
- A vida está difícil e eu quero ler qualquer coisa divertida, alegre, alguma coisa, como dizer… daqueles livros que nos fazem levantar o ânimo.
- E de que se trata?
Tenho respondido a esta pergunta, ao longo de vários anos, de maneiras muito diversas. Por exemplo:
Em épocas de vacas magras e doido por conseguir vender um livro, respondo: Trata-se de uma toxicodependente que conhece um pederasta e que no meio dos horrores da guerra se salvam um ao outro graças ao amor, isto é, conto o argumento e normalmente tenho sucesso. Contudo, independentemente da época e quando não estou muito compreensivo para com os clientes, se lhes digo que se trata de um velho que enlouquece e que se empenha em ser o herói dos livros que leu, mascarando-se de cavaleiro, colocando uma tigela na cabeça, saindo para a rua montado numa pileca velha, é fatal dizerem-me que não estão interessados em velhos loucos. No entanto, é exactamente disso que trata, o Dom Quixote.
Em épocas de vacas gordas não necessito de contar nada.
Nos momentos em que me sinto um pedagogo, digo: os romances não valem pelos temas que abordam mas pela capacidade que o autor tem em criar um mundo verosímil no qual nos inclui durante trezentas páginas e donde, quem sabe, não sairemos nunca. Mas esta pode ser uma explicação insuficiente e pouco clara. Os romances valem sobretudo pela forma como estão narrados e não pelo que narram. A ficção pode ser verdade ou mentira dependendo do talento do narrador. Os romances não valem pela sua historieta mas pelas virtudes do narrador. O que interessa é descobrir a riqueza do relator e não daquilo que é relatado. Nenhuma história é válida se não estiver bem narrada.
livreiro anónimo











