sábado, abril 30

Villiers




O que faz um livreiro de loja aberta, em pleno sábado, em dia de Feira do livro, enquanto cai uma imensa carga de água? Vive a "Tortuosa Esperança", de Villiers.

livreiro anónimo

É um livro




Envia mensagens?

Faz blogues?

Sobe e desce o texto?

Tem wi-fi?

Tuíta?

NÃO...é um livro.


"É um livro" de Lane Smith, Editorial Presença pvp 8.90 euros

O livro e a Tinta


Vendo-se o livro todo manchado pela negridão da tinta, fica irritado; e esta mostra-lhe que são as palavras por ela escritas a razão da conservação dele.

Anónimo

quinta-feira, abril 28

terça-feira, abril 26

Geniociclopédia I

Facécia do ladrão ao mercador

Sabendo um ladrão que um mercador seu conhecido tinha bastante dinheiro dentro de uma caixa na sua loja, pensou roubar-lho, e à meia-noite, tendo entrado na loja do mercador, começou a passar à acção o seu plano, mas foi surpreendido, pois o dono viu a porta com o grande cadeado aberto. E muito assustado, notou lá dentro a luz do ladrão, e fechou logo o cadeado por fora; e prendendo o ladrão na loja, foi a correr chamar os guardas. Então o ladrão, vendo-se encerrado lá dentro, recorreu a uma saída para se salvar, e acendendo dois candelabros do mercador, tirando um baralho de cartas de jogar, atirou uma parte dele para o chão, onde era um jogo mau, e outra parte ficou com ela na mão, onde havia jogo bom, e assim esperou a guarda. Quando ouviu chegar os cavaleiros e abrir-se o cadeado da porta, gritou: – Pela fé de Deus, fechaste-me aqui para não me pagares o dinheiro que te ganhei. Mas juro-te que hás-de pagar-me a dívida. Quem não quer perder não deve jogar. Quase me fizeste jogar à força e depois, quando perdeste, foges da loja com teu dinheiro e com o meu, e fechas-me cá dentro para eu não correr atrás de ti. – E dito isto, deitou-lhe a mão à bolsa para lha tirar. Então o chefe da guarda, considerando-o enganado, obrigou o mercador a dar-lhe o dinheiro que ele exigia como seu.

nota: Relato de Leonardo da Vinci

Da Decadência da Arte de Mentir




«Note-se que não é minha intenção sugerir que o hábito de mentir sofreu qualquer declínio ou interrupção - não, pois a Mentira, na sua condição de Virtude, de Princípio, é eterna; a Mentira, enquanto passatempo, consolo, refúgio em tempo de necessidade, a quarta Graça, a décima Musa, a melhor e mais fiel amiga do homem, é imortal e não desaparecerá da Terra enquanto este Clube existir. A minha reclamação diz apenas respeito à decadência da arte de mentir. Nenhum homem de intelecto superior, nenhum homem de sensibilidade apurada, pode contemplar a inoperante e negligente mentira dos nossos dias sem lamentar ver uma nobre arte tão prostituída.»

edição: alfabeto

título: Da Decadência da Arte de Mentir e outros Textos

autor: Mark Twain

tradução: Sofia Gomes

formato: 13x20cm

n.º pág.: 144

isbn: 9789898475183

pvp: 16.00€

sábado, abril 23

Santa rivalidade?



Terão sido ciúmes? A verdade é que o São Pedro não quis colaborar com a festa do dia Internacional do Livro, que é também o dia de São Jorge, e como os livros não são impermeáveis, com a chuva e o vento que toda a manhã teimaram em nos fazer companhia, a Pó dos livros teve que levantar arraial.


No entanto, com o céu azul que agora vai espreitando entre as nuvens, se for para os lados do jardim de São Pedro de Alcântara, não deixe de ir visitar os nossos amigos da Associação Catalunya Apresenta, que lá continuam a festejar o seu Sant Jordi, sem livros, mas com rosas e muita simpatia.


Isabel Nogueira

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No dia 23 de Abril celebra-se um dos dias mais esperados pelos catalães, o dia de Sant Jordi, ou São Jorge em português.
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O facto de esta festividade coincidir com o Dia Internacional do Livro fez com que se espalhasse a tradição de vender livros e rosas na rua. E rosas porquê? A lenda de São Jorge é a história de uma aldeia onde um dragão tinha aterrorizados os seus moradores. Para tentar travar os danos, a aldeia determinou que cada dia um dos seus habitantes seria oferecido ao dragão para saciar a sua fome. Como ninguém se ofereceu, a escolha foi por sorteio. A decisão deu resultado e com um habitante por dia o dragão enchia bem o seu estômago. No entanto, num dos dias do sorteio calhou à princesa. Os habitantes ficaram espantados, mas o rei disse que não havia excepções e que a sua filha devia ser a próxima presa. Enquanto ia ter com o dragão, a princesa encontrou Sant Jordi, um cavaleiro que acabaria por derrotar o dragão e salvar a princesa. Do sangue do animal nasceria uma roseira de onde Sant Jordi cortou uma rosa para oferecer à sua amada. É por isso que na Catalunha o 23 de Abril é também o dia dos namorados.
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Este dia também coincide com a data da morte dos escritores Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Jules Barbey d’Aurevilly e Josep Pla.
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Para além disso, São Jorge, ou Sant Jordi, é o santo padroeiro de Portugal e da Catalunha (para além da Inglaterra). Este facto é a desculpa perfeita para exportar esta tradição para mais além das fronteiras. E ainda mais se serve para popularizar a venda de livros na rua, incentivar a leitura e, porque não, trazer para Lisboa a tradição da rosa.

Dia Internacional do Livro


A pó dos livros vai estar hoje no Jardim de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, com a Associação Catalunya, para festejar o Dia Internacional do Livro.

terça-feira, abril 19

de brincar


Uma remessa de jogos e muitas outras brincadeiras chegou há dias da Edicare. Entraram na Pó dos livros, instalaram-se na montra e já desceram as escadas até ao infantil. Há jogos de cartas, bonecos de papel, carimbos, brincadeiras recortadas, puzzles muito fáceis e puzzles muito difíceis, livros cheios de ideias para brincar, móbiles para voarem nos tectos lá de casa, t-shirts divertidas para pintar, autocolantes para colar e descolar e jogos de contar histórias.

O difícil é decidir se gostamos mais das ilustrações ou do jogo em si. A Djeco (marca dos jogos) consegue tornar as duas coisas perfeitas. E depois, escolher um para levar.

O melhor de tudo é que o tempo está sempre perfeito para brincar com eles: se chover muito ficamos em casa e organizamos uma tarde de jogos, se estiver um lindo dia de sol, basta transportá-los connosco e sentármo-nos na relva de um jardim de Lisboa a jogar.


segunda-feira, abril 18

A Noite das Mulheres Cantoras



Há uma pergunta que percorre este romance de Lídia Jorge, da primeira à última página: quantas vítimas se deixa pelo caminho para se perseguir um objectivo? A acção do romance decorre no final dos anos 80 do século XX e invoca um tema de inesperada audácia - o da força da idolatria e a construção do êxito - visto a partir do interior de um grupo, narrado 21 anos mais tarde, na forma de um monólogo. Como é habitual na obra da autora, a questão social é relevante - a força do todo e a aniquilação do indivíduo perante o colectivo são temas presentes neste livro. Mas aqui, tratando-se de um grupo fechado e dominado pela música, a parábola social submerge perante a descrição de um ambiente de grande envolvimento humano e de densidade poética. Servido por uma narrativa ao mesmo tempo rude e mágica, "A Noite das Mulheres Cantoras" propõe a quem o lê a história de seis figuras que passam a viver para sempre no nosso imaginário. A história de amor comovente que une as duas personagens principais, Solange de Matos e João de Lucena, é, por certo, um daqueles episódios que iluminam a realidade e tornam indispensáveis a grande literatura sobre a vida de hoje, com os ingredientes próprios da cultura dos nossos dias.

edição: D. Quixote

título: A Noite das Mulheres Cantoras

autor: Lídia Jorge

formato: 15,5x23,5cm

n.º pág.: 317

isbn: 9789722045131

pvp: 16.00€

sexta-feira, abril 15

O Futuro do livro e das livrarias


Na semana em que o FMI aterrou em Portugal, «Nada de cultura» debate as livrarias do futuro. De que modo é que as livrarias vão enfrentar a crise? Poderão estar em risco as cadeias de livrarias, para voltarem à ribalta as independentes? Ou em último caso poderá, além da crise por si só, ser o livro electrónico uma ameaça? Para discutir estas questões, Francisco José Viegas convida Jaime Bulhosa, da «Pó dos livros», Marta Serra da «Bertrand» e Caroline Tyssen da «Livraria Galileu».
(Pode ver o programa aqui:: http://www.tvi24.iol.pt/programa/4162/13)

quarta-feira, abril 13

Já valeu a pena ter aberto uma livraria

A propósito de um post, com o título Ladrão de Poesia, fizeram um curioso comentário que publiquei com o nome de Um Ladrão Confessa-se. Hoje recebi através do Facebook esta mensagem:

«Caro Jaime.

Um dia destes, no blogue Pó dos Livros, a propósito de livros roubados e ladrões apanhados, fiz uma confissão. Sim, também tinha esse vício horrível. Vai daí, houve alguém que fez um comentário a dar-me um valente puxão de orelhas. Era alguém que gosta muito de ler. Fomos trocando correspondência e eu descubro uma mulher de uma beleza excepcional. Também tem um blogue e é um blogue muito interessante. Escreve como se fosse um diário íntimo. Graças ao pó que se acumula nos livros, descobri um ser excepcional e de que espero nunca mais me separar, apesar dos 300 km de estrada que distam das nossas bibliotecas. Que mulher, Jaime, que mulher!

Atentamente

Pedro»

terça-feira, abril 12

Os Terraços de Junho


Quase todos estes contos se caracterizam pelo insólito, pelo mágico, pelo surpreendente. Pairam entre o real e o irreal numa fascinante contradança de amor, aventura e desespero. E contudo o social nunca é esquecido. Mas é na segunda parte, um conjunto de textos intitulado "Angústia com Licor de Rosas", que o onírico prevalece e a intensa pulsão poética da escrita de Urbano Tavares Rodrigues dá a esses textos contornos de invulgar sedução. Jamais o autor de "O Eterno Efémero" foi tão longe na devassa do ser humano e dos seus alçapões. Uma luminosa viagem pelos corredores secretos da vida.

edição: Dom Quixote

título: Os Terraços de Junho

autor: Urbano Tavares Rodrigues

formato: 15,5x23,5cm

n.º pág.: 123

isbn: 9789722045124

pvp: 15.00€

quinta-feira, abril 7

Quiproquós II


O problema da existência do mal no mundo (moral ou natural) tem servido aos partidários do ateísmo, como um dos argumentos que "provam" a não existência de Deus. Algumas das suas premissas são deste género:

1 – Se Deus existe, então, Ele é omnisciente, omnipotente e perfeitamente bom.

2 – Se Deus fosse omnisciente, omnipotente e perfeitamente bom, então, o mundo não conteria mal.

3 – O mundo contém mal.

4 – Logo, Deus não existe.

Os teístas, por seu lado, deparam-se exactamente com o mesmo problema, isto é, como explicar a coexistência do mal, com um Deus infinitamente bom. Para isso usaram argumentos como: o livre arbítrio não poderia existir sem a possibilidade do mal; os seres humanos não podem entender Deus; o mal não é mais do que a privação de Deus; o mal é o resultado de um mundo caído e corrupto.

Seja como for, o tema é demasiado complexo para ser explanado em poucas linhas. Tem gerado, e continuará a gerar, muita polémica, debate e imensa literatura. No entanto, considerei interessante expor, por mera curiosidade, cinco exemplos de “assassinatos” perpetrados por Deus:


1- A população inteira do mundo, excepto Noé e seus familiares. (Génesis 6, 7)

Transgressão: Violência, corrupção e maldade generalizada.

Método de Execução: Afogamento.


2 – A população inteira de Sodoma e Gomorra, excepto Ló, sua mulher e sua filhas. (Génesis 19)

Transgressão: maldade generalizada e falta de respeito pela divindade.

Método de Excução: Chuva de fogo e enxofre.


3 – Mulher de Ló (Génesis 19)

Transgressão: Olhou para trás.

Método de execução: Transformada numa estátua de sal.


4 – Todos os recém-nascidos do Egipto (Exodus 14)

Transgressão: O Egipto foi cruel com os judeus.

Método de Excução: Desconhecido.


5 – Faraó do Egipto e o seu exército. ( Exodus 12)

Transgreção: Perseguição aos judeus.

Método de Execução: Afogamento.


Jaime Bulhosa

(um agnóstico livre destes problemas)

Hoje na Pó dos livros

Hoje, às 18 horas, realiza-se na Pó dos livros mais uma conferência e debate inserida no ciclo sobre temas do consumo: " Eating Practices and sustainable consumption: towards a sociology of sustainable food consumption", pelo sociólogo Dale Southerton, da Universidade de Manchester. Uma organização ICS-IUL e CRIA, apoio ISFLUP.

terça-feira, abril 5

Leituras da adolescência


A última frase de um romance preferida:

- He is a gorilla.

Planeta dos Macacos, Pierre Boulle

Jaime Bulhosa

Um encontro


A nova colecção de ensaios de Milan Kundera é uma apaixonada defesa da arte numa era que, segundo o autor, não valoriza a arte e a beleza. Com a cativante mistura de emoções e pensamento presente nos seus romances, Kundera revisita artistas cujas obras permaneceram importantes ao longo da sua vida: reflecte sobre a pintura de Francis Bacon, a música de Leos Janacek, os filmes de Federico Fellini e os romances de Philip Roth, Fiódor Dostoievski e Gabriel García Márquez. Aproveita também para fazer justiça a Anatole France e Curzio Malaparte, que considera serem grandes escritores caídos na obscuridade. Em "Um Encontro" a assinatura de Milan Kundera - os temas da memória e do esquecimento, a vivência do exílio e a defesa da arte modernista - cruza-se com as suas reflexões pessoais e histórias de vida. Elegante e provocador, Kundera segue as pisadas das suas antologias anteriores: "A Arte do Romance" (Publicações Dom Quixote), "Os Testamentos Traídos" e "A Cortina" (Edições Asa).

edição: Dom Quixote
título: Um Encontro
autor: Milan Kundera
tradução: Isabel ST. Aubyn
formato: 13.5x21cm
n.º pág.º 197
isbn: 9789722044059
pvp: 16.90€

segunda-feira, abril 4

Quiproquós


Estou com alguns quiproquós em relação à omnipotência de Deus. A palavra “omnipotência” significa, segundo os bons dicionários, o que pode tudo. No entanto, Deus não pode tudo. Não pode, por exemplo: ser quadrado e redondo ao mesmo tempo; ser um triângulo com quatro lados; ganhar uma partida de xadrez depois de eu lhe ter dado xeque-mate, e por aí fora. Resumindo, Deus só pode fazer tudo o que é possível fazer-se, isto é, tudo o que não seja uma contradição em termos. Vou ser mais claro: imaginemos que Deus cria uma pedra que, de tão gigantesca, não é possível ser levantada, nem por ele próprio. Sendo Deus omnipotente, pode criá-la, mas ao fazê-lo estará a pôr em causa a sua própria omnipotência, pelo simples facto de não conseguir levantar a pedra que ele próprio criou. Quer isto dizer que Deus não é omnipotente? Quer isto dizer que Deus não existe? Para alguns sim, para outros não, para mim nim. Confusos? Eu também. Todavia, estas questões já foram respondidas, através dos séculos, pelos mais diversos filósofos da religião. Para quem se interessa por este tema, aconselhamos a leitura do livro Introdução à Filosofia da Religião, de William L. Rowe, edição Verbo.


Jaime Bulhosa

sexta-feira, abril 1

Cadernos do Subterrâneo





Para aqueles que se atreveram a olhar-me, que me repudiaram, pontapearam, chamaram louco, bêbado e indigente. Para os outros, nada, sempre fui invisível.

 Cadernos do Subterrâneo, de Dostoiévski.

Provavelmente, nunca ninguém lerá este pequeno caderno guardado nas minhas vestes mortuárias. E se algum de vós um dia o fizer, não estarei a partilhar convosco este mundo, mas sim outro Inferno. Se até Deus não me quiser…
Tenho que vos dizer, antes de morrer, que nunca me zanguei, nem por ser pontapeado, nem quando escarneciam de mim. Não porque vos tenha perdoado, mas porque todos os homens me são completamente indiferentes. Pago na mesma moeda, por assim dizer. Há já algum tempo que me conformei em ter como única companhia o desdém. Sou um dos habitantes de viadutos e casas abandonadas desta cidade. Colector de lixo, companheiro de quarto de pombos, ratazanas e outros iguais a mim. Dito doutra forma, sou um indigente.
Escusado será dizer que no Inverno os meus ossos enregelam, apesar de estar encharcado em álcool e coberto por mantas de jornal do dia anterior, com notícias, ainda quentes, do terremoto de Fevereiro de 1969. 
E nos meses de calor… «que bom! um abrigo cheio de estrelas».
Não pensem que a minha vida sempre foi assim. Em tempos, também fui como um de vós. Um ser humano com plenos direitos, mulher, filhos, casa e trabalho. Histórias de um passado que sei hoje ter sido feliz, porém, longínquo, perdido nas borras do fundo de uma garrafa. Recordações que não passam, agora, de um imenso calvário, de memórias cruéis que se agarram no meu cérebro e não se desvanecem.
«Lembro-me de uma manhã de Inverno,  um invisível  – denominação que atribuímos a nós próprios –, acordando de mais uma noite gelada, tiritando de frio, esfregava o corpo com as mãos rígidas, tentando aquecer o sangue, quase solidificado nas suas veias. Viu-o todo encolhido, com a cabeça entre as pernas. Contudo, apesar disso, reparei que se esboçava um leve sorriso nos seus lábios. 
Resolvi perguntar, mal-humorado:
- Por que estás com essa cara? Esta noite não foi diferente das outras, só frio e fome.
- Pois não, mas tive um sonho extraordinário. Sonhei que vivia numa enorme casa, com as paredes ornamentadas a papel bordado a ouro, lareira acesa, lençóis perfumados, criados ao meu serviço, crianças em volta a correr, a mulher sorrindo e vinhos do melhor. 
Depois perguntou,  com uma comiseração pouco comum entre indigentes:
- E tu, com o que sonhaste?
- Eu não sonhei com nada – respondi de semblante carregado.
- Tens sorte. – Respondeu, após ter reflectido um pouco.
- Olha que não, tu é que tens sorte.
- Não! Desculpa, és tu que tens.
-Não, tens tu. – E discutimos, eternamente, sem conseguirmos chegar a qualquer entendimento.»
Estou um velho, cansado, no entanto, não cheguei ainda aos sessenta anos. O meu corpo não passa de um esqueleto, em forma de cabide, com andrajos sujos, rasgados que exalam odores a vómito de vinho tinto avinagrado. 
Reflecti muitas vezes, de que me valia continuar a vaguear pelas ruas sem destino ou finalidade. No entanto, sem nunca ter chegado a uma conclusão, faço-o há anos, tantos que já lhes perdi a conta. Estou farto, há muito tempo que pressinto que a minha hora se aproxima. Não vou durar muito tempo, disso tenho eu a certeza, pelo menos desde que comecei a cuspir sangue. «Deve ser das beatas que fumei ou dos pombos (ratos com asas) que comi?»
Tomei uma decisão, não vou esperar por ela. Pelo menos, por uma vez, serei eu a comandar a minha vida. Pensei em diversas formas de o fazer: lançar-me da ponte Salazar, deitar-me na linha do comboio, esbarrar-me contra um automóvel numa avenida qualquer. Não o fiz, não por falta coragem. Para a morte ainda a tenho, falta-me é a coragem para a vida. E, simplesmente, não quero ser notícia de jornal e virar cobertor.  
Decidi então que devo morrer, anonimamente, como aliás quase sempre vivi. Tanto engendrei, que arranjei maneira.  
Para que funcione, os farrapos que visto terão de ter pior aspecto do que aquele que já têm, cheirar ainda pior, não a vinho, mas a cadáver em putrefacção. Isso será fácil de conseguir, bastar-me-á esfregá-los nas carcaças das ratazanas, meio comidas pelas suas congéneres e pelos vermes. Depois, terei de conseguir ingerir o máximo de álcool possível, de forma a ficar a sonhar, por muito e bom tempo, com o Paraíso.
No dia seguinte, tal como esperei, fui levado para a morgue e dado como morto. Despachadas as diligências e papeladas burocráticas necessárias. Numa carroça guiada por um coveiro desdentado, puxada por uma velha mula sorridente, fui transportado para o cemitério – porque mais não merece quem nunca fez por merecer. É o que pensam os demais, aqueles que não têm em conta o acaso ou as circunstâncias da vida –. Depois, sem direito a padre, lágrimas ou epitáfio escrito numa lápide de pedra, fui sepultado.
Quando já pensava que me encontrava no vazio do universo, acordo estupefacto, num quarto lácteo de hospital.
Contaram-me, mais tarde,  como tudo se tinha passado: Parece que momentos antes de ser enterrado, numa vala comum, por mera casualidade, sorte ou azar, o coveiro terá ouvido um pequeno movimento, seguido de um ligeiro gemido depois da primeira pá de terra ter sido lançada sobre o meu caixão. Não muito surpreendido, habituado a mortos-vivos, o coveiro terá perguntado:
- Oh, homem! Você ainda está vivo?
Sem me mexer nem abrir os olhos gritei, num som surdo vindo do fundo do caixão:

- Continue, em silêncio, por respeito ao morto!

Parece que nem à morte um invisível tem direito.


Jaime Bulhosa

O Cemitério de Praga


Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades do Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, o aumento gradual daquela falsificação conhecida como Os Protocolos dos Sábios Anciãos de Sião, que inspirará a Hitler os campos de extermínio, jesuítas que tramam contra os maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam os padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que entre os vapores do absinto planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Óptimo material para um romance-folhetim de estilo oitocentista, para mais, ilustrado com os feuilletons daquela época. Há aqui do que contentar o pior dos leitores. Salvo um pormenor. Excepto o protagonista, todos os outros personagens deste romance existiram realmente e fizeram aquilo que fizeram. E até o protagonista faz coisas que foram verdadeiramente feitas, salvo que faz muitas que provavelmente tiveram autores diferentes. Mas quem sabe, quando alguém se movimenta entre serviços secretos, agentes duplos, oficiais traidores e eclesiásticos pecadores, tudo pode acontecer. Até que o único personagem inventado desta história seja o mais verdadeiro de todos, e se assemelhe muitíssimo aos outros que estão ainda entre nós.

edição: Gradiva

título: O Cemitério de Praga

autor: Umberto Eco

tradução: Jorge Vaz de Carvalho

formato: 15,5x23cm (capa mole)

n.º pág.: 557

isbn: 9769896164089

pvp: 21.00€