quinta-feira, fevereiro 24

Narcisismo


Ontem assistia, de computador na mão, a um vídeo sobre o narcisismo levado ao extremo (deixo aqui para os mais curiosos o link do filme, mas advirto, desde já, aqueles que são mais sensíveis a assuntos de ordem escatológica que não o vejam). O meu filho do meio espreitava de esguelha, muito curioso por causa do som que vinha do computador e, ia-se encostando cada vez mais a mim, às tantas pergunta:

- Pai deixa-me ver esse filme?

Afastei o ecrã do seu campo de visão e, enquanto decidia se o deixava ou não ver o filme, resolvi perguntar-lhe:

- Só te deixo ver se me disseres o que é um narcisista.

Ele, muito rapidamente, responde:

- Oh! São aqueles gajos que querem derrubar o governo.

Num impulso, repreendedor, abri-lhe muito os olhos e numa gargalhada, exclamei:

- O quê!?...

O meu filho atrapalhado e ao mesmo tempo muito irritado, logo me responde:

- Não! não… estava a confundir com um anarquista.

- Assim, está melhor, mas…

E antes que eu lhe conseguisse acrescentar alguma coisa, o meu filho perde a paciência, típico de um adolescente na idade do armário, e responde-me:

- bem, se não me queres deixar ver o filme, não deixes… – E acrescenta –. E já agora, se sabes assim tanto, devias escrever um livro!

Não respondi ao tom de alguma falta de educação, porque nestas idades, por vezes, é melhor fingir que não percebemos. Contudo, fiquei a matutar no assunto: sim, até poderia escrever um livro, e seria um grande livro, digo-vos! Se fosse, é claro… sobre tudo aquilo que eu não sei.


Jaime Bulhosa

Noite Sobre as Águas


Em 1939, com a guerra a acabar de ser declarada, um grupo de pessoas privilegiadas embarca no mais luxuoso avião de sempre, o Pan American Clipper, com destino a Nova Iorque: um aristocrata britânico, um cientista alemão, um assassino e a sua escolta, uma jovem em fuga do marido e um ladrão encantador, mas sem escrúpulos. Durante trinta horas, não há escapatória possível desse palácio voador. Sobre o Atlântico, a tensão vai crescendo até finalmente explodir num clímax dramático e perigoso.

edição: Bertrand

título: Noite Sobre as Águas

autor: Ken Follett

tradução: Sofia Gomes

formato: 15x23cm (capa mole)

n.º pág.: 521

isbn: 9789722522588

pvp: 16.95€

Será uma boa notícia para as livrarias independentes?

«O caso era sério. Luiz Schwarcz, o editor da brasileira Companhia das Letras, tinha prometido que durante as férias não escreveria nenhum post no Blog da Companhia. Teve de quebrar a promessa quando, em Nova Iorque, resolveu ir à livraria Barnes & Noble da sua “predilecção”, aquela que ficava em frente ao Lincoln Center, e verificou que ela fechou. “This Barnes & Noble location is now closed. Please visit our store at 82nd and Broadway. Thank you for your patronage over the past 15 years”, lia-se na montra. “Antes lamentávamos o fechamento de cada uma das maravilhosas livrarias independentes, e os vilões eram as cadeias, da qual a Barnes & Noble é a maior representante. Agora são as cadeias que estão mal (…) e, para minha surpresa, a melhor, ou uma das melhores lojas da Barnes & Noble, acaba de fechar.»

segunda-feira, fevereiro 21

Pássaros na Boca


Em Pássaros na Boca, volume que reúne 18 dos melhores contos de Samanta Schweblin, é bem patente o seu gosto por criar atmosferas ficcionais onde o fantástico, e sobretudo o insólito e o grotesco, irrompem com inusitada violência na normalidade do quotidiano, deixando à sua mercê as personagens e o leitor. No centro das suas narrativas encontramos frequentemente a exposição crua ou satírica das relações humanas nas nossas sociedades contemporâneas.

edição: Cavalo de Ferro

título: Pássaros na Boca (contos)

autor: Samanta Schweblin

tradução: Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu

formato:15x22,5cm (capa mole)

n.º pág.: 181

isbn: 9789896231415

pvp: 15.00€

sábado, fevereiro 19

Um livro perfeito



Aposto que esta pequena história se terá passado com a maior parte dos editores, tradutores, revisores e afins:

Como editor, nos últimos anos da sua vida, o meu pai tinha como uma das suas responsabilidades, – por vezes, acredito, mesmo para ele, bem aborrecidas – ler originais de livros em francês, a fim de aferir a qualidade dos mesmos e dar o seu parecer. Depois de já o sol se ter escondido, dando definitivamente como morto o dia e o nascimento de mais uma noite fria de Dezembro, chega a casa vindo do trabalho, com a tarefa de ler um desses manuscritos. Nesse tempo era um luxo, uma casa, possuir aquecimento central. Tínhamos apenas um radiador a gás que saltava de divisão em divisão para que o aquecimento fosse o mais equitativo possível. Não tendo nesse momento nenhuma fonte de calor junto de si, meu pai pega numa mantinha, cobre as pernas com ela e, senta-se na sua poltrona preferida. Abre o livro no seu colo e dá início à leitura. – Desconfio que não terá passado das primeiras frases do prefácio – porque logo entrou num sono profundo, profundo... passado não mais que uma hora e meia é despertado por minha mãe que, simpaticamente, lhe pergunta:

- Então, e que tal mais esse livro?

Murmurando, ainda meio estremunhado, o meu pai responde:

- Estupendo, maravilhoso... verdadeiramente regenerador.

Jaime Bulhosa

sexta-feira, fevereiro 18

Tipicamente português


No outro dia fui jantar com uma amiga, estacionámos o carro ainda longe do restaurante onde pretendíamos comer. Estava uma noite fria de chuva intensa. Percorremos umas boas centenas de metros, sem chapéu-de-chuva, até chegar ao restaurante, que, para nosso azar, se encontrava encerrado para descanso do pessoal. Não desesperámos, continuámos em busca de outro restaurante e... de novo, fechado. Parece que naquela zona dos arredores de Lisboa, os restaurantes são como eram os museus há uns anos atrás: sempre fechados nos dias em que os podíamos ir visitar. Sem alternativa, corremos o mais depressa que conseguimos. A chuva batia-nos forte no rosto, provocando aquela sensação desagradável de arrepio, a mesma de quando nos colocam, por brincadeira, cubos de gelo nas costas, espinha abaixo.

Por sorte, logo na rua seguinte, um restaurante aberto, ou melhor, uma tasca. Espreitámos lá para dentro, pela vitrina, e reparámos que a decoração era típica de uma boa tasca portuguesa. As paredes forradas a azulejos azuis e brancos, de uma má imitação da azulejaria portuguesa do século XVIII, as mesas e cadeiras, de um alumínio cinzento, a condizer com a intempérie cá fora, guardanapos e toalhas de papel em cores diferentes, para enfeitar o ambiente. Olhámos um para o outro e, sem ser necessário dizer nada, pensámos em conjunto: «normalmente até se come bem e barato, nestas tascas portuguesas», e de imediato decidimos entrar e sentar. A tasca encontrava-se cheia de gente – o que augura sempre uma boa refeição –, as pessoas falavam muito alto, única forma de se sobreporem à conversa um dos outros e ao som intenso do televisor de ecrã plano pendurado na parede. Até aqui nada de anormal. Enquanto esperávamos para ser atendidos, olhámos de soslaio para a gente que nos rodeava. Estranhamente – não sendo aquele um lugar turístico –, não havia um único rosto de fisionomia latina. Porém, a língua que falavam, no meio de todo aquele burburinho, soava mais ou menos a português, mas não conseguíamos perceber uma só palavra do que diziam. Pegámos na ementa e tentámos ler os nomes dos pratos disponíveis; tinham todos nomes estranhos e incompreensíveis. «Onde viemos parar?», perguntámo-nos.

Foi então que reparámos que no televisor – objecto “indispensável” a qualquer boa tasca portuguesa – passava um canal ucraniano.

Uma senhora grande, loira, de olhos azuis, sorriso largo e face bonita aproximou-se da nossa mesa e, num sotaque eslavo carregado, perguntou-nos num português quase correcto:

- Senhores, desejam comer?

Nem um nem outro fazíamos ideia de que seria feita a gastronomia ucraniana. Confesso a minha ignorância, mas da cultura da Ucrânia pouco mais sei para além de lá ter nascido o escritor soviético Nikolai Gogol. A senhora simpática que nos atendia bem se esforçou por nos explicar, um a um, os pratos ucranianos ao nosso dispor. Os ingredientes e sabores de uma mistura, entre o melhor, da cozinha oriental e ocidental, foram descritos com todo o pormenor. Contudo, disfarçadamente e ao contrário do conto de Nikolai Gogol, pudemos torcer o nariz. Concluímos que seria melhor não arriscar. Perguntámos, tentando não ferir susceptibilidades, se por acaso, não teriam nenhum prato de cozinha portuguesa. A senhora insistiu nos pratos da sua terra natal:

- Olhê que são muito bons!

- Não duvidamos – disse a minha amiga, – mas vínhamos mesmo com intenção de ter uma refeição, como dizer… mais familiar. Percebe?

Com ar triste, a senhora, lá nos disse:

- Bem, temos bacalhaó a lagareira.

De imediato, a minha amiga exclamou, toda contente:

- Ah, bacalhau à lagareiro!?...

Para meu espanto, depois de um curto mas confrangedor silêncio reflexivo, a minha amiga, perguntou:

- Desculpe, e como é o bacalhau à lagareiro?

E assim acabámos os dois a noite, estupidamente, a comer bacalhau à lagareiro, com sabor a papila de sêmola, kasa e o “delicioso” iogurte.

Jaime Bulhosa

O Factor Humano


Maurice Castle é um ex-diplomata britânico que trabalha no MI6, em Londres, e é casado com uma bela sul-africana. O seu dia-a-dia de agente secreto parece ser mais burocrático do que se imaginaria, até que uma fuga de informação traz à tona o seu passado, desorganiza a sua vida e coloca em xeque o seu futuro. Este livro é a história de um agente duplo, forçado a essa situação pelo seu amor por uma negra. Aborda o tema do "apartheid" e do racismo, condicionado de um lado pela política britânica e do outro pelas ambições russas. "O Factor Humano" é considerado a obra mais madura de Graham Greene. Com a sua prosa elegante, Greene medita sobre a força do amor e do segredo profissional - e sobre os sacrifícios por eles exigidos. Consegue prender o leitor com o seu enredo, mas sobretudo com a caracterização das suas personagens, pintadas com uma profunda compreensão e respeito pelas ironias, ambiguidades e as zonas obscuras da alma humana.

edição: Casa Das Letras

título O Factor Humano

autor: Graham Greene

tradução: Maria João Freire de Andrade

formato: 15X23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 339

isbn: 9789724620053

pvp: 16.00€

quarta-feira, fevereiro 16

Hoje na Pó dos livros

Hoje às 18h30, Miguel Cardoso, Manuel Deniz e Vanessa Brito estarão na Pó dos livros para uma conversa a propósito do livro de Jacques Ranciére "Estética e Política-A Partilha do Sensível", Dafne Editora.



Le Partage du Sensible é um texto-chave de Jacques Rancière. A presente tradução de Vanessa Brito é complementada por uma entrevista e um glossário de Gabriel Rockhill e constitui uma introdução abrangente ao pensamento do autor, figura central do debate contemporâneo nos domínios da estética e da filosofia política.


Jacques Rancière (n. 1940), filósofo, é professor emérito da Universidade de Paris VII, onde leccionou estética e política. Entre as suas obras destacam-se também Le Maitre Ignorant: Cinq Lessons sur L'emancipation intelectuelle - Fayard, 1987 (O Mestre Ignorante - Pedago 2010), La Mésentente: Politique et Philosophie - Galilée, 1995, La Chair des Mots - Galilée, 1998, L'Inconscient Esthétique - Galilée, 2004 e Le Spectateur Emancipé - La Fabrque, 2008 (O Espectador Emancipado - Orfeu Negro, 2010.

segunda-feira, fevereiro 14

A propósito do dia dos namorados, algo sobre o fim das relações amorosas.


Ultimamente o que mais tenho ouvido dizer são frases como estas: «a felicidade é um dever exclusivo de cada indivíduo», «não dá para delegar nos outros a nossa própria felicidade» ou «essa responsabilidade é pessoal e intransmissível». De facto, parecem ser frases verdadeiras, de uma verdade tão autêntica que, por mais que nos custe admitir, apresentam-se de certa forma egoístas, cruéis, diria mesmo implacáveis. Contudo, quando me ponho a pensar nelas, estas frases parecem-me fazer todo o sentido. Principalmente para quem se quer desresponsabilizar de um compromisso assumido com outrem. Já do outro lado, ou seja, para aquele que foi, por alguma razão, como se costuma dizer, apanhado na curva, tais frases são, de alguma modo, um paradoxo. Porque, se é verdade que não podemos ser responsáveis pela felicidade dos outros, então também não é menos verdade que, mesmo involuntariamente, podemos ser responsáveis pela infelicidade dos outros. Quero eu dizer com isto que a nossa felicidade ou infelicidade depende essencialmente de nós e dos outros, a não ser que queiramos ser uns eremitas, anacoretas, solitários solteirões. Mas não vale a pena desesperar, porque podemos sempre voltar a ser felizes, é claro, sozinhos, com a mesma ou com outra pessoa qualquer.

Jaime Bulhosa

Love is in the air (dia dos namorados)



A Pó dos Livros, à semelhança dos anos anteriores, como todas as livrarias e as demais lojas de comércio, não podia deixar passar em branco a efeméride do dia 14 de Fevereiro: o Dia dos Namorados.

No clássico do conto de fadas «A Bela Adormecida», é com um beijo, que o charmoso príncipe acorda a princesa encantada. O beijo aparece pela primeira vez num conto de Charles Perrault, versão de 1697, «La Belle au Bois Dormant». Mas, na verdade, a figura da Bela Adormecida remonta aos primeiros romances «Perceforest» e «Pentamerone». Nestas histórias, o formoso príncipe encontra a bela adormecida com a depilação por fazer e parte. No entanto, a nossa princesa desperta na mesma, sob o efeito do perfume nauseabundo do príncipe.

Nota: Esta foi a versão soft da responsabilidade da livraria Pó dos livros. Todavia, estes romances tinham ainda um final menos romântico: o príncipe encontra a Bela Adormecida, apaixona-se por ela e, em vez de a beijar, viola-a e parte.

sexta-feira, fevereiro 11

Pátria Apátrida


Surgem-nos todos estes textos associados ao nome de um escritor, até de uma obra. Mas não é a especificidade de cada um o guia W. G. Sebald, é a generalidade de uma ausência comum a todos: a pátria e a ausência dela.

Será a pátria uma cosa mentale a que a vida atribui uma certa realidade? Será o que confere o sentimento de pertença? O de comunidade? Será a garantia de que o passado foi real? Será um espaço (e um tempo) a conquistar no futuro?

Com a sua escrita requintada nunca isenta de acuidade crítica, W. G. Sebald não nos leva, nem pelo mar. Desta vez viajamos na história.

É a Áustria e os seus autores que desfilam diante de nós num percurso que em muito pode contribuir para entendermos, leitores de hoje, o modo de evolução desse país e o rosto que apresenta à Europa.

edição: Teorema

título: Pátria Apátrida

autor: W. G. Sebald

tradução: Telma Costa

formato: 15,5X23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 186

isbn: 9789726959434

pvp: 19.90€

quinta-feira, fevereiro 10

Em Busca do Tempo Perdido


Acordo sozinho, melancólico, numa manhã escura e triste de Inverno. Levanto-me, tomo banho, vejo-me ao espelho, ignoro a barba por fazer, as rugas, os cabelos brancos e visto-me. Abro a porta e saio de casa sem ter que me despedir de ninguém. Pensei apenas, ao fechar a porta à chave, como seria se os meus filhos estivessem comigo.
Pus-me a caminho pela auto-estrada que me leva à cidade de Lisboa. Estaciono o carro e percorro a pé o caminho que me falta, até à livraria onde trabalho. Entre muitas pessoas que seguem no passeio, esbarro com uma velha que caminha lentamente na direcção oposta. Quase a derrubo. Desvio o olhar, sem a cumprimentar nem pedir desculpa, como fazemos aos que passam por nós nas ruas da cidade. Contudo, alguma coisa me fez parar. Não tive intenção de voltar atrás para lhe pedir perdão ou cumprimentá-la, apenas senti um estranho pressentimento que me percorreu a espinha e me fez pensar: «Eu conheço esta velhinha de algum lado.»
Decido mudar bruscamente de direcção, para conseguir vê-la melhor. No mesmo instante, a velhota dobra a esquina e, por uns segundos, deixo de a ver. Sigo-a, do outro lado, e encontro no seu lugar uma mulher de cinquenta anos. Para meu espanto, os traços fisionómicos são os mesmos, só que mais jovens e familiares. A minha perplexidade é total e a curiosidade aumenta. Decido continuar a segui-la. Ela caminha, agora bastante mais veloz, e volto a perder-lhe o rasto. Acelero o passo e torno a vê-la. Desta vez, está ainda mais jovem, perto dos quarenta. Já não se encontra só, leva consigo quatro filhos, três rapazes e uma rapariga adolescente, de cabelo comprido, negro e tez morena. É sem dúvida a mais velha dos quatro filhos. Na mão direita a mulher segura o filho mais novo, uma criança loira, bochechuda e sorridente que, de tão pequena que é, por cada três passos que dá, dois são de corrida, única maneira de os poder acompanhar. Mais uma curva e novamente a perco. Dobro a sinuosa rua e, de novo a vislumbro. De repente, o seu rosto torna-se perfeitamente identificável. Porém, o cenário que nos envolve muda. Os prédios são quase todos os mesmos que existiam, naquela zona da cidade, nos finais dos anos sessenta, mas mais degradados e sujos. As pessoas vestem-se também de maneira diferente, muitas mulheres de lenço negro na cabeça e alguns homens de chapéu. O trânsito automóvel, àquela hora, é substancialmente menor, os táxis modelo Mercedes Benz 180D, pintados de preto com capota verde. A mulher, agora visivelmente grávida do quinto filho, tem pouco mais de trinta anos. Tenho que aligeirar novamente o passo, sinto-me uma criança pequena, com o coração a palpitar, assustado, corro o mais depressa que posso em direcção àquela mulher. E, num impulso despropositado e completamente irracional, agarro-me às suas pernas.
Ao pressentir-se agarrada, a mulher, colocando-me a mão carinhosamente na cabeça, exclama aliviada:
- Por onde andaste tu, meu filho!?... Ando eu desesperada, mais os teus irmãos, feita louca, à tua procura.
Depois acordo, sozinho, melancólico, numa manhã escura e triste de Inverno.
Jaime Bulhosa

quarta-feira, fevereiro 9

O Nariz

Uma leitura que recomendamos vivamente, mas enquanto não o fizerem, fiquem com este pequeno filme animado baseado no conto de Nikolai Gogol, O Nariz.

Sobre a tolerância


O filósofo inglês Simon Blackburn, conta a história de um encontro entre eminentes representantes das mais variadas religiões. Às tantas o representante budista diz que celebra a paz interior, a compaixão, a renúncia aos desejos. Os outros dizem-lhe:

- É maravilhoso. Se para si funciona, é fantástico.

O hinduísta toma a palavra e fala do Samsara, dos ciclos da vida, do ensinamento subtil e complexo dado por Krishna no Bhagavad-gita. Os outros participantes escutam-no e dizem-lhe:

- É maravilhoso. Se funciona, é verdadeiramente fantástico.

O católico fala então da mensagem de Jesus, da vinda de Deus à terra, da redenção pelo sacrifício na cruz, da salvação. Da vida eterna, do amor ao próximo, seja ele quem for. E os outros participantes dizem-lhe:

- É maravilhoso. Se para si funciona, é excelente.

O católico enerva-se, fica furioso e diz aos outros:

- A questão não é que funcione para mim! Está aqui uma verdade universal, é a palavra do próprio deus vivo! E se não acreditais, sereis malditos para toda a eternidade!

Os outros, atónitos com tamanha exaltação, dizem-lhe todos em coro:

- É absolutamente maravilhoso. Se para si funciona, é fantástico.


Nota: este exemplo serve também para outras religiões de origem cristã, islâmica ou judaica.

Trotsky - Uma biografia


Trotsky é talvez um dos mais intrigantes, dada a sua importância, e o menos estudado dos revolucionários soviéticos. Através de novas fontes documentais, incluindo cartas de família, correspondência do partido e militar, discursos confidenciais e registos médicos, Robert Service oferece um novo olhar sobre Trotsky. «Se imaginar o aluno mais detestável, um radical amargo, sarcástico, arrogante, egoísta, insensível e imaturo e se congelar essa imagem no princípio do século, o resultado é: Trotsky... Robert Service torna absolutamente claro que o Trotskismo nada mais é que o Estalinismo embrionário... Raramente a patologia do tipo revolucionário, e suas consequências fatais, foi tão impiedosamente exposta como nesta biografia exemplar.»

edição: Aletheia

título: Trotsky - Uma biografia

autor: Robert Service

tradução: Vasco Teles de Menezes

formato: 14X22cm (capa mole)

n.º pág.: 641

isbn:9789896222727

pvp: 19.99€

terça-feira, fevereiro 8

Para venda


A Pó dos livros anda sempre na vanguarda das novas tecnologias.

Se por acaso passar pela montra da livraria, verá em exposição esta maravilhosa caixa registadora, inteiramente manual, pelo preço, não menos espectacular, de 120€.

Prós: Está em óptimo estado e nunca falha.

Contras: Infelizmente não tem entrada USB, nem acesso à internet (óptima para fugir aos impostos).

Catedral


Raymond Carver disse que era possível "escrever sobre lugares-comuns, sobre coisas e objectos usando lugares-comuns, mas também uma linguagem precisa, conferindo assim a estas coisas - uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, um brinco de mulher - uma força e uma cintilação imensas". Em parte nenhuma é tão evidente esta alquimia, como em "Catedral".

edição: Quetzal

título: Catedral

autor: Raymond Carver

tradução: João Tordo

formato: 14,5X23,5cm (capa mole)

n.ºpág.: 253

isbn: 9789725649145

pvp: 17.95€

segunda-feira, fevereiro 7

Passatempo Pó dos Livros /alfabeto




Temos cinco exemplares do livro, Uma Proposta Modesta/Um Argumento Contra a Abolição do Cristianismo, de Jonathan Swift, edição alfabeto, para oferecer às cinco primeiras pessoas que respondam correctamente à seguinte questão: Qual dos livros, de Jonathan Swift, acaba com a frase: «Volto para o meu Quintal de Redriff, a fim de me entregar a especulações filosóficas.»

Nota: Este livro só estará disponível para venda, em todas a livrarias, a partir de 21 de Fevereiro)

Para poder participar no passatempo, basta que nos envie um e-mail: podoslivros.jaime@sapo.pt, com a seguinte informação: nome, morada e título do livro correcto. Logo que receba um e-mail da livraria Pó dos Livros com a confirmação do seu prémio, poderá levantá-lo na livraria. Caso viva longe da cidade de Lisboa poderá solicitar o envio do livro por correio.


Uma Proposta Modesta

«É uma melancolia para aqueles que caminham através desta grande cidade ou viajam pela província, quando vêem as ruas, as estradas e as portas das carruagens apinhadas de mendigas, seguidas por três, quatro ou cinco crianças, todas em trapos e importunando os passageiros por uma esmola. Estas mães, ao invés de trabalharem para o seu honesto sustento, são forçadas a empregar todo o seu tempo a vaguear para mendigarem sustento para os seus indefesos meninos: que, à medida que crescem, ou tornam-se ladrões por falta de trabalho, ou abandonam o seu querido país para lutar Pretendente em Espanha, ou vendem-se para Barbados.»


Um Argumento Contra a Abolição do Cristianismo

«Uma grande vantagem proposta com a abolição do Cristianismo é que isso em muito ampliaria e estabeleceria a liberdade de consciência, esse grande baluarte da nossa nação e da religião protestante, e ainda muito limitada pelo sacerdócio, apesar das boas intenções da legislatura como podemos dar conta recentemente por via de uma grave ocorrência. Pois foi decerto reportado que dois gentlemen nos quais muitas esperanças eram depositadas, de brilhante sagacidade e profundo discernimento que, após uma apurada análise das causas e efeitos, fazendo uso apenas das faculdades naturais e sem o menor traço de educação, terem feito a descoberta de que não há nenhum Deus e que, comunicando então generosamente os seus pensamentos para bem do público, foram há algum tempo, com uma severidade sem paralelo e com base em não sei que obsoleta lei, condenados por blasfémia.»


sexta-feira, fevereiro 4

Partir pedra


O escritor francês Charles Péguy (1873-1914), conta a história de um homem que, na idade média, a caminho de Chartres, encontra um homem aplicado ao mais duro dos ofícios: partir pedra.
- Vivo como um cão – disse-lhe o homem. – Exposto à chuva, ao vento, ao granizo, ao sol, faço um trabalho penoso em troca de uns tostões. A minha vida não vale nada. Nem merece o nome de vida.
Um pouco mais longe, o nosso homem encontra outro canteiro, este com uma atitude completamente diferente.
- É verdade que é um trabalho duro – diz-lhe ele –. Mas, ao menos, é trabalho. Dá para alimentara mulher e os filhos. E depois, ando ao ar livre, vejo a gente que passa… Não me queixo. Há quem esteja pior do que eu.
Um pouco mais adiante, o homem encontra um terceiro canteiro, que lhe diz, olhando-o bem nos olhos:
- Eu, eu estou a construir uma catedral.


Filhas de Safo


Este é um livro em que, com o recurso a fontes do mais variado tipo, desde textos literários diversos a documentação produzida pelo tribunal da inquisição, passando pela legislação civil, se procura traçar o percurso histórico da homossexualidade feminina em Portugal.
A mesma acompanhou muito de perto a homossexualidade masculina em termos de condenação social: começaram por ser ambas vistas como pecado graves, depois como crimes, como tal puníveis com a morte. Finalmente passaram à categoria de doença. Mas as diferenças também desde cedo se manifestaram: o safismo era menos penalizado que a homossexualidade masculina. Tudo isto tem que ver não com uma maior tolerância face ao primeiro, mas antes com um desconhecimento de grande parte do que lhe dizia respeito.
Muito presente na esfera privada a homossexualidade feminina não terá deixado de lavrar em mosteiros, conventos, recolhimentos, lupanares, hospitais, colégios e prisões, mas igualmente de forma discreta em casas particulares, espalhando-se quer em meios urbanos quer rurais.

edição: Texto
título Filhas do Safo
autor: Paulo Drumond Braga
formato: 15,5x23cm (capa mole)
n.º pág.: 147
isbn: 9789724742922
pvp: 17.90€

terça-feira, fevereiro 1

Imbecilcopédia XXII


O livro perfeito para bibliófilos com insónias: Utilizações extraordinárias para coisas do dia-a-dia, edição Selecções. Deixamos mais uns exemplos:

Pepino:

«Use como rolo de massas: Um pepino grande e liso é excelente para estender a massa das tartes: não só tem as dimensões e o peso ideais, como a massa não adere.»

«Faça levantamento de pesos: Os pepinos podem ter uma grande variedade de dimensões e pesos. Por isso, não terá grandes dificuldades em encontrar dois com o peso ideal para exercitar os músculos dos braços. O pepino terá uma segunda utilização saudável quando o fizer em salada.»

«Pratique malabarismo: Já sabemos que consegue fazer malabarismo com duas bolas. Vamos lá a ver se é capaz de fazer a mesma coisa com três pepinos!»

Nota da responsabilidade da livraria Pó dos livros: Poderíamos dar outros exemplos de como usar o pepino, mas achámos que não teriam cabimento neste blogue.

O gordo e o magro


Na estação de caminho-de-ferro «Nikolaevskaia» encontram-se dois amigos – um gordo e o outro magro.

O gordo acabava de almoçar no restaurante e tinha os lábios lambuzados de manteiga, nédios como cerejas maduras, cheirava a xerez e a fleur-d’orange. O magro entretanto, saía do comboio e estava carregado de malas, trouxas e caixas. Cheirava a presunto e a borras de café. Por trás das suas costas espreitavam a esposa, uma mulher franzina de queixo alongado, e o filho, um colegial, alto e um olho semicerrado.

- Porfiri! – exclamou o gordo ao ver o magro. – És tu, meu velho? Há que tempos não nos víamos!

- Jesus! Admirou-se o magro. – Micha! Amigo! Que te trouxe aqui?

Os amigos beijaram-se três vezes e fixaram um no outro os lhos cheios de lágrimas. Ambos estavam agradavelmente surpreendidos.

- Meu caro amigo! – começou o magro. – Não contava ver-te aqui! Que surpresa! Deixa-me ver-te bem! O mesmo bonitão, como sempre foste! O mesmo janota, o encanto em pessoa, Aí Jesus! Então, como é? Já estás rico? Casado? Eu já tenho família, como podes ver… apresento-te a minha mulher Luísa, da família dos Wanzenbach… uma luterana… O meu filho Nafanail, aluno do terceiro ano. Aqui têm o meu amigo de infância! Andámos juntos na escola!

Nafanail pensou um bocado e tirou o boné.

- Sim, andámos juntos na escola – prosseguiu o magro. – Lembras-te como te chamavam? Heróstrato* , por teres queimado um livro da biblioteca com um cigarro. E a mim Efialtes**, pois era queixinhas. Ah! Ah! Éramos crianças! Não tenhas medo, Nafanail! Chega-te cá mais perto… E eis a minha mulher, da família dos Wanzenbach… é uma luterana…

Nafanail! Pensou um bocado e achou por bem esconder-se por trás das costas do pai.

- Então como te corre a vida? – perguntou o gordo, olhando o outro alvoraçado. – Onde estás, na função pública?

- Sim, meu velho! Há dois anos que tenho grau de assessor e a ordem de Estanislau. O ordenado é baixo, mas isso não vem ao caso. A minha mulher dá lições de música, eu também montei um pequeno negócio; faço cigarreiras de madeira. Boas cigarreiras, a propósito. Vendo-as a um rublo cada. A quem comprar dez ou mais, faço desconto. Cá nos arranjamos como podemos. Antes trabalhava num departamento, agora metem-me aqui como chefe de secção… Bem, estamos já aqui. E tu, como vais? Não subiste ainda a conselheiro de Estado, hein?

- Não, meu caro, estou ainda mais alto – respondeu o gordo. – Sou conselheiro privado… Tenho duas Estrelas.

De súbito, o magro empalideceu, petrificado, mas logo o seu rosto abriu-se num sorriso desmedido e o rosto e os olhos pareciam faiscar. Encolheu-se, curvou-se, ficou mais estreito… As suas malas, trouxas e caixas também se encolheram, encarquilharam… O queixo alongado da mulher alongou-se ainda mais, e Nafanail pôs-se em sentido e abotoou o uniforme do colégio.

- Sim Excelência… é um grande prazer! Afinal, tenho por amigo de infância, se me permite a expressão, um alto dignitário do Estado! Ih! Ih!

- Ora, deixa-te disso! – disse o gordo, fazendo uma careta. – Perdão… mas como é possível… ciciou o magro, encolhendo-se ainda mais. – a benevolente atenção da Vossa Excelência é para nós um maná vivificante… A minha mulher Luísa, luterana, se me dá licença…

O gordo quis objectar qualquer coisa, mas ao ver no rosto do outro tanta devoção, doçura e submisso respeito, sentiu-se enjoado. Voltou a cabeça estendeu a mão em jeito de despedida.

O magro apertou-lhe três dedos, inclinou-se numa reverência profunda e soltou um risinho «Ih! Ih! Ih!», como um chinês. Nafanail curvou-se numa vénia e deixou cair o boné. Todos os três estavam agradavelmente surpreendidos.

* Herostrato, com intuito de imortalizar o seu nome, incendiou em 356 a.c. o Templo de Ártemis, em Efeso, uma das sete maravilhas do mundo.

** Efialtes traidor do povo grego que, na batalha de Termópilas (480 a.c.) indicou o caminho secreto aos Persas.

Anton Tchékhov

Pequena Antologia de Poetas Portugueses

É uma pena a imagem não demonstrar a extraordinária beleza desta edição da Pequena Antologia de Poetas Portugueses que a Editora Regional de Extremadura teve a amabilidade de me enviar.

Enrique Díez Canedo representa, como muito poucas firguras, a contemporaneidade que nos chega de Espanha com o Século XX e, que nas suas três primeiras décadas aplica a um programa moderno de uma eficácia assombrosa. Entre os muitos trabalhos do crítico e poeta Canedo, destacam-se a traduções e, entre estas, as que realizou da literatura portuguesa, um dos seus focos de atenção. A Pequena Antologia de Poetas Portugueses oferece uma boa amostra desses interesses, muito em sintonia com a vocação transfronteiriça da Extremadura actual. Esta edição reproduz o que entre 1909 e 1911 se publicou em Paris na editora Amarante, acompanhada de um estudo que analisa as relações entre Díez Canedo e a literatura portuguesa do seu tempo.