quarta-feira, outubro 26

Incumprimento do crédito à habitação




Em plena manhã negra de chuva, reclamava em voz alta diante da porta fechada da loja.
Um homem, classe média, passou e perguntou:
- Porque reclamas?
- Porque me esqueci da chave da porta.
- Ah – diz o homem – tu, ao menos, ainda tens porta.

Ferdydurke



«Gombrowicz dá piruetas e troveja, atemoriza-se e zomba, mas é completamente sério quanto à sua crítica aos “ideais” elevados. Ferdydurke é um dos poucos romances que conheço que pode ser chamado de nietzschiano […] Extravagante, brilhante, perturbador, corajoso, engraçado, maravilhoso… Viva a sua zombaria sublime.»

Susan Sontag 

edição: 7 nós
título: Ferdydurke
autor: Witold Gombrowicz
tradução: Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes
n.º pág.: 306
isbn: 9789898306050
pvp: 19.00€  

segunda-feira, outubro 24

perder teorias



Convidado para um congresso internacional em Lyon, um duplo do escritor Enrique Vila-Matas fica abandonado no seu hotel. Compra um exemplar da revista “Magazine Littéraire” dedicada a Julien Gracq e elabora uma teoria geral do romance. Quando regressa a Barcelona, descobre a inanidade de todas as teorias literárias.

edição: teodolito
título: Perder Teorias
autor: Enrique Vila-Matas
tradução: Jorge Fallorca
n.º pág.: 85
isbn: 9789899747401
pvp: 10.00€

sábado, outubro 22

Ordenados em atraso na Bulhosa

Partindo do principio, e acredito que sim, de que esta notícia é verdadeira: ordenados em atraso na Bulhosa; não posso deixar de ficar profundamente triste e chocado com a situação dramática que os funcionários da Bulhosa devem estar a viver. Quero expressar a minha solidariedade, para com antigos colegas e para com aqueles que já não tive oportunidade de conhecer. A Bulhosa Livreiros foi fundada, em 1989, por três irmãos: por mim, o Paulo e o Gonçalo. Todavia, tanto eu como meus irmãos, prescindimos há pelo menos meia dúzia de anos de ter qualquer ligação com esta empresa; apesar de ainda ostentar o nosso nome. Criámos esta empresa a partir de uma só livraria e fizemo-la crescer até sete livrarias. Evidentemente que isso só foi possível com a ajuda dedicada de quem connosco trabalhou. Muitos desses colegas ainda lá se mantêm e podem confirmar que o espírito da empresa, nessa altura, era outro. Bem, mas essa é outra história e que não interessa aqui contar.

Eu entendo que uma empresa possa estar a passar dificuldades, ainda para mais tratando-se de uma livraria, no meio desta imensa crise económica. Já não entendo, tão facilmente, porque é que a situação não foi devida e atempadamente explicada aos funcionários da Bulhosa. Desejo, sinceramente, que a situação se resolva rapidamente e da melhor maneira possível, tanto para os funcionários como para os proprietários.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, outubro 20

Como deve funcionar o mundo

As leis devem governar a humanidade. As mulheres devem governar os homens. E os homens devem fazer as leis.
Livreiro anónimo num ataque de machismo encapotado de feminismo.

O Último Segredo

Chegou o novo livro de José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo. O título não pode ser mais sugestivo. Se não vendermos hoje, pelo menos cinco exemplares, estamos oficialmente em crise:


Uma paleógrafa é brutalmente assassinada na Biblioteca Vaticana quando consultava um dos mais antigos manuscritos da Bíblia, o Codex Vaticanus. A polícia italiana convoca o célebre historiador e criptanalista português, Tomás Noronha, e mostra-lhe uma estranha mensagem deixada pelo assassino ao lado do cadáver. A inspectora encarregada do caso é Valentina Ferro, uma beldade italiana que convence Tomás a ajuda-la no inquérito. Mas a sucessão de homicídios semelhantes noutros pontos do globo leva os dois investigadores a suspeitarem de que as vítimas estariam envolvidas em algo que as transcendia. Na busca da solução para os crimes, Tomás e Valentina põem-se no trilho dos enigmas da Bíblia, uma demanda que os conduzirá à Terra Santa e os colocará diante do último segredo do Novo Testamento. A verdadeira identidade de Cristo. Jose Rodrigues dos Santos baseia-se em informações históricas "genuínas". O Último Segredo desvenda-nos a chave do mais desconcertante enigma das Escrituras.

edição: Gradiva
título: O Último Segredo
autor: José Rodrigues dos Santos
n.º pág.: 564
9789896164461
pvp: 22.00€

Curso de Auto-Edição


Estão abertas as pré-inscrições até ao dia 10 de Novembro de 2011 para o Curso de Auto Edição, Curso Prático Para a Criação De Publicações de Natureza Gráfica, a realizar no Centro de Investigação e de Estudos Arte e Multimédia (CIEAM), da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Para se inscreverem nesta fase de selecção os candidatos deverão enviar a ficha de pré inscrição para o e-mail do CIEAM. As entrevistas de selecção com portfólio serão marcadas posteriormente e realizar-se-ão nos dias 14 e 15 de Novembro de 2011, entre as 18h30 e as 20h30. Data de comunicação da lista de participantes: 16 de Novembro. Datas de inscrição e pagamento: 16, 17 e 18 de Novembro. O curso terá início no dia 21 de Novembro de 2011 até 13 de Março de 2012, às Segundas e Terças feiras, no horário pós-laboral das 18h00 às 22h00, perfazendo um total de 120 horas de formação.

Para mais informações ver aqui.

Um Mundo Iluminado




Vivemos num mundo desprovido de heróis ou referências. O panteão dos deuses gregos é hoje uma curiosidade histórica, e o Deus omnipresente da Idade Média já não nos comanda as acções. Onde encontrar, então, um sentido para as nossas escolhas? Para a nossa existência?
Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly procuraram respostas nos grandes clássicos da literatura ocidental. De Homero a David Foster Wallace, os autores propõe-nos uma releitura das obras-primas onde se enraíza a nossa cultura. Em pinceladas breves e incisivas, revisitam Melville e a maníaca perseguição a Moby Dick, descem ao inferno de Dante, revêem Descartes ou Kant. E redescobrem um antídoto para o niilismo contemporâneo, para o nosso inflexível individualismo. Um Mundo Iluminado é uma obra desconcertante, de dois académicos que ousam descer da cátedra para reflectir sobre o modo como vivemos. E que nos devolvem o sentido da procura (e a procura de sentido), que são os desígnios da filosofia.

edição: Lua de Papel

título: Um Mundo Iluminado

autor: Hubert Dreyfus & Sean Dorrance Kelly

tradução: Grancisco Gonçalves

n.º pág.: 285

isbn: 9789892315874

pvp:15.90€

quarta-feira, outubro 19

Comércio de bairro

Não é verdade, que cada livraria de bairro ou de província que tenha que encerrar, por ser incapaz de aguentar a crise económica ou acompanhar os baixos preços das grandes superfícies, representa uma perda para o abastecimento espiritual e cultural dessa zona?

Nos últimos meses têm-nos chegado notícias preocupantes, sobre o encerramento contínuo de livrarias independentes em Portugal. Só nos últimos seis meses, encerraram mais de dez livrarias independentes, espalhadas um pouco por todo país. Demonstre, de uma forma muito simples, que dá importância à sobrevivência das livrarias tradicionais. Basta que partilhe esta mensagem com os seus amigos e que eles, por sua vez, façam gosto na página do Facebook da livraria Pó dos Livros e de outras.

Obrigado.

terça-feira, outubro 18

Geniociclopédia V

Um escultor brasileiro, sem qualquer formação artística, escolhe bocados de madeira e extrai deles animais. Alguns desses animais são seus conhecidos, outros não. Um dia em que esculpe uma girafa, sem qualquer modelo, sem nenhuma imagem deste animal que nunca tinha visto, alguém lhe pergunta como é que faz.

- É muito simples – responde ele. – Pego o meu bocado de madeira, começo a trabalhar e tudo o que não pertence à girafa, boto fora.

Claraboia


A acção do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respectiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respectivo filho - nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respectiva mulher e uma "mulher por conta" no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respectiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate - debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis - com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?

edição: Caminho

título: Clarabóia

autor: José Saramago

n. pág.: 398

isbn: 9789722124416

pvp: 18.50€

sexta-feira, outubro 14

Fico muito contente



Jaime Bulhosa

Milagres, milagres...


Alegre, simpático, de estatura e rosto, de onde se destacavam um bigode fino e um par de óculos que, com o chapéu adequado, seria a verdadeira reencarnação do poeta Fernando Pessoa. O cliente em questão, entra na livraria de manhã cedo, de papel na mão:

- Bom dia. Tenho aqui comigo uma entrevista sobre a vossa livraria e que me chamou a atenção; até porque necessito de um livro que sei que está esgotado e é muito difícil de encontrar. Passo a citar, Jaime Bulhosa: A Pó dos livros tenta sempre satisfazer aqueles pedidos que ninguém quer aceitar, porque dão muito trabalho e pouco retorno financeiro, isto é, fazemos, sistematicamente, périplos pelos alfarrabistas, feiras de usados, etc., em busca de um só livro que há muito se encontra esgotado e que não custa mais de cinco euros, mas que o cliente deseja muito adquirir. Por vezes, dizem-nos que fazemos milagres. Pergunto: Se são capazes disto tudo e se por acaso não me conseguirem arranjar o livro, também serão capazes de o escrever?

Post reciclado, revisto e actualizado

Plano de Acção

Uma grande empresa do grande capital e do sector editorial, que a partir de agora, por uma questão de comodidade, passaremos a chamar de Editores SA, pensa, embora contrariada, investir milhões de euros na compra e remodelação de uma grande cadeia de livrarias. Como o investimento é muito elevado, a Editores SA não pôde deixar ao acaso uma decisão destas, encomendando por isso um exaustivo estudo prévio sobre os hábitos de leitura e os factores principais de influência na decisão de compra de livros impressos e digitais, bem como o respectivo Plano de Acção, para mais tarde poder pôr em prática essa extraordinária ferramenta de gestão que é o benchmarketing.
A melhor empresa alemã de consultadoria, que a partir de agora designaremos como Consultores SA, foi contratada. A Consultores SA sentiu o peso da responsabilidade e do cliente e também ela não quis deixar ao acaso um estudo desta importância. Assim, colocou ao serviço do seu cliente os melhores recursos técnicos de research. Depois de consultados os melhores especialistas na área, como, editores, autores, escritores, críticos literários, doutores, engenheiros, etc., a Consultores SA definiu o problema, desenvolveu o plano de pesquisa, recolheu os dados secundários e primários, tratou os dados, analisou e interpretou. Após largas semanas de árduo trabalho, finalmente elaborou um Plano de Acção, que de imediato foi enviado à Editores SA. O Plano de Acção consistia num relatório de 1000 longas páginas, com os mais belos e coloridos gráficos, de linha, cone, esferas e paralelepípedos, tabelas e análises desenvolvidíssimas, resultados de sondagem e inquéritos à porta de livrarias, por telefone, Internet, aos universos mais completos dos leitores, por idades, sexo, classes sociais, habilitações, gostos e passatempos, etc., etc. Nunca se havia visto melhor estudo de mercado sobre o livro. Era tão completo, que se podia saber pormenores interessantíssimos, como por exemplo: homens de meia-idade, de classe social A, que usam ceroulas, lêem apenas livros religiosos; os que não usam roupa interior lêem apenas teatro; e os que usam lingerie feminina lêem Margarida Rebelo Pinto. Na Editores SA foi uma excitação: com este Plano de Acção ninguém os poderia bater. Decidiu-se então a compra e remodelação da cadeia de livrarias e, como acção publicitária, anunciou-se a construção da maior e mais moderna livraria do País. Reunido grupo de trabalho com os melhores arquitectos, directores de marketing, informáticos e gestores, e depois de quase todos os temas e problemas terem sido debatidos, foi lançada uma nova questão:

- Pessoal, como vamos dividir o novo espaço comercial em termos percentuais das diversas secções temáticas de livros?

- Como assim?

- Sim, em que temas vamos apostar mais - ciências sociais, ficção, infantil... -, enfim, que livros vamos vender.

Primeiro fez-se um silêncio confrangedor. Depois cada um e ao mesmo tempo, com elevados decibéis, dava um palpite. Com um murro no tampo, o Presidente do Conselho de Administração, pôs ordem na mesa.

- Silêncio, por favor! Mas, afinal de contas, para que é que encomendámos o estudo de mercado?

Resposta quase em uníssono: - É verdade! o nosso Digníssimo Presidente tem toda a razão.

Mandou-se buscar o estudo. Depois de alguns meses a tentar interpretá-lo - sim, porque a produtividade das empresas portuguesas é assim, a brincar a brincar, trabalhamos mais meia hora, por dia, que os outros -, chegou-se à conclusão de que o Plano de Acção nada dizia sobre o assunto ou, se dizia, nas suas longas páginas não se conseguia descortinar. Ficou decidido passar a batata quente para a empresa de consultadoria, com o pretexto de se ter pago os olhos da cara por um Plano de Acção que era omisso relativamente a esta questão. Exigiu-se um resumo que pudesse ser facilmente interpretado para esta matéria e em português, porque em alemão, não dava jeito.

A Consultores SA entrou quase em pânico, boquiaberta, com a excentricidade da exigência da empresa portuguesa, sintetizar não era o forte nem a missão da empresa de consultadoria alemã.

Reunido o conselho de emergência, debateu-se largamente o busílis da questão. Finalmente elaborou-se um novo Plano de Acção, desta feita o mais sintético possível, com apenas uma página, e que era lavrado nos seguintes termos:

Exmos. Senhores,

Conforme nos foi solicitado por vossas excelências, segue o relatório sintético do Plano de Acção. Propomos a seguinte divisão temática das edições e espaços comerciais (alertamos para a importância de não inovarem demasiado, pois o mercado actual obedece a esta divisão):

Grandes livros – 2%
Bons livros - 5%
Livros medíocres – 23%
Lixo – 70%


Nota: A escolha dos títulos aconselháveis não é da nossa responsabilidade. A Consultores SA, apenas aponta caminhos, nunca soluções.


Com os nossos melhores Cumprimentos.
Consultores SA

Jaime Bulhosa

quinta-feira, outubro 13

Quero chegar ao fim do mês


Um pobre está a comer um bocado de pão seco em frente ao grelhador de um estabelecimento. O dono aparece para lhe cobrar o odor da carne assada. O pobre recusa. Chamam a polícia.
O polícia atira uma moeda para o chão e diz ao dono do restaurante:
- Paga-te com o barulho da moeda.

Déjà vu


Maquiavel apegava-se à convicção de que os homens são sempre os mesmos e têm sempre as mesmas paixões, de forma que, quando, as circunstâncias são similares, as mesmas causas devem conduzir aos mesmos efeitos:

Reparei no homem que estava, há bastante tempo, sentado à mesa do café da livraria. Deveria andar perto do seu sexagésimo aniversário. De estatura meã, sumida e semblante esguio. Lábios finos como se fossem apenas uma linha contínua que lhe desenhava os contornos da boca. Chamou-me a atenção, não pela aparência e trajes bem cuidados, mas pelo facto de segurar um livro, escrito em inglês, de pernas para o ar. Dava a sensação de que o fingia ler da direita para esquerda e de baixo para cima. O ligeiro movimento oposto que fez com a cabeça, levou-me, imediatamente, a suspeitar dele. Era óbvio que arquitectava algum plano para me roubar. Tão preocupado que estava, em seguir a minha actividade, nem deu conta que tinha segurado no livro ao contrário. – Este já eu apanhei! – Pensei para comigo.

Sem perder tempo, dirigi-me a ele:

- Ó meu caro amigo! a mim não me engana.

Interrompido, de forma abrupta, o “cliente” levanta a cabeça, vira os olhos na minha direcção e exclama:

- Já esperava ser incomodado!

- Escusa de estar, para aí, a fingir que lê inglês.

Disse eu, arrojado.

O homem, perto de um sorriso maldoso, responde-me:

- Todavia, estou de facto a ler. Não gosto muito é de ser interrompido quando o faço.

- Aí sim. Então porque segura o livro invertido?

- É um velho hábito. Não é que eu não consiga ler normalmente, mas foi assim que aconteceu. Sabe, fui educado por um preceptor que para além de ser inglês era excêntrico, maquiavélico e que achava que havia vantagens em aprender a ler com os caracteres de pernas para o ar. Não queira saber os incómodos que este método já me causou. Quando era jovem passava a vida a ter que fazer o pino, só para conseguir ler um cartaz de cinema. E os equívocos! tantas vezes provocados, apenas por ler livros virados do avesso. Imagine, noutros tempos, o que era estar sentado numa esplanada, sossegado e, ter por azar, na mesa da frente, uma bela mulher. De quanta chacota e risada, já fui alvo. Antigamente irritava-me muito…

Mandei-o parar com a conversa e intervim:

- Oiça lá, o senhor julga que me engana com essa ladainha!

- Cada um acredita no que quer.

Com esta resposta, levanta-se e dirige-se para a porta de costas, como num filme rodado ao contrário. Contudo, antes de sair, coloca o livro na estante onde ele pertencia.

Para meu espanto, passados apenas uns segundos, volta a entrar. Agora a caminhar normalmente. Pega novamente no livro, senta-se na mesa do café e inicia a leitura.

Abano a cachimónia entorpecido, tudo o que tinha acabado viver, não passava de um déjà vu. Não me atrevi a aborrecê-lo. Entretanto, fui distraído, durante um minuto, por outro cliente. Mal finalizo o que estava a fazer, não resistindo à curiosidade, procuro com os olhos o misterioso homem. Fiquei estupefacto, nem homem, nem livro e maldigo:

- Fui roubado! Traído por um safado de um déjà vu.

Némesis


No "calor demolidor da Newark equatorial" grassa uma epidemia aterradora que ameaça de mutilação, paralisia, incapacidade irreversível e mesmo de morte as crianças da Nova Jérsia. É este o tema surpreendente e lancinante do novo livro de Roth: uma epidemia de poliomielite em tempo de guerra, no verão de 1944, e o efeito que tem sobre uma comunidade de Newark, coesa e assente nos valores da família, e nomeadamente sobre as suas crianças.

edição: Dom Quixote
título: Némesis
autor: Philip Roth
tradução: Francisco Agarez
n.º pág.:206
isbn: 9789722048040
pvp:15.00€

terça-feira, outubro 11

Protesto


Quando pretendemos protestar contra alguma coisa ou contra alguém devemos aguardar primeiro, pacientemente, que nos causem o maior número de injustiças possíveis. Creio estar na hora do protesto.

livreiro anónimo

sexta-feira, outubro 7

Campanha Geração à Rasca

Durante os meses de Outubro a Dezembro de 2011, todos os desempregados e jovens à procura do primeiro emprego beneficiarão de um desconto de 50% em todos os cursos da Booktailors.

Para mais informações aqui: blogtailors

quinta-feira, outubro 6

Salvemos o Lince e a Serra da Malcata



É um lugar-comum dizer-se, nos dias de hoje, que vivemos num mundo em constante mudança. Um mundo em que as alterações do mercado são tão velozes que nos coíbem, sobretudo aos menos preparados e marginalizados, de reagir, às contrariedades, em tempo útil. Usando uma metáfora diria: como na natureza, qualquer ser vivo que não se adapte às alterações, rápidas, do seu meio ambiente, extingue-se. A não ser que o homem de forma inteligente, ou com alguma intervenção divina, o evite.


Antes de avançar para o tema específico deste texto, desejaria abrir um parêntesis, fazer uma breve distinção entre o que é uma livraria propriamente dita e o que é, por oposição, um espaço comercial que também vende livros.
As diferenças e desigualdades entre uma e outra são muitas e não importa aqui analisá-las todas em pormenor - elas são óbvias. Diria, de uma forma simples, que a principal diferença estará, provavelmente, na presença de um livreiro ou, pelo contrário, de um mero vendedor de livros. Tipicamente, o lema do vendedor de livros será «vender livros é como vender batatas». Um lema que se tornou anedota entre os livreiros: para vender batatas é preciso saber conseguir distinguir entre batatas para fritar, cozer ou assar; o que é quase a mesma coisa, como toda a gente sabe, de ambicionar a saber diferenciar entre, por exemplo, literatura surrealista, neo-realista e existencialista.
Ironia à parte, é exactamente por isso que se diz que já não há livreiros como antigamente. Que são uma espécie em vias de extinção. Que as grandes cadeias acabaram com eles. Que o funcionário que nos acolheu não sabia o que estava a fazer. De facto, tudo isso é verdade. Mas isso só acontece porque o livreiro é uma figura rara. Existiram e existem muito poucos, e sempre foi assim. Viver no meio de todo um universo de conhecimento humano, ainda que seja um privilégio, requer exigência e complexidade. E, como tal, não devemos pautar-nos pela mediocridade.
O livreiro é um autodidacta, não há nenhuma licenciatura que o possa formar. Claro que se pode e deve dar formação a quem queira trabalhar numa livraria, ou que, enquanto gestor e empresário, pretenda criar uma. Todavia, ser livreiro é outra coisa, é muito mais do que, simplesmente, vender livros. Tem de saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, lê-los, relê-los, entusiasmar-se por quem os escreve. Tem de compreender toda a cadeia do livro, desde que nasce, da mão do autor, até chegar ao leitor. Tem de conseguir vendê-los honestamente e incentivar o gosto pela leitura. E, se assim for, poderá reivindicar para si um papel importante como agente cultural.
Terminaria esta curta introdução, com uma afirmação que parece contraditória: Um livreiro não vende livros!
Um livreiro vende, antes de mais: aventuras, viagens e “Dom Quixote de La Mancha”; continentes, países, cidades e “Volta ao Mundo em Oitenta Dias”; romances, dramas, sexo e “Orgulho e Preconceito”; história, civilizações e “Odisseia”; batalhas, ódios e “Guerra e Paz”; reis, rainhas, “O Príncipe” e “ O conde de Monte Cristo”; música, versos, poemas e “Pessoa”; sonhos, auto-ajuda, artes divinatórias e outras mentiras. Tudo isto e muito mais, numa caixa chamada livro.

Passo agora para o tema aqui em questão:


O presente e o futuro das livrarias


Nos dias que correm parece ser uma fatalidade, em qualquer lado, em vez de ouvir falar, por exemplo, de livros, literatura e lazer, ser obrigado a ouvir falar de crise económica, política e mercado. A contragosto, também eu me vejo a isso forçado.
Começo com uma pergunta: será que as livrarias, tal como as conhecemos hoje, estarão a extinguir-se?
Eu responderia que sim. Porquê? Por causa da crise económica e financeira? Das políticas culturais e baixos índices de leitura? Das novas tecnologias e do livro digital ou, antes disso, uma causa interna ao próprio mercado do livro? Estas são algumas das possíveis questões, às quais vou tentar responder em traços largos.
Nos últimos meses têm-nos chegado notícias preocupantes sobre o encerramento contínuo de livrarias, tanto no estrangeiro como em Portugal. Para dar um exemplo, só nos últimos seis meses, encerraram mais de dez livrarias independentes, espalhadas pelo país. Infelizmente, é provável que fechem mais, não apenas entre as livrarias independentes, mas também entre as lojas das grandes cadeias - muito à semelhança do que está a acontecer por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Evidentemente, a crise económica, que teve o seu início em 2008, será a razão principal para o que está a acontecer, ou seja, o golpe que faltava para que as livrarias tradicionais definhassem de vez. Não podemos escamotear que esta é uma crise económica real, de dimensão inesperada e bem perceptível na degradação das condições de vida da maioria das pessoas. Mas não servirá esta crise, como bode expiatório perfeito para todos os males da cadeia do livro? Parece-me que sim.
Deixem-me colocar de lado a crise económica e financeira, para passar a abordar outro tema, outra crise, anterior à crise económica, e que vou apelidar de crise endógena.
Não poderemos compreender o presente, nem perspectivar melhor o futuro, se não olharmos primeiro para o passado. Neste sentido permitam-me partilhar a minha experiência, de 26 anos, a trabalhar com o livro e para o livro.
Quando comecei o ofício de livreiro, o mercado do livro generalista não era um mundo perfeito, nem idílico. Todavia, era mais homogéneo, simbiótico, bastante mais do que é hoje, no sentido em que todos dependiam de todos, como deve ser um mercado que pretende atingir a concorrência perfeita.
Os diversos agentes da cadeia do livro estavam razoavelmente equilibrados, tanto ao nível das dimensões quanto ao número de editoras, livrarias e outros agentes do livro. Era sobretudo composta por pequenas e média empresas. Havia diversidade cultural e partilhavam o mercado, com as suas especificidades, em concorrência saudável.
As regras tácitas estavam estabelecidas e eram quase sempre honradas. Particularmente no que se refere às margens comerciais e prazos de pagamento, concedidas pelos editores aos livreiros. As margens de pequenos, médios e grandes livreiros oscilavam entre 30% e 35% sobre o preço de venda ao público. Mas esta diferença podia facilmente ser anuladas através da diferenciação da qualidade do serviço. Actualmente, a discrepância da margem entre pequenos livreiros e grandes retalhistas varia entre 30% e 60%. O que é manifestamente injusto e incompatível para a manutenção de um mercado de concorrência equilibrada.
Evidentemente que a tiragem do número de livros e títulos editados também era muito menor, mas quantidade não significa qualidade e nem sempre melhores proveitos.
Uns anos mais tarde, por volta do ano de 1998, tudo mudou. Entram em cena os grandes grupos de retalho. Os livros passam a vender-se, um pouco por todo o lado, na FNAC, nos hipermercados, nos CTT, nas Bombas de gasolina, etc. As livrarias independentes, que representavam cerca 50% do mercado, diminuem rapidamente, para menos de 15%. Este factor fez com que estas passassem a ser, por comparação com o grande retalho, ostracizadas pelos editores. Simplesmente porque, individualmente, significavam uma pequeníssima parcela das suas vendas. Portanto, dispensáveis para a viabilidade económica de grande parte das editoras. – A meu ver, isto é incompreensível, tendo gerado grandes prejuízos no passado, e indo ainda gerar outros tantos no futuro, e não me refiro só aos livreiros, mas também a editores e leitores.
Neste novo ambiente, dá-se uma espécie de «bolha especulativa» da edição, do número de livros editados, sem correspondência proporcional com o aumento das vendas – «parece que as pessoas, com o aumento da escolaridade, em vez de quererem ler mais, passam a querer ser lidas» –.
É a chamada democratização do livro e, com ela, a uniformização, que tem infelizmente como resultado a tradução de edições pouco cuidadas e de qualidade literária duvidosa.
A dimensão de alguns retalhistas e a convergência da maioria das vendas em poucos operadores levaram à consequente diminuição das margens comerciais dos médios e pequenos editores. O sector editorial, sem capacidade negocial junto do grande retalho, vê-se em apuros. E procura uma saída para a crise nos novos grupos económicos, recentemente atraídos ao mercado do livro, que aparentemente consideraram ser um bom negócio. A seguir dá-se a concentração editorial, as pequenas e médias editoras passam de editoras independentes a meras chancelas, propriedade de investidores especulativos. Este novo cenário conduziu a que o mercado do livro se tenha transformado num oligopólio, tanto no sector editorial, como no sector do retalho. Com a especulação, as margens comerciais passam a ser ilógicas, totalmente desiguais, injustas. É como se tivéssemos colocado no mesmo ringue de boxe, sem árbitro, um peso pesado e um peso pluma e depois, de poltrona, ficarmos à espera de um final surpreendente.
A lei do preço fixo passa a não ser respeitada. A proliferação de feiras e campanhas, um pouco por todo o lado, cria no leitor a percepção de que o livro é barato, vulgar e que deve ser vendido com respectivo desconto e brinde a custo zero. E, no entanto, pura ilusão. Afinal de contas, não será que as coisas gratuitas nos podem trazer problemas, uma vez que objectos que nunca sonharíamos comprar se tornam tão apelativos, assim que são gratuitos? –
A lei da concorrência – não sendo eu jurista – parece não estar a ser aplicada, especificamente em algumas alíneas dos artigos n.º 4 e n.º 7. Na minha perspectiva, há controlo da distribuição, bem como privação temporária das fontes de abastecimento em prazo razoável de concorrência. Acontece, igualmente, fazerem-se edições de livros exclusivos, designadamente para a FNAC, privando o resto dos livreiros de acederem aos mesmos – não é ilegal, mas é no mínimo deselegante e pouco solidário entre parceiros. Para dar outro exemplo, os pequenos livreiros recebem, frequentemente, títulos que encomendaram ao mesmo tempo que os grandes retalhistas, e qual não é espanto quanto recebem os mesmos livros apenas um mês depois. Por vezes nem sequer recebem a primeira edição, mas as segundas ou terceiras edições. Será esta prática de abastecimento equitativa, adequada a uma concorrência saudável?
Depois da crise endógena e da crise económica, surge, quase ao mesmo tempo, a crise do livro impresso.
O livro, em forma de códice, tal como ainda o concebemos, vem sendo paulatinamente substituído pelo livro digital e pelo acesso fácil a conteúdos na Internet, particularmente no que diz respeito aos livros práticos e técnicos – alguém ainda se lembra da última vez que comprou uma enciclopédia em papel? Talvez sejam excepção os livros que se querem ler na íntegra, como os romances, a poesia, os livros infantis e similares. Todavia, temos recentemente o exemplo do último livro de José Saramago, que saiu primeiro em ebook e só depois em papel. Provavelmente, muitos mais se seguirão. Creio ainda que, através do livro electrónico, a leitura deixará de ser um acto individual, para passar a ser uma leitura social em rede. Não quer isto dizer, necessariamente, que seja uma má notícia para os leitores. No entanto, se o livro impresso deixar de ser financeiramente interessante para as grandes superfícies comerciais, serão estas, também, as primeiras, tão rapidamente como lhes deram importância, a retirar-lhes o espaço merecido.
A verdade é que há coisas, ou contrário de outras, que actualmente surgem muito depressa; absurdamente ou não, até a multinacional IKEA pretende lançar brevemente estantes para ebooks. Seja lá isso o que for, parece-me sintomático.
Quanto ao futuro das livrarias. A vantagem de se falar do futuro é de que ele ainda não aconteceu. E, como tal, tudo o que eu pudesse dizer não estaria errado. Se, por acaso, no futuro se verificasse o contrário, teria boas hipóteses de ninguém se lembrar do que eu disse. Por outro lado, se adivinhasse o futuro, seria considerado um visionário. Mas prefiro não arriscar vaticínios e deixar simplesmente algumas reflexões em jeito de perguntas:
- Será que um sector livreiro que assegure a pluralidade e a diversidade cultural, que divulgue o livro e a leitura, não deve ser protegido em caso de necessidade?
- Será que a variedade que caracteriza o mercado livreiro não é apenas a expressão do desenvolvimento cultural de um país, mas também a de todo um espaço linguístico?
- Por oposição aos supermercados de papel, não é verdade que os livreiros oferecem outros serviços, como o aconselhamento técnico, a selecção e a encomenda de outras obras que não só aquelas do êxito do momento?
- Não é verdade que, por cada livraria de bairro ou de província que tenha de fechar, por ser incapaz de acompanhar os baixos preços das grandes superfícies, representa uma perda para o abastecimento espiritual e cultural daquela zona?
Se o mercado do livro se mantiver como está, persistindo na prática de uma concorrência imperfeita, regulação e fiscalização estatal ineficazes, falta de ética, procura do lucro fácil e alimentando a perspectiva de que o livro é produto para consumidores e não para leitores (no sentido tradicional), correremos o risco de um dia, ao passearmos pelas ruas de algumas das nossas vilas e cidades, ao lado dos nossos já crescidinhos netos, sermos surpreendidos com a pergunta:
- Avô, o que é uma livraria?


Jaime Bulhosa