
livreiro anónimo


Vendo-se o livro todo manchado pela negridão da tinta, fica irritado; e esta mostra-lhe que são as palavras por ela escritas a razão da conservação dele.

Facécia do ladrão ao mercador
Sabendo um ladrão que um mercador seu conhecido tinha bastante dinheiro dentro de uma caixa na sua loja, pensou roubar-lho, e à meia-noite, tendo entrado na loja do mercador, começou a passar à acção o seu plano, mas foi surpreendido, pois o dono viu a porta com o grande cadeado aberto. E muito assustado, notou lá dentro a luz do ladrão, e fechou logo o cadeado por fora; e prendendo o ladrão na loja, foi a correr chamar os guardas. Então o ladrão, vendo-se encerrado lá dentro, recorreu a uma saída para se salvar, e acendendo dois candelabros do mercador, tirando um baralho de cartas de jogar, atirou uma parte dele para o chão, onde era um jogo mau, e outra parte ficou com ela na mão, onde havia jogo bom, e assim esperou a guarda. Quando ouviu chegar os cavaleiros e abrir-se o cadeado da porta, gritou: – Pela fé de Deus, fechaste-me aqui para não me pagares o dinheiro que te ganhei. Mas juro-te que hás-de pagar-me a dívida. Quem não quer perder não deve jogar. Quase me fizeste jogar à força e depois, quando perdeste, foges da loja com teu dinheiro e com o meu, e fechas-me cá dentro para eu não correr atrás de ti. – E dito isto, deitou-lhe a mão à bolsa para lha tirar. Então o chefe da guarda, considerando-o enganado, obrigou o mercador a dar-lhe o dinheiro que ele exigia como seu.
nota: Relato de Leonardo da Vinci

edição: alfabeto
título: Da Decadência da Arte de Mentir e outros Textos
autor: Mark Twain
tradução: Sofia Gomes
formato: 13x20cm
n.º pág.: 144
isbn: 9789898475183
pvp: 16.00€



Há uma pergunta que percorre este romance de Lídia Jorge, da primeira à última página: quantas vítimas se deixa pelo caminho para se perseguir um objectivo? A acção do romance decorre no final dos anos 80 do século XX e invoca um tema de inesperada audácia - o da força da idolatria e a construção do êxito - visto a partir do interior de um grupo, narrado 21 anos mais tarde, na forma de um monólogo. Como é habitual na obra da autora, a questão social é relevante - a força do todo e a aniquilação do indivíduo perante o colectivo são temas presentes neste livro. Mas aqui, tratando-se de um grupo fechado e dominado pela música, a parábola social submerge perante a descrição de um ambiente de grande envolvimento humano e de densidade poética. Servido por uma narrativa ao mesmo tempo rude e mágica, "A Noite das Mulheres Cantoras" propõe a quem o lê a história de seis figuras que passam a viver para sempre no nosso imaginário. A história de amor comovente que une as duas personagens principais, Solange de Matos e João de Lucena, é, por certo, um daqueles episódios que iluminam a realidade e tornam indispensáveis a grande literatura sobre a vida de hoje, com os ingredientes próprios da cultura dos nossos dias.
edição: D. Quixote
título: A Noite das Mulheres Cantoras
autor: Lídia Jorge
formato: 15,5x23,5cm
n.º pág.: 317
isbn: 9789722045131
pvp: 16.00€


Quase todos estes contos se caracterizam pelo insólito, pelo mágico, pelo surpreendente. Pairam entre o real e o irreal numa fascinante contradança de amor, aventura e desespero. E contudo o social nunca é esquecido. Mas é na segunda parte, um conjunto de textos intitulado "Angústia com Licor de Rosas", que o onírico prevalece e a intensa pulsão poética da escrita de Urbano Tavares Rodrigues dá a esses textos contornos de invulgar sedução. Jamais o autor de "O Eterno Efémero" foi tão longe na devassa do ser humano e dos seus alçapões. Uma luminosa viagem pelos corredores secretos da vida.
edição: Dom Quixote
título: Os Terraços de Junho
autor: Urbano Tavares Rodrigues
formato: 15,5x23,5cm
n.º pág.: 123
isbn: 9789722045124
pvp: 15.00€

O problema da existência do mal no mundo (moral ou natural) tem servido aos partidários do ateísmo, como um dos argumentos que "provam" a não existência de Deus. Algumas das suas premissas são deste género:
1 – Se Deus existe, então, Ele é omnisciente, omnipotente e perfeitamente bom.
2 – Se Deus fosse omnisciente, omnipotente e perfeitamente bom, então, o mundo não conteria mal.
3 – O mundo contém mal.
4 – Logo, Deus não existe.
Os teístas, por seu lado, deparam-se exactamente com o mesmo problema, isto é, como explicar a coexistência do mal, com um Deus infinitamente bom. Para isso usaram argumentos como: o livre arbítrio não poderia existir sem a possibilidade do mal; os seres humanos não podem entender Deus; o mal não é mais do que a privação de Deus; o mal é o resultado de um mundo caído e corrupto.
Seja como for, o tema é demasiado complexo para ser explanado em poucas linhas. Tem gerado, e continuará a gerar, muita polémica, debate e imensa literatura. No entanto, considerei interessante expor, por mera curiosidade, cinco exemplos de “assassinatos” perpetrados por Deus:
1- A população inteira do mundo, excepto Noé e seus familiares. (Génesis 6, 7)
Transgressão: Violência, corrupção e maldade generalizada.
Método de Execução: Afogamento.
2 – A população inteira de Sodoma e Gomorra, excepto Ló, sua mulher e sua filhas. (Génesis 19)
Transgressão: maldade generalizada e falta de respeito pela divindade.
Método de Excução: Chuva de fogo e enxofre.
3 – Mulher de Ló (Génesis 19)
Transgressão: Olhou para trás.
Método de execução: Transformada numa estátua de sal.
4 – Todos os recém-nascidos do Egipto (Exodus 14)
Transgressão: O Egipto foi cruel com os judeus.
Método de Excução: Desconhecido.
5 – Faraó do Egipto e o seu exército. ( Exodus 12)
Transgreção: Perseguição aos judeus.
Método de Execução: Afogamento.
Jaime Bulhosa
(um agnóstico livre destes problemas)



Estou com alguns quiproquós em relação à omnipotência de Deus. A palavra “omnipotência” significa, segundo os bons dicionários, o que pode tudo. No entanto, Deus não pode tudo. Não pode, por exemplo: ser quadrado e redondo ao mesmo tempo; ser um triângulo com quatro lados; ganhar uma partida de xadrez depois de eu lhe ter dado xeque-mate, e por aí fora. Resumindo, Deus só pode fazer tudo o que é possível fazer-se, isto é, tudo o que não seja uma contradição
Jaime Bulhosa

Nota: Esta carta foi encontrada num livro em segunda mão - Cadernos do Subterrâneo, de Dostoiévski.
Provavelmente, nunca ninguém lerá estas linhas. E se algum de vós um dia o fizer, não estarei a partilhar convosco este, mas sim outro Inferno, se Deus quiser…
Tenho de vos dizer, antes de morrer, que nunca me zanguei, nem com os pontapés, nem quando escarneciam de mim. Não porque vos tenha perdoado, mas porque todos os homens me são completamente indiferentes. Pago na mesma moeda, por assim dizer. Há já algum tempo que me conformei em ter como única companhia a solidão. Sou um dos habitantes de viadutos e casas devolutas desta cidade. Companheiro de quarto de pombos, ratazanas e outros iguais a mim. Dito doutra forma, sou um mendigo.
Escusado será dizer que no Inverno os meus ossos congelam, apesar de estar encharcado em álcool e coberto por mantas de jornal amarelado, com notícias, ainda quentes, do grande incêndio do Chiado, do verão passado. E nos meses de calor… «que bom! um tecto cheio de estrelas».
Não pensem que a minha vida sempre foi assim. Em tempos, também fui como um de vós. Um ser humano com plenos direitos, mulher, filhos, casa e trabalho. Histórias de um passado feliz, porém longínquo, perdido nas borras do fundo de uma garrafa. Recordações que não passam, agora, de um imenso calvário, de memórias cruéis.
«Uma vez, numa manhã de Inverno, um abandonado – denominação que atribuímos a nós próprios –, acordando de mais uma noite gelada, tiritando de frio, esfregava o corpo com as mãos rígidas, tentando aquecer o sangue, quase solidificado, nas veias e artérias. Enquanto isso, ia pensando onde arranjaria comida. Estava nisto, quando olhou na direcção do companheiro. Viu-o todo encolhido, com as pernas entre os braços, e reparou que se esboçava um leve sorriso nos seus lábios. Resolveu perguntar, mal-humorado:
- Por que estás com essa cara? Esta noite não foi diferente das outras, só frio e fome.
- Pois não, mas tive um sonho extraordinário. Sonhei que vivia numa enorme casa, com as paredes ornamentadas a papel bordado a ouro, lareira acesa, lençóis perfumados, criados ao meu serviço, crianças em volta a correr, a mulher sorrindo, vinhos do melhor – respondeu o companheiro. E retorquiu, com uma comiseração pouco comum entre abandonados:
- E tu, com o que sonhaste?
- Eu não sonhei com nada – respondeu o primeiro, de semblante carregado.
- Tens sorte – disse o companheiro, após ter reflectido um pouco.
- Olha que não, tu é que tens sorte.
- Não! Desculpa, és tu.
-Não, és tu. – E discutiram, eternamente, sem conseguirem chegar a qualquer acordo.»
Estou um velho, cansado e doente, porém não cheguei ainda aos 50. O meu corpo não passa de um esqueleto, em forma de cabide, para andrajos sujos, rasgados que exalam odores a vómito e vinho azedo. Reflecti muitas vezes, de que me valia continuar a vaguear pelas ruas e ruelas, sem destino ou finalidade. No entanto, sem nunca ter chegado a uma conclusão, faço-o há anos, tantos que já lhes perdi a conta. Estou farto, há muito tempo que pressinto que a minha hora se aproxima. Não vou durar muito tempo, disso tenho eu a certeza, pelo menos desde que comecei a tossir sangue. «Deve ser dos ratos que comi?...», penso eu para comigo.
Tomei uma decisão, não vou esperar por ela. Pelo menos, por uma vez, serei eu a comandar a minha vida. Pensei em diversas formas de o fazer: lançar-me de uma ponte, deitar-me na linha do comboio, com a cabeça no lado de dentro dos carris, esbarrar contra um automóvel, em alta velocidade, na Avenida 24 de Julho. Não quero ser notícia de jornal e virar cobertor. Decidi então que devo morrer anonimamente, como aliás quase sempre vivi. Tanto engendrei que arranjei maneira. Para que a coisa funcione, os farrapos que visto terão de ter pior aspecto do que aquele que já têm, cheirar ainda pior, não a vinho, mas a cadáver. Isso será fácil de conseguir, bastar-me-á esfregá-los nas carcaças das ratazanas defuntas, meio comidas pelas suas congéneres e pelos vermes. Depois, terei de conseguir ingerir o máximo de álcool possível, de forma a ficar a sonhar, por muito e bom tempo, com o Paraíso.
No dia seguinte, tal como esperei, fui levado para a morgue e dado como morto. Despachadas as diligências e papeladas burocráticas necessárias. Numa carroça guiada por um coveiro desdentado, puxada por uma mula velha sorridente, fui transportado para o cemitério – porque mais não merece quem nunca fez por merecer. Depois, sem direito a padre, lágrimas ou epitáfio escrito numa lápide de pedra, fui sepultado.
Quando já pensava que me encontrava noutro mundo, acordo estupefacto, num quarto branco de hospital. Mais tarde, contaram-me como tudo se tinha passado. Parece que momentos antes de ser enterrado, numa vala comum, por mero acaso de sorte ou azar, o coveiro terá ouvido um pequeno movimento, seguido de um ligeiro gemido. Não muito surpreendido, habituado a mortos-vivos, o coveiro terá perguntado:
- Oh, homem! Você ainda está vivo?
Sem me mexer nem abrir os olhos gritei, num som surdo vindo do fundo do caixão:
- Não, por favor, continue com o seu serviço e em silêncio! Por respeito ao morto.
Para todos os efeitos, ressuscitei, como Cristo. Encontro-me hoje regenerado. Não por ter deixado de beber, mas porque me tornei num pobre, tuberculoso e não menos abandonado escritor anónimo.

Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades do Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, o aumento gradual daquela falsificação conhecida como Os Protocolos dos Sábios Anciãos de Sião, que inspirará a Hitler os campos de extermínio, jesuítas que tramam contra os maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam os padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que entre os vapores do absinto planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Óptimo material para um romance-folhetim de estilo oitocentista, para mais, ilustrado com os feuilletons daquela época. Há aqui do que contentar o pior dos leitores. Salvo um pormenor. Excepto o protagonista, todos os outros personagens deste romance existiram realmente e fizeram aquilo que fizeram. E até o protagonista faz coisas que foram verdadeiramente feitas, salvo que faz muitas que provavelmente tiveram autores diferentes. Mas quem sabe, quando alguém se movimenta entre serviços secretos, agentes duplos, oficiais traidores e eclesiásticos pecadores, tudo pode acontecer. Até que o único personagem inventado desta história seja o mais verdadeiro de todos, e se assemelhe muitíssimo aos outros que estão ainda entre nós.
edição: Gradiva
título: O Cemitério de Praga
autor: Umberto Eco
tradução: Jorge Vaz de Carvalho
formato: 15,5x23cm (capa mole)
n.º pág.: 557
isbn: 9769896164089
pvp: 21.00€