quarta-feira, novembro 30

Queres vir brincar às caçadinhas?

- Queres bir brincar às caçadinhas? (pronúncia do norte).
Se é do norte do país esta expressão é-lhe familiar. Se pelo contrário é do sul, reconhecerá melhor se o dissermos de outra forma:
- Queres vir brincar à apanhada? (pronúncia do sul).
De uma maneira ou de outra, certo é que as lembranças das brincadeiras e jogos da nossa infância, não se desvanecem. Podem até estar ligeiramente apagadas ou adormecidas, no entanto, mal as ouvimos ou as vimos reproduzidas nas crianças, imediatamente viajamos, nostalgicamente, para o passado. Quem não se lembra de jogar à carica, à pulga, dominó, mikado, ou brincar com o yo-yo.
Agora, na Pó dos livros, tem à sua disposição uma colecção extensa, de reproduções exactas, de jogos e brincadeiras, do tempo da Maria Cachucha.  



Jaime Bulhosa

terça-feira, novembro 29

Hoje na Pó dos livros

Conferência e Debate Consumption Seminar Series VI - "Rioting-meets-shopping" and "top-manta harassment": consumption on the margins, new enclosures and the search for a livelihood, por Susana Narotzky, Professora Catedrática da Universidade de Barcelona. Organização Marta Rosales Margarida Marques (CRIA) e  Monica Truninger (ICS-UL).

O Filho do Desconhecido




No final do Verão de 1913, nas vésperas da Grande Guerra, o jovem poeta aristocrata Cecil Valance passa um fim-de-semana em «Dois Acres», a casa da família do seu amigo e colega de Cambridge, George Sawle. São dias intensos para todos, mas é em Daphne, irmã de George, que o seu impacto será mais duradouro, pois Cecil escreve-lhe um poema que virá a tornar-se num marco para toda uma geração. 
As intimidades partilhadas nesse fim-de-semana vão transcender os limites do tempo e dar origem a um mito - e a um segredo de família - que atravessa o século XX.



edição: Dom Quixote
título: O Filho do Desconhecido
autor: Alan Hollinghurst
tradução: Tânia Ganho
n. pág.: 688
isbn: 9789722048057
pvp: 24.50€

sexta-feira, novembro 25

Cretino



Numa tarde sossegada, na livraria, uma mulher resolve partilhar connosco o que pensava do seu “marido” em voz alta. Diz-lhe que é um cretino, um enorme cretino, um gigantesco cretino. É o cretino dos cretinos.
- És tão cretino – diz-lhe ela – que se houvesse um concurso de cretinos, ficavas em segundo.
- Porquê em segundo? – Pergunta o marido, com esta última, de facto incomodado.
- Porque és um cretino! 

Amanhã, na Pó dos livros

                                                             (clique na imagem)

quinta-feira, novembro 24

Apelo à greve



Quem disse que as greves são prejudiciais à economia? 
Hoje, dia de greve geral, estamos a vender como já não se via há muito tempo. Por isso, apelo à greve geral todos os dias, para acabar com a crise.

livreiro anónimo

Debate: «Chavs»: a demonização da classe trabalhadora


«Chavs»: a demonização da classe trabalhadora
Com a participação de Owen Jones
Local: Livraria Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, 89, Lisboa – localização aqui)
Data: Dia 25 de Novembro, das 18h às 20h
Organização: UNIPOP e livraria Pó dos Livros
Entrada livre.
A partir de uma exaustiva investigação pelos subúrbios londrinos e de um conjunto de entrevistas, o livro Chavs: The Demonization of the Working Class, publicado recentemente pelo jornalista do The Guardian Owen Jones, procura documentar os mitos e as realidades da vida da classe trabalhadora na Grã-Bretanha contemporânea. Crescentemente, uma imagem estereotipada dos trabalhadores mais pobres, sintetizada na designação chavs(«chungas», «mitras», «gandulos»), esconde e justifica a degradação e o desespero de muitas comunidades de trabalhadores, tornadas cada vez mais precárias pelas alterações económicas e sociais dos últimos anos. Jones traça um retrato cru da forma como o ódio e o preconceito de classe contra os trabalhadores foram ganhando caminho por entre o aprofundamento das desigualdades e explica como, ao longo de três décadas, a classe trabalhadora foi passando de «sal da Terra» a «escumalha da Terra». Propomos um debate com o autor em torno do livro, procurando ao mesmo tempo reflectir sobre se o paradigma que ele descreve é ou não generalizável a outras realidades para lá da Grã-Bretanha.
Artigo de Owen Jones publicado no número de Setembro de 2011 do Le Monde diplomatique – edição portuguesahttp://pt.mondediplo.com/spip.php?article841.

Owen Jones é jornalista do The Guardian e publicou recentemente o livro Chavs: The Demonization of the Working Class (Verso Books, Londres, 2011).

NATAL A PREÇOS DA CHINA


A livraria Pó dos livros,  em colaboração com as Edições tinta-da-china, realiza durante o mês de Dezembro uma campanha de descontos, até 50%, nos seguintes livros:


Autores portugueses
O ARQUITECTO                                               
BOCA DO INFERNO                                            
CADERNOS DE BLAUFUKS I                                     
CIDADES SEM NOME                                           
O CROCODILO QUE VOA                                        
ESTADO CIVIL                                               
FALAR É FÁCIL                                              
MPB.PT                                                     
NADA DE DOIS                                               
NADA DE MELANCOLIA                                         
NÃO É FÁCIL DIZER BEM                                      
NOVAS CRÓNICAS DA BOCA DO INFERNO                          
SOB CÉUS ESTRANHOS- UMA HISTÓRIA DE EXÍLIO
PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO (BOLSO)                  

Viagens
CADERNO AFEGÃO                                              
DISSE-ME UM ADIVINHO                                       
HISTÓRIAS ETÍOPES
O JAPÃO É UM LUGAR ESTRANHO                                
MORTE NA PÉRSIA                                            
NOVA IORQUE                                                 
PARIS                                                      
UMA IDEIA DA INDIA                                         
VENEZA                                                     

História
BREVE HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL DE ESPANHA                  
CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES                
CHURCHILL                                                  
ENTREVISTAS DE NUREMBERGA                                  
ESPIONAGEM NA GUERRA                                        
HISTÓRIA DA CHINA                                          
HISTÓRIA DA PRIMEIRA REPÚBLICA PORTUGUESA                  
HISTÓRIA VIRTUAL 
INFILTRADO NA AL-QAEDA                                                                                                                                                                                                                                                                                   
MÁSCARA DO COMANDO                                         
O MURO DE BERLIM                                         
O QUE PARECE É                                             
PEQUENA HISTÓRIA DO TEMPO                                  
PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO (BOLSO)                  
TESTEMUNHAS DA GUERRA
UMA HISTÓRIA DA ESCRAVATURA
UMA HISTÓRIA DA GUERRA                                     
PORTUGAL NOW                                               
FAZEDOR DE UTOPIAS (O)-UMA BIOGRAFIA DE AMILCAR CABRAL     

Álbuns
AUTO-RETRATOS DO MUNDO                                     
CHE AUTO-RETRATO                                           
A INVENÇÃO DO CINEMA PORTUGUÊS                          
FOI VOCÊ QUE PEDIU UMA HISTÓRIA DA PUBLICIDADE?            
LISBOA REVOLUCIONÁRIA                                      
PRIMEIRAS PÁGINAS                                          
OS POSTAIS DA PRIMEIRA REPÚBLICA                           
OS CARTAZES DA PRIMEIRA REPÚBLICA

Literatura
OS CADERNOS DE PICKWICK                                   
JACQUES O FATALISTA                                        
DICIONÁRIO DO DIABO                                        
OS FILÓSOFOS E O AMOR
A HISTÓRIA DE UM RAPAZ MAU                                 
A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA                           
OBRA POÉTICA COMPLETA                                      
AS VOZES DO RIO PAMANO                                    
SUA SENHORIA
ENTREVISTAS DA PARIS REVIEW 

quarta-feira, novembro 23

Biblioteca Universal





Os clientes bizarros, de uma livraria, são tão frequentes que se tornaram para nós comuns. Há muito que deixamos de nos surpreender com as questões absurdas que nos colocam. Aceitamo-las sem espanto, resignados, subjugados ao facto de que nem tudo tem que ter uma explicação. Um cliente com postura de eminência, falando com tom de sumidade, introduz o conceito de universalidade:

- Bom dia. Desejava um livro que contivesse todos os livros.      
- Um livro com todos os livros? Como assim? Um livro com o conteúdo de todos os livros?
- Por amor de Deus! Não faça pouco da minha inteligência. Sei perfeitamente que os volumes necessários para um livro desse tipo seriam infindáveis. Mas o que pretendo é uma coisa bastante mais modesta. Quero um livro onde tenha inscrito os títulos, autores, editoras e ano de edição, de todos os livros existentes no mundo.

O sonho de uma biblioteca universal é antigo, mas até hoje não foi exequível. Nem de perto nem de longe a Biblioteca do Congresso dos EUA contém todos os livros editados. Não existe, também, nenhuma base de dados com todos os livros do mundo. A generalidade das pessoas não tem noção da quantidade de livros que foram escritos desde que foi inventada a escrita e que deve andar na ordem dos milhares e milhares de milhões. O espaço físico ou digital de uma Torre de Babel, como essa, seria absurdamente grande. Mas um cliente é um cliente e, como tal, deve ser levado em conta.

- Não me leve a mal, no entanto, necessito que me explique melhor o que deseja. Se o compreendi bem, o senhor pretende um livro, isto é, uma espécie de lista telefónica onde estejam inscritos todos os títulos de livros?
 - Exactamente! Não custa assim tanto entender, pois não?
 - Não, parece simples de entender. No entanto, o conceito de biblioteca universal não é estático. Uma biblioteca universal estaria em constante expansão, diariamente teriam que ser introduzidos milhares de novos títulos nesse livro. O que levaria a que, o livro por si desejado, estivesse sempre desactualizado. Não concorda? Um livro desse tipo não existe.
- Também o universo infinito está em constante expansão, ele é aberto em todas as direcções, para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo, para frente, para trás, na diagonal, transversal, sem princípio nem fim. E ninguém até hoje o conseguiu provar ou explicar. Porém, mesmo assim, a maioria das pessoas acredita que ele existe e é infinito. Posto isto, como deve concordar, nem tudo o que não se explica quer dizer que não exista.

Jaime Bulhosa

1Q84



Um mundo aparentemente normal, duas personagens - Aomame, uma mulher independente, professora de artes marciais, e Tengo, professor de matemática - que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes.
Em 1Q84, Haruki Murakami constrói um universo romanesco em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Onde acaba o Japão e começa o admirável mundo novo em que vivemos? Uma ficção que ilumina de forma transversal a aldeia global em que vivemos.


edição: Casa das Letras
título: 1Q84
autor: Haruki Murakami
tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
n.º pág.: 487
isbn: 9789724620534
pvp: 18.00€

terça-feira, novembro 22

Pedra de afiar livros


Numa manhã bem cedo do ano de 1985.

– Mandaram-me vir ter com o senhor.
– Ah! És tu o novato? Ainda bem. Estava mesmo a necessitar de alguém que me fosse buscar uma encomenda de livros de Direito à livraria Petrony.
– Livraria Petrony?
- Sim, uma livraria e editora de livros de Direito que fica ali em baixo, na Rua da Assunção. Vais ter com senhor Augusto Petrony e dizes que vais levantar, da minha parte, uma encomenda de livros.
- Com certeza.
- Rapaz! É verdade, já agora, traz-me uma pedra de afiar livros.
- Uma pedra de afiar livros?
- Sim, homem… Vai lá e despacha-te!
- Com certeza.
Lá fui eu a pé, descendo a Rua Garrett, virei à esquerda pela Rua do Carmo, cortei à direita pelo elevador de Santa Justa, desci as escadarias, cheguei à Rua do Ouro, andei mais cinquenta metros e, junto à esquina da Rua dos Sapateiros, lá estava a Livraria Petrony.
- Por favor, o senhor Petrony?

O senhor Petrony (editor e livreiro emblemático de publicações de Direito, fundador em 1955 da livraria/editora com o mesmo nome) era uma personalidade impressionante. Mas o que mais me marcou na primeira vez que o vi foi o seu aspecto físico. Tanto que até hoje, muitos anos depois de o senhor ter falecido, ainda me recordo do seu tamanho, da sua voz rouca que parecia saída de um instrumento de sopro. Provavelmente, de excesso de tabaco. Era um homem grande, não em altura, mas em volume. Tudo nele era grande, os braços largos, as pernas gordas, os olhos enormes, muito saídos das órbitas oculares, que davam a sensação de que a qualquer momento explodiriam.
- É o próprio. O que deseja?
- Venho levantar uma encomenda de livros que está em nome do senhor Braga.

Poucos minutos depois, entregam-me dois enormes embrulhos de livros, atados com corda de sisal. Cada um devia pesar no mínimo quinze quilos. Só de imaginar que teria de carregar aqueles dois pesadíssimos pacotes de livros pela Rua do Carmo e Garrett acima, doeram-me as mãos.
- Deseja mais alguma coisa?
Envergonhado, acrescentei:
- Queria também uma pedra de afiar livros.
- Embrulhem-me aí uma pedra de afiar. - Gritou para dentro da loja o senhor Petrony.

Vejam o meu azar: para além dos dois pacotes de livros, teria também de carregar um objecto imensamente pesado em forma de paralelepípedo (facto que não dava jeito nenhum, pois temos apenas duas mãos). Imaginem o peso dos livros, mais aquele objecto estranho que se deslocava de um lado para o outro, batendo constantemente contra os meus joelhos, as cordas de sisal que me cortavam literalmente as mãos, ao ponto de ficar com elas em sangue, fizeram com que um trajecto que se faz normalmente em dez minutos, demorasse 45 minutos, tantas vezes fui obrigado a parar por causa das dores. A suar em bica com as mãos e joelhos feitos num oito, lá cheguei.
- Demoraste...
- Sabe, isto é muito pesado.
- Trouxeste a pedra de afiar livros?
- Sim.
- Então deita-a no lixo.
Ouve-se uma gargalhada geral.

A pedra de afiar livros não passava de uma pedra de calçada enorme e fazia parte da praxe de iniciação do livreiro. Assim começou o meu primeiro dia de trabalho.


Jaime Bulhosa

segunda-feira, novembro 21

Imbeciclopédia XXVII


As dez pragas do Egipto:

  1 – O rio e toda a água do Egipto transformam-se em sangue.
  2 – O rio Nilo regurgita rãs, que invadem as residências dos egípcios.
  3 – O pó da terra transforma-se em mosquitos.
  4 – Moscas venenosas.
  5 – A peste aniquila todo o gado egípcio.
  6 – Uma epidemia de úlceras e tumores, espalhadas a partir de cinza de forno que Moisés, lança ao ar.
  7 – O granizo destrói toda a verdura dos campos e arruína as colheitas.
  8 – Uma praga de gafanhotos arrasa o que tinha escapado ao granizo.
  9 – Densas trevas cobrem o Egipto durante três dias.
10 – Páscoa judaica: Deus mata o filho primogénito de todos os egípcios.

Nota: Depois de todas estas atrocidades, perpetradas por Deus, ficamos realmente persuadidos de que: A religião conseguiu convencer efectivamente as pessoas de que existe um homem invisível que vive no céu e que vê tudo o que fazemos a cada minuto do dia. E o homem invisível tem uma lista especial de dez coisas que não quer que façamos. E se fizermos alguma dessas coisas, ele tem um lugar especial, repleto de fogo e calor e abrasamento e dor, para onde nos manda viver e sofrer e arder e sufocar e gritar e chorar para todo o sempre, até ao fim dos tempos... Mas ele ama-nos!

O mestre



Um livreiro, novato, dirigiu-se ao mestre em artes da ficção, grande especialista na prática de vendas de gato por lebre, e perguntou-lhe quanto tempo seria necessário para aprender essa arte.
- Dez anos – disse-lhe o mestre.
- Dez anos! Mas é muito! É demasiado! Nunca terei forças para esperar!
- Então, vinte anos – diz o mestre.

O mapa e o território



Se a história deste romance nos fosse contada por Jed Martin, talvez ele começasse por falar da avaria da caldeira do seu apartamento, num dia 15 de Dezembro. Ou dos solitários natais passados com o pai, um arquitecto famoso que sonha construir cidades fantásticas mas ganha a vida a projectar resorts de férias. Talvez não falasse do suicídio da mãe quando tinha apenas sete anos, porque são muito ténues as recordações que dela guarda. Mas mencionaria certamente Olga, uma lindíssima russa, que conheceu por ocasião da primeira exposição do seu trabalho fotográfico baseado nos mapas de estradas Michelin. Apesar de indiferente à fama e à fortuna, Jed poderia mencionar o êxito estrondoso que alcançou com uma série de quadros de célebres personalidades de todos os meios, retratadas no exercício da sua profissão. Um dos retratados é Michel Houellebecq (sim, o autor), num trabalho conjunto que mudará a vida de ambos: fonte de vida para um e razão de morte para outro. Confrontado com o homicídio de uma pessoa próxima de si, Jed não poderia deixar de incluir no seu relato como ajudou o comissário Jasselin a esclarecer esse crime hediondo, cujo cenário aterrador deixou marcas profundas nas equipas da Polícia.


edição: Alfaguara
título: O mapa e o território
autor: Michel Houellebecq
tradução: Pedro Tamen
n.ºpág.: 378
isbn: 9789896721107
pvp: 19.90€ 

sexta-feira, novembro 18

Uma lista de livros voluptuosos


Entra na livraria um homem aparentando ter cinquenta anos, cinquenta e picos no máximo, de tez carregada, sobrancelhas grossas, negras, aparentando uma enorme preocupação.

- Onde estão os livros de fazer levantar o ânimo?
- Como? Desculpe! Não sei a que se refere.
- Os livros voluptuosos?
- Continuo a não perceber.
- Como hei-de explicar?... Vou contar-lhe uma história tal como me foi contada por alguém que por sua vez a tinha ouvido de outro alguém que a contou a outro e assim por diante até que a história se transformou numa lenda que provavelmente pouco terá a ver com o que aconteceu na realidade:

Entre as gentes da paróquia da vila de X, uma vila igual a muitas outras e que não importa aqui descrever porque dá muito trabalho, corria o rumor de que o benemérito cidadão padre Mário, ao contrário do que precedia a sua fama, após ter começado e pela terceira vez consecutiva, deixava por ouvir a confissão de uma viúva. Os rumores confirmaram-se, os sinos da igreja tocaram e o alarme foi dado. A verdade, por mais que doesse, é de que já não havia viúva que conseguisse renovar, ao clérigo, a fé perdida. Não tinha sido, como se pensou no início, apenas um mau dia, uma indisposição passageira, ou desinteresse momentâneo pela prática da purificação das almas. O veredicto quanto ao estado debilitado do pusilânime alento do padre Mário tinha sido dado pelo milenar teste da cotovia – a cotovia é uma ave da qual se diz que, sendo levada à presença de um enfermo e se o dito enfermo estiver para morrer, ela volta a cabeça para o lado oposto e nunca o olha; se esse enfermo deve salvar-se, a ave nunca o abandona de vista, o que aliás é causa de lhe passar toda a doença 
– .
A sentença da cotovia, ao contrário do que se esperava, deixou o padre de cama, com tamanha depressão que degenerou em doença desconhecida.
Toda a gente sabe que a ausência de missa, numa pequena e pacata comunidade, causa sempre instabilidade, principalmente, entre as paroquianas casadas. Uma coisa é a expiação dos pecados das viúvas estar entregue nas santas mãos do padre Mário, outra coisa era o consolo das mesmas cair nas mãos sabe-se lá de quem, como se costuma dizer: em freguesia de viúva sem padre, ao marido Deus olhe e guarde. A novidade viajou de orelha em orelha tão rapidamente, que acabou, inevitavelmente, nos ouvidos do bispo da diocese. O bispo, palavra que vem do grego e que quer dizer supervisor, teve que supervisionar a situação. Sem perder tempo, ainda de boca aberta perante a notícia, não pôde deixar de tomar as devidas providências. Os tempos eram de crise de vocação, os padres rareavam, por isso, não houve outro remédio se não tomar medidas excepcionais. Mandou chamar, directamente do Convento do Bom Senhor dos Milagres, a freira Maria. Foi-lhe pedido em pessoa, pelo próprio bispo, que lhe rogou, por Deus Nosso Senhor, que tomasse em seus braços os cuidados do doente padre Mário. A irmã Maria, para além de afamada pelos excelentes conhecimentos de enfermagem, era também célebre por ter realizado autênticos milagres na recuperação da fé perdida de inúmeros e ilustres membros da Igreja, inclusive a do bispo. Diziam que se irmã tivesse vivido no tempo de Lázaro que também o tinha feito levantar. Mas isso era o que dizia o povo, na verdade a vida e a mentira são sinónimos. As suas técnicas, terapias e remédios eram um dos mistérios mais bem guardados da Igreja, até porque os seus pacientes, por dever de confissão, eram obrigados a guardar segredo. Mesmo assim, e apesar da fama da religiosa, o padre Mário depositava pouca fé na sua recuperação.
O povo sabia que ainda era muito cedo, tendo em conta a idade do vigário, para que o sempre renovado espírito confessionário esfriasse sem explicação. Todavia, também sabia que a cotovia, até então, nunca se tinha enganado. Se já nem os pecados das viúvas e provavelmente nem os das casadas e solteiras, o alentavam, que Deus nos perdoe, mas não seria com certeza uma freira de meia-idade, volumosa e de honrado bigode a consegui-lo. Mas a verdade é que, com muita ou pouca fé, após duas semanas de rigorosa clausura no quarto com a irmã, para a gaudiosa alegria do rebanho feminino e dos demais cidadãos, o padre Mário voltava a cumprir a sua função.

Sejamos sinceros, não há nada que desperte mais a curiosidade do que uma chave, desde que não saibamos o que ela abre. É claro, não passou muito tempo para que o segredo da freira Maria, como todos os segredos, acabasse por ser revelado. Conta-se que, um dia, uma noviça em serviço de limpeza ao humilde quarto da irmã, quando se preparava para soprar o pó da mesa-de-cabeceira, reparou que em cima dela se encontrava uma pequena chave esquecida. Como manda a lei da privacidade nos conventos, imediatamente, a experimentou na primeira gaveta que encontrou. Lá dentro, estava um velho bloco de notas. Não resistindo à bisbilhotice, descuidada, ao pegar-lhe, deixou cair em voo planado e aterrando no chão, um maço de pequenas folhas soltas. De olhos esbugalhados e mão na boca, amordaçando nervosos risos irritantes, do género ri, ri, ri, ri, a noviça, apanhando os pequenos papéis amarelados e gastos pelo tempo, leu num deles, a seguinte receita:


DO LIVRO DE TODOS OS SANTOS REMÉDIOS

Vila de X, 22 de Abril de 1979

Receituário - Para os males e maleitas de uma vida de padre em celibato, os livros podem ser uma excelente terapia, desde que sujeitemos o doente a uma longa e diversificada dieta de literatura usada.

Posologia e composição - Como renovar a fé perdida de um padre em crise:
Para que um padre levante novamente aquilo que faz dele um padre e não uma freira, deve ser sujeito, gradualmente e durante várias semanas, à leitura dos seguintes e voluptuosos livros:

1.º- Satíricon, de Petrónio
2.º- Decameron, de Giovanni Boccaccio
3.º- Fanny Hill, de John Cleland
4.º- A Minha Vida Secreta, de Casanova
5.º- Justine, de Marquês de Sade
6.º- Confissões Sexuais, de um Anónimo Russo, de anónimo
7.º- Trópico de Câncer, de Henry Miller
8.º- A História de O, de Pauline Reage
9.º- Lolita, de Vladimir Nabokov
10.º-Delta de Vénus, de Anaïs Nin

Jaime Bulhosa

quinta-feira, novembro 17

Papaguear



Um escritor fez fortuna a repetir calão erudito de um papagaio.
- Porque não tenho eu – pergunta o papagaio – uma gaiola dourada?
- Porque – responde o escritor – és melhor a pensar do que a repetir, como demonstra bem a tua pergunta. Para além disso não temos o mesmo público.

Ambrose Bierce

Pré-publicação do livro "Puta Que os Pariu!"




Depois de ter arriscado a grande decisão – tornar-se escritor profissional –, Pacheco tentou o romance, género que ocupava, já então, o lugar mais elevado na escala de valores literários. A questão do romance, aliás, perseguiu-o durante anos. No Verão de 1968,

Recebo no Limoeiro uma carta cheia de generosidade do João Palma Ferreira, que me surgiu inesperadamente trabalhando já não sei em que qualidade, em Publicações Europa-América. Prometia-me apoio sólido, decisivo para a minha reintegração na Sociedade. E foi assim: encontrámo-nos Cá Fora, meses depois, numa esplanada que havia ao fundo da Duque de Loulé, com a estátua do Camilo a olhar para nós, ríspida testemunha e nada auspiciosa. O Palma Ferreira vinha transbordante de projectos, queria matar-me com tanto trabalho. Além de dois empregos, anunciava já, para já! uma edição na Europa-América. «Um livro seu, é urgente seja o que for, talvez romance». E acrescentava, totalmente eufórico: «Fazem-se três mil exemplares, aquilo vende-se como carapaus!»
Saí da entrevista derreado. Para quem vinha de fazer turismo entre cadastrados, tarefas como estas: jogar dominó, enfiar molas de roupa (uns brinquedos em plástico, nunca aderi), escrever um romance não estaria nos meus projectos imediatos. Nem nada. E recordei que, anos antes, nas Caldas da Rainha, Vergílio Ferreira me soprara sugestão idêntica: «Faça um romance, homem!» E que eu lhe respondera na consciência das minhas nulas possibilidades: «Mestre, não sei.» E ainda não sei. E calculo: nunca virei a saber. [Isto de Estar Vivo, pp. 83-84]

Em mais de uma ocasião, Pacheco tentou ou propôs-se escrever um romance. O primeiro intitulava-se A Enorme Repulsa, que nunca acabou mas que tinha um plano de conjunto e incluía alguns textos reunidos depois em Exercícios de Estilo: «O Teodolito», «It Missa Est», «Conversa de Três», «O Segundo da Esquerda» e «Insólita Agressão». Numa carta, Virgílio Martinho dava conta da existência desse projecto de romance. Depois de agradecer o envio de «O Cachecol do Artista», pedia-lhe: «que arranjes forças para a Enorme Repulsa» [PVC, p. 81]. A ideia para o título viera-lhe na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu, em 1961, pelas tropas da União Indiana. As reportagens que narravam esses acontecimentos repetiam vezes sem conta as expressões «insólita agressão» (por parte da União Indiana) e «enorme repulsa» (de Portugal pelo ataque).
O objectivo era que fossem textos «insólitos» e «repelentes». A abrir o romance estaria «O Teodolito», que Pacheco terá começado a escrever em Almoinha, antes ainda de pensar incluí-lo nesse romance. Sobre «O Teodolito» disse que era «obsceno» e «o primeiro texto neo-abjeccionista português» (o segundo seria «A Mulher dos Meus Sonhos», que se perdeu ou que simplesmente nunca escreveu):

Para breve lhe anuncio a publicação dum texto meu. Receio que V. não goste, pois é bastante impróprio para senhoras. Desde o Bocage, creio eu, a língua portuguesa, aliás com fortes tendências nativas e usuais para tanto, não era tocada no campo da obscenidade com tal força. Chama-se O Teodolito, composição neo-abjeccionista. Agora o que eu gostava que V. lesse era a minha noveleta A ENORME REPULSA, de objectivos actualistas, e da qual O Teodolito é, mais ou menos, o 1.º capítulo.

            O teodolito é um instrumento de medida que serve para medir as distâncias, o que, aplicado por analogia às relações humanas, permite a um indivíduo conhecer a sua circunstância – no texto a circunstância define-se por uma sucessão de pequenos acontecimentos que correm mal – e, por inerência lógica, ajuda-o a marcar a sua posição em relação aos outros. O texto acabou por ser publicado separadamente, em 1962, na Contraponto e em estênsil (o exemplar que existe na Biblioteca Nacional está dedicado a Natália Correia: «para a Natália, este texto de liberdade e libertinagem, que ela é a única mulher portuguesa do seu tempo capaz de entender. E perdoar, com a amizade do Autor»), e entusiasmou o leitor Eduardo Lourenço: «Li com verdadeiro assombro o Teodolito, texto magnífico em todos os sentidos, de uma ciência de composição e de um modernismo impecáveis. O Luís Pacheco não é só alguém fora do comum, mas um verdadeiro e grande escritor.»
A segunda tentativa foi um romance chamado Os Relógios, que se perdeu numa pensão do Porto, onde o tinha deixado por falta de dinheiro para pagar a estadia. Mais tarde, quando lá voltou para o recuperar, desaparecera: «Tinha uns sacos na Pensão Divino Sol, na Travessa de Passos Manuel, quase diante do TEP; com um original, esboço, falhado romance Os Relógios, e mais livralhadas. Os ratos comeram, disse-me a galega, cuja filha era um divino raio de luz. A literatura nacional ganhou muito, menos trampa em livro.» Houve outras tentativas, textos que se perderam, como A Corrida (novela ou romance, só escreveu o primeiro capítulo ou andamento, teria quatro), Recordando Com Raiva (romance com três partes), Os Grilos na Varanda (romance ou novela). A sua incapacidade de acabar um romance devia-se, pelo menos parcialmente, às condições de vida, que nunca lhe proporcionaram um ambiente propício.
De facto, como vimos, desde que se demitira, em Julho de 1959, Pacheco foi sucessivamente pai, andou fugido à polícia, deambulou pelo país, esteve preso no Limoeiro, mudou várias vezes de casa, Setúbal, Almoinha – um período de enormes dificuldades, com a família a alimentar-se de caracóis e chicharros –, envolveu-se com Maria Irene, que também engravidou, teve de fugir novamente, primeiro para Setúbal depois para as Caldas da Rainha. Com esta vida, Pacheco percebeu que não lhe seria possível escrever um romance, em várias ocasiões o confessou:

não sei. Precisamente: não sei! foi a resposta singela e sincera que dei ao Vergílio Ferreira quando me indagou, solícito, quase paternal, por que é que eu não escrevia romances, como se tal fosse um objectivo vital, não era (para mim). Algumas vezes pensei nisso, escrevi linhas, poucas páginas. O género requer uma persistência (além doutros dotes), um meio calmo, uma atenção que raramente me foram propícias. E uma técnica. Viu-se o Tchekov, tão exímio contista, incapaz de elaborar um romance, nem era nada fácil, perante os monstros contemporâneos: Tolstoi, Dostoievski, para já não falar de Gogol ou Turguenev. Perante obras colossais como as daqueles dois, era muito difícil ombrear, imitar, fazer diferente em óptimo (casos do Fialho e do Brandão perante o nosso Eça). [Diário Selvagem]

Se Pacheco escreveu fundamentalmente textos curtos, foi porque adaptou a escrita às suas condições de possibilidade – tal como Kafka, cuja profissão como jurista numa companhia de seguros que lhe consumia 80 por cento do seu tempo influenciou a opção pelos contos e pequenas novelas. A vida instável e, em determinadas fases, boémia, pouco ascética, terá sido uma das razões pelas quais privilegiou géneros fragmentários, como as pequenas memórias e a diarística. Mais do que resultado da concorrência no campo ou de uma tomada de posição estratégica, a escrita de Pacheco esteve dependente de condições sociais que iam muito além das questões meramente literárias. Assim, a sua obra como escritor, pelo menos a que está editada, não é muito extensa, quase caberia dentro de uma caixa de sapatos. É uma escrita fragmentária, composta de textos breves, que raras vezes ultrapassam meia dúzia de páginas ou que pertencem a géneros, por natureza, autobiográficos e fragmentários: a epistolografia, a diarística, a confissão instantânea. Logo, o seu tipo de escrita não é independente das disposições construídas socialmente.
O que é que conduz um indivíduo a escrever a sua autobiografia e a testemunhar o seu passado? O que é que pode impelir uma pessoa a escrever sobre si próprio, mesmo contra a sensação de ser pretensioso, arrogante, narcisista? O que é que se viveu para se sentir digno de contar a sua vida? Em que estado da sua experiência social considerou interessante contar-se a si próprio? A formação familiar ou escolar terão ajudado a desencadear um desejo imperioso de escrever sobre si próprio? Que condições individuais e colectivas autorizam uma pessoa a escrever a sua vida? E de que forma utilizou a literatura para exprimir as suas experiências?
No caso de Pacheco, houve uma conjugação de circunstâncias que nos permitem perceber a sua opção pela autobiografia. Em primeiro lugar, o exemplo colhido em casa dos pais, nomeadamente o livro com a história da família iniciado pelo tio Mário Pacheco e continuado pelo pai: «O livro foi feito, começado pelo meu tio […]. Toda a parte de investigação, certidões, é obra paciente, creio, e chata dele. Foi uma tineta. Mas não prejudicou ninguém. O meu Pai actualizou, conforme lhe convinha.» Um gosto que adquiriu em novo e que manteve intacto ao longo de toda a vida, como confessou no seu Diário Selvagem: «desde muito novo tive propensão para ler coisas de vidas, principalmente de escritores. Biografias, diários, confissões, memórias, relatos verídicos: uma barreira contra a fantasia, um apelo à realidade das coisas e dos seres».
Outra razão que o terá levado a privilegiar o género autobiográfico foi a consciência de que tinha uma vida digna de ser contada, a sensação de que o seu destino era excepcional e singular, quase único:

Se eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso, muito nosso e apenas isso, mas repito: se, em comparação com muita da gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo), esse meu destino, é singular, porque será? Interrogo(-me) e não sou capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada, neurótica? uma degenerescência familiar de que fiz bastante para me salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver como é, saber ouvir, ler muito e variado, e desconfiando sempre? [Droga, pp. 10-11]

A partir de certa altura, depois de perceber que não era capaz de escrever um romance, Pacheco descobriu que a sua experiência, ou o seu percurso de vida, tinha algo de excepcional e que lhe podia proporcionar, directamente, a matéria da sua escrita: «eu acho que se tivesse andado de avião, e feito viagens ao estrangeiro tinha uma dimensão do mundo muito mais rica do que a que tenho. Mas também eu fui lá abaixo, à cadeia, fui ao asilo, fui ao hospital, estive nos malucos, por causa do álcool, internado» [O Crocodilo, p. 65].
Sem dúvida, Pacheco olhava para a sua vida como um romance, pensava que caso conseguisse transpor para o papel, directamente, naturalmente, a sua experiência vital o resultado seria um romance ou algo aproximado, o qual deveria ser exemplar, para o melhor e para o pior:

Para fazer da minha vida um romance? ou uma série de textos insólitos que, por simples aglomeração, ergam uma vivência singular, sem veleidades de metáforas, comparações, esquisitices da burocracia literata rotineira? Creio que sim. E sublinhar em cada um o aspecto grotesco a que me reduziram, conduziram (até aqui, no Barro: vir meter-me na Tribo dos Cospe-Cospe para sobreviver à fome e ao catarro), transformaram. Quase aniquilaram. Ao contrário de quase todos os escribas, estou farto de levar porrada da Vida. Era tempo de virar isso a meu favor. Como?! escrevendo tal-qual. A verdade é que assusta e empolga as pessoas. Não assisti às coisas tremendas que o Malaparte descreve [no romance Kaputt, que Pacheco estava a ler nesta época]; mas assisti e meti-me noutras, caseiras e mesquinhas, mas fora do habitual.
É tempo de gozar um bocado comigo e de mim. Porque só tenho duas saídas: essa, da jocosidade, ou da amargura. Por este caminho, ninguém vem atrás de mim, não se cativa pela choradeira mas pelo humor. Partes gagas, como a do meu casamento no Limoeiro, a aventura no Mucifal, proezas nas Caldas, as negas a várias fodas com mulheres e, até, com rapazes (o Zézito, de Ansião), de quando ia quase matando o meu pai, os ratos filatélicos, a denúncia da quadrilha ao Óscar, os rapazes bons e a vida louca de Massamá, a Fátima e a Irene, o Rodinhas, é um carrossel de gente e de eventos de que poucos se podem orgulhar no Disparate. A vida com a Kalmeirona, as figuras literárias (AS VACAS, tipo Cesariny, Natália, no passado e no presente, eis uma galeria à portuguesa em que não receio confronto). A ideia havia de brotar aqui, na miséria suja da Tribo dos Cospe Cospe.
E isso ainda é o folclore, o anedótico. O principal é a força íntima, a minha força, que me levou a casar no Limoeiro como me trouxe agora ao Barro. A força e/ou a fraqueza. O que terá de ser levado a rir. Senão, é uma série infindável de «Tomas!» para os outros que me rodeiam, para a Sociedade. Vítima (e carrasco; como eu fui carrasco com a Irene, o Paulocas!) mas a rir e risível. No fundo dos fundos, uma MORALIDADE e a sua opção consciente ou irreprimível. [Diário 1982]
edição: tinta-da-china
título: Puta Que os Pariu!
autor: João Pedro George
n.º pág.: 624
isbn: 9789896711016
pvp: 23.90€

Hoje na Pó dos livros

(clique na imagem)

terça-feira, novembro 15

Humor inglês

Entro numa livraria e pergunto:

- Por favor, trabalha aqui?
- Não! Apenas estou sentado atrás do balcão.
- Ah! Desculpe, sabe indicar-me a quem me dirigir?
- Estava apenas a ser sarcástico, claro que trabalho aqui! mas vamos pôr isto ao contrário, imagine que eu agora pergunto: você é cliente? Inevitavelmente responder-me-á: Não, sou apenas um tipo que faz perguntas estúpidas.
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Jaime Bulhosa

segunda-feira, novembro 14

dos 7 aos 77



encontrei aqui

Se bem me lembro...



- Bom dia. – Diz uma senhora idosa e muito simpática –. Será que me pode ajudar?

- Com todo o gosto.

- Já estive em muitas livrarias e não consigo encontrar o livro que pretendo. Tem ideia onde o poderei encontrar? já estive em todo lado e, sinceramente, todos me dizem que não.

- E o livro é?

- Oh! Não lhe disse?! Estou para aqui a perder tempo e não digo o que pretendo. (risos.) Sabe porque é que isto acontece? Porque já tive tantas respostas negativas e bato sempre contra uma parede que começo a desconfiar de que o livro que eu quero não existe. (risos.)

- Isso é pouco provável, minha senhora, existem livros para tudo.

- Acha que sim? Quer dizer que estou com sorte e estou no sítio certo? Oh! Lá estou eu novamente na conversa e não lhe digo qual o livro que pretendo. (risos.)

- Era um passo na direcção certa. (sorrisos.)

- Claro! Tem toda a razão, peço desculpa.

- Vamos lá ver se eu tenho o livro que pretende e não a desiludo.

- Não me diga uma coisa dessas… já estou cansada de o procurar e se não houver nesta livraria desisto.

- Não faça isso. Diga-me lá, por favor, qual é o livro?

- Meu deus!

- O que foi minha senhora?

- Esqueci-me completamente do título do livro.

Começo a ficar desesperado, no entanto, tento ajudar.

- E o tema do livro, não se recorda?

Sorridente, a senhora, diz:

- Você é um maroto. Não estou assim tão esquecida.

- Com certeza que não. Qual é tema, então?

- Bem... (pausa)

- Sim...  

Enquanto aguardo, a senhora esfrega a testa com a mão, faz um esgar nervoso, sorri novamente e visivelmente atrapalhada diz, por fim, o que pretende:

- É um romance!

Jaime Bulhosa