Depois
de ter arriscado a grande decisão – tornar-se escritor profissional –, Pacheco
tentou o romance, género que ocupava, já então, o lugar mais elevado na escala
de valores literários. A questão do romance, aliás, perseguiu-o durante anos.
No Verão de 1968,
Recebo
no Limoeiro uma carta cheia de generosidade do João Palma Ferreira, que me
surgiu inesperadamente trabalhando já não sei em que qualidade, em Publicações
Europa-América. Prometia-me apoio sólido, decisivo para a minha reintegração na
Sociedade. E foi assim: encontrámo-nos Cá Fora, meses depois, numa esplanada
que havia ao fundo da Duque de Loulé, com a estátua do Camilo a olhar para nós,
ríspida testemunha e nada auspiciosa. O Palma Ferreira vinha transbordante de
projectos, queria matar-me com tanto trabalho. Além de dois empregos, anunciava
já, para já! uma edição na Europa-América. «Um livro seu, é urgente seja o que
for, talvez romance». E acrescentava, totalmente eufórico: «Fazem-se três mil
exemplares, aquilo vende-se como carapaus!»
Saí da entrevista derreado. Para quem vinha de fazer
turismo entre cadastrados, tarefas como estas: jogar dominó, enfiar molas de
roupa (uns brinquedos em plástico, nunca aderi), escrever um romance não
estaria nos meus projectos imediatos. Nem nada. E recordei que, anos antes, nas
Caldas da Rainha, Vergílio Ferreira me soprara sugestão idêntica: «Faça um
romance, homem!» E que eu lhe respondera na consciência das minhas nulas
possibilidades: «Mestre, não sei.» E ainda não sei. E calculo: nunca virei a
saber. [Isto de Estar Vivo, pp.
83-84]
Em
mais de uma ocasião, Pacheco tentou ou propôs-se escrever um romance. O
primeiro intitulava-se A Enorme Repulsa,
que nunca acabou mas que tinha um plano de conjunto e incluía alguns textos
reunidos depois em Exercícios de Estilo:
«O Teodolito», «It Missa Est», «Conversa de Três», «O Segundo da Esquerda» e
«Insólita Agressão». Numa carta, Virgílio Martinho dava conta da existência
desse projecto de romance. Depois de agradecer o envio de «O Cachecol do
Artista», pedia-lhe: «que arranjes forças para a Enorme Repulsa» [PVC, p. 81]. A ideia para o título
viera-lhe na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu, em 1961, pelas tropas da
União Indiana. As reportagens que narravam esses acontecimentos repetiam vezes
sem conta as expressões «insólita agressão» (por parte da União Indiana) e
«enorme repulsa» (de Portugal pelo ataque).
O
objectivo era que fossem textos «insólitos» e «repelentes». A abrir o romance
estaria «O Teodolito», que Pacheco terá começado a escrever em Almoinha, antes
ainda de pensar incluí-lo nesse romance. Sobre «O Teodolito» disse que era
«obsceno» e «o primeiro texto neo-abjeccionista português» (o segundo seria «A
Mulher dos Meus Sonhos», que se perdeu ou que simplesmente nunca escreveu):
Para breve lhe anuncio a publicação dum texto meu.
Receio que V. não goste, pois é bastante impróprio
para senhoras. Desde o Bocage, creio eu, a língua portuguesa, aliás com fortes
tendências nativas e usuais para tanto, não era tocada no campo da obscenidade com tal força. Chama-se O Teodolito, composição neo-abjeccionista. Agora o que eu gostava que V. lesse
era a minha noveleta A ENORME REPULSA, de objectivos actualistas, e da qual O Teodolito é, mais ou menos, o 1.º
capítulo.
O teodolito é um instrumento de
medida que serve para medir as distâncias, o que, aplicado por analogia às
relações humanas, permite a um indivíduo conhecer a sua circunstância – no
texto a circunstância define-se por uma sucessão de pequenos acontecimentos que
correm mal – e, por inerência lógica, ajuda-o a marcar a sua posição em relação
aos outros. O texto acabou por ser publicado separadamente, em 1962, na
Contraponto e em estênsil (o exemplar que existe na Biblioteca Nacional está
dedicado a Natália Correia: «para a Natália, este texto de liberdade e
libertinagem, que ela é a única mulher portuguesa do seu tempo capaz de
entender. E perdoar, com a amizade do Autor»), e entusiasmou o leitor Eduardo
Lourenço: «Li com verdadeiro assombro o Teodolito, texto magnífico em todos os
sentidos, de uma ciência de composição e de um modernismo impecáveis. O Luís
Pacheco não é só alguém fora do comum, mas um verdadeiro e grande escritor.»
A
segunda tentativa foi um romance chamado Os
Relógios, que se perdeu numa pensão do Porto, onde o tinha deixado por
falta de dinheiro para pagar a estadia. Mais tarde, quando lá voltou para o
recuperar, desaparecera: «Tinha uns sacos na Pensão Divino Sol, na Travessa de
Passos Manuel, quase diante do TEP; com um original, esboço, falhado romance Os Relógios, e mais livralhadas. Os
ratos comeram, disse-me a galega, cuja filha era um divino raio de luz. A
literatura nacional ganhou muito, menos trampa em livro.» Houve outras
tentativas, textos que se perderam, como A
Corrida (novela ou romance, só escreveu o primeiro capítulo ou andamento,
teria quatro), Recordando Com Raiva
(romance com três partes), Os Grilos na
Varanda (romance ou novela). A sua incapacidade de acabar um romance
devia-se, pelo menos parcialmente, às condições de vida, que nunca lhe
proporcionaram um ambiente propício.
De
facto, como vimos, desde que se demitira, em Julho de 1959, Pacheco foi
sucessivamente pai, andou fugido à polícia, deambulou pelo país, esteve preso
no Limoeiro, mudou várias vezes de casa, Setúbal, Almoinha – um período de
enormes dificuldades, com a família a alimentar-se de caracóis e chicharros –,
envolveu-se com Maria Irene, que também engravidou, teve de fugir novamente,
primeiro para Setúbal depois para as Caldas da Rainha. Com esta vida, Pacheco
percebeu que não lhe seria possível escrever um romance, em várias ocasiões o
confessou:
não sei. Precisamente: não
sei! foi a resposta singela e sincera que dei ao Vergílio Ferreira quando
me indagou, solícito, quase paternal, por que é que eu não escrevia romances,
como se tal fosse um objectivo vital, não era (para mim). Algumas vezes pensei
nisso, escrevi linhas, poucas páginas. O género requer uma persistência (além
doutros dotes), um meio calmo, uma atenção que raramente me foram propícias. E
uma técnica. Viu-se o Tchekov, tão exímio contista, incapaz de elaborar um
romance, nem era nada fácil, perante os monstros contemporâneos: Tolstoi,
Dostoievski, para já não falar de Gogol ou Turguenev. Perante obras colossais
como as daqueles dois, era muito difícil ombrear, imitar, fazer diferente em óptimo
(casos do Fialho e do Brandão perante o nosso Eça). [Diário Selvagem]
Se
Pacheco escreveu fundamentalmente textos curtos, foi porque adaptou a escrita
às suas condições de possibilidade – tal como Kafka, cuja profissão como
jurista numa companhia de seguros que lhe consumia 80 por cento do seu tempo
influenciou a opção pelos contos e pequenas novelas. A vida instável e, em
determinadas fases, boémia, pouco ascética, terá sido uma das razões pelas
quais privilegiou géneros fragmentários, como as pequenas memórias e a
diarística. Mais do que resultado da concorrência no campo ou de uma tomada de
posição estratégica, a escrita de Pacheco esteve dependente de condições
sociais que iam muito além das questões meramente literárias. Assim, a sua obra
como escritor, pelo menos a que está editada, não é muito extensa, quase
caberia dentro de uma caixa de sapatos. É uma escrita fragmentária, composta de
textos breves, que raras vezes ultrapassam meia dúzia de páginas ou que
pertencem a géneros, por natureza, autobiográficos e fragmentários: a
epistolografia, a diarística, a confissão instantânea. Logo, o seu tipo de
escrita não é independente das disposições construídas socialmente.
O que
é que conduz um indivíduo a escrever a sua autobiografia e a testemunhar o seu
passado? O que é que pode impelir uma pessoa a escrever sobre si próprio, mesmo
contra a sensação de ser pretensioso, arrogante, narcisista? O que é que se
viveu para se sentir digno de contar a sua vida? Em que estado da sua
experiência social considerou interessante contar-se a si próprio? A formação
familiar ou escolar terão ajudado a desencadear um desejo imperioso de escrever
sobre si próprio? Que condições individuais e colectivas autorizam uma pessoa a
escrever a sua vida? E de que forma utilizou a literatura para exprimir as suas
experiências?
No
caso de Pacheco, houve uma conjugação de circunstâncias que nos permitem
perceber a sua opção pela autobiografia. Em primeiro lugar, o exemplo colhido
em casa dos pais, nomeadamente o livro com a história da família iniciado pelo
tio Mário Pacheco e continuado pelo pai: «O livro foi feito, começado pelo meu
tio […]. Toda a parte de investigação, certidões, é obra paciente, creio, e
chata dele. Foi uma tineta. Mas não prejudicou ninguém. O meu Pai actualizou,
conforme lhe convinha.» Um gosto que adquiriu em novo e que manteve intacto ao
longo de toda a vida, como confessou no seu Diário
Selvagem: «desde muito novo tive propensão para ler coisas de vidas,
principalmente de escritores. Biografias, diários, confissões, memórias,
relatos verídicos: uma barreira contra a fantasia, um apelo à realidade das
coisas e dos seres».
Outra
razão que o terá levado a privilegiar o género autobiográfico foi a consciência
de que tinha uma vida digna de ser contada, a sensação de que o seu destino era
excepcional e singular, quase único:
Se
eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso, muito nosso e apenas isso, mas repito:
se, em comparação com muita da gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui
comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho
ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo),
esse meu destino, é singular, porque
será? Interrogo(-me) e não sou capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em
pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada,
neurótica? uma degenerescência familiar de que fiz bastante para me
salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um
acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver
como é, saber ouvir, ler muito e
variado, e desconfiando sempre? [Droga,
pp. 10-11]
A
partir de certa altura, depois de perceber que não era capaz de escrever um
romance, Pacheco descobriu que a sua experiência, ou o seu percurso de vida,
tinha algo de excepcional e que lhe podia proporcionar, directamente, a matéria
da sua escrita: «eu acho que se tivesse andado de avião, e feito viagens ao
estrangeiro tinha uma dimensão do mundo muito mais rica do que a que tenho. Mas
também eu fui lá abaixo, à cadeia, fui ao asilo, fui ao hospital, estive nos
malucos, por causa do álcool, internado» [O
Crocodilo, p. 65].
Sem
dúvida, Pacheco olhava para a sua vida como um romance, pensava que caso
conseguisse transpor para o papel, directamente, naturalmente, a sua
experiência vital o resultado seria um romance ou algo aproximado, o qual
deveria ser exemplar, para o melhor e para o pior:
Para
fazer da minha vida um romance? ou uma série de textos insólitos que, por
simples aglomeração, ergam uma vivência singular, sem veleidades de metáforas,
comparações, esquisitices da burocracia literata rotineira? Creio que sim. E
sublinhar em cada um o aspecto grotesco a que me reduziram, conduziram (até
aqui, no Barro: vir meter-me na Tribo dos Cospe-Cospe para sobreviver à fome e
ao catarro), transformaram. Quase aniquilaram. Ao contrário de quase todos os
escribas, estou farto de levar porrada da Vida. Era tempo de virar isso a meu
favor. Como?! escrevendo tal-qual. A verdade é que assusta e empolga as
pessoas. Não assisti às coisas tremendas que o Malaparte descreve [no romance Kaputt, que Pacheco estava a ler nesta
época]; mas assisti e meti-me noutras, caseiras e mesquinhas, mas fora do
habitual.
É
tempo de gozar um bocado comigo e de mim. Porque só tenho duas saídas: essa, da
jocosidade, ou da amargura. Por este caminho, ninguém vem atrás de mim, não se
cativa pela choradeira mas pelo humor. Partes gagas, como a do meu casamento no
Limoeiro, a aventura no Mucifal, proezas nas Caldas, as negas a várias fodas
com mulheres e, até, com rapazes (o Zézito, de Ansião), de quando ia quase
matando o meu pai, os ratos filatélicos, a denúncia da quadrilha ao Óscar, os
rapazes bons e a vida louca de Massamá, a Fátima e a Irene, o Rodinhas, é um
carrossel de gente e de eventos de que poucos se podem orgulhar no Disparate. A
vida com a Kalmeirona, as figuras literárias (AS VACAS, tipo Cesariny, Natália,
no passado e no presente, eis uma galeria à portuguesa em que não receio
confronto). A ideia havia de brotar aqui, na miséria suja da Tribo dos Cospe
Cospe.
E
isso ainda é o folclore, o anedótico. O principal é a força íntima, a minha
força, que me levou a casar no Limoeiro como me trouxe agora ao Barro. A força
e/ou a fraqueza. O que terá de ser levado a rir. Senão, é uma série infindável
de «Tomas!» para os outros que me rodeiam, para a Sociedade. Vítima (e
carrasco; como eu fui carrasco com a Irene, o Paulocas!) mas a rir e risível.
No fundo dos fundos, uma MORALIDADE e a sua opção consciente ou irreprimível. [Diário 1982]
edição: tinta-da-china
título: Puta Que os Pariu!
autor: João Pedro George
n.º pág.: 624
isbn: 9789896711016
pvp: 23.90€