
Espantoso, tenho três filhos iguaizinhos a mim, cada um deles com uma personalidade diferente, tal e qual como eu tenho três personalidades diferentes: a que exibo, a que tenho e a que penso que tenho.

Espantoso, tenho três filhos iguaizinhos a mim, cada um deles com uma personalidade diferente, tal e qual como eu tenho três personalidades diferentes: a que exibo, a que tenho e a que penso que tenho.
Viagem: é a primeira de muitas "ideias infantis". Uma rubrica nova sobre livros infantis que vai passar a aparecer por aqui. A propósito de uma ideia, percorremos as estantes da Pó dos livros numa espécie de caça ao tesouro, à procura de livros que de alguma maneira a ilustrem, aproveitando para aconselhar novas leituras.
3."O Pau de Giz" - a viagem do pau de giz vermelho começa quando a Sara o resolve trocar por um berlinde. Nesse momento, inicia-se um número sem fim de trocas de objectos até voltarmos a reencontrar o pau de giz vermelho que vai desenhar um maravilhoso jogo da macaca gigante. Perfeito para contar a apreciadores de histórias saltitantes e divertidas apartir dos 3 anos e para leitores de histórias movimentadas a partir dos 7 anos.
4.Oh, que lindo que é o Panamá, de Janosch, Editora Kalandraka, pvp 14.00 euros.



Como foste capaz. Que desilusão e tanta gente esperou por ti, e para quê… para isto? Que desgraça. Olha, como dizia o outro: a desgraça não basta para fazer de um cretino, como tu, uma coisa inteligente. Apetecia-me gritar, esbracejar, lançar insultos, impropérios, contar a toda gente o que tu és. Mas não, tu não mereces que falem de ti, mesmo que seja para te desmascarar. Deves ser banido, esquecido, obliterado, reciclado. Não tenho adjectivos para te qualificar. Que desengano, que golpe, que desapontamento. E não adianta dizeres que a culpa é de quem te escreveu, porque esse é autor de livros afamados.
Livreiro anónimo



Não é de agora, sempre o fizemos: satisfazer aqueles pedidos que ninguém quer aceitar, porque dão muito trabalho e pouco retorno financeiro. Isto é, fazemos, sistematicamente périplos pelos alfarrabistas, feiras de usados, em busca de um só livro que há muito se encontra esgotado e que não custa mais de cinco euros, mas que o cliente deseja muito adquirir. Por vezes dizem-nos que fazemos milagres.
Por isso, dizíamos, decidimos rendermo-nos à evidência e criar uma secção inteira só para os livros usados.
O Gonçalo Mira partilha a sua opinião sobre a 81ª edição da Feira do Livro. Para ler aqui, na íntegra, retirado do blogue Cadeirão Voltaire.
Foi provavelmente por isso que só comprei livros na Assírio & Alvim, na Tinta-da-China e nos Alfarrabistas. Fui à Feira sobretudo para estar com as pessoas. E mesmo quando ia para ver livros, acabava por ficar retido na Assírio para mais uma imperial e dois dedos de conversa.
Acabou antes de ontem mais uma Feira do Livro de Lisboa. Não quero saber se foi ou não foi um sucesso. Pelos rumores, não foi, mas se calhar não passa disso mesmo, apenas rumores. De uma coisa eu tenho a certeza, para os pequenos livreiros que nela não participaram, foi mesmo um sucesso, na medida em que teve um enorme efeito no decréscimo das suas vendas. E mais uma vez se verificou, um pouco por cada pavilhão, o desrespeito total pela lei do preço fixo, em livros com menos de dezoito meses de edição e nos “histéricos” descontos praticados
Muita gente pergunta porque é que a Pó dos livros, entre outras livrarias independentes, não participa na Feira do Livro. Em primeiro lugar, e uma vez que grande parte das livrarias independentes não são editoras, é necessário conseguir a representação de uma ou mais editoras (normalmente estrangeiras), para vender com margens comerciais que nos permitam fazer descontos significativos ao cliente. Afinal de contas, é essa uma das principais razões porque se realiza a Feira.
Em segundo lugar, uma livraria para poder participar nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto, com os mesmos custos dos editores, tem duas hipóteses: por um lado ou é sócia da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), e para isso paga uma mensalidade no valor correspondente ao escalão que lhe cabe de acordo com a sua facturação anual, mais a inscrição na Feira e os custos que envolvem os pavilhões, etc. Por outro lado, se não pertence à associação, tem que seguir as regras, conforme se descreve nos Regulamentos de participação das Feiras do Livro de Lisboa e Porto, nomeadamente, a alínea b) do número 1 do artigo 4.º, e que diz o seguinte: Podem participar nas feiras: editores, distribuidores, livreiros ou outros retalhistas que não integrem a associação, desde que reúnam condições de pertença e paguem uma taxa especial equivalente à respectiva quota anual.
Se os meus estudos em Direito me serviram para alguma coisa, é saber interpretar esta alínea b), que na prática nos diz o seguinte: ou pagas a taxa especial em doze prestações, fazendo-te sócio da APEL, ou pagas a pronto. Até aqui tudo bem, é o preço a pagar por não seres alinhado. No entanto, acontece que a Pó dos Livros e outros livreiros, nem sempre sabem se vão conseguir ter, todos os anos, alguma coisa para vender na Feira. E a livraria Pó dos livros (como muitas outras) não se sente minimamente representada por uma associação que não defende os pequenos livreiros e é totalmente dominada pelos grandes grupos editoriais e grandes retalhistas. É só por essa razão que não pertence à APEL. E, não sendo associada, o facto de se ter que pagar uma taxa no valor total de um ano de mensalidades, inviabiliza qualquer possibilidade económica de um pequeno livreiro poder participar na Feira. Simplesmente não temos as margens comerciais de um editor.
Vou contar uma pequena história, para que entendam melhor. A livraria Pó dos Livros participou na 79.ª Feira do Livro de Lisboa, em parceria com uma editora (para reduzir os custos e assim conseguir participar) e com bastante êxito. Foi um sucesso em termos de vendas, bem como na repercussão que teve junto dos leitores e da comunicação social. Levámos a maior representação de sempre (não exclusiva) de livros da Penguin, à Feira do Livro de Lisboa. No ano seguinte tentámos fazer o mesmo. Mas, qual não foi o nosso espanto, quando chegámos junto do representante da referida editora e nos foi dito que não era possível fazer a Feira nos mesmos moldes do ano anterior. Teriam que nos baixar substancialmente as margens comerciais, o que na prática, fazendo contas aos custos, nos impedia de participar. Perguntámos porquê, já que tinha sido, para ambos os lados, um sucesso comercial e de marketing. Apenas nos foi reafirmado que não podia ser. Mais tarde, por portas travessas, viemos a saber que um grande grupo de retalho tinha “coagido” a sede da referida editora em Espanha, com a insinuação de que as suas compras de livros à Penguin iriam diminuir substancialmente, se a representação principal da editora não passasse por eles. O que se veio, infelizmente, a verificar. Faço uma pergunta: nestes dois últimos anos, alguém ouviu falar da Penguin na Feira do Livro?
Voltando um pouco atrás. A verdade é que as grandes Feiras do Livro, provocam quedas abruptas nas vendas das livrarias, cujos efeitos se prolongam muito para além da duração das mesmas. Obrigando-as, muitas vezes, a ter que recorrer ao crédito bancário, com juros altíssimos, para fazer face às suas despesas correntes e levando-as a ter os fornecimentos cortados por parte dos distribuidores, durante uns tempos. Não podemos competir com a política de preços baixos praticada, constantemente, pelos grandes grupos de retalho ou editoras em campanhas e feiras de livros por todo o país. A concorrência é completamente desleal e por vezes até ilegal. Por outro lado, também é verdade que existe uma desmedida pressão sobre as editoras, principalmente sobre as independentes, por parte do grande retalho, no sentido de as obrigar a esmagar as suas margens comerciais. Conseguem-no servindo-se do enorme poder negocial que têm, asfixiando as já debilitadas tesourarias das editoras independentes. Todavia, estas editoras e as outras, nunca fazem o mesmo tipo de desconto aos pequenos livreiros. É frequentes os pequenos livreiros encontrarem à venda nos grandes espaços, livros com melhores descontos do que aqueles que podem conseguir comprando directamente aos editores. E esta é, lamentavelmente, a lei do mercado.
Exposto isto, não nos resta a nós, pequenos livreiros, outra alternativa senão criarmos uma Associação de Livreiros Independentes, o que não é fácil, com os escassos recursos que temos e as distâncias geográficas que nos separam.
Talvez seja eu que acabo de ler o Dom Quixote e ande a sonhar com moinhos de vento. Pode ser que seja!…
Jaime Bulhosa


***
Pois eu cá acho, na minha modéstia opinião, que o facto de existirem menos mulheres escritoras do que homens (nos dias de hoje, realço), não tem nada a ver com passar a ferro ou lavar a loiça. Isso também eu faço todos os dias. A culpa é do mercado, é sempre do mercado. E como o mercado é uma entidade abstracta, não se acusa ninguém e fica toda a gente contente. O mercado, lá está, é que dita o que se vende e o que não se vende, influenciando o que se edita e o que não se edita. Logo, como a grande maioria dos leitores de romances são mulheres… raciocínio imediato: a maior parte das mulheres gosta de homens, certo!?... Bem, é melhor não me adiantar sobre este assunto. Ora, toda gente sabe que os homens falam pouco, se comparados com as mulheres, que falam demais – como ficou bem patente nos comentários colocados no post da Maria do Rosário Pedreira, cuja leitura aconselho vivamente. Vai daí ser natural que as mulheres já estejam fartas de se ouvir e aproveitem os “poucos” momentos de lazer e silêncio – isto é, ausência de outra mulher na mesma sala –, que o acto de ler necessariamente implica (pelo menos para os homens que não conseguem fazer duas coisas ou mesmo tempo), para escutar o que os homens têm a dizer, nem que seja através de um livro. É que normalmente em casa eles não falam, seja porque elas não deixam, seja porque eles foram “espairecer” um pouco a cabeça. Ufa! Tenho dito!
Nota: Devo esclarecer que quase tudo o que escrevi é pura ironia e representa um vulgar estereótipo de mulher. A verdade é que as mulheres continuam a ser prejudicadas, tanto nesta área como em quase todas as outras.

Tenho quase… até tenho vergonha de o dizer, não porque me sinta velho; o sentimento da idade é relativo: é-se sempre jovem ou velho por comparação com outra pessoa. Compreende-se que os homens de quarenta ou cinquenta anos continuem a sentir-se jovens, pois sabem que ainda existem homens de setenta ou oitenta. Eu estou, precisamente, nessa faixa etária, ou seja, naquela idade em que ainda nos podemos comparar com os da última idade. No entanto, esta idade traz-nos pelo menos uma vantagem em relação aos homens ainda jovens: a de tentarmos viver o mais vagarosamente possível e aproveitarmos aquilo que a vida nos traz de bom e, relativizarmos o que a vida nos traz de mau.
Li um texto muito curto, extraordinariamente belo, de Júlio Ramón Ribeyro, retirado do Livro Prosas Apátridas, edição AHAB, que exemplifica exactamente o que vos quero dizer:
Conhecer o corpo de uma mulher é uma tarefa tão lenta e tão louvável como aprender uma língua morta. A cada noite que passa, acrescenta-se um novo território ao nosso prazer e uma nova palavra ao nosso já considerável vocabulário. Mas haverá sempre mistério por desvendar. O corpo de uma mulher, todo o corpo humano, é por definição infinito. Começa-se por ter acesso à mão, esse apêndice utilitário e instrumental do corpo, sempre à mostra, sempre disposto a entregar-se a quem quer que seja, que lida com todo o tipo de objectos e adquiriu, à força da sociabilidade, um carácter quase impessoal e anódino, como se fosse o funcionário ou o porteiro do palácio humano. Mas é o que se conhece em primeiro lugar: cada dedo vai-se individualizando, adquirindo um estatuto familiar, e depois cada unha, cada veia, cada ruga, cada imperceptível sinal. Além disso, não é só a mão que conhece a mão: também os lábios conhecem a mão e lhe emprestam um sabor, um odor, uma consistência, uma temperatura, um grau de suavidade e aspereza, uma comestibilidade. Há mãos que se devoram como a asa de um pássaro; outras acostam-se na garganta como um eterno cadafalso. E que dizer do braço, do ombro, do seio, da coxa, do...? Apollinaire fala das sete Portas do corpo de uma mulher. Apreciação arbitrária. O corpo de uma mulher não tem portas, como o mar.
Dir-vos-ei: ou estão com um demasiado jovem – e nesse caso é bem-feito – ou as minhas caras amigas não são a mulher certa.
Jaime Bulhosa
- Bom dia, minha senhora. Tem livros de poemas?
- Tenho sim!?...
- E qual é o preço?
Nota: Este curto episódio até teria graça, se não fosse tão triste. Quem trabalha com o livro, por vezes esquece-se que a grande maioria da população portuguesa nunca entrou numa livraria; não sabe explicar a diferença entre uma biblioteca, uma livraria e uma papelaria e nunca leu um livro na vida. O "acesso" ao livro e à leitura continua a ser, ainda nos dias de hoje, apenas para uma elite.
Jaime Bulhosa

Estou num vazio tal de inspiração que não me ocorre, sequer, uma imbecilidade para escrever. Até para se ser mentecapto é necessário ter inspiração. Existem dois tipos de imbecis: os superficiais e os profundos. Eu prefiro os imbecis superficiais, são mais genuínos, terra-a-terra, dizem imbecilidades sem nenhum tipo de pretensão e normalmente têm graça. Os profundos são mais elaborados, complexos, pedantes adulterados pelo estudo e que recorrem normalmente à imbecilidade dos outros para elaborar teorias tolas, com duplo sentido. «O idiota é aquele que, quando se lhe conta uma história com um duplo sentido, não entende nenhum deles» e «não existe nenhuma espécie mais perigosa de estupidez que a de uma inteligência aguçada». No entanto, «devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem-sucedido». Por isso, amigos, «percebam que no mundo existem muito mais tolos do que homens, e lembrem-se disso». «Porque, por mais imbecil que eu seja, sempre haverá um imbecil maior para achar que eu não o sou.»
Jaime Bulhosa
«Tal como eu, o meu filho tem as suas especializações, as suas fontes, as suas referências, às quais recorre quando quer justificar uma afirmação ou uma ideia. Mas se as minhas são os filósofos, os romancistas ou os poetas, as do meu filho são os vinte álbuns de aventuras do Tintim. Neles tudo está explicado. Se falamos de aviões, animais, viagens interplanetárias, países longínquos ou tesouros, ele tem sempre à mão a citação certa, o texto irrefutável que vem em socorro das suas opiniões. É o que se chama ter uma visão, porventura falsa, do mundo, mas coerente e muitíssimo mais sólida do que a minha, pois inspira-se num só livro sagrado, sobre o qual ainda não recaiu a maldição da dúvida. Só com o tempo é que o meu filho se dará conta de que essas explicações tão simples não se harmonizam com a realidade e que é necessário procurar outras mais sofisticadas. Mas essa primeira versão ter-lhe-á sido útil, como a placenta intra-uterina, para se proteger das contaminações do mundo adulto e desenvolver-se com essa margem de segurança necessária a seres tão frágeis. A primeira brecha no seu universo colorido e aos quadradinhos será o sinal da perda da sua candura e da entrada no mundo individualista dos adultos, depois de habitar o mundo genérico da infância, do mesmo modo que no seu rosto surgirão os traços dos antepassados, quando se resignar à mascara da espécie. Então terá de perscrutar, indagar, apelar a filósofos, romancistas ou poetas, que devolvam ao seu mundo harmonia, ordem e sentido; inutilmente, aliás.»
Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, edição AHAB

Londres,
edição: Ulisseia
Título: O Parente Mais Próximo
Autor: John Boyne
Tradução: Fátima Halbritter de Sousa
Formato: 15,5x22cm (capa mole)
n.º pág.: 482
isbn: 9789725686584
pvp: 19.95€


Um dia de sol primaveril e do cimo do Jardim de São Pedro de Alcântara, o Castelo de São Jorge, a Sé de Lisboa e o casario contrastavam com o azul do rio Tejo. Os turistas aproveitavam as férias da Páscoa do ano de 2031 para visitar a cidade de Lisboa. A cidade estava linda como sempre, muita gente nas ruas e nas esplanadas dos cafés a aproveitar o sol.
Lisboa não tinha mudado muito desde o ano de 2011. Também eu passeava pela baixa com o meu neto, quando fui interpelado por um turista britânico que me perguntou:
- Excuse me, where can I find a bookshop?
Baixei a cabeça, olhei para o chão e respondi envergonhado, no meu mau inglês:
- Can not! There are no bookshops in
- And a Bookfair?
- Can not! There are no Bookfairs in Lisbon.
Jaime Bulhosa


«A revolução venceu ao fim de 18 dias insones e tensos. E no dia a seguir qual é a tarefa mais importante? Limpar o lixo como quem limpa 30 anos. Onde antes afundávamos os pés em plástico e entulho, agora não há uma beata. (...) Mais, que é aquilo? Tinta fresca? Sim, raparigas e rapazes e crianças a pintarem os separadores de trânsito, devolvendo-lhes as listas brancas e pretas. E ajoelham-se para isso, quando necessário, porque o país é deles.»
A autora de «Caderno Afegão» e «Viva México» viveu a Revolução do Egipto no Cairo. Esteve na praça Tahrir, dormiu na praça Tahrir e foi da praça Tahrir que viu Hosni Mubarak cair do poder e todo um país celebrar.
«Tahrir - Os Dias da Revolução» não é uma reportagem, é o relato inédito dessa experiência. Um retrato dos dias de Fevereiro de 2011 em que um povo tentou mudar o destino do seu país, reacendendo o ímpeto revolucionário pelo mundo.
título Tahrir - Os Dias da Revolução
autora: Alexandra Lucas Coelho
formato: 14x21 cm (capa mole)
n.º pág.: 112
isbn: 9789896710828
pvp: 12.90€
«Se há coisa injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Penso que o ciclo da vida está de trás para a frente, invertido. Deveríamos morrer primeiro e livrarmo-nos logo desse problema. A seguir, viver num asilo, ser corrido para fora de lá a pontapé, por estarmos demasiado novos. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Depois de trabalhar 40 anos, rejuvenescer o bastante para aproveitar a reforma. De seguida divertirmo-nos ao máximo, bebermos muito álcool, fazermos muitas festas e prepararmo-nos para a faculdade. Entrar no liceu, termos várias namoradas, ficar crianças sem nenhuma responsabilidade, até ficarmos um bebé de colo. Voltar para útero da nossa mãe, passar os últimos nove meses de vida flutuando. E terminar tudo com um óptimo orgasmo! Não seria perfeito?»
Um velho louco, um sábio ou um santo? Não sei qual das descrições é a melhor, indubitavelmente confundimos as três.
A fisionomia era a de um velho, mas não a de um velho vulgar, tinha qualquer coisa de diferente, uma característica particular que eu não sabia identificar, talvez fosse estrangeiro. Embora aparentasse ser muito velho, o cabelo ainda era bastante abundante, comprido e totalmente cinzento, como se estivesse coberto por pó de talco. Fazia lembrar as cabeleiras, encaracoladas, postiças, que nos habituámos a ver nos retratos do Marquês de Pombal. De olhos encovados, parecia não dormir há séculos. A pele pálida do rosto estava flácida, caída, imensamente encarquilhada, mas, paradoxalmente, suave, diria quase de veludo. Estão a ver um Sharpei: aquela raça de cão, tamanho M, a qual vestiram com a pele de outro cão, tamanho XXL. Notava-se que tinha sido um homem alto, mas a curvatura da espinha, sustentada por uma velha bengala, era tão acentuada, que o convertia num corcunda. Vestia bem, com um casaca comprida de boa qualidade, mas com um corte antiquado como as que se usavam no século XIX – resistência comum das pessoas idosas ao que é novo - . O perfume que lançava, coincidente com as vestimentas, cheirava a mofo misturado com naftalina.
Esta é a descrição fiel do cliente que tinha à minha frente. Como é da praxe e obrigação, cumprimentei-o com um bom-dia e sorriso largo nos lábios. Depois, perguntei-lhe o que desejava. Respondeu-me com uma voz rouca e seca. A pronúncia, tal como suspeitava, era estrangeira, oriunda de um qualquer país francófono:
- Bonjour. – Cumprimentou-me em francês, denunciando a sua origem. – Infelizmente não lhe posso dizer qual mon désir, sem que primeiro me prometa solennellement e pour la vie que jamais revelará o segredo que estou disposto a contar-lhe, se, évidemment, vous avez ce que je cherche.
Achei engraçada a abordagem, e em pensamento encolhi os ombros e disse para comigo: «porque não… nada tenho a perder». E jurei.
- Juro! – disse eu, levantando a mão direita.
- Não chega, pour la vie – disse-me o cliente, com ar sério.
- Que não seja por isso. Juro pela minha vida.
Satisfeito com o acto majestoso, o cliente pergunta:
- Diga-me, quel âge me donnez-vous?
Pelo aspecto, diria que teria mais de cem anos, mas não quis parecer deselegante, nem perder um cliente, pelo que decidi mentir.
- Se o senhor fosse une dame, como deve imaginar, nunca lho diria. Todavia, como foi o próprio cavalheiro que me perguntou, deixe-me ver… talvez setenta, setenta e dois, no máximo.
Esboçando um ligeiro sorriso, o homem acrescenta:
- Je sais que não vai acreditar, mais plus tard entenderá – diz o cliente com um ar misterioso. – J’ai plus ou moins le même âge que Noé était quand il est mort.
- Noé!... Qual, o do Antigo Testamento? – disse eu, incrédulo.
- Celui memê.
– Quer o senhor dizer que tem novecentos e cinquenta anos!?...
- Exactement! Plus cinquante ans, moins cinquante ans. Je ne peux pas dire ao certo, porque ma mémoire já não é o que era.
Ups! Definitivamente tinha à minha frente não um sábio nem um santo, mas um velho louco. Não era a primeira vez que me via perante um alienado, por isso, resolvi seguir com a brincadeira:
- Vamos partir do princípio que o senhor me está a dizer a verdade. Contudo, deve concordar que é difícil de acreditar, o que me diz desafia todas as leis da natureza. Ora, como isso só é possível através de intervenção divina, o senhor é um milagre vivo – argumentei, sem me rir e com o semblante mais compenetrado possível.
O cliente permaneceu impávido.
- Elle est pertinente, la question posée, et je reconnais que c'est difficile à croire, mais trata-se, en effet d’un miracle. Relembro, no entanto, que comecei esta conversation dizendo que tinha un secret para lhe contar e que esse secret é un miracle, mais só lho posso revelar se tiver, na sua librairie, le livre que je cherche.
E imediatamente me sussurra no ouvido o livro que pretendia. Não vos posso revelar qual o texto, porque estou sob juramento. Apenas vos posso adiantar que era um livro com mais de mil anos, de um santo muito conhecido e que eu obviamente tinha disponível. Fui buscá-lo à estante e entreguei-lho. Todo contente, de livro na mão, o cliente, como prometido, revela o seu segredo. Segredo esse, por sinal bastante desanimador, que consistia na memorização de apenas uma pequena frase. Quando dita em voz alta, de trás para a frente, no exacto momento em que a morte nos aparece, a reacção seria tão terrivelmente assustadora que a morte fugiria para longe e só voltaria a ganhar coragem para nos reaparecer um ou dois séculos mais tarde. É claro que este segredo possibilitava que uma pessoa pudesse viver quase infinitamente, mas não garantia a juventude eterna – nada é perfeito – daí o aspecto do meu cliente.
Estupefacto com a revelação, questionei-me sobre qual seria a necessidade de o meu cliente adquirir um livro do qual apenas retiraria uma pequena frase de fácil memorização e por que motivo me revelaria a mim o segredo. Não aguentando de curiosidade, perguntei-lhe as razões:
- Vous savez, a idade não perdoa. E não é que cette phrase stupide avait été complètement effacée de ma mémoire. Quanto ao livre, emprestei-o há siècles a un ami que até hoje não mo devolveu et j’ai une ligeira suspeita que jamais o devolverá.
- Sim, entendo - digo eu, impaciente. – Mas porque me revelou a mim o segredo?
- Oh! Je suis fatigué. Quero quebrar o feitiço e só fini quando o revelamos a outro.
- E resulta mesmo?
- Bon, para saber isso vai ter de lui attendre.
Quando se preparava para se retirar, pára, dá meia volta e diz:
- Ah! J’ai oublié… Convém estar vigilant durante o sono, la morte est matreira e costuma aparecer de nuit.
Desde esse dia, passei a padecer de horríveis insónias. As horas parecem anos e as noites séculos.

Oliver tem 18 anos e uma enorme vontade de se divertir antes de entrar na Universidade. Mas estamos nos anos 20 e ele vive em Stilbourne, uma pequena cidade no meio de Inglaterra, onde toda a gente sabe tudo... Pior do que isso: Oliver quer ser artista. Nunca tal se ouviu na pequena povoação de trabalhadores rurais. Romance quase autobiográfico do autor de O Senhor das Moscas, A Pirâmide traça o percurso de um jovem em busca da sua identidade e da liberdade de ser diferente num mundo estereotipado. Uma obra marcante e um dos textos mais importantes de Golding.
edição: Ulisseia
título: A Pirâmide
autor: William Golding
tradução: João Cruz
formato: 16,5x22cm (capa mole)
n.º pág.: 286
isbn: 9789725686447
pvp: 19.95€