canto da boca para o lado direito:

- Não, também já li. De facto escreve muito bem, mas… falta qualquer coisa. Qualquer coisa que não me recorda, neste exacto momento, do que se trata.

O livreiro, como é sua obrigação, volta a sugerir:

- A este não me vai dizer que não. É já um clássico.

O cliente franze a testa, repete todos os movimentos anteriores que não vale a pena aqui voltar a descrever, nem se vira a boca para o lado esquerdo ou para o lado direito e, volta a insistir na mesma ladainha:

- Concordo consigo, escreve muitíssimo bem, mas falta-lhe…

- Sim!?...

Murmura o livreiro, já a entrar em desespero com a esperada reacção do cliente.

- Já sei!

Exclama o cliente exaltado.

– Já sei o que lhes falta.

- Diga, diga!

- Falta-lhes estilo.

-Oh!

Acrescenta o livreiro decepcionado com a tão esperada revelação.

- O quê! Não concorda comigo?

- Sabe, não me leve a mal, mas sempre pensei que estilo fosse usar as palavras certas no lugar certo.


Jaime Bulhosa

Um Homem singular


Celebrado como a obra-prima de Christopher Isherwood, Um Homem Singular conta a história de George Falconer, um professor de inglês de meia-idade destroçado pela morte súbita do amante de longa data. Numa Califórnia suburbana dos anos 1960, George Falconer tenta reaprender a viver, cumprindo os gestos diários e os ritos sociais. E observa-se com o distanciamento de um estranho e com a premência de encontrar em si alguma coisa reconhecível do seu passado. Com uma clarividência e humor extraordinários, Christopher Isherwood mostra a determinação de George em continuar a viver (e não morrer de saudade de Jim), evocando os prazeres inesperados que a vida apesar de tudo reserva, e a capacidade que temos de superar a perda e a alienação. Um Homem Singular foi recente adaptado ao cinema, no filme homónimo de Tom Ford.

edição: Quetzal

título: Um Homem Singular

autor: Christopher Isherwood

tradução: Filomena Duarte

formato: 15x23cm (capa mole)

n.º pág.: 158

isbn: 9789725649244

pvp: 14.50€

sábado, janeiro 22

Novos




A estrearem na montra de Janeiro dois belíssimos livros infantis: O que é preciso?, de Gianni Rodari e Silvia Bonanni da Kalandraka e Meu amor, de Beatrice Alemagna, da Bags of Books edições.
Estão arrumados lado a lado porque, às vezes, imagino que os livros aproveitam o silêncio da noite para conversarem uns com os outros e de certeza que preferem estar em boa companhia.

Mais logo, quando as luzes se apagarem, talvez se escute:

- Para fazer uma mesa

é preciso madeira,

- Eu sou um animal estranho.

- Para fazer a semente,

É preciso fruto,

-Não sou um crocodilo, nem um castor...

E um hipopótamo, nem pensar.

Não sou uma toupeira. Nem sou um javali.

Mas quem sou eu? (...)*









Vale a pena espreitar o trabalho de Beatrice Alemagna aqui. Não escondo que é uma das minhas ilustradoras preferidas e já estou a esfregar as mãos para o próximo livro dela que está para chegar : Depois do natal, Beatrice Alemagna, Bags of Books edições.


Débora Figueiredo


"O que é preciso?", Gianni Rodari ilustrado por Silvia Bonanni, Kalandraka 2011 15.00 euros

"Meu amor" de Beatrice Alemagna, Bags of Books edições, 2010, 15.00 euros


*Excertos retirados de ambos os livros acima referidos.

quinta-feira, janeiro 20

Memória


Um dia, um desconhecido passou diante da livraria e perguntou ao nosso livreiro de serviço Carlos Loureiro:

- Qual é o melhor livro do mundo para se ler?

- Memórias do Cácere. – Respondeu o Carlos, sem sequer levantar a cabeça.

E três anos se passaram.

O mesmo homem volta a passar à porta da livraria e pergunta:

- E é de quem?

- Camilo Castelo Branco. – Respondeu o Carlos de passagem.

Nota: Esta história, na realidade, conta-se em Itália acerca da memória de Dante Alighieri, mas para quem conhece o Carlos Loureiro…

Novas tecnologias aqui na Pó dos Livros? Nem pensar...

Ofereceram-me no natal um ipad, eu nem lhe toco.

livreiro anónimo


O Génio Vazio


Tasso na Escócia

Dumas afirma que o romance é tão antigo como a Humanidade. É possível. Constitui a metáfora da vida. Se olharmos para o reverso de uma moeda falsa, podemos ouvir a canção ociosa de um dia que não teve a pretensão de gerar no mundo maior agitação que qualquer outro e se revelarmos a poesia que nele jaz adormecida, temos o romance.

Numa pilha de livros antigos e poeirentos (tenho uma predilecção por antiguidades) encontrei um volume mais recente: Novelas com Seis Gravuras. Abri-o e deparei-me com a história de um rei da Escócia prestes a tornar-se preso da morte às mãos de um crânio humano embalsamado. Agora, tentem adivinhar quem é que o litógrafo escolheu para figurar como rei da Escócia nas suas gravuras? Tasso! A explicação é simples: economia. Procurei o retrato de Tasso com o expresso propósito de os comparar. Era ele, traço a traço. Que bizarras coincidências podem existir neste mundo, disse eu para comigo, sorrindo no meu sonho. Poderia uma história como aquela que eu estava a ler ter acontecido a Tasso?

Mas tinha-me esquecido de que tudo o que é impossível na realidade é possível na nossa mente, e que, ao fim e ao cabo, tudo o que vemos, ouvimos e pensamos não passa apenas de criações demasiado arbitrárias da nossa própria subjectividade e não de coisas reais. A vida não é mais do que um sonho.

Era uma noite triste. A chuva caía miúda nas ruas não pavimentadas de Bucareste, que serpenteavam, estreitas e lamacentas, por entre as casas pequenas e mal acabadas que constituem a maior parte da capital da Roménia. Quem se atrevesse a dar um passo em frente, dava por si em charcos de lama que o borrifavam com água pegajosa. Das tabernas e lojas, através das montras grandes e encardidas, filtrava-se uma luz baça, ainda mais enfraquecida pelas gotas de chuva que inundavam os vidros. De vez em quando, surgia uma janela com cortinas vermelhas, onde uma mulher exibia os seus encantos numa semi-escuridão… Aqui e ali, descortinava-se um romântico a passear, assobiando baixinho. Um bêbedo gritava enrouquecido sob as janelas da perdição e atrás do vidro a mulher pintada acendia um fósforo para mostrar a sua cara besuntada e o peito nu e mirrado – talvez o meio derradeiro de sufocar desejos sujos em almas embotadas e devastadas pela corrupção e pela embriaguez. O bêbedo entrava, a semi-escuridão tornava-se negrume e o crepúsculo contemplativo tornava-se uma meia-noite plúmbea ao pensar que tais criaturas poder-se-iam imaginar homem ou mulher. São assim três quartos do mundo, e o restante – só Deus sabe quão escassas são as criaturas dignas de serem consideradas humanas.

Pela porta aberta de uma taberna ouvi o chiar de cordas desafinadas, torturadas por um pobre garoto cigano, os seus dedos secos cerrados sobre um arco miserável; à sua volta pulavam energicamente uma mulher e um cigano alto e esfarrapado, os seus pés nus arrumados em botas largas e cheias de palha. Uma alegria grotesca e disforme desenhava-se nos rostos de ambos.

Ao lado havia um café. A chuva e o frio que tinham penetrado no meu corpo obrigaram-me a entrar. O cheiro de tabaco e o barulho constante dos jogadores de dominó produziram um efeito estranho sobre os meus sentidos, já de si confundidos pela chuva e pelo frio. O relógio, fiel intérprete do tempo antigo, soou doze vezes no seu idioma metálico para relembrar às pessoas, que não o escutavam, que a décima segunda hora da noite acabara de se escoar. Aqui e acolá, viam-se em redor das mesas grupos de jogadores com cabelos desgrenhados, segurando as cartas com uma mão trémula, estalando os dedos da outra antes de apostar, taciturnos, com olhos fixos, mordendo os lábios sem dizer uma palavra, e, de vez em quando, sorvendo ruidosamente o café ou a cerveja que tinham à sua frente… belo sinal de triunfo!

Um jovem debruçado sobre uma mesa de bilhar não parava de escrever a giz no tecido verde o nome «Ilma». Pensei que fosse um descendente de Arpad[1] e que tivesse ido buscar aos recessos da sua memória o nome de alguma doce namorada ou de algum ideal húngaro dos romances de Mauriciu Jokay. Não me preocupei mais com a figura daquele jovem, talvez desiludido com o amor, mas comecei a folhear alguns jornais estrangeiros, revistas literárias e artísticas, etc. (Os nossos não têm nada a dizer nesses domínios nem tão pouco revelam qualquer vontade de o fazer.)

O jovem aproximou-se de mim.

–?Depois de si, se faz favor – murmurou ele, fazendo uma vénia. Um sotaque romeno puro – não era húngaro.

–?Aqui tem – disse-lhe eu, oferecendo-lhe um jornal, surpreendido pelo interesse que ele despertou em mim assim que ergui os olhos.


[1]
Arpad (c. 850-907 d.C.), filho de Almos, é considerado o primeiro governante da Hungria, provável chefe das tribos magiares e o fundador da Casa de Arpad.
(N. da T.)

edição: alfabeto

autor: Mihai Eminescu

tradução: do romeno, Monica Cozacenco

n.º pág.:167

isbn: 9789898475015

pvp: 14.00€

quarta-feira, janeiro 19

De leitura obrigatória e facultativa


- Pai, existem dois tipos de livros chatos que temos que ler na escola: aqueles que não conseguimos chegar ao fim do primeiro parágrafo e aqueles que somos obrigados a ler até ao último.

- Concordo que há livros chatos, mas dá-me o exemplo daquele que não passaste do primeiro e do outro que foste, felizmente, obrigado a ler até ao último?

Muito atrapalhado, responde:

- Sabes pai, neste caso, diria que foi um livro daqueles a que podemos chamar dois-em-um.

A corda


Se for um filme de Hitchcock, alguém irá morrer, mas em A corda (1948) a morte abate-se logo na primeira cena. Foi através de um livro, A Filosofia Segundo Hitchcock, Davis Baggett e William A. Drumin, Estrela Polar, que eu descobri este filme. Este filme é a demonstração do cruzamento que tantas vezes acontece entre a literatura e o cinema. A acção do filme centra-se em dois estudantes universitários (supostamente homossexuais e digo, supostamente, porque o filme é de 1948) que estrangulam o seu antigo colega de universidade. A Corda está longe de ser um típico filme de Hitchcock. O filme está construído em apenas oito muito longos takes, uma técnica que se espera que imite as interacções da “vida real”. À excepção das legendas de abertura, o filme é inteiramente rodado em interior, dentro do confinamento de um apartamento da cidade de Nova Iorque. Mesmo o próprio homicídio parece terrivelmente higiénico. Não há sangue derramado como acontece com outros filmes de Hitchcock. Depois vemos os assassinos – o exuberante, rico e mimado Brandon (John Dall) e o seu frágil amigo pianista Philip (Farley Granger) – a prepararem-se para uma festa planeada para essa mesma noite. Na arca – onde escondem o corpo da vítima David –, colocada no centro da sala, são dispostos as bebidas e acesas as velas. A arca faz lembrar um altar preparado para uma missa negra e a festa uma cerimónia sacrificial. A arma do crime – a corda –, com que estrangulam David, é deixada à vista de todos, pendurada ao canto da arca. A somar à lugubridade da cena, cedo reconhecemos os convidados para a festa como sendo o pai e a tia de David, a sua noiva e o velho professor de Brandon e de Philip, Rubert (James Stewart) . Todos, à excepção destes dois, esperam que David apareça e brincam com o seu hábito de chegar tarde.

Segundo os padrões de Hollywood, A corda é um filme invulgarmente filosófico. Não só Rubert é editor de livros filosóficos “livros de letra pequena, palavras grandes, pequenas vendas”, que assume que “as pessoas não conseguem apenas ler, mas conseguem também pensar”, como um bem conhecido filosófo é mesmo mencionado directamente: o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Na festa Rubert começa, à sua maneira brincalhona, a dissertar sobre a estética do crime e as prerrogativas dos poucos homens superiores, quando Brandon se junta à conversa, acrescentando a sua vigorosa defesa dessas ideias. Brandon prossegue: “ poucos são aqueles homens de tal superioridade intelectual e cultural que se encontram acima dos conceitos morais tradicionais, O bom e o mau, o certo e o errado, foram inventados para o homem vulgar e ordinário, o homem inferior, porque que precisa deles.” O mesmo argumento filosófico, podemos encontrar no livro de, Dostoiévski, Crime e Castigo.


terça-feira, janeiro 18

Quantas maneiras há de servir ovos


Ovos cozidos

Ovos mexidos

Gemada

Omeleta

Ovos verdes

Ovos estrelados

Ovos escalfados

Ovos-moles

Fios de ovos

Soufflé

«”Falar é fácil”, disse Mrs. Mantalini, “Já não é tão fácil falar quando se está a comer o raio de um ovo”», respondeu Mr. Mantalini; “porque a gama escorre pelo colete abaixo, e a gema de ovo não condiz com colete nenhum a não ser com um colete amarelo, raios”»

Charles Dickens, Nicholas Nicklleby (1839)

Nota: Continuamos à espera que alguém o reedite.

quinta-feira, janeiro 13

Escrever um livro


Se um dia chegar a ser muito velhinho, vou escrever um livro. É uma promessa que tenho feito a mim próprio. Não, não desesperem... pode ser que até lá perca a memória* ou tenha ganho juízo.**

livreiro anónimo

* Memória: Frequentemente, o envelhecimento está associado a dificuldade de memória e à lentidão de raciocínio. Nesse sentido, acredita-se que os idosos fiquem com dificuldade em lembrar e compreender as situações novas que lhes são apresentadas, mas em contrapartida, superam os jovens em raciocínios que exigem maior “sabedoria”. Evidentemente a sabedoria não surge, necessariamente, com a idade. Contudo, e com um pouco de sorte, a idade acontece por si só. E é com ela, e à custa dela, que infelizmente na maior parte das vezes, a sabedoria finalmente se manifesta.
** Juízo: é o processo que conduz ao estabelecimento das relações significativas entre conceitos, que conduzem ao pensamento lógico objectivando alcançar uma integração, que possibilite uma atitude racional frente as necessidades do momento.
Jaime Bulhosa


Manuscritos originais

Uma vez ouvi um editor dizer, em tom de desabafo, enquanto lia mais um original:

- Toda gente tem um livro dentro de si e, na maior parte dos casos, é lá que ele deve permanecer.


quarta-feira, janeiro 12

Um ladrão confessa-se


Um comentário anónimo a propósito do post: ladrão de poesia:

«Caro Jaime. Eu sou um ladrão de livros! Por questões monetárias, obviamente. Mas tenho um código. Nunca roubo em livrarias particulares, isto é, só actuo nas grandes superfícies, pois aí roubar ao Belmiro é como roubar a um "ladrão", e lá diz o provérbio, e seguidamente actuo também na FNAC. Que sejam os franceses a ficar com o prejuízo. Belmiro e franceses são os que se podem queixar, por outro lado, quantos e quantos livros já lidos e sem que me interesse ficar com eles são depois dados à biblioteca municipal aqui ao pé de casa, ou então dou-as ao sr. Herculano, alfarrabista conhecido. Roubo para ler e não para ganhar dinheiro. É feio? É sim senhor e um dia destes vou-me arrepender, mas até lá...Sou um Robin dos Bosques com uma costela de Oliveira e Costa...»

Imbeciclopédia XXI

O livro perfeito para bibliófilos com insónias: Utilizações extraordinárias para coisas do dia-a-dia, edição Selecções. Deixamos um exemplo:

«Cerveja: utilize como loção capilar e dê nova vida ao seu cabelo com um pouco de cerveja que tenha perdido o gás. Antes de entrar no banho [mensal], misture 3 colheres de sopa de cerveja com ½ chávena de água quente. Depois de lavar o cabelo com champô, esfregue-o com esta solução, deixe actuar durante 2 a 3 minutos e passe por água. O efeito vai ser tão surpreendente que o mais certo será passar a guardar uma embalagem de cervejas na casa de banho.»

Nota da responsabilidade da livraria Pó dos Livros após verificação pessoal: não garantimos o efeito desejado como loção capilar, mas a solução é perfeita para quem procura desesperadamente o celibato.

Jaime Bulhosa

Rimas e jogos infantis


Acordei hoje com uma rima infantil, muito antiga, na cabeça – isto deve ter uma interpretação freudiana qualquer. Lembro-me de que a dizia juntamente com outra criança, enquanto apertávamos reciprocamente as mãos, firmando bem os pés no chão. De seguida, fazíamos um movimento de baloiço, carregando entre os braços uma terceira criança. Esta era lançada para fora do “baloiço” com a máxima força, de forma a fazê-la voar ao som da última rima. Recordo-me que o objectivo do jogo era verificar quem saltava mais longe, riscando no chão com um pau a distância alcançada. Alternando de lugar, voltávamos a cantar – corrijam-me se a rima não estiver correcta:

Tão balalão,

Morreu o Simão,

Ficaram os filhos,

Comeram o pão.


Tão balalão,

Morreu o Simão,

Focinho de Burro,

Cara de cão.


Tão balalão.

Morreu o Simão.

Na terra dos mouros,

Senhor capitão.


Tão balalão,

Cabeça de cão,

Orelhas de gato,

Não tem coração.

...E partíamos os dentes de leite, alegremente, no chão.

Jaime Bulhosa

terça-feira, janeiro 11

Teste de filosofia

Pergunta: Isto é a pergunta. Responda.
Resposta: Isto é a resposta.

segunda-feira, janeiro 10

Ladrão de Poesia

Já tinha escrito neste blogue, o ano passado, sobre ladrões de livros, e sobre um em particular, a quem demos o nome de ladrão de poesia. Mas o melhor é lerem, ou relerem, a Parte I e a Parte II desta saga, para a seguir poderem entender a Parte III.

18/11/2008 Parte I: É um autêntico flagelo a taxa de furtos numa livraria. Para terem uma ideia, ronda entre os 2% a 3% da facturação anual. Com margem média de 30%, significa que por cada livro roubado o livreiro tem que vender três livros iguais só para cobrir o prejuízo. Devo dizer-vos que me irrita bastante, enquanto cliente, seguranças à porta, câmaras de filmar e antenas de alarme, mas não me parece que tenhamos outro remédio.
Poder-se-ia à partida pensar que o livro é um objecto pouco apreciado pelos ladrões, se definirmos como estereótipo de ladrão uma pessoa pouco culta. Desenganem-se, roubam-se muitos, bons e maus livros e alguns desafiam a imaginação na forma como o fazem. Assim sendo, temos pelo menos quatro tipos de ladrões de livros:

Os profissionais - roubam por encomenda, sempre novidades e em quantidade. Bestsellers, que depois vendem por meia dúzia de tostões aos quiosques que alimentam e de facto lucram com este mercado paralelo. Outro dia apanhei um deles, um homem já octogenário reincidente a roubar na Pó dos Livros. Nesse dia, menos lesto de que o costume, entrou de rompante na livraria e saca cinco livros da montra; por azar deixa cair um deles, o que me chamou a atenção. De imediato fugiu dali para fora. Quarenta anos mais novo do que ele, não foi difícil alcançá-lo. Zangado por ele me ter roubado diversas vezes, e como forma de o persuadir a não voltar, agarrei-o pelos colarinhos e num tom de voz mais elevado perguntei-lhe: - sabes o quanto me custa ganhar a vida? - Desconcertante, responde-me: - Então imagina o que me custa a mim!

Os amadores – são aqueles que roubam apenas um a dois livros por ano, sobretudo quando o dinheiro não abunda. No entanto, são estes que causam maiores prejuízos às livrarias, pois estão em maioria. Sejamos honestos, quem é que nunca roubou um livrinho para ler, nem que tenha sido por empréstimo permanente a um amigo.

Os cleptomaníacos - roubam sem critério e compulsivamente, são raros.

Os VIP - é in roubar livros. Protegidos por uma imagem credível de figuras públicas ou respeitáveis, roubam a achar que nunca irão ser descobertos, o que é um engano. Mais cedo ou mais tarde são apanhados como os outros. Na minha vida de livreiro, por diversas vezes as antenas de alarme gritaram bip, bip, bip, bip... a advogados, políticos, actores, médicos, etc., alguns bem conhecidos da nossa praça pública. Mas o mais extraordinário é verificarmos o tipo de livros que roubam. Garanto-vos, pode ser uma grande desilusão. Só não digo os seus nomes porque pode parecer mal.

Com o tempo aprendi a reconhecer as variadíssimas técnicas usadas pelos larápios para passarem despercebidos. Descrevo apenas algumas, para não dar muitas ideias: Os que usam disfarce. O mais famoso era conhecido entre os livreiros dos anos setenta como o padre do Chiado. Era um homem muito simpático, que durante anos se fez passar por padre e cliente habitual. Comprava um livro, normalmente de bolso, todos os dias, numa das livrarias do Chiado. Ao mesmo tempo levava três ou quatro livros num forro falso da sua batina. Anos mais tarde, ao ter sido descoberto, verificou-se que tinha em sua casa uma biblioteca com cerca de 30 mil volumes, todos eles roubados. Outra das técnicas consiste em fazer um apontamento no livro ou uma dedicatória a si próprios, para, no caso de serem apanhados, garantirem que o livro já lhes pertencia. Há ainda os que cortam as folhas, capítulos inteiros, um de cada vez, com uma tesoura ou x-acto, e depois escondem o resto do livro nas prateleiras por trás dos outros, para mais tarde voltarem. Acham que não é possível? Pois conto-vos que em pleno Natal, nos anos noventa, quando trabalhava no centro comercial das Amoreiras, corria a história que na loja da Singer tinha desaparecido, sem ninguém dar por ela, uma máquina de lavar roupa.

Por último, e o que motivou este relato, é o facto de ter surgido recentemente na Pó dos Livros um novo tipo de ladrão de livros: O Temático.

Ainda não sabemos quem é, ainda não o apanhámos, mas sabemos que ele existe. Só rouba poesia e da mais erudita. Quase poderíamos dizer que neste caso é apenas um acto de cultura. Excepto para o livreiro, claro está!

17/01/2010 Parte II: Será homem, será mulher? Será mais novo, será mais velho? Será rico, será pobre? Erudito é de certeza, o nosso ladrão de poesia. A nossa curiosidade acerca desta personagem aumenta cada vez mais. A verdade é que ainda não sabemos quem é, nem como é. Mas temos agora pistas mais concretas para o apanhar, sabemos que também se interessa por música erudita. Não é por nada, nem sequer é para recuperar os livros, já só queremos matar a nossa curiosidade.

No sábado passado estivemos encerrados para inventário e consequentemente temos a listagem completa de todos os livros roubados. Foram muitos. O que por um lado é bom, é sinal de que há muito mais gente a ler e a gostar de ler bons livros, muito mais do que demonstram os estudos sobre os índices de leitura em Portugal.
Roubaram-se livros para todos os gostos, mas há um que chamou especialmente a minha atenção: a Bíblia Sagrada. Se quem a roubou, a roubou para ler, vai descobrir rapidamente que cometeu um pecado: Êxodo 20:1-1, 8.º Mandamento – “Não roubarás.”

Voltemos ao nosso ladrão de poesia. Vou disponibilizar a lista de alguns dos livros que ele levou aqui da Pó dos livros, esquecendo-se de pagar. Podem tirar as vossas conclusões acerca da sua personalidade:

Nota: Se por acaso alguns destes livros não foram roubados pelo nosso ladrão de poesia e não correspondem aos seus padrões de exigência, desde já pedimos desculpas pela injusta acusação. E para o nosso ladrão de Bíblias, porque somos magnânimos, como penitência, apenas cinco Ave Maria e dez Pai Nosso. Pode vir penitenciar-se junto a nós aqui na igreja de Nossa Senhora de Fátima.

- A Vida de Horácio, José António Almeida, &ETC

- A Oriente, Yvette Centeno, Presença

- 56 Poemas, Ruy Cinatti, Relógio D’água

- Mais Espesso Que a Água, Luís Quintais, Cotovia

- JukeBox 2, Manuel de Freitas, Teatro de Vila Real

- Criatura n.º 2, A.A.V.V., Calíope

- Vida Extenuada, Fátima Maldona, &ETC

- Nuez, de Rui Baião e fotos de Paulo Nozolino, Frenesi

- Especulações Críticas sobre a História da Música, António Pinho Vargas, Culturgest

- Música Clássica, A.A.V.V., DK

- Ópera, Alan Riding, Civilização

10/01/2011 Parte III: Mais uma vez realizámos o inventário e confirmamos que se continua a roubar muitos livros, sobretudo de poesia. No entanto, este ano, tivemos uma surpresa agradável. Qual não foi o nosso espanto, ao termos dado conta do reaparecimento de um livro que nos tinha sido furtado o ano passado. Trata-se de uma obra cara, rara e esgotada, por isso, facilmente identificável. Um livro de poemas de Rui Baião, de título Nuez, com 36 fotografias de Paulo Nozolino. A tiragem foi de apenas 750 exemplares, da responsabilidade das edições frenesi, 2003.

Será que o nosso ladrão de estimação teve um repentino acesso de moralidade e arrependimento ou, simplesmente, não gostou da obra? Seja como for, agradecemos a devolução.


Jaime Bulhosa

História dos Reis de Portugal


"História dos Reis de Portugal" tem o propósito exclusivo de facultar um contacto com a História de Portugal através do conhecimento da vida e acção dos trinta e dois reis e duas rainhas que lideraram o destino luso no tempo longo da monarquia. Não se espere, pois, que os trabalhos publicados venham resolver problemas, porventura ainda em debate e com investigação em curso, já que não é esse o objectivo pretendido. Ao contrário, sustentados numa bibliografia séria e actualizada, mas que não pode esquecer a já considerada "clássica", os autores pretendem unicamente, através de uma redacção acessível a todos e sem a carga da erudição traduzida em notas de rodapé, colocar nas mãos das portuguesas e dos portugueses um pedaço da sua História, que se estende da acção do primeiro rei até à deposição do último. Com o selo de qualidade da Academia Portuguesa da História, este primeiro volume apresenta os primeiros dezassete monarcas, deambulando pelos tempos que vão desde a fundação da nacionalidade à perda da Independência.

edição: QuidNovi

título: História dos Reis de Portugal Vol.I

autor: Academia Portuguesa da História

coordenação: Manuela Mendonça

n.º pág.: 872 (capa dura)

isbn: 9789896282042

pvp: 39.99€

sexta-feira, janeiro 7

Aviso:


A livraria Pó dos Livros estará encerrada neste Sábado, dia 8 de Janeiro, para inventário

quinta-feira, janeiro 6

Uma História dos Milagres

Fenómeno paranormal? Vestígio dos velhos tempos? Nos dias de hoje, o milagre já não parece ser um elemento fundamental da fé cristã. O autor pinta um panorama histórico desses fenómenos que na maioria dos casos causam perplexidade ou desconcerto. Baseando-se em exemplos famosos, mas também em casos ignorados ou já esquecidos, e ampliando a pesquisa para lá das fronteiras do cristianismo, explica o sentido dos milagres e mostra que eles pertencem ao domínio do sobrenatural e não podem ser confundidos nem com manifestações de carácter paranormal nem com simples prodígios. O milagre, expressão da omnipotência divina, é um sinal que o crente e a Igreja são convidados a decifrar: é um sinal messiânico da vinda e da acção de Jesus no mundo e um sinal de esperança que nos recorda a ressurreição do Cristo e a sua vitória definitiva sobre a morte e o pecado. Nada é, pois, menos «exótico» que o milagre. Depois de parecer ter desertado do proscénio cristão no Ocidente, regressa agora em força - menos, de resto, na Europa do que nos outros continentes.

edição: Teorema

título: Uma História dos Milagres

autor: Joachim Bouflet

tradução: Manuel Ruas

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 294

isbn: 9789726959410

pvp: 18.00 €

quarta-feira, janeiro 5

O meu cérebro

Estou em crise. E quem não está?. Sou livreiro e não leio um livro seguido há mais de um mês. Estou a entrar em ressaca, com todos os sintomas que a ausência da leitura me traz. Consequentemente, sem ler, não consigo escrever, logo, nada como reciclar um post que explica exactamente como isto funciona:

Demorei algum tempo a perceber os benefícios e prazeres da leitura. E isso só aconteceu tarde, na pré-adolescência; a leitura regular só mesmo na adolescência, para desespero do meu pai. Muitas vezes, coitado, tentava aconselhar-me alguns livros para ler, conselho que eu de forma determinada e inequívoca recusava. A esta atitude, o meu pai reagia apenas com um simples olhar de desprezo, e isso humilhava-me mais do que qualquer palavra de repreensão. Quando finalmente descobri a «pólvora» e comecei a ler, resolvi a certa altura começar a juntar todos os livros que lia, inclusive os de banda desenhada e os de leitura obrigatória da disciplina de Português, numa estante do meu quarto. Depois poderia exibi-los, quais troféus, ao meu pai. Ao fim de bastante tempo, muito mais do que o meu pai desejava, consegui decorar uma «extensíssima» prateleira com uns escassos dez livros (achava eu naquela época imenso), escolhidos por mim dos muitos postos à minha disposição (o que nunca faltou em minha casa foi livros). Porém, comecei a desconfiar dos efeitos benéficos da leitura, que tantas vezes me foram prometidos. Os resultados na escola eram os mesmos, isto é, medíocres. Os dotes oratórios não tinham melhorado por aí além e quanto aos conhecimentos adquiridos, noventa e nove por cento deles tinha-se pura e simplesmente desvanecido do meu cérebro. Aproveitei, como desculpa, o facto de ter tido uma negativa num teste e fui ter com o meu pai, a fim de lhe provar que a leitura não trazia benefícios evidentes:

– Pai, afinal ler não traz assim tantas vantagens...
- Como assim? Não te deu prazer ler?
- Sim, mas há muitas outras coisas que me dão prazer.
E, antes de conseguir explicar-lhe os resultados «maravilhosos» no teste de Português, o meu pai adiantou:
- Tens razão e essas coisas também são importantes. Vou tentar explicar-te de uma forma simples como é que o nosso cérebro funciona.
É preciso não esquecer que naquele tempo não havia computadores e, por isso, não era possível fazer essa comparação, como tantas vezes acontece hoje em dia.
- Imagina que o teu cérebro é um funil.
Dei uma gargalhada.
– Um funil, pai!?...
- Sim, um funil de cozinha. Esse funil tem de estar constantemente a ser alimentado com um líquido, que convém que seja o adequado às necessidades. Estás a conseguir visualizar?
Tentei fazer um ar sério e respondi:
– Sim, estou a imaginar. (E ria interiormente.)
- Já reparaste, com certeza, que quando se verte muito devagar um líquido num funil, esse líquido desaparece muito rapidamente?
- Sim.
- É isso que tens feito até agora, tens deitado pouco líquido no teu funil.
Este comentário provocou-me outra gargalhada.
O meu pai mantinha o semblante compenetrado.
- Por outro lado, quando se verte o líquido muito rapidamente, o funil enche depressa.
- Certo, pai!
- Depois, podemos até parar por um pouco e a sensação que temos a seguir é de que ele se esvazia muito devagar.
- Isso até eu sei! Já fiz essa experiência na escola.
- Agora imagina que esse líquido é a informação, o conhecimento adquirido através da leitura, da experiência e do estudo.
- Estou a perceber onde queres chegar… - Disse eu com uma expressão facial de algum desagrado.
- Óptimo… Então entendes que não tens outra alternativa a não ser estar constantemente a alimentá-lo, para que ele esteja sempre cheio. Doutra forma, ele ficará rapidamente vazio e o conhecimento que terás disponível para usares em teu benefício é simplesmente aquele que restou nas paredes húmidas do funil.

Nunca cheguei a mostrar-lhe o teste e, na altura, achei que o meu pai estava a brincar. A verdade é que resultou. Desde aí passei a dar mais importância à leitura e a ter melhores notas. Se ele ainda estivesse vivo, dir-lhe-ia que ainda hoje, depois de tantos anos, continuam a existir pessoas em Portugal que nunca leram um livro na vida, o que o deixaria incrédulo.
Não sei se de propósito, talvez para não me desincentivar, o meu pai não me contou toda a história. Faltou um pormenor «insignificante» acerca do processo de aprendizagem: o universo possível de conhecimento vai aumentando conforme se vai tendo noção da dimensão extrema da realidade. Esse universo é imenso e necessita de um enorme «funil» para ser alimentado, ainda que, no meu caso, esteja sempre irritantemente a ser despejado.

Jaime Bulhosa

Imbecilcopédia XX


P: Quantos répteis há no Antárctico?

R: Não há répteis no Antárctico.

Nota: Um sítio óptimo para eu viver.


Jaime Bulhosa

Porque gostam os cães de cheirar o cu uns aos outros


«Este animal odeia os pobres, porque eles comem maus alimentos, e ama os ricos, porque têm boas iguarias e muita carne. E o esterco dos animais retém sempre a virtude da sua origem, como mostram as fezes…

Ora os cães têm um faro tão subtil que com o nariz sentem a virtude que ficou nessas fezes; e é tão verdade que se as encontram no caminho as cheiram, e farejam dentro delas virtude de carne ou de outra coisa levam-nas, e senão deixam-nas; e tornando ao quesito digo que conhecem mediante esses odores se o outro cão é bem alimentado, e respeitam-no, porque consideram que ele tem dono rico e poderoso, e se não sentem tal odor com virtude, consideram que esse cão vale pouco e tem pobre e triste dono, e por isso mordem esses cães como fariam ao seu dono.»

Leonardo da Vinci

terça-feira, janeiro 4

Dilúvio


Nestes dias de festividades, não é rara a ocasião em que alguém fica demasiado alcoolizado. Aconteceu-me a mim, este ano, ser chamado à atenção por alguém de que talvez já tivesse passado um pouco das marcas. Imediatamente me veio à memória uma história que o meu pai contava, sempre que lhe diziam o mesmo:

«Um dia, um grupo de rapazes, colegas de escola, vindos directamente da taberna em grande alarido e euforia, foram surpreendidos, a caminho da igreja, pelo professor de Religião e Moral, um padre conhecido por ser muito severo e rigoroso. Ao vê-los naquele estado de bênção de Baco, logo os repreendeu:

- Saibam vossas excelências que o vinho é um grande mal.

Um dos rapazes, de nome Rufino, conhecido pelas suas rápidas e sarcásticas respostas, descaradamente, pergunta-lhe:

- Lê o senhor padre muito o livro sagrado?

- Que atrevimento o teu rapaz! Com certeza que sim.

- Então, verá lá escrito de forma muito clara que o Dilúvio Universal foi com água e não com vinho.»


Jaime Bulhosa

O Quinto da Discordia


O Quinto da Discórdia é uma mostra da mestria de Davies no romance: a sua erudição permite-lhe tratar os assuntos mais diversos – os horrores da guerra, a vida de um internado, a religião e os mitos – com uma naturalidade assombrosa; e a sua imaginação teatral consegue cativar o leitor desde o início.
O primeiro romance da Trilogia de Deptford, a mais aclamada de Davies, ergue-se como a história de um homem racional que descobre no maravilhoso mais uma faceta da realidade.

edição: AHAB
título: O Quinto da discórdia
autor: Robertson Davies
tradução: Maria João Freire de Andrade
formato: 14x21cm (capa mole)
n.º pág.: 359
isbn: 9789899634091
pvp: 21.95€