sexta-feira, setembro 30

Livros usados


Sempre houve leitores dos mais casuais aos que lêem apenas os clássicos. E sempre existirão não-leitores, dos que lêem só um livro (como os skinhead), àqueles que não tiveram possibilidade de esbarrar com um. O perigo não vem de se ler muitos livros mas de se ler apenas um. Os primeiros não necessitam de ser convertidos, os segundos, em muitos casos, não podem sê-lo e se o pudessem, talvez eu fosse a pior pessoa para o fazer. Vendo e compro livros há tantos anos que já se transformaram numa mercadoria. Não é bonito viver do tráfico do produto do sangue, suor e lágrimas dos outros, Já vos estou a ouvir, ofegantes, barafustar: é como se eu estivesse a vender a alma ao Diabo. Concordo, nem todos os livros são mercadoria, subsistem aqueles que são escolhidos por paixão, a dedo. Depois lemo-los deleitados, guardamo-los, vendemo-los, cuidadosamente, para muito provavelmente, nunca mais os voltarmos a tocar. Mas vale a pena!

Jaime Bulhosa

terça-feira, setembro 27

Máquina fantástica



«[...] Um dia, vindo de Inglaterra para os poucos dias de férias em Lisboa, o Diogo, então com seis anos, passou horas sentado à minha mesa, a escrever na minha velha máquina (uma Remington, da mesma idade que eu, e para a qual ainda olho hoje com gratidão).
quando o pai chegou, foi a correr ter com ele:
- Pai, não vais acreditar! A avó tem uma máquina fantástica, que imprime tudo automaticamente.

Alice Vieria, O livro da Avó Alice, Lua de papel 2010

segunda-feira, setembro 26

Diamantes de Sangue



Na província angolana da Lunda­‑Norte, onde se concentram as principais áreas de exploração aluvial diamantífera, grande parte dos habitantes vive em regime de quase escravatura. São impedidos de manter actividades de auto­‑subsistência, roubados, torturados, assassinados. As forças armadas e as empresas privadas de segurança protagonizam os crimes com total impunidade. As autoridades e o governo ignoram esses crimes.
Jornalista de investigação, Rafael Marques é um dos principais responsáveis por denunciar e divulgar os esquemas de corrupção que envolvem as mais altas esferas do poder em Angola, bem como as empresas e entidades estrangeiras que com ele negoceiam.
«Diamantes de Sangue» é uma investigação sobre personalidades, instituições e empresas envolvidas no negócio dos diamantes e inclui o testemunho de centenas de vítimas.


edição: tinta-da-china
título: Diamantes de Sangue
autor: Rafael Marques
n.º de páginas: 232
formato: 14x21 cm
isbn: 9789896710859
pvp: 15.90€

terça-feira, setembro 20

esqueci-me como se chama



Cliente: Bom dia, queria o livro esqueci-me como se chama?
Livreira: Bom dia. Esqueceu-se? mas, não se lembra de nada do título, sobre o que trata o livro, autor, para o podermos ajudar?


Se ainda não tivessemos recebido o novo livro da Bruaá, este diálogo surrealista poderia ter lugar, aqui na Pó dos livros. Mas, ele já chegou e sim, o cliente sabia muito bem o título - "Esqueci-me como se chama".
É um belíssima colectânea de histórias e poemas de Daniil Harms, ilustrada por Gonçalo Viana e tem tudo para ser lida e relida, contada e recontada vezes sem conta, a pequenos e grandes leitores.
Não o percam de vista e não se esqueçam do nome!


"Esqueci-me como se chama", Daniil Harms e Gonçalo Viana, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, edição Bruaá, 2011. Pvp - 14.00 euros.


Débora Figueiredo



quarta-feira, setembro 14

Era da facilidade




O Plano Nacional de Leitura, entre os muitos livros aconselhados para leitura nas escolas, tem alguns livros de banda desenhada. Nada tenho contra. Aliás escrevo esta pequena história, exactamente por causa de um desses livros. Um cliente, mais ou menos da minha idade, entra na livraria. Depois dos cumprimentos feitos, o senhor passa a explicar que o seu filho necessitava, urgentemente, de elaborar um pequeno trabalho de casa sobre um livro aconselhado pelo PNL. Até aqui nada de estranho. Só que o cliente não queria, propriamente, o livro aconselhado pelo PNL. Para meu espanto e de quem se encontrava ao meu lado, pergunta:
- Será que a vossa livraria não terá, por acaso, um livro com o resumo de Asterix e Cleópatra?


Jaime Bulhosa

sexta-feira, setembro 9

Os ecrãs do futuro


Depois de ver este filme, ainda haverá alguém que acredite que, num futuro muito próximo, o livro em papel não passará de um objecto artístico de luxo?


terça-feira, setembro 6

Geniociclopédia IV


Sir Isaac Newton não foi apenas o maior matemático e cientista do mundo. Foi também Mestre da Casa da Moeda Real em Londres de 1699 a 1727, um período que correspondeu à bolha especulativa da Companhia dos Mares do Sul, porventura o período de expansão e contracção mais famosa da história das finanças. Com a ajuda do seu intelecto incomparável e do seu acesso ao que hoje podia ser considerado informação privilegiada, Newton investiu na Companhia dos Mares do Sul e vendeu as suas acções com um lucro de 100 por cento em Abril de 1720, estimando que o seu preço havia já subido em demasia. Mas Newton, apesar de ser matemático supremo, calculou as coisas mal. Em Junho do mesmo ano, achou que tinha subestimado as boas perspectivas das acções da Companhia dos Mares do Sul. Reinvestiu os proventos da sua especulação anterior, acrescentado muito dinheiro que pediu emprestado. Quando a bolha rebentou três meses mais tarde, Newton havia perdido toda a sua fortuna de 20000 libras, equivalente a 5 milhões de libras actuais. Newton retirou-se da vida pública e não levou muito tempo a deixar Londres, desafogando as suas mágoas contra o mundo da finança numa citação que ficou célebre: «Sei calcular os movimentos dos astros celestes, mas não a loucura das pessoas»

Do livro Capitalismo 4.0, Anatole Kaletsky, Aletheia

segunda-feira, setembro 5

S.O.S. Angola


Entre Julho e Novembro de 1975, quase 200 mil portugueses interromperam abruptamente uma vida inteira passada em Angola e vieram para Portugal através de uma das maiores pontes aéreas de resgate de civis jamais implementadas. Aviões da TAP e de várias companhias estrangeiras voaram sem pausas entre Lisboa e África para trazer todos os que quisessem sair das cidades e dos confins de Angola antes da independência. O desespero dos últimos meses e o medo de morrer às mãos dos chamados movimentos de libertação levaram milhares de colonos a correr para os aeroportos à procura de um lugar nos aviões que partiam de Luanda e Nova Lisboa a toda a hora e sobrelotados, com pessoas a viajar em porões e casas de banho para aproveitar o espaço ao máximo. Comissários e assistentes de bordo trabalharam sem folgas nesses meses loucos, acompanhando homens, mulheres, crianças, famílias inteiras desamparadas e soldados à beira da morte. As tripulações, exaustas, nunca conseguiram esquecer esses dias, nem as mães que lhes pediam para ficarem com os filhos. Recuperando esse tempo de angústia e agitação, S.O.S. Angola é um livro dramático e profundamente enternecedor, que revela cada pormenor desta epopeia e evoca as tragédias pessoais de quem teve de sair de África sem nada em direcção a um país desconhecido que, ainda por cima, acabara de viver uma revolução. Para os passageiros da Ponte Aérea, o futuro não podia ser mais aterrador.

edição: Oficina do Livro

título: S.O.S. Angola

autor: Rita Garcia

n.pág.: 253

isbn: 9789895558100

pvp: 14.90€

sexta-feira, setembro 2

Mulheres


Existem três formas de aprendermos: «Através dos livros, através da vida ou através das mulheres que vamos conhecendo, sejam elas avós, mães, irmãs, amigas, amantes...»

Arturo Pérez-Reverte

Onze Tipos de Solidão


A partir da vida de empregados de escritório em Nova Iorque; de um taxista que ambiciona a imortalidade; de jovens romancistas frustrados; de professores desprezados pelos alunos; de homens do subúrbio e das suas mulheres deprimidas e negligenciadas, de aperitivos e martinis e bares de jazz sem glamour nenhum, Richard Yates constrói um mosaico assombroso dos anos 1950, período em que o sonho americano começava finalmente a concretizar-se e, em simultâneo, a revelar um grande vazio.

Publicado a seguir ao romance que consagrou Richard Yates - Revolutionary Road - o conjunto de onze histórias - ilustrando cada uma delas uma vertente desses Onze Tipos de Solidão - cria, para lá do retrato, uma forte atmosfera de alienação e desconexão social.

edição: Quetzal

autor: Richard Yates

tradução: Nuno Gerreiro Josué

n.º pág.: 337

isbn: 9789725649527

pvp: 17.90€

quinta-feira, setembro 1

Capitalismo 4.0


No início de 2009, muitos economistas, financeiros e comentadores nos media estavam convictos de que a América deixaria de liderar o mundo capitalista que moldou a história e a economia dos últimos 100 anos. No entanto, o modelo económico norte-americano, longe de ser desacreditado pode ter saído afinal fortalecido da crise financeira.

Neste livro provocador, Anatole Kaletsky reinterpreta a crise financeira como parte de um processo evolutivo inerente à natureza do capitalismo democrático. O capitalismo, defende o autor, é elastic. A sua primeira forma, o Capitalismo 1.0, foi o clássico capitalismo laissez-faire que durou entre 1776 e 1930. De seguida surgiu o Capitalismo 2.0, o capitalismo social do New Deal keynesiano criado em 1930 e extinto na década de 70. A sua última mutação, o mercado fundamentalista de Reagan-Tatcher, culminou na globalização financeira da última década e desencadeou a recessão de 2009-10. A auto-destruição de Capitalismo 3.0 deixa a porta aberta à nova fase evolutiva do capitalismo. O Capitalismo deverá transformar-se nas próximas décadas em algo diferente quer do mercado fundamentalista completamente desregulado de Reagan e Tatcher quer da era Roosevelt-Kennedy. Este é o Capitalismo 4.0.

edição: Aletheia

autor: Anatole Kaletsky

tradução: Carlos Marques

n.º pág.: 466

isbn: 9789896223298

pvp: 18.00€