quarta-feira, agosto 10

Para quem não conhece a Pó dos Livros


Nota: entrevista realizada para a revista Montepio, em 16 de Maio de 2011, pelo jornalista Filipe Avillez.

P: Para quem não conhece a Pó dos Livros, qual é a especificidade da sua livraria?

R: A Pó dos Livros é uma livraria de bairro, independente, alternativa, com livreiros experientes e gosto pela partilha das suas leituras. Tem um conceito arquitectónico que nos transporta para um ambiente retro, decorada com objectos de outros tempos, fazendo lembrar as antigas e tradicionais livrarias de Londres, com estantes altas, negras, de madeira trabalhada, e com as paredes coloridas. Procura atrair um público diferenciado do das livrarias de grande superfície, clientes mais exigentes, mais selectivos, se quiser. Oferecemos um largo conjunto de livros, que passa pelas novidades editoriais dos autores mais valorizados, pelo fundo de catálogo, pelos clássicos da literatura que, cada vez mais, são difíceis de encontrar nas livrarias de centro comercial. Tentamos dar o máximo de visibilidade aos catálogos das pequenas editoras, a edições de autor e a textos esquecidos. Privilegiamos, sem nenhum pudor de o expressar, as editoras e chancelas de qualidade. Somos particularmente exigentes na selecção dos livros da secção infantil e juvenil, tanto em termos da qualidade gráfica como pedagógica. Afinal de contas, é quase sempre nestas faixas etárias que se ganha o apetite, ou não, pela leitura. Tentamos sempre satisfazer aqueles pedidos que ninguém quer aceitar, porque dão muito trabalho e pouco retorno financeiro, isto é, fazemos, sistematicamente, périplos pelos alfarrabistas, feiras de usados, etc., em busca de um só livro que há muito se encontra esgotado e que não custa mais de cinco euros, mas que o cliente deseja muito adquirir. Por vezes, dizem-nos que fazemos milagres. Apostamos nos novos meios de comunicação gratuitos que a Internet nos proporciona, como o blogue, o twitter e o facebook. Creio não errar se disser (e passe a imodéstia) que a Pó dos Livros é a livraria em Portugal com o maior número de fãs no facebook, sendo o nosso blogue um dos mais visitados na área dos livros.

P: Parte central do trabalho do livreiro passa pela selecção das obras a comprar. Quando se editam em média 40 livros por dia no nosso país, como é que lida com isso?

R: Essa é uma das grandes dificuldades na gestão de uma livraria. O espaço físico é obviamente limitado para o exagerado número de livros que se edita e que ultrapassa as reais necessidades do consumidor. Basta entrar num armazém de qualquer editor, olhar para as montanhas estagnadas de livros acumulados, para apurarmos que isso é verdade. O mercado do livro é o único em que, quando decresce a procura, aumenta a oferta. Este paradoxo é resultado das mais ou menos recentes políticas comerciais adoptadas por quase todas as editoras, face à necessidade contínua que têm de lançar novidades, por vezes com qualidade duvidosa, de forma a servir as exigências dos hipermercados, colocando em perigo, do meu ponto de vista, todo o sector do livro. É impossível uma livraria ter tudo, tanto fisicamente como financeiramente. Não nos resta outra opção (o que alguns editores não entendem) a não ser seleccionar, escolher criteriosamente os títulos e autores que nós acreditamos serem os ideais para o perfil do nosso cliente. E excluir aqueles títulos que consideramos terem menos hipóteses de serem vendidos, mas que, no entanto, podem sempre ser encomendados. Desta forma, tentamos reduzir, tanto para nós como para os editores, os custos inerentes às devoluções.

P: No seu blogue escreveu recentemente sobre o perigo de, num futuro próximo, deixar de haver livrarias em Portugal. Porquê?

R: O que escrevi foi um alerta, uma provocação. Obviamente, continuará a haver livrarias. Contudo, o seu número poderá diminuir drasticamente e a uma velocidade ainda maior do que aquela que fez desaparecer as lojas de música da Valentim de Carvalho, se nada se fizer, é claro, para evitar a pirataria e defender os direitos de autor. Porquê? Essa é uma questão à qual não podemos responder em poucas linhas e que levanta muitas outras questões às quais numa entrevista curta como esta é impossível responder cabalmente. Vou tentar responder o mais sucintamente possível, tocando apenas nalguns pontos que me parecem importantes:

Em primeiro lugar, acredito que a grande parte dos livros impressos, com excepção dos livros que as pessoas querem ler na íntegra, como romances, poesia, teatro e similares, irão no máximo, em uma ou duas gerações, ser substituídos pelos chamados livros electrónicos. Para dar um exemplo: a maior livraria virtual do mundo, a Amazon, já vende mais livros electrónicos do que livros impressos. Aparentemente, esta realidade levou a que a conhecida cadeia de livrarias Barnes & Noble tenha encerrado algumas das suas mais emblemáticas lojas, enquanto novas livrarias especializadas e independentes surgem e se afirmam nesse mercado. E como normalmente tudo o que acontece nos Estados Unidos se repete rapidamente nos países da Europa, algo de análogo poderá vir a acontecer nas grandes cadeias de livrarias em Portugal. Receio não poder vir a dizer o mesmo em relação às nossas livrarias independentes. Os segmentos e nichos de mercado no nosso país são tão pequenos que, presumivelmente, não permitirão um fluxo suficiente de vendas para que o mesmo suceda por cá. Se não queremos ver no futuro as nossas cidades despidas de livrarias, teremos que fazer uma reflexão séria sobre se elas têm ou não uma função importante na divulgação do livro e da leitura. Se não têm, então não são necessárias, mas se têm, então devem ser apoiadas. Não digo todas. Poder-se-ia criar uma espécie de selo de qualidade para aquelas que de facto desenvolvam esse trabalho, o qual, forçosamente, teria de obedecer a uma série de critérios apertados.

Em segundo lugar, é ultrajante o desrespeito total pela lei do preço fixo, principalmente os descontos praticados em livros com menos de dezoito meses de edição, nas grandes Feiras do Livro de Lisboa e do Porto. Isso só acontece porque infelizmente não existe nenhum tipo de fiscalização, ou se existe ninguém liga nenhuma. Estas feiras prejudicam gravemente as livrarias que nelas não participam. A verdade é que as grandes Feiras do Livro provocam quedas abruptas nas vendas das livrarias, cujos efeitos se prolongam muito para além da duração das mesmas. Isto obriga as livrarias, muitas vezes, a terem de recorrer ao crédito bancário, com juros altíssimos, para fazerem face às suas despesas correntes durante esse tempo. Não podemos competir com a política de preços baixos praticada constantemente pelos grandes grupos de retalho ou editoras em campanhas e feiras de livros por todo o país. A concorrência é completamente desleal e por vezes até ilegal. Por outro lado, também é verdade que existe uma desmedida pressão sobre as editoras, principalmente sobre as independentes, por parte do grande retalho, no sentido de as obrigar a esmagar as suas margens comerciais. Conseguem-no servindo-se do enorme poder negocial que têm, asfixiando as já debilitadas tesourarias das editoras independentes. Todavia, estas editoras, e as outras, nunca fazem o mesmo tipo de desconto aos pequenos livreiros. É frequente os pequenos livreiros encontrarem nos grandes espaços melhores margens comerciais do que aquelas que podem conseguir comprando directamente aos editores. E esta é, lamentavelmente, a lei do mercado.

P: Paulo Teixeira Pinto afirmou, recentemente, que no último ano a indústria dos livros não tinha sido afectada pela crise. Por outro lado, eu ouço os livreiros e editores a falar de crise há muito tempo… em que é que ficamos? E como é que um livreiro independente lida com a crise?

R: Com todo o respeito e sem nenhum tipo de ironia, quem sou eu para pôr em causa o que esse senhor afirma ou com que intenção o faz. Provavelmente, terá acesso a números a que os livreiros não têm possibilidade de aceder. No entanto, não me parece que a indústria do livro possua um antivírus, um antídoto contra a crise, e o argumento de que quem compra livros são só as pessoas que têm dinheiro é completamente falso. O facto de se editarem muito mais livros para se venderem mais alguns livros, não significa necessariamente maiores proveitos. Concordo que o sector, o ano passado, não tenha sido dos mais afectados, comparado com outras áreas. Mas é inegável, desde que se começou a falar em crise, já lá vão uns anos (sobretudo após os rumores da entrada do FMI em Portugal e que infelizmente vieram a concretizar-se), as vendas nas livrarias não têm parado de cair. Respondendo à sua pergunta: como é que um livreiro independente lida com a crise? Diria que é inovando, diferenciando-se, saindo da loja, procurando clientes noutros locais, nomeadamente nos espaços públicos, organizando eventos, workshops, debates, tertúlias, associando-se, cooperando, etc. Se nada disto resultar, resta fechar as portas, como tem vindo recentemente a acontecer a muitas livrarias independentes.

P: As pessoas que trabalham no ramo dos livros, como é o seu caso, ou como editores, ou como livreiros, ou as duas coisas, parece que ficam “agarradas” e nunca mais saem... qual é a paixão de trabalhar com livros?

R: Não creio que actualmente isso ainda seja verdade. Cada vez mais chegam ao nosso sector profissionais, nomeadamente gestores de produto, que nada têm a ver com essa paixão e que trabalham o livro como trabalham outro produto qualquer. Depois partem para outras paragens. Antigamente, sim, os livreiros, que eram muitas vezes também editores, vinham essencialmente de gerações de outros livreiros que depois passavam aos seus sucessores a paixão pelos livros e pela leitura. Os editores, cada vez mais raros, e também eles, agora, transformados em gestores de produtos, são, ou eram, sobretudo homens da cultura, da procura do saber, da escrita, interesses que claramente os faziam querer estar junto dos escritores e do livro. No meu caso, é mesmo carolice. Gosto do objecto, do prazer que a leitura me oferece, da ilusão; da loucura, como dizia Voltaire, que surge nos homens quando pretendem ser sábios.

Jaime Bulhosa


pequenas leituras



Há abraços mesmo especiais,

ladrões de galinhas que correm por gosto,

um rinoceronte que adora conversar e comer panquecas,

e um balão vermelho que esvoaça pelos ares, dando início a uma divertida viagem de uma menina e alguns amigos a bordo de um autocarro amarelo.


Modo de utilização: ler em cima da toalha de praia, à sombra de uma árvore ou debaixo de um chapéu de sol.


Boas férias.











O abraço perfeito de Joanna Walsh e Judi Abbot, Civilização . Pvp 11.50 euros

O ladrão de galinhas de Béatrice Rodriguez, Bags of books. Pvp 15.00 euros

Os rinocerontes não comem panquecas de Anna Kemp e Sara Ogilvie, Civilização. Pvp 11.50 euros

O meu balão vermelho de Kazuaki Yamada, Gato na lua. Pvp 14.90 euros

segunda-feira, agosto 1

Time Out


Saiu na Edição Especial de Coleccionador, da revista Time Out, esta pequena nota:

«Muitas das livrarias cujo nascimento fomos noticiando durante estes 200 números, infelizmente, já fecharam. Ainda maior o mérito de Jaime Bulhosa e Isabel Nogueira, portanto, que nesta semana de 2007 abriram a Pó dos Livros. A Time Out foi à Marquês de Tomar espreitar o espaço e gostou tanto que lhes dedicou uma página inteira no início da revista. Continua a ser um dos nossos espaços de eleição quando queremos fugir às grandes lojas.»

Auto-de-fé

Nota: Há muito tempo que não lia um primeiro capítulo de um livro tão prometedor.

Jaime Bulhosa

- Que fazes aqui, pequeno?

- Nada.

- Então, porque estás parado?

- Porque…

- Sabes ler?

- Sei sim, senhor.

- Quantos anos tens?

- Nove, já feitos.

- Que preferias: um chocolate ou um livro?

- Um livro.

- Porque não mo disseste antes?

- O meu pai ralha-me.

- Ah… Como se chama o teu pai?

- Franz Metzger.

- Gostarias de viajar até outro país?

- Sim, senhor. Até à Índia. Há lá muitos tigres.

- E onde querias ir mais?

- À china. Tem uma muralha enorme.

- Gostarias de escalá-la?

- É demasiado larga e alta. Ninguém pode escalá-la. Foi por isso que a construíram.

- Sabes bastantes coisas. Vê-se que tens lido muito.

- Sim, estou sempre a ler. O meu pai tira-me os livros. Gostava de frequentar uma escola chinesa. É preciso aprender quarenta mil letras. Todas juntas não cabem num livro.

- Isso é o que tu julgas.

- Contei-as.

- De qualquer maneira, não está certo isso. Deixa lá os livros da montra. Não há lá um único que seja bom. Tenho aqui na pasta uma coisa melhor. Espera aí que já ta mostro. Sabes que escrita é esta?

- Chinesa! Chinesa!

- És aquilo a que se chama um rapazinho esperto. Já tinhas visto algum livro chinês?

- Não, mas adivinhei.

- Estes dois caracteres significam Meng-Tse, o filósofo Meng. Foi um grande homem na china. Viveu há 2250 anos e as suas obras continuam a ser lidas. Recordar-te-ás disto?

- Sim, senhor. Agora tenho de ir para a escola.

Ah! Com que então olhas para as montras das livrarias quando vais para escola? Como te chamas?

- Franz Metzger. Como o meu pai.

- Onde moras?

- Na Rua Ehrlich, 24.

- Eu também vivo aí. Não me lembro de te ter visto.

- O senhor desvia sempre os olhos quando se encontra com alguém na escada. Eu conheço-o há muito tempo. O senhor é o professor Kien, mas não dá aulas. A minha mãe diz que o senhor não é professor de verdade. Mas eu julgo que é, porque tem uma biblioteca. Ninguém é capaz de imaginar o que isso é, disse a Maria. É a nossa criada. Quando for grande, hei-de ter uma biblioteca. Com todos os livros e em todas as línguas e um em chinês também. Agora tenho de ir a correr.

- Quem escreveu este livro? Recordas-te?

- Meng-Tse, o filósofo Meng. Há exactamente 2250 anos.

- Muito bem. Podes ir um dia à minha biblioteca. Diz à minha governanta que te dei autorização. Mostrar-te-ei postais da Índia e da China.

- Que bom! Lá irei! Claro que irei! Pode ser esta tarde?

- Não, não, pequeno. Tenho de trabalhar. Não antes de uma semana.»


Auto-de-fé é o único romance de Elias Canetti. Obra magistral, catapultou este escritor de génio forte e individual para a categoria dos principais autores europeus, ao lado de Robert Musil, Hermann Broch e Karl Kraus. Proibido pelo regime nazi aquando da sua publicação, este é hoje considerado um dos livros fundamentais da história da literatura ocidental. Auto-de-fé narra a história do professor Peter Kien: sinologo e erudito. O seu apartamento é uma imensa biblioteca onde Kien se refugia para evitar todo e qualquer contacto físico e social. O ponto de viragem da sua vida é o casamento com Therese, a sua governanta. Se Kien é um homem composto de livros, Therese é a sua contra figura pragmática e mesquinha. Expulso da sua própria casa, Kien empreenderá uma viagem aos infernos, com final trágico e surpreendente.

edição: Cavalo de Ferro

título: Auto-de-fé

autor: Elias Canetti

tradução: Luís de Almeida Campos

n. º pág.: 525

isbn: 9789896231422

pvp: 22.00€